Por José de Alencar (1870)
Recolhendo, Horácio acendia duas velas transparentes e colocava-as a um e outro lado da almofada de veludo escarlate, sobre uma mesinha de charão, embutida de madrepérolas. Tirava de um elegante cofre de platina a mimosa botina, e com respeitosa delicadeza deitava-a sobre a almofada, de modo que se visse perfeitamente a graciosa forma do pé que habitara aquele ninho de amor.
Então acendia o charuto, sentava-se numa cadeira de espreguiçar, defronte, porém distante, para que o fumo não se impregnasse na botina, e ficava em muda e arrebatada contemplação até alta noite.
Sobre aquela botina via elevar-se como sobre um pedestal, um vulto de estátua, mas vago, indistinto; e contudo esse esboço sem formas sedutoras, aquela sombra sem alma e sem calor, lhe parecia de uma beleza deslumbrante. Não era ela a mulher a que pertencia o mais formoso pé do mundo, o mimo, a obra-prima da natureza?
Recordava-se das mulheres mais bonitas que tinha visto, das mais lindas senhoras a quem amara com paixão, e sua memória as trazia todas, uma após outra, para as colocar ao lado daquela figura vaga e desvanecida, que planava sobre a almofada como sobre uma nuvem de ouro. Como elas fugiam abatidas e humilhadas diante de seu impetuoso desdém!
— Não são dignas, murmurava ele, nem de beijarem o chão pisado pela fada desta botina!
Eis qual tinha sido a vida de Horácio até o momento em que o vamos encontrar no mesmo lugar defronte da porta entreaberta do camarote. Laura percebeu-o afinal, e sorriu-lhe com ternura. A atenção do rei da moda era uma fineza, um ar de seu real agrado; cumpria-lhe agradecer.
Fitando com mais força o olhar na pupila da moça como para travar-lhe da vontade, Horácio abaixou lentamente esse olhar até a fímbria do vestido de chamalote com uma insistência significativa. Laura fez-se escarlate; e a porta do camarote, rapidamente fechada, a subtraiu às vistas ardentes do leão.
— É ela! exclamou o coração do mancebo afogado em júbilo. Não há dúvida. Para sentir esse pudor exagerado e incompreensível é preciso ter ali oculto um pé como aquele que eu sonhei. Um pé?... Não; um mimo, uma maravilha, um tesouro, um céu!... É o pudor da violeta, que se esconde na sombra; é o pudor da pérola, oculta na concha; é o pudor do diamante, sumido no seio da terra; é o pudor da estrela, imergindo-se no azul.
O leão desceu as escadas murmurando:
— Vê-lo e morrer.
Pouco depois terminou o espetáculo. Amélia com um ressaibo de melancolia na fronte, embuçou-se na peliça e desceu. Ela perdera de vista Horácio, e só o tornara a ver parado em frente à porta do camarote de Laura. Desamparada pelo encanto do gentil mancebo, sofrera todo o resto do espetáculo o desassossego que lhe incutia o olhar de Leopoldo. Por mais que voltasse o rosto, sentia a fosforescência estranha desse olhar repulsivo, que entretanto a prendia, mau grado seu. Leopoldo esperava no corredor da entrada a passagem da moça, quando avistou a seu lado Horácio. O leão sôfrego e impaciente volvia o olhar em várias direções; naturalmente procurava alguém, e receava que lhe escapasse.
— Adeus, Horácio.
— Boa noite, Leopoldo.
Amélia apareceu nesse momento.
— Conheces aquela moça, Horácio?
— Qual?... Espera!
Horácio tinha avistado Laura, que descia o lanço da escada oposta, e correra pressuroso, com os olhos fitos na fímbria de seda. Seu olhar tinha tal força que parecia um croque a levantar a orla do vestido. Debalde; nem a sombra do pé: o encorpado estofo arrastava pesadamente pelo chão.
Chegou a moça à porta, onde o carro a esperava. Horácio teve um vislumbre de esperança, porém nova decepção o esperava. Não viu mais do que uma nuvem de sedas ondular e sumir-se.
O leão fez um movimento de desespero.
— Senhor! por que em vez de homem não me fizeste estribo de um carro! Teria a felicidade de ser pisado por aquele pezinho.
CAPÍTULO VI
Seriam duas horas da tarde.
Durante a manhã tinha caído sobre a cidade uma forte neblina, que molhara as calçadas.
Leopoldo dirigia-se a casa pela Rua dos Ourives. Naturalmente vinha pensando na desconhecida que não vira desde a noite do teatro. Sua paixão era intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da própria seiva. Esperava com plena confiança de seu amor.
A pequena distância do canto da Rua do Ouvidor viu ele de repente a moça que passava na companhia de outras pessoas.
Amélia voltara o rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo. Ela estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.
Vendo-a sumir-se, encoberta pela esquina, o mancebo também se apressou para acompanhá-la; mas chegou tarde. A moça e as pessoas, que iam em sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante vitória que já conhecemos. Leopoldo apenas vira um pé, que na precipitação de subir, levantara demais a saia.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.