Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)
Carlos (recebendo) Eu quero restabelecer os fatos... protesto que...
Teodora Agora não; vamos sair: (a Corina) a tia Suzana já está prevenida para fazer companhia a senhora. (com voz ressentida) Silvia! Irás dizer a tia Suzana que já saímos. (a Carlos) Vem... (toma-lhe o braço)
Júlia Adeus, Corina, até logo (abraça-a e beija-a)
Carlos Isto não fica assim... eu explicarei os fatos, ainda que seja em outra poesia. (Vão-se os três: Silvia segue)
Cena 7ª
- Corina, em pé e meditando. - Silvia volta logo - Peregrino que com expressiva mímica e falando em segredo à porta, recomenda que demore o chamado de Suzana: Silvia ri e acode: Peregrino espera à porta.
Silvia Vou chamar a sr.ª d. Suzana..
Corina (sem olhar) Você. (vai-se Silvia que olha e ri para Peregrino)
Peregrino (depois de um momento) Ah! D. Corina...
Corina (voltando-se) Senhor Peregrino...
Peregrino Eu procurava meu pai...
Corina Creio que não está em casa.
Peregrino Perdoe se penetrei até aqui, estando a senhora só: minha madrasta saiu também com Júlia e Carlos...., porque não a levaram?...
Corina Porque sou demais: não sei outra razão.
Peregrino Pode haver outra: os tesouros mais preciosos guardam-se, escondem-se com avareza.
Corina É portanto uma desgraça ser tesouro precioso. Pereg. Deixa transpirar uma queixa bem fundada: o seu viver assim é triste, já o disse a meu pai; ele porém julga um dever não expô-la às seduções e aos laços de infames exploradores da inocência e da confiança cega das donzelas ricas.
Corina Reconheço a bondade e os cuidados do meu tutor; nem me lastimo... distraio-me tanto neste meu enclausuramento... nunca estou só... tenho o piano, o estojo do desenho... a lã e a seda com que bordo. Sou tão feliz... (vai tocar)
Pereg.
Não: a influência desses vis exploradores é fatal, porque é um perigo para a moça rica, e desanima o amor leal e honesto que teme ser confundido com as fingidas e interesseiras afeições: não pensa como eu?...
Corina Desculpe-me: ocupada com a música, fui incivil ao ponto de não ouvir o que me dizia. Não tocarei mais. (deixa o piano e vai sentar-se à mesa)
Peregr.
Eu maldizia àqueles que simulam amor, adorando só a riqueza, e maldigo pelo que sinto: maldigo porque me tenho condenado a fechar até hoje no coração o mais puro amor pelo receio de uma suspeita que ofenderia a delicadeza dos meus sentimentos.
Corina Ah! agora ouvi mas ainda arriscando-me a parecer-lhe néscia... confesso que não entendo. (desenha)
Pereg.
Quer que eu fale bem claro?... Eu amo e me contenho à força: a donzela que amo é rica e mil ambiciosos a desejam sem ao menos tê-la visto, a querem por esposa sem a conhecerem... e eu que a vejo todos os dias... que aprecio o valor da sua virtude... que me sinto cativo dos seus encantos... ver que me julgo capaz de faze-la feliz... ainda não ousei, e, apenas agora, deixo escapar a primeira e incompleta confissão do amor mais ardente e santo!
Corina Quem é que diz... ora... o desenho é como o piano... eu estava distraída... não ouvi: perdoe-me.
Pereg.
D. Corina... eu lho peço... esqueça o piano e o desenho... não me confunda com distrações que se me afiguram desprezos cruéis...
Corina (levantando-se) Oh, não!... Eu não desprezo pessoa alguma, ainda menos o filho do meu tutor; mas em verdade não sei o que me dizia...
Pereg.
Agora pois não toca, nem desenha: ouvir-me-á, eu a espero: estamos sós... o momento é oportuno... receba a declaração sincera do segredo mais terno...
Corina Espere: o senhor disse que o momento é oportuno, porque estamos sós; portanto se seu pai e sua madrasta estivessem presentes, não diria o que pretende...
Pereg.
Oh! É a confissão de um sentimento irresistível cheio de celeste fogo, que só à senhora devo revelar!
Corina É pena; mas seu pai me proibiu confidências desta natureza: decididamente só na presença dele e de sua madrasta é que poderei ouvi-lo.
Pereg.
Ah! D. Corina!... quer dizer que me autoriza...
Corina Não... autorizar não; eu não posso autorizar o que não compreendo... toquei piano e desenhei enquanto o sr. falava... e não entendi coisa alguma...
Pereg.
Mas depois não tocou, nem desenhou, e eu
falei com tanta clareza, que somente não rasguei o véu do respeito.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de Macedo. Uma pupila rica.