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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Adriano – Oh! Imensamente rico! Foi há quatro anos para a Califórnia, e hoje possui nada menos que dois mil contos... cinco milhões. (À parte) Eu arranjo esta fortuna toda com a maior facilidade... é uma riqueza, que não me custa nada.

Ernesto – E tu, sem dúvida, entreténs com ele a mais viva correspondência... Mostra-nos algumas de suas cartas.

Adriano – Nada... ele não me escreve há muito tempo; simples delicadeza de sua parte... não quer arruinar-me com os portes do correio.

Ernesto (Aos amigos) – Vejam que desculpa! (A Adriano) Pode ser que teu primo já tenha morrido.

Adriano – Qual! Se ele tivesse morrido já me tinha mandado participar...

Ernesto – Pois então bebamos à sua saúde!...

Adriano (Bebendo) – Sim... bebamos! Isto não pode fazer mal nenhum a meu primo.

Adriano – Sofrido tenho até hoje

As privações da pobreza; Mas em breve irei gozar Todo o luxo da riqueza.

Todos – Oh! Vem depressa,

Feliz herança!

Tu nos prometes

Grande folgança.

Todos – Viva! Viva!

Ernesto – Oh! Que soberbo futuro!...

Adriano (Enfraquecendo) – Sim... o futuro... é meu, não tem dúvida; eu sou muito amido do futuro... oh! Que belo primo!

Eduardo – A saúde das nossas namoradas!... viva!

Todos – Hip! Hip! Hip! Urrha!

Adriano – Viva... meu primo... oh! Sim... meu rico primo...

Adriano – Morre já, querido primo,

E deixai-me o teu dinheiro;

Sobe p’ra o céu direitinho,

Mas que eu seja o teu herdeiro

Todos – Oh! Vem depressa

Feliz herança!Tu nos prometesGrande folgança.

Eduardo (Mostrando Adriano) – Oh! Ei-lo adormecido!

Ernesto – Efeitos do champanhe! Pobre rapaz, não está habituado.

Adriano (Balbuciando) – Excelente... oh!... o que eu tenho... é... o que eu não tenho... ah! ah! como eles engoliram a história do primo da... Califórnia... ah!... ah!...

Ernesto – O que é que ele está dizendo?

Eduardo – Oh! Eis aqui como é a grande herança do nosso pobre Adriano!...

Adriano – Ah!... como é... doce... do... doce (Adormece)

Ernesto – Meus amigos, uma idéia!

Todos – Qual?...

Ernesto – Vós sabeis que eu tenho amigos na redação de todos os jornais; pois bem, graças à imprensa, vou dar em um mesmo dia vida e morte a esse primo fantástico imaginado por Adriano; eu quero realizá-lo a fim de o poder matar.

Todos – Excelente idéia!...

Ernesto – Amanhã Adriano contará com esta herança imaginária; essa riqueza lhe durará talvez um dia: nós nos divertiremos com a sua surpresa e com a sua alegria; ele pretendeu divertir-se à nossa custa; pois bem, seremos nós que nos divertiremos à custa dele!

Todos – Apoiado! Apoiado!

Ernesto – Ele está profundamente adormecido: venha uma pena e papel... ides admirar a beleza do meu estilo. (Escreve) “Uma carta da Califórnia, datada de 25 de outubro próximo passado, anuncia com certeza a morte de um brasileiro... “ O nome e sobrenome do fabuloso primo?...

Eduardo – Paulo Cláudio Jenipapo.

Ernesto (Escrevendo) – “De nome Paulo Cláudio Jenipapo, estabelecido na

Califórnia há quatro anos: morreu sem deixar filhos, ficando único herdeiro de sua fortuna, que sobe a cinco milhões, um primo – Adriano Jenipapo – jovem músico estabelecido no Rio de Janeiro”.

Todos – Muito bem! Muito bem!

Ernesto – Amanhã esta notícia aparecerá publicada nos três jornais diários da

Corte.

Todos – Bravo!

Ernesto – Ah! meu pobre Adriano!

Eduardo – Ei-lo que abre a boca!

Ernesto – ele sonha talvez com a sua pobreza; amanhã sonhará ainda, mas sonhará em completa vigília, então terá um verdadeiro sonho de ouro!

Eduardo – Mais um copo de vinho!

Ernesto – Sim, à saúde de Adriano, e da sua riqueza! (Enchem os copos)

Ernesto – Em pobreza adormecido

Há de rico amanhecer;

Mas no fim de poucas horas

Pobre outra vez há de ser.

Todos – Que viva o herdeiro

Dos cinco milhões,

Milhões que não valem

Nem cinco tostões!

Todos - Hip! Hip! Hip! – Urrha!...

FIM DO ATO PRIMEIRO

ATO IIO teatro representa a saleta baixa, irregular e pobre de uma mansarda; os traste e mobília da sala do primeiro ato estão em desordem. CENA IAdriano e Beatriz

(continua...)

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