Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Leonina — Perdi, sim, meu padrinho, porque a lição que vossa mercê nos deu, e depois a longa conversação que comigo teve, me convenceram de que uma fraqueza de meus pais me fez representar até hoje na sociedade um papel ridículo; porque eu ostentei um orgulho que não me assentava; pois agora eu vejo bem que não sou fidalga.
Anastácio — Ah! O juízo vai entrando nessa cabecinha de vento?...Mas por que andas hoje tão melancólica?...pensas que perdeste muito com a baixa da fidalguia?...
Leonina — Oh! meu tio, vossa mercê nunca leu no coração de uma moça. Escute: eu sei que muitas vezes o pergaminho de um nobre não pode disfarçar a torpeza de suas ações; sei que outras tantas, o cofre de um milionário é um abismo cheio de lágrimas derramadas por infelizes, mas a mulher deixa-se sempre deslumbra por esse ouropel das grandezas e ambiciona o cofre de ouro; porque, com o prestígio da nobreza suplantará as outras mulheres, e com a riqueza terá brilhantes, sedas, palácios, ostentação e luxo!...oh! nós outras somos as escravas da vaidade, e como todas eu desejava ser bem rica e bem nobre, para humilhar as minas rivais!
Anastácio — Muito bem, Leonina, essa confissão franca e sincera te absolve; ao menos não és hipócrita; continua, que estás falando perfeitamente.
Leonina — Quem mais posso dizer-lhe?...esses sonhos ambiciosos acabaram para mim, e de ora avante cumpre que eu abaixe a cabeça diante das outras senhoras, porque nas sociedades que freqüento, a menos nobre sou de certo eu.
Anastácio — Pois levanta a cabeça, menina! Porque tu és honesta e pura, e só as senhoras honestas é que são as mais nobres.
Leonina — Oh! meu padrinho! O que vossa mercê acaba de dizer é grande e generoso; infelizmente, porém, não são todos que pensam assim.
Anastácio — Aqueles que negam a primazia à virtude, são uns miseráveis. Já se foi o tempo em que um sandeu valia mais do que um sábio; um depravado mais do que o homem honesto, quando o homem sábio ou honesto era filho de um sapateiro, e o acaso dera ao depravado ou ao sandeu meia dúzia de avós, falsa ou realmente ilustres. Não temos senão uma nobreza, a nobreza da constituição, que é a do merecimento e das virtudes. Já não se reconhece privilégios, graças a Deus, e as portas das grandezas sociais estão abertas a todos os que sabem merecê-las: nobre é o estadista que se consagra ao serviço da pátria; nobre é o estadista que se consagra ao serviço da pátria; nobre é o diplomata que sustenta no gabinete a causa do país; nobre é o soldado que a defende no campo de batalha; nobre é o sábio, nobres são todos aqueles que ilustram e honram a nação, e nobre é, principalmente, a virtude que é a sublime benemérita aos olhos do Senhor!...
Leonina — Oh! e como há então pessoas que olham com desprezo para um artista?(Com viveza). O artista não pode também chegar a ser nobre, meu padrinho?...
Anastácio (Á parte) — Como ela vai escorregando para o pintor...(A Leonina) O verdadeiro artista já é nobre de si mesmo, Leonina; e a sua nobreza lhe vem de Deus, que acendeu em seu espírito a flama do gênio.
Leonina — Oh! meu padrinho? Por que não veio a mais tempo de Minas?...
Anastácio — Sim?...estás me fazendo supor que já te apaixonou por algum artista...
Leonina — Eu?...eu nunca me apaixonei por homem algum. (Rumor) Que é isso?...parece-me que senti o ruído que faz alguém, que se aproxima...
Anastácio (Indo aos bambus) — Qual! Havia de ser o vento. (A Henrique) Fica quieto, pintor desastrado!...(Volta) Continuemos: deixa-te de fingimentos comigo: tu não amas a teu primo, Leonina?...
Leonina — Por que não tratamos de outro assunto, meu padrinho?...
Anastácio — Porque é exatamente deste que eu quero tratar: dize, tu amas a Henrique?...
Leonina (Hesitando) — Não, senhor, não.
Anastácio — Mentirosa! E aquele namoro do Clube Fluminense?...
Leonina — Foi...foi um namoro, meu padrinho.
Anastácio — Namoro sem amor? Não compreendo.
Leonina — Ora! Todos o compreendem perfeitamente.
Anastácio — Menos minha sobrinha...creio eu.
Leonina — Mas por quê?...diga
Anastácio — Porque é principalmente a pureza do coração que torna a donzela quase um anjo na terra.
Leonina — Tem razão; pois bem...eu lhe digo tudo: eu amei...talvez ame ainda
Henrique...(Rumor) Que maldito vento!...(Anastácio vai ao fundo).
Anastácio (A Henrique) — Não ficarás quieto, plebeu de uma
figa!...(A Leonina) Deixa o vento e vamos ao caso: então, amas Henrique...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.