Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
JOANA – Brites!... e Inês? (Abraçam-se, chorando).
FIM DO SEGUNDO ATO
ATO TERCEIRO
Quartel de Moura primitivo: ao fundo o quartel; à direita, do fundo, avança dois planos a sala do estado maior, deitando uma ou duas janelas para a CENA, e uma porta à entrada olhando para a esquerda; seguem-se, no fundo, portas da arrecadação, de casernas, de quartos etc., em toda a frente espaço livre e sem gradil; à direita e defronte do estado maior, um portão.
CENA PRIMEIRA
Capitão Pina, Alferes Paula; um soldado sentinela à porta do estado maior; soldados às portas, entrando ou saindo. Pina e Paula passeiam na frente.
PAULA – Ouviu a leitura dos artigos do conde de Lipe, fazendo momos e ao jurar bandeira pôs-se a rir.
PINA – A ordem foi terminante: assentar praça logo e logo e ainda que jurasse ser mulher.
PAULA – Mas ao contrário jura que é homem, e confesso que no ato da prisão iludiu-me perfeitamente: só no caminho comecei a desconfiar.
PINA – E quando se fardou?
PAULA – Sem a menor cerimônia mandou sair o sargento Pestana da arrecadação, fechou-nos a porta na cara, e daí a dez minutos apareceu que era um brinco: o fardamento que serviu ao cadetinho Melindre ajustou-lhe ao pintar.
PINA – O velho Peres é negociante respeitado e rico e se este soldadinho não é homem.
PAULA – Não é; se me dessem licença, casava-me com ele fardado como está; é mulher, e linda!
PINA – Então anda nisto segredo de família, e por ora é indispensável todo o cuidado. (Toque de cornetas) Eis aí! instrução de recrutas; começam as dificuldades!...
PAULA – Descanse, capitão: passei ao sargento Pestana suas recomendações secretas. O soldadinho está separado dos outros recrutas.
PINA – E que os soldados não suspeitem...
PAULA – O Pestana responde por tudo...
PINA – Alferes... duas horas de folga... veja se encontra o Peres... assim como por acaso...
PAULA – Entendo (Faz continência e sai).
PINA – Não devo testemunhar falhas quase certas de disciplina (Indo-se) Logo hoje me caberia ficar de estado maior!... (Entra no estado maior).
Cena II
Inês, vestida de soldado, e o sargento Pestana saem pelo portão. Pestana adiante.
PESTANA – Assim! um... dois... um... dois... agora direita volver! (Inês para) eu lhe ensino. Dois tempos: à voz direita leva-se o côncavo do pé direito a tocar no do esquerdo; á voz volver levantam-se as pontas dos pés e...
INÊS —Já sei... já sei... já sei...
PESTANA – Pois lá vai!... direita... (Inês executa) volver!... (Inês levanta as pontas dos pés e assim fica) Não é isso; última forma.
INÊS – Pois o senhor não disse que à voz – volver eu levantasse as pontas dos pés?...
PESTANA – Mas não girou sobre os calcanhares...
INÊS – Ora! eu sei volver-me para a direita e para a esquerda sem essas lições de dança: olhe (Volta-se para um e outro lado).
PESTANA (À parte) – Pior vai o caso! (Alto) Recruta, à voz de sentido as mãos passam rapidamente ao lado das coxas e o calcanhar direito vai juntar-se ao esquerdo. Veja: é assim... (Executa: Inês ri) não ria; atenda à voz: – Sentido... (Inês põe as mãos na cintura, dobra um pouco o corpo e olha atenta) Mãos nas coxas! calcanhares juntos!
INÊS – Qual!... a ocupar-me em pôr as mãos nas coxas, e em conservar os calcanhares juntos eu não posso estar com o sentido em coisa nenhuma.
PESTANA (À parte) – Antes de três dias responde a conselho de guerra (Alto) Vejo que é preciso recomeçar a instrução das voltas a pé firme. Atenda...
INÊS – Senhor sargento: não perca o seu tempo, eu, conservando os pés firmes, nunca darei volta alguma...
PESTANA – Há de aprender. Atenda à voz: firme!...
INÊS (Afastando-se e à parte) – Estou quase arrependida!... tenho vergonha e medo!... não posso mais fingir...
PESTANA (À parte) – Não escapa ao conselho de guerra, e acaba sendo arcabusado. (A Inês.) Recruta!...
INÊS – Sargento, deixe de importunar-me; digo-lhe que por hoje está acabada a instrução: não estou para isto.
PESTANA (À parte) – Ai, disciplina militar!... mas vou salvá-la, (Alto) Atenda à voz: – Descansar!... retira-se diretamente o pé direito, caindo o peso do corpo...
INÊS – Que asneira! isso em vez de dar descanso, aumenta a fadiga, Sargento, o verdadeiro é assim: (Arremedando) Descansar!... (Senta-se no chão) eis como se descansa.
PESTANA (À parte) – Depois de envelhecer sem nódea no serviço ver-me obrigado a fechar os olhos a tanta insubordinação.
INÊS (À parte) – Se eu tivesse a certeza de que Benjamim já estava salvo, declarava que sou mulher!... sofro muito... aqui tudo me aterra!...
PESTANA – Em pé!... ainda tenho que ensinar-lhe.
INÊS – Sargento, a sua instrução de recrutas contém uma multidão de tolices.
PESTANA – Não sabe o que diz: tem de preparar-se para entrar
amanhã no manejo da arma, e depois de amanhã no exercício de fogo!...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.