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#Sermões#Retórica

Sermão da Rainha Santa Isabel

Por Padre Antônio Vieira (1674)

28. Por fim dos poderes de Isabel, quero acabar com aquele poder que tudo acaba, e que pode mais que os que tudo podem, a morte. A morte pode mais que todas as rainhas e todos os reis, mas também este poder todo-poderoso foi sujeito à nossa rainha. A morte matou a Isabel, mas Isabel pôde mais, porque matou a morte. E como a matou? Não podendo a morte desfazer o corpo em que vivia aquela alma, o qual há trezentos anos se conserva incorrupto. Ameaçava Cristo pelo profeta Oséias a morte, e dizia-lhe: Ero mors tua, o mors (Os. 13,14): Deixa-te estar morte, que eu te matarei, eu serei a tua morte.

– Esta era a profecia, mas o sucesso parece que foi o contrário, porque a morte matou a Cristo. Pois se Cristo morreu, e a morte o matou, como diz o mesmo Cristo que havia de ser morte da morte? Assim foi, em dois sentidos. Foi morte da morte em nós, porque matou a morte da alma, que é o pecado; e foi morte da morte em si, porque matou a morte do corpo, não podendo a morte corromper nem desfazer o corpo morto de Cristo: Quaniam non dabis sanctum tuum videre corruptionem.31 Quando a morte mata e fica viva depois de matar o homem, desfaz-lhe o corpo; porém quando a morte morre matando, quando a morte mata, e fica morta, não pode desfazer o corpo do mesmo a quem matou, e assim não pode desfazer o de Cristo, mais poderoso que ela. Tam potentem adversarium nostrum, dum occideres, occidiso, – disse S. Jerônimo, com elegância de palavras que não cabe nas nossas. E isto que se viu no corpo de Cristo em três dias, é o mesmo que está vendo o mundo no corpo de Isabel há trezentos anos. Mas donde lhe veio a Isabel a soberania deste privilégio? Não da coroa, senão da santidade; não por rainha, mas por santa: Non dabis sanctum tomo videre corruptionem.

VII

Paralelo entre duas rainhas. Que aprendam os reis com a santa a negociar o reino do céu.

29. Esta imagem, senhores, de Isabel morta, mas com dotes de imortalidade, é a que eu hoje desejo levemos todos retratados na alma. E para que fique nela mais altamente impressa, ponhamos à vista deste retrato o retrato de outra Isabel, também de Portugal, também coroada, e também morta. Quando S. Francisco de Borja abriu a arca em que ia a depositar o corpo da nossa imperatriz Dona Isabel, mulher de Carlos Quinto, vendo a corrupção daquele cadáver e daquele rosto, que pouco antes era um milagre da natureza, ficou tão penetrado e tão atônito daquela vista, que ela bastou para o fazer santo. Se um só destes retratos obrou tais efeitos em um juízo racional e cristão, que farão ambos os retratos juntos, e um defronte do outro? Acolá Isabel, aqui Isabel; acolá uma coroa, aqui outra coroa; acolá um corpo morto e todo corrupção, aqui outro corpo morto, mas incorruptível e como imortal. Oh! que mudança! Oh! que diferença! Oh! que desengano! Assim se morre, senhores, e assim se pode morrer.

30. Com razão escreveu Roma sobre aquela imagem e retrato de Isabel: Et nunc reges intelligite; erudimini qui judicatis terram.32 Até agora parece que tinham alguma desculpa os monarcas da terra em não entender a diferença que há do aparente ao verdadeiro, do real ou imperial, ao santo, de uma coroa a outra coroa, e de reinar a reinar. Porém agora: et nunc, à vista de um prodígio e testemunho do céu tão manifesto e tão constante, à vista do respeito que guardou a morte, ou do poder que não teve sobre os despojos mortais e já mortos de Isabel, e muito mais, se a esta vista ajuntamos o paralelo tão notável de uma e outra majestade, ambas do mesmo nome, ambas do mesmo sangue, e ambas da mesma dignidade soberana e suprema, que rei haverá que não acabe de entender o que tão mal se entende, que príncipe que não queira aprender o que tão pouco se estuda? Intelligite, et erudimini. Não digo – pois nem Deus o manda – que as cabeças, ou testas coroadas façam o que fez Carlos, convencido de uma que só parte deste exemplo, nem que renunciem e se despojem, como ele se despojou, das coroas; o que só digo, e diz Deus a todos os reis, é que aprendam a não as perder, e se perder, mas a negociar com elas, e que, com o exemplo canonizado de Isabel Rainha e Santa, entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis, e que então serão maiores reis, quando forem santos. Não consiste a negociação do reinar em acrescentar o círculo às coroas da terra, que maiores, ou menores, todas acabam, mas em granjear, e assegurar, e amplificar com elas o que há de durar para sempre. Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do reino do céu, agora maior; mais poderosa, e mais verdadeira rainha. Assim está reinando, e reinará para sempre; assim goza, e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação: na terra, enquanto durar o mundo; sobre os altares, e no céu, por toda a eternidade, em sublime trono de glória.

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