Por Padre Antônio Vieira (1647)
E se vos parece coisa dificultosa que naquela folha de papel, como se fora um mapa do mundo, se ajuntem lugares tão distantes e terras tão remotas, como são Roma, Jerusalém e Lisboa, e que para se conseguirem tantos tesouros de graças se contente Deus e o seu Vigário com que vos ponhais de joelhos numa igreja, respondei-me a uma pergunta. Quem é mais liberal: Deus em dar, ou o demônio em prometer? Não há dúvida que Deus em dar. Lembrai-vos agora do que fez o demônio e do que prometeu e do que pediu a Cristo na tentação do monte. O que fez foi trazer ali todo o mundo; o que prometeu foi a glória de todos os reinos; o que pediu foi somente que se pusesse Cristo de joelhos diante dele. Pois se o demônio trouxe todos os reinos do mundo a um monte, porque não trará Deus, por modo mais fácil, Jerusalém, Roma e as outras cidades santas à vossa? E se o demônio prometeu todas as glórias daqueles reinos, porque não prometerá Deus todas as graças daqueles lugares? E se o demônio se contenta, e não quer mais, nem põe outra condição, senão que se lhe ajoelhem, porque se não contentará Deus com vos ver de joelhos diante de si, contrito, arrependido e arando? Finalmente se o demônio fez tudo isto (como diz o evangelista) em um momento: In momento (Lc. 4,5), porque o não fará Deus em um logo que seja logo: Et continuo? Mas já é tempo de concluirmos. Vão juntas as duas últimas palavras.
§ VIII
Exivit sanguis et aqua: Por que do lado de Cristo morto saiu sangue e água? O Mar Vermelho e o Jordão, figuras do martírio e do batismo. Vantagens da Bula sobre o martírio e o batismo. A indulgência plenária: batismo com repetição e martírio sem tormento.
Exivit sanguis et aqua. Jerônimo, que por testemunho da Igreja, na interpretação das Sagradas Escrituras é o Máximo de todos os doutores, declarando o mistério porque do lado de Cristo morto saiu sangue e água, disse com singular propriedade, que foi para significar, no sangue, o martírio, e na água, o batismo: Latus Christi percutitur lancea, et baptismi atque martyrii pariter sacramenta funduntur.17 E por que razão mais o martírio e o batismo que algum dos outros sacramentos? A razão deste pensamento não a deu S. Jerônimo, mas posto que seja altíssima, não é dificultosa de entender. Entre todos os sacramentos, só o batismo e o martírio (que também é batismo) de tal modo purificam a alma e a absolvem de toda a culpa e pena, que no mesmo ponto ao mártir, por meio do sangue próprio, e ao batizado, por meio da água batismal, se lhes abrem as portas do céu, e se lhes franqueia a vista de Deus. Esse foi o mistério com que ao soldado, que abriu o lado (tanto que dele saiu o sangue e água) logo, sendo cego, se lhe abriram os olhos, e viu ao mesmo Cristo, que não podia ver. E como o fim da encarnação do Verbo foi destruir o pecado, reparar o estado da inocência, e abrir e restituir ao homem o Paraíso perdido, por isso o último ato da vida e morte de Cristo, e a última cláusula com que cerrou a obra da Redenção, foi tirar do sacrário de seu próprio peito aquelas duas chaves douradas do céu, e dar-nos as duas prendas mais seguras de sua graça e glória, que são, no sangue, a do martírio, e, na água, a do batismo: Baptismi, atque martyrii poriter sacramenta funduntur. Quando os filhos de Israel passaram do Egito à Terra de
Promissão, passaram pelo Mar Vermelho e pelo Rio Jordão, mas por um e outro a pé enxuto. E que Egito, que Terra de Promissão, que filhos de Israel, que Mar Vermelho, que Rio Jordão foi este? O Egito é o mundo, a Terra de Promissão é a glória, os filhos de Israel são os fiéis, o Mar Vermelho é o martírio, o Rio Jordão é o batismo, e passaram por um e outra milagrosamente a pé enxuto, porque só pelo Mar Vermelho do martírio, e só pelo Rio Jordão do batismo se pode passar à glória a pé enxuto, isto é, sem tocar as penas do purgatório. Mas com isto ser assim, debaixo das mesmas figurações de martírio e Batismo, acho eu que ainda nos deu mais o lado de Cristo, e foi mais liberal conosco nas graças da Santa Cruzada. Comparado o martírio com o Batismo, não tem conhecida vantagem: ambos se excedem um ao outro, e ambos são excedidos. O batismo, como é sacramento do princípio da vida, deixa-nos capazes de merecer, mas também capazes de pecar. O martírio, como se consuma com a morte e acaba a vida, deixa-nos incapazes de pecar, mas também incapazes de merecer. E nesta vantagem recíproca com que o martírio e o batismo se excedem e são excedidos, só poderá resolver qual é maior graça quem primeiro averiguar se é melhor o merecimento com perigo, ou a segurança sem merecimento, tão iguais ou problemáticas são as prerrogativas do batismo e do martírio comparados entre si. Mas comparados com as graças da Santa Cruzada, não há dúvida que a indulgência e indulgências plenárias, que tão facilmente, e por tantos modos se nos concedem nela, ainda têm circunstâncias de vantagem, com que não só igualam, mas excedem ao mesmo batismo e ao mesmo martírio. Igualam o batismo e o martírio, porque se o batismo e o martírio purificam e livram a alma de toda a culpa e pena, o mesmo faz a indulgência plenária verdadeiramente ganhada. E excedem o mesmo batismo e o mesmo martírio, porque a indulgência plenária é como o martírio, mas como martírio sem tormento, e é como o batismo, mas como batismo com repetição. Ora vede.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.