Por Padre Antônio Vieira (1652)
Ora, senhores, já que estamos na casa dos milagres, e no dia em que a Senhora de Penha de França deve estar mais liberal que nunca de seus favores e misericórdias, o que importa, e o que Deus e a mesma Senhora quer, é que nenhum de nós hoje se vá desta igreja sem o seu milagre. Nenhum de nós há tão perfeitamente são que não tenha alguma enfermidade, e muitas de que sarar. Quantos estão hoje nesta igreja mancos e aleijados? Quantos cegos, quantos surdos, quantos entrevados, e o pior de tudo, quantos mortos? Quereis saber quem são os mancos? Ouvi a Elias: Usquequo claudicatis in duas partes (3 Rs. 18,21)? Até quando, povo errado, hás de manquejar para duas partes, – adorando juntamente a Deus e mais a Baal. Quantos há debaixo do nome de cristãos, que dobram um joelho a Deus e outro ao ídolo? Perguntai-o a vossas torpes adorações. Os que fazem isto são os mancos. Quereis saber quais são os cegos? Não são aqueles que não vêem: são aqueles que vendo, e tendo os olhos abertos, obram como se não viram: Excaeca cor populi hujus, diz Isaías, ut videntes non videant.16 Vemos que todo este mundo é vaidade, que a vida é um sonho, que tudo passa, que tudo acaba, e que nós havemos de acabar primeiro que tudo, e vivemos como se fôramos imortais ou não houvera eternidade. Quereis saber quem são os surdos? São aqueles de quem disse Davi: Aures habent, et non audient: Terão ouvidos, e não ouvirão (SI. 113, 6). Não ouvir por não ter ouvidos, não é grande miséria; mas ter ouvidos para não ouvir, é a maior enfermidade de todas. Nenhuma coisa me desconsola e está desconsolando tanto, como ver-me ouvir. O que vai ao entendimento, ouvi-lo com grande atenção e satisfação, e com maior aplauso do que merece; o que vai à vontade, e mais importa, ou não lhe dais ouvidos, ou vos não soa bem neles. Quanto temo que é evidente sinal da reprovação! Propterea vos non auditis, quia ex Deo non estis.17 Estes são os surdos. Quereis finalmente saber quem são os mortos? São aqueles de quem disse S. João: Nomen habes, quod vivus, et mortuus es;18 e aqueles de quem disse Cristo: Sinite mortuos sepelire mortuos suos.19 Os mortos são todos aqueles que estão em pecado mortal. Haverá algum morto, ou alguma morta nesta igreja? Ainda mal, porque tantos e tantas. Vede quanto pior morte é o pecado que a mesma morte. Os homens, temos três vidas: vida corporal, vida espiritual, vida eterna. A morte tira somente a vida corporal; o pecado tira a vida eterna e também tira a corporal, porque do pecado nasceu a morte: Per peccatum, mors (Rom. 5,12). Todas as mortes, quantas há, quantas houve e quantas há de haver, foram causadas de um só pecado de Adão, e não bastando todas para o pagar, foi necessário que o mesmo Deus morresse para satisfazer por ele. A morte mata o corpo, que é mortal; o pecado mata a alma, que é imortal, e morte que mata o imortal, vede que morte será! Os estragos que faz a morte no corpo, consome-os em poucos dias a terra; os estragos que faz o pecado na alma, não basta uma eternidade para os consumir no fogo. E sendo sobre todo o excesso de comparação tanto mais para temer a morte da alma que a morte do corpo, e tendo mais para amar e para estimar a vida espiritual e eterna, que a vida temporal, em que fé, e em que juízo cabe, que pela vida e saúde do corpo se façam tão extraordinários extremos, e que da vida e saúde da alma se faça tão pouco caso?
Verdadeiramente, senhores, que quando considero no que aqui estamos vendo, não há coisa para mim no mundo tão temerosa, como o mesmo concurso e devoção desta casa, e ainda os mesmos milagres dela. Oh! se ouvíramos os brados que nos estão dando à consciência estas paredes! Queixam-se de nós com Deus, e queixam-se de nós conosco; e cada voto, cada milagre dos que aqui se vêem pendurados, é um brado, é um pregão do céu contra o nosso descuido. É possível (estão bradando estas paredes) é possível que faz tantos milagres Deus por nos dar a saúde e vida temporal, e que os homens não queiram fazer o que Deus lhes manda, sendo tão fácil, para alcançar a saúde espiritual e a vida eterna? É possível que esteja Deus empenhando toda a sua onipotência em vos dar a vida do corpo, e vós que estejais empregando todas as vossas potências em perder a vida da alma? Dizei-me em que empregais a vossa memória? Em que empregais o vosso entendimento? Em que empregais a vossa vontade, e todos os vossos sentidos, senão em coisas que vos apartam da salvação? É possível (tornam a bradar contra nós estas paredes, e a argumentar-nos a nós conosco mesmos) é possível que havemos de fazer tanto pela saúde e pela vida temporal, e que pela saúde da alma e pela vida eterna não queremos fazer coisa alguma? Se adoeceis, se estais em perigo, tanto acudir àqueles altares, tantos votos, tantas missas, tantas romarias, tantas novenas, tantas promessas, tantas ofertas: gaste-se o que se gastar, perca-se o que se perder, empenhe-se o que se empenhar; e pela saúde da alma, pela vida eterna, como se tal coisa não houvera, nem se crerá? Vede o que diz Santo Agostinho: Si tantum, ut aliquanto plus vivatur; quanto magis, ut sempre vivatur? Se tanto se faz para viver um pouco mais, quanto mais se deve fazer para viver sempre? – Pois desenganai-vos, que por mais que não façais caso da outra vida, ela há de durar eternamente, e por mais que façais tanto caso desta vida, ela há de acabar e em mui poucos dias. Uma vez escapareis da morte, e pendurareis a mortalha em Penha de França; mas alfim, há de vir dia em que a morte vos não há de perdoar, e em que vós não pendurareis a mortalha, mas ela vos leve à sepultura. Lázaro ressuscitou uma vez, valeu-lhe Maria, mas depois morreu alfim como os demais.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.