Por Padre Antônio Vieira (1655)
Quibus auxiliis? E com que meios se fazem e se conseguem todas estas coisas que temos dito? Com um papel e com muitos papéis: com certidões, com informações, com decretos, com consultas, com despachos, com portarias, com provisões. Não há coisa mais escrupulosa no mundo que papel e pena. Três dedos com uma pena na mão é o oficio mais arriscado que tem o governo humano. Aquela escritura fatal que apareceu a el-rei Baltasar na parede, diz o texto que a formaram uns dedos como de mão de homem: Apparuerunt digiti, quasi manus hominis (Dan. 5,5). – E estes dedos, quem os movia? Dizem todos os intérpretes, com S. Jerônimo, que os movia um anjo. De maneira que quem escrevia era um anjo, e não tinha de homem mais que três dedos. Tão puro como isto há de ser quem escreve. Três dedos com uma pena podem ter muita mão, por isso não há de ser mais que dedos. Com estes dedos não há de haver mão, não há de haver braço, não há de haver ouvidos, não há de haver boca, não há de haver olhos, não há de haver coração, não há de haver homem: Quasi manus hominis. – Não há de haver mão para a dádiva, nem braço para o poder, nem ouvidos para a lisonja, nem olhos para o respeito, nem boca para a promessa, nem coração para o afeto, nem finalmente há de haver homem, porque não há de haver carne nem sangue. A razão disto é porque, se os dedos não forem muito seguros, com qualquer jeito da pena podem fazer grandes danos.
Quis Faraó
destruir e acabar os filhos de Israel no Egito, e que meio tomou para isto?
Mandou chamar as parteiras egipcianas, e encomendou-lhes que quando assistissem
o parto das hebréias, se fosse homem o que nascesse, que lhe torcessem o
pescoço e o matassem, sem que ninguém o entendesse. Eis aqui quão ocasionado
oficio é o daqueles em cujas mãos nascem os negócios. O parto dos negócios são
as resoluções, e aqueles em cujas mãos nascem estes partos, ou seja escrevendo
ao tribunal, ou seja escrevendo ao príncipe, são os ministros da pena. E é tal
o poder, a ocasião e a sutileza deste ofício, que com um jeito de mão e com um
torcer de pena podem dar vida e tirar vida. Com um jeito podemos dar com que
vivais, e com outro jeito podemos tirar o com que viveis. Vede se é necessário
que tenham muito escrupulosas consciências estas egipcianas quando tanto
depende delas a buena dicha dos homens, e não pelas riscas da vossa mão, senão
pelos riscos das suas. Si dormiatis inter medios cleros (hoc est inter medias
sortes) pennae columbae deargentatae (SI. 67,14): Se estais duvidoso da vossa
sorte, penas prateadas, diz Davi. O sentido deste texto ainda se não sabe ao
certo, mas tomado pelo que soa, terrível coisa é que a boa ou má sorte de uns
dependa das penas de outros! E muito mais terrível ainda se essas penas, por
algum reflexo, se puderem pratear ou dourar: Pennae columbae deargentate, et
posteriora dorsi ejus in pallore auri.17 Estas penas são as que escrevem as
sortes; estas as que as tiram e as que as dão, e talvez a boa aos maus e a má
aos bons. Quantos delitos se enfeitam com uma penada! Quantos merecimentos se
apagam com uma risca! Quantas famas se escurecem com um borrão! Para que vejam
os que escrevem de quantos danos podem ser causa se a mão não for muito certa,
se a pena não for muito aparada, se a tinta não for muito fina, se a regra não
for muito direita, se o papel não for muito limpo!
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.