Por Padre Antônio Vieira (1669)
E se não tendes razão para vos queixar dos ministros, muito menos a tem a vossa temeridade para subirem talvez as queixas até o sagrado, onde se decretam as resoluções. E por quê? Porque ainda que os reis são homens, Deus é o que tem na sua mão os corações dos reis. Cor regis in manu Domini; quocumque voluerit inclinabit illud (Prov. 21,1): O coração do rei, diz Salomão, está na mão de Deus, e a mão de Deus é a que o move e inclina a uma ou outra parte, segundo a disposição de sua providência. Como o coração do rei está na mão de Deus, se Deus abre e alarga a mão, alarga-se também o coração do rei, e faz-vos mercê com grande liberalidade:: e se Deus aperta e estreita a mão, estreita-se do mesmo modo o coração do rei, e, ou vos dá muito menos, ou nada do que pedíeis.
De maneira que ainda que o rei é o senhor que dá ou não dá, tem sobre si outro senhor maior que é o que lhe alarga ou estreita o coração, para que dê ou não dê. Rei era Ciro e rei era Faraó: Ciro dominava os hebreus no cativeiro da Babilônia, e Faraó dominava os mesmos hebreus no cativeiro do Egito; mas a cousa superior de serem tão diferentemente tratados, não foi Ciro, nem Faraó, senão Deus. Como Deus tinha na mão o coração daqueles reis, alargou a mão ao coração de Ciro, e deu Ciro liberdade aos hebreus e estreitou a mão ao coração de Faraó, e não só os não libertou Faraó, antes lhes apertou mais o cativeiro. Adverti porém para consolação vossa, que este mesmo aperto e esta mesma estreiteza e dureza do coração de Faraó, foi a última disposição que Deus traçava para levar os hebreus, como levou, à Terra de Promissão. Se o coração do rei, tão largo, e tão liberal com outros, é para convosco estreito e ainda duro, alargai vós o vosso coração, e consolai-vos, e entendei que por esse meio vos quer Deus levar à Terra de Promissão do céu, para que vos tem predestinado. Pode haver maior consolação que esta? Não pode.
Agora acabaremos de entender a providência que está escondida em uma desigualdade que cada dia experimentamos e não sei se advertimos bem nela. Requer um pretendente, solicita, negoceia, insta, e talvez peita e suborna, e sai despachado. O outro seu competidor que não tem tanta valia, nem tanto do que vale, encomenda o seu negócio a Deus, mete a sua petição na mão de Santo Antônio, manda dizer missas a Nossa Senhora do Bom Despacho, e sai escusado. Pois este é o fruto de negociar com Deus? Estes são os poderes da oração? Esta a valia e a intercessão dos santos? Sim: esta é. Porque eles intercederam por vós, por isto não saístes despachado. Um santo que pregou neste mesmo púlpito nos há de dar a prova. Havia na Índia um fidalgo mui devoto de S. Francisco Xavier. Tinha as suas pretensões com o Senhor Rei D.
João o III. Pediu uma carta de favor ao santo para seu
companheiro, Padre Mestre Simão, que era mestre do príncipe, e muito bem visto
de el-rei. Escreveu S. Francisco Xavier, e dizia assim o capítulo da carta. Dom
fulano é muito amigo da Companhia; tem requerimentos com S. Alteza. Peço a
Vossa Reverência, pelas obrigações que devemos a este fidalgo, que procure
desviar os seus despachos quanto for possível, porque todo o que vem despachado
para a Índia, vai bem despachado para o inferno. Eis aqui as intercessões dos
santos. Sabeis por que saiu o outro despachado e vós não? Porque ele teve a
valia dos homens, e vós a intercessão dos santos, Esperáveis que vos
despachassem bem para o inferno, quanto tínheis encomendado o vosso
requerimento à Senhora do Bom Despacho? Dai graças a Deus e à sua Mãe, e ouvi
tudo o que tenho dito, e tudo o que se pode dizer nesta matéria, em um texto
estupendo de S. Paulo.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.