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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Por que somente na instituição do sacramento da Eucaristia Jesus usou, e por duas vezes, o advérbio: verdadeiramente. O Mistério da Fé por antonomásia torna-se para o autor o mistério da razão. Os sete inimigos dessa verdade: o judeu, o gentio, o herege, o filósofo, o político, o devoto e o demônio.

Duas palavras de mais, ou uma duas vezes repetida, achava eu com fácil reparo na cláusula que propus do Evangelho: Vere cibus, vere potus (Jo. 6,56). Todos os mistérios da fé, todos os sacramentos da Igreja são verdadeiros mistérios e verdadeiros sacramentos; contudo, se atentamente lermos todos os Evangelhos, se atentamente advertirmos todas as palavras de Cristo, acharemos que em nenhum outro mistério, em nenhum outro sacramento, senão no da Eucaristia, ratificou o Senhor aquela palavra Vere: verdadeiramente. Instituiu Cristo o sacramento da Penitência, e disse: Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis: A quem perdoardes os pecados, serão perdoados (Jo. 20,23). E não disse: vere, verdadeiramente perdoados. Instituiu o sacramento do Batismo, e disse: Qui crediderit et baptizatus fuerit, salvus erit: Quem crer e for batizado será salvo (Mc. 16, 15). Mas não disse: vere, verdadeiramente salvo. Pois se nos outros mistérios, se nos outros sacramentos, não expressou o soberano Senhor, nem ratificou a verdade de seus efeitos, no sacramento de seu corpo e sangue, por que confirma com tão particular expressão? Por que a ratifica uma e outra vez: Vere est cibus, vere est potus? Nas maiores alturas sempre são mais ocasionados os precipícios, e como o mistério da Eucaristia é o mais alto de todos os mistérios, como o sacramento do corpo e sangue de Cristo é o mais levantado de todos os sacramentos, previu o Senhor que havia de achar nele a fraqueza, e descobrir a malícia maiores ocasiões de duvidar. Haviam-no de duvidar os sentidos, e haviam-no de duvidar as potências; havia-o de duvidar a ciência, e havia-o de duvidar a ignorância; havia-o de duvidar o escrúpulo, e havia-o de duvidar a curiosidade, e onde estava mais ocasionada a dúvida, era bem que ficasse mais expressa e mais ratificada a verdade. Por isso ratificou a verdade de seu corpo debaixo das espécies da hóstia: Caro mea vere est cibus; por isso ratificou a verdade de seu sangue debaixo das espécies do cálix: Et sanguis meus vere est potus.

Suposta esta inteligência, que não é menos que do Concílio Tridentino, e suposta a ocasião desta solenidade, instituída para desagravar a verdade deste soberano mistério, vendo-me eu hoje neste verdadeiramente grande teatro da fé, determino sustentar contra todos os inimigos dela a verdade infalível daquele vere: Vere est cibus, vere est potus. Estas duas conclusões de Cristo havemos de defender hoje com sua graça. E porque os princípios da fé contra aqueles que a negam, ou não valem, ou não querem que valham, ainda que infalíveis, pondo de parte o escudo da mesma fé, e saindo a campo em tudo com armas iguais, argumentarei somente hoje com as da razão. O mistério da Eucaristia chama-se Mistério da Fé por antonomásia: Hic est calix sanguinis mei novi et aeterni testamenti, mysterium fidei; mas hoje, com novidade pode ser que nunca ouvida, faremos o Mistério da Fé mistério da razão. Sairão a argumentar contra a verdade deste mistério não só os inimigos declarados dela, mas todos os que por qualquer via a podem dificultar: e serão sete. Um judeu, um gentio, um herege, um filósofo, um político, um devoto, e o mesmo demônio. Todos estes porão suas dúvidas, e a todos satisfará a razão. E para que a vitória seja mais gloriosa, vencendo a cada um com suas próprias armas, ao judeu responderá a razão com as Escrituras do Testamento Velho, ao gentio com as suas fábulas, ao herege com o Evangelho, ao filósofo com a natureza, ao político com a conveniência, ao devoto com os seus afetos, e ao demônio com as suas tentações. Temos a matéria. Para que seja a glória de nossa santa fé e honra do diviníssimo Sacramento, peçamos àquela Senhora que deu a Deus a carne e sangue de que se instituiu este mistério, e não é menos interessada na vitória de seus inimigos, nos alcance a luz, o esforço, a graça, que para tão nova batalha havemos mister. Ave Maria.

§II

O primeiro inimigo: o judeu. Primeira objeção: a possibilidade do sacramento. Por que Cristo, em vez de atender-lhes a dúvida ameaçou-lhe a malícia? Para os judeus, apoiando-se nas Escrituras, é impossível Deus, imenso, limitar-se ao pão; e invisível, limitar-se ao visível. Por que então no deserto pediram a Arão, sacerdote, que lhes fizesse um Deus visível? O que eles pediram, nós recebemos. Um argumento a nosso favor: os judeus adoraram o bezerro e foram castigados; nós adoramos a hóstia e não o somos, embora os primeiros cristãos tenham sido judeus. Se o judeu crê nos outros milagres da Escritura, por que não crer na Eucaristia? Se crê no poder das palavras de Josué ao sol e de Moisés à rocha, por que não acreditar no poder das palavras do sacerdote? Para o judeu crer na Eucaristia não lhe é necessária nova fé. Cristo ao instituir a Eucaristia não pediu entendimento, pediu memória.

(continua...)

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