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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Homem de bem! Não o era decerto, dando, pela sua ingrata obstinação, motivo a que – se um dia se soubesse, como se soube, este incidente – o Conde fosse insultado na imprensa e escarnecido na Câmara!

Esta resposta do pai desgostou muito o Conde; mas com uma bondade quase sobre-humana, escreveu-lhe novamente, remetendo-lhe 200$000 réis, e afiançando-lhe que se algum dia, por falta de trabalho ou doença, se encontrasse em necessidade, o avisasse logo, pois que, apesar da sua carta ofensiva, nunca ele, como filho cristão, perderia o respeito que lhe devia!

A esta carta tão nobre, tão filial, o velho alfaiate respondeu devolvendo a letra, nas dobras de um papel onde havia uma palavra única: – M....! – Não transcrevo a palavra

(que de resto a inteligência dos que me lêem logo compreenderá) porque me respeito, e nunca ponho nos meus livros essas obscenidades que se permitiu escrever o visionário autor dos Miseráveis, esse épico enfático de uma democracia estéril!

M....! Essa palavra foi para o Conde o desgosto grave da sua vida. Era evidente.15 que seu pai, perdendo o respeito próprio, propendia para a obscenidade! Boa razão tivera ele, pois, em não o admitir em sua casa, no convívio da sociedade mais raffinée de Portugal!

Deste incidente da vida do Conde, que mais direi que o não saiba o País? É conhecido hoje (tanto o escândalo popularizou o episódio) que, obstinando-se na sua ingratidão, o alfaiate morreu pobre, sem nunca ter escrito a seu filho, que só o soube quando o velho se tinha enterrado. Mas o Sr. Carvalhosa, o deputado da oposição por Penafiel, com essa perfídia que inspira o despeito político, apenas teve conhecimento de que o velho expirava na miséria, apressou-se com pompa, com evidência, a ir-lhe a casa, levar-lhe um médico e enterrá-lo à sua custa. Para quê? Para que se pudesse imprimir nos jornais da oposição – que o Sr. Ministro deixara morrer o pai numa mansarda infecta e que fora o deputado da oposição quem, por misericórdia, lhe chegara aos lábios a última malga de caldo!

Eu vi o Conde chorar na intimidade da sua livraria. Lágrimas de raiva, que para outras não havia lugar. Aquela morte isolada, obscura, silenciosa, numa miséria voluntária, – era a vingança do pai! Deixava-lhe aquela vergonha permanente. Quem sabe mesmo se o alfaiate não teria combinado com a oposição toda aquela lúgubre cena, a enxerga, a aparição do Carvalhosa, a tumba de esmola!

– Ai, Zagalo – disse-me o Conde abraçando-me – o maior erro da minha vida foi nascer de semelhante pai!

E foi! Por isso o Conde, na sua severa justiça, deixou que o corpo do alfaiate repousasse na vala onde o levara a tumba de misericórdia.

Diante de Deus, como ele dizia, considerava-se filho de sua tia. E a ela, filialmente, elevara aquele belo monumento onde o Anjo chora sobre uma coluna truncada que sustenta um livro, símbolo da educação que facultara ao Conde, e uma pequena bolsa, emblema da fortuna em terras que por testamento lhe deixara.

Mas estas digressões necessárias (pois que, repito, eu não conto na sua disposição cronológica os episódios de tão ilustre existência, mas apenas dou, a traços largos, as feições essenciais da sua fisionomia histórica) trouxeram-me aos anos, não distantes, em que o Conde d'Abranhos viu, por assim dizer, Portugal a seus pés.

Volte pois o leitor comigo a essa formosa estrada do Porto, onde, numa liteira, acompanhado pelo procurador de sua tia, vai o nosso Alípio em direcção a Coimbra.

Os sete anos que aí viveu foram serenos e graves.

Muitas vezes o Conde me disse que a Universidade lhe fizera uma impressão profunda, não tanto como edifício – ainda que seja imponente aquele monumento no alto do monte, severo e isolado, como uma imutável fortaleza de vetusta ciência – mas sobretudo como Instituição. Eu confesso não ser talvez competente para avaliar estas questões de Ensino e de Educação. A pobreza de meus pais não me permitiu a honra vantajosa de ser bacharel, mas tendo convivido com tantos homens ilustres, eu sou como aquele antigo fabricante de ídolos, que, à força de viver entre eles, guardava nas mãos e na túnica alguma coisa do seu dourado. Além disso, neste assunto, como em todos, sigo, por admiração muda e reconhecimento correcto, as ideias e opiniões do Conde d'Abranhos.

A primeira vantagem da Universidade, como instituição social, é a separação que se forma naturalmente entre estudantes e futricas, entre os que apenas vivem de revolver ideias ou teorias e aqueles que vivem do trabalho. Assim, o estudante fica para sempre penetrado desta grande ideia social: que há duas classes – uma que sabe, outra que produz. A primeira, naturalmente, sendo o cérebro, governa; a segunda, sendo a mão, opera, e veste, calça, nutre e paga a primeira.

(continua...)

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