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#Novelas#Literatura Portuguesa

Singularidades de Uma Rapariga Loura

Por Eça de Queirós (1874)

— Boa idéia – disse Macário – sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E esses brincos? – acrescentou, indo ao fundo do balcão, a outra montra. – Estes brincos com um concha?

— Dez moedas – disse o caixeiro.

E, no entanto, Luísa continuava examinando os anéis, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.

Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, passando vagarosamente a mão pela cara.

— Bem – disse Macário, aproximando-se – então amanhã temos o anel pronto. A que horas?

O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.

— A que horas?

— Ao meio-dia.

— Bem, adeus – disse Macário. E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequenas estavam escondidas num regalo branco.

— Perdão! – disse de repente o caixeiro.

Macário voltou-se.

— O senhor não pagou.

Macário olha para ele gravemente.

— Está claro que não. Amanhã venho buscar o anel, paga amanhã.

— Perdão! – disse o caixeiro.– Mas o outro...

— Qual outro? – disse Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balcão.

— Essa senhora sabe – disse o caixeiro. – Essa senhora sabe.

Macário tirou a carteira lentamente.

— Perdão, se há uma conta antiga...

O caixeiro abriu o balcão, e com aspecto resoluto:

— Nada, meu caro Senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.

— Eu?! – disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.

— Que é? Que está a dizer?

E Macário, pálido, com dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro colericamente. O caixeiro disse então:

— Essa senhora tirou dali o anel. – Macário ficou imóvel, encarando-o. – Um anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. – O caixeiro estava tão excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. – Essa senhora não sei quem é. E tirou-o dali...

Macário, maquinalmente, agarrou-lhe o braço, e voltando-se para Luísa com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:

— Luísa, dize... – Mas a voz cortou-se-lhe.

— Eu... – disse ela. Mas estava trêmula, assombrada, enfiada, descomposta.

E tinha deixado cair o regalo ao chão.

Macário veio para ela, agarrou-lhe o pulso fintando-a: e o seu aspecto era tão resoluto e tão imperioso que ela meteu a mão no bolso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:

— Não me faça mal – disse, encolhendo-se toda.

Macário ficou com os braços caídos, o ar abstrato, os beiços brancos; mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:

— Tem razão. Era distração. Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. É o anel. Sim, sim, senhor, evidentemente... Tenha a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?

Abriu a carteira e pagou.

Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o lenço, deu o braço a Luísa e dizendo ao caixeiro: « desculpe, desculpe », levou-a, inerte, passiva, extinta e aterrada.

Deram alguns passos na rua. Um largo sol aclarava o gênio feliz: as seges ,passavam, rolando ao estalido do chicote; figuras risonhas passavam, conversando; os pregões ganiam os seus gritos alegres; um cavalheiro de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.

Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava para essa noite «Palafoz em Saragoça ».

De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixinho:

— Vai-te.

— Ouve!... – disse ela, com a cabeça toda inclinada.

— Vai-te. – E com voz abafada e terrível: – Vai-te. Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.

— Mas houve, Jesus – disse ela.

— Vai-te! – E fez um gesto, com o punho cerrado.

— Pelo amor de Deus, não me batas aqui – disse ela, sufocada. — Vai-te, podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te.

E, chegando-se para ela, disse baixo:

— És uma ladra!

E, voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a bengala.

À distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.

Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga loura.

Fim

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