Por Eça de Queirós (1888)
- Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes são assim, a vida é assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho má.
O Villaça suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro exclamou com espanto:
- Amante! Mas a rapariga é solteira, meu senhor, é uma menina honesta!...
Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mãos começaram a tremer-lhe; e voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:
- O Villaça de certo não suppõe que meu filho queira casar com essa creatura...
O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
- Isso não, está claro que não...
E o jogo continuou algum tempo em silencio.
Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas que Pedro não jantava em Bemfica. De manhã, se o via, era um momento, quando elle descia ao almoço, já com uma luva calçada, apressado e radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois, mesmo de pé, bebia um gole de chá, perguntava a correr «se o papá queria alguma cousa», dava um geito ao bigode deante do grande espelho de Veneza sobre o fogão, e lá partia, enlevado. Outras vezes todo o dia não sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; até que o pae, inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeça enterrada nos braços.
- Que tens tu? - perguntava-lhe.
- Enchaqueca, - respondia n'um tom surdo e rouco.
E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde alguma carta que não viera, ou talvez uma rosa offerecida que não fôra posta nos cabellos...
Depois, por vezes, entre dois robbers ou conversando em volta da bandeja do chá, os seus amigos tinham observações que o inquietavam, partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os rumores
- emquanto elle passava alli, inverno e verão,
entre os seus livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque não faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, á Allemanha, ao Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...
Evidentemente alludiam á Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.
No verão, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes tinham lá alugado uma casa. Dias depois o Villaça appareceu em Bemfica, muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pediralhe informações sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar dinheiro. Elle lá lhe dissera que em setembro, chegando á sua maioridade, tinha a legitima da mamã...
- Mas não gostei d'isto, meu senhor, não gostei d'isto...
- E porque, Villaça? O rapaz quererá dinheiro, quererá dar presentes á creatura... O amor é um luxo caro, Villaça.
- Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouça!
E aquella confiança tão nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio, nos brios de raça de seu filho, chegava a tranquillisar Villaça.
D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta do Sequeira ao pé de Queluz, e tomavam ambos o seu café no mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate, trazia um vestido côr de rosa cuja roda, toda em folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas do seu chapéo, apertadas n'um grande laço que lhe enchia o peito, eram tambem côr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego, apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio, entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por cartões de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapéo panamá, calça de ganga, o mantelete da filha no braço, o guarda sol entre os joelhos. Iam callados, não viram o mirante; e, no caminho verde e fresco, a caleche passou com balanços lentos, sob os ramos que roçavam a sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de café junto aos labios, de olho esgazeado, murmurando:
- Caramba! É bonita!
Affonso não respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate, que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o todo - como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das ramas.
O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manhã, Pedro entrou na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogão; recebeu-lhe a benção, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se bruscamente para elle:
- Meu pae, - disse, esforçando-se por ser claro e decidido - venho pedir-lhe licença para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Os Maias. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1792 . Acesso em: 30 jun. 2026.