Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

O desconhecido estremeceu levemente e pousou sobre o mor to um long o olhar, demorado e atento.Eu em seguida cravei os meus olhos, com uma insistência im placável nos olhos dele, dominei-o, disse-lhe baixo, apertando-lhe a mão:- Porque o matou?

— Eu? — gritou ele. — Está doido! Era uma resposta clara, franca, natural, inocente.- Mas porque veio aqui? — observou o mascarado. — Como soube do crime? Como tinha a chave? Para que era este martelo? Quem é o senhor? Ou dá explicações claras, oudaqui a uma hora está no segredo, e daqui a um mês nas galés. Chame os outros -disse ele para mim.

— Um momento, meus senhores, confesso tudo, digo tudo! -gritou o desconhecido.

Esperámos; mas retraindo a voz, e com um a entoação demora da, como quem dita: — A verdade — prosseguiu — é esta: encontrei hoje de tarde um homem desconhecido, que me deu uma chave e me disse: sei que é Fulano, que é destemido, vá a tal rua, númerotantos...

Eu tive um movimento ávido, curioso, interrogador. Ia enfim saber onde estava! Mas o mascarado com um movimento impetuoso pôs-lhe a mão aberta sobre aboca,comprimindo-lhe as faces, e com uma voz surda e terrível:

— Se diz onde estamos, mato-o.O homem fitou-nos: compreendeu evidentemente que eu também estava ali, sem saber onde, por um mistério; que os motivos da nossa presença eram também suspeitos, e que por consequência não éramos empregados da polícia. Esteve um momento calado e acrescentou:- Meus senhores, esse homem fui eu que o matei, que querem mais? Que fazem aqui?

— Está preso — gritou o mascarado. — Vá chamar os outros, doutor. É o assassino.Esperem, esperem — gritou ele. — Não compreendo! Quem são os senhores? Supus que eram da polícia... São talvez.., disfar çam para me surpreender! Eu não conheço aquele homem, nunca o vi. Deixem-me sair... Que desgraça!- Este miserável há-de falar, ele tem o segredo! — bradava o mascarado.

Eu tinha-me sentado ao pé do homem. Queria tentara doçura, a astúcia. Ele tinhaserenado, falava com inteligência e com faci lidade. Disse-me que se chamava A. M. C., que era estudante de medicina e natural de Viseu. O mascarado escutava-nos, silencio so e atento. Eu, falando baixo com o homem, tinha-lhe pousado a mão sobre o joelho. Ele pedia-me que o salvasse, chamava-me seu amigo. Parecia-me um rapaz exaltado, dominado pela imaginação. Era fácil surpreender a verdade dos seus actos. Com um mo do íntimo, confidencial, fizlhe perguntas aparentemente sinceras e simples, mas cheias de traição e de análise. Ele, comuma boa-fé inexperiente, a todo o momento se descobria, se denunciava.

— Ora — disse-lhe eu -, uma coisa me admira em tudo isto.- Qual? — E que não tivesse deixado sinais o arsénico... — Foi ópio — interrompeu ele, com uma simplicidade infantil.Erguime de salto. Aquele homem, se não era o assassino, conhecia profundamente todos os segredos do crime.- Sabe tudo — disse eu ao mascarado.

— Foi ele — confirmou o mascarado convencido. Eu tomei-o então de parte, e com uma franqueza simples:- A comédia acabou, meu amigo, tire a sua máscara, aperte mo-nos a mão, dêmos parte à polícia. A pessoa que o meu amigo receava descobrir, não tem decerto que ver nestenegócio.

— Decerto que não. Este homem é o assassino. E voltando-se para ele com um olhar terrível, que flamejava debaixo da máscara:- E porque o matou?

— Matei-o... — respondeu o homem.- Matou-o — disse o mascarado com uma lentidão de voz que me aterrou — para lhe roubar 2300 libras em bank-notes, que aquele homem tinha no bolso, dentro de uma bilheteira em que es tavam monogramadas duas letras de prata, que eram as iniciais do seunome.

— Eu!... para o roubar! Que infâmia! Mente! Eu não conheço esse homem, nunca o vi,não o matei! — Que malditas contradições! — gritou o mascarado exaltado. A. M. C. objectou lentamente:

— O senhor que está mascarado... este homem não era seu amigo, o único amigo que ele conhecia em Lisboa?

— Como sabe? — gritou repentinamente o mascarado, toman do-lhe o braço. — Fale,diga.

— Por motivos que devo ocultar — continuou o homem — sa bia que este sujeito, que é estrangeiro, que não tem relações em Lisboa, que chegou há poucas semanas, vinha a estacasa...

— É verdade — atalhou o mascarado.- Que se encontrava aqui com alguém... — É verdade — disse o mascarado. Eu, pasmado, olhava para ambos, sentia a lucidez das ideias perturbada, via apareceruma nova causa imprevista, temerosa e inexplicável.

— Além disso — continuou o homem desconhecido — há-de sa ber também que umgrande segredo ocupava a vida deste infeliz... — É verdade, é verdade — dizia o mascarado absorto. — Pois bem, ontem uma pessoa, que casualmente não podia sair de casa, pediu-me queviesse ver se o encontrava...



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →