Por Eça de Queirós (1925)
— Cumpri o meu dever de pai, e estou-o cumprindo ainda nesse momento que é solene... Logo que recebi a carta, logo que vi que havia cá na casa desinteligência, vim buscar a minha filha, para dar o tempo, para que se pudessem trocar explicações, para que se desembrulhasse a meada... Quando duas pessoas não estão de acordo, melhor é que cada um se safe para seu lado. De longe, a sangue-frio, trata-se tudo melhor. Cara a cara, palavra puxa palavra, vai tudo pela água abaixo...
As palavras solenes iam-lhe escasseando. E acumulando as expressões vulgares, excitado, falou em cancaborrada.
— Enfim – concluiu ele, o que eu quero saber é o que significa todo este escândalo?
Godofredo ouvira em silêncio, picando vagarosamente grãos de arroz. Estava decidido a não se alterar, a ser respeitoso e rígido. Desprezava o sogro, pôr histórias equívocas que sabia dele, sobretudo pelos seus sujos amores com a cozinheira. Aquele ar solene não o impressionava: e com duas ou três palavras secas ia facilmente dominá-lo.
— O escândalo não é mais nem menos, do que eu lhe escrevi. Encontrei sua filha com um homem, e mandei-lhe para casa.
O Neto estremeceu. Aquele tom seco pareceu-lhe um insulto. Ergueu-se, com o olho aceso, a calva irritada.
— Ora essa! Ora essa! E se eu não a quisesse em casa? Essa não está má! Então casa-se com uma filha-família, tem-na quatro anos, e, ao fim de quatro anos, agora, minha menina, volta para casa de teu pai? Essa não está má! E se eu a não quisesse em casa, meu caro senhor, e se eu a não quisesse em casa?
Bravejava, esquecidas todas as preocupações com uma voz que se devia ouvir na cozinha.
Muito friamente Godofredo disse:
— Nesse caso ficava na rua.
Isto acabou de enfurecer o Neto.
— Na rua?
— Perfeitamente. Desonrou-me, desonrou a minha casa, aqui não a consinto... Faça as suas malas, adeus! Se o pai, se ninguém a recebe, está claro que fica na rua.
Neto não podia acreditar nesta teima implacável. Tinha cruzado os braços, contemplava o genro, com um olhar que chamejava.
— Homem, deixe-me olhar para si. Deixe-me olhar para si que o senhor é um monstro. Então quer o senhor dizer que abandonava sua mulher, deixava na rua, sem um canto para se abrigar.
Tanta palavra torturava Godofredo. Era como o remexer numa ferida que ainda sangrava. Ergueu-se, querendo dizer ainda uma palavra, acabar a discussão. Mas o Neto não o deixou abrir os lábios, gritou:
— E não se põe uma mulher fora de casa, pôr que se encontrou só a receber uma visita!
Godofredo ficou a olhar para ele, com os lábios trêmulos, sem poder soltar as palavras que lhe estrangulavam a garganta. Era como um horror, de dizer alto, ali, mesmo a um sogro, como a tinha encontrado, nos braços do outro. E, diante deste silêncio. Neto exaltava-se mais, triunfando:
— É necessário provar! A lei pede o flagrante... O senhor não viu nada, não apanhou uma carta...
Toda a cólera de Godofredo fez explosão:
— Cartas infames, senhor. Cartas obscenas, senhor! Sabe o que lhe dizia, que queria Ter um filho dele! Um filho, que eu havia de vestir, de sustentar, de estimar, de educar... Um Filho! E aqui está a educação que o senhor deu à sua filha....
Neto ficara cabisbaixo. A filha não lhe falara de cartas. Passou a mão pelas duas repas da calva com um ar atrapalhado, e murmurou depois dum grande silêncio:
— As mulheres, quando lhes chega a veneta, escrevem cousas sem tom nem som...
Godofredo não respondeu. Passeava pela sala, com as mãos nos bolsos; e sobre a mesa, o seu prato ainda com arroz, ficava esquecido e arrefecendo. Neto então bebeu um grande copo. E subitamente, como tomando uma grande resolução, dizendo a coisa suprema que ali trouxera, exclamou:
— Mas enfim, de que quer o senhor que ela viva? Eu não tenho para vestir, nem para a calçar?...
Godofredo parou logo, no seu lúgubre passeio. Esperava aquilo, estava preparado, tinha a sua resposta, em que pôs um tom de dignidade, de homem superior às misérias do dinheiro:
— Enquanto sua filha estiver em casa de seu pai, e se portar bem, tem trinta mil réis pôr mês.
A calva do Neto iluminou-se: e pareceu subitamente satisfeito, toda a sua cólera desapareceu.
— É razoável, é razoável – disse ele num tom quase enternecido.
Depois os dois homens ficaram calados como se não tivessem mais nada a
dizer......
Godofredo tocou a campainha: a criada correu, dardejando desde a entrada um olhar a um e a outro.
— O café – disse Alves.
— E uma chávena para mim, senhora Margarida – disse o Neto retomando na casa a sua familiaridade de sogro.
Godofredo continuava passeando na sala... Neto sentara-se à mesa, e preparava cuidadosamente um cigarro, dando de vez em quando um olhar de lado de lado ao genro. E levou uma eternidade a preparar o cigarro: enrolou-o gordo e liso, depois metendo a onça na algibeira, para tirar a isca, exclamou, com um vago suspiro.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Alves & Cia. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16619 . Acesso em: 28 jun. 2026.