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#Romances#Literatura Portuguesa

A Cidade e as Serras

Por Eça de Queirós (1901)

No 202, todas as manhãs, às nove horas, depois do meu chocolate e ainda em chinelas, penetrava no quarto de Jacinto. Encontrava o meu amigo banhado, barbeado, friccionado, envolto num roupão branco de pêlo de cabra do Tibete, diante da sua mesa de toilette, toda de cristal (pôr causa dos micróbios) e atulhada com esses utensílios de tartaruga, marfim, prata, aço e madrepérola que o homem do século XIX necessita para não desfear o conjunto suntuário da Civilização e manter nela o seu Tipo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o meu espanto – porque as havia largas como a roda maciça dum carro sabino; estreitas e mais recurvas que o alfanje dum mouro; côncavas, em forma de telha aldeã; pontiagudas, em feitio de folha de hera; rijas que nem cerdas de javali; macias que nem penugem de rola! De todas, fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilizava o meu Jacinto. E assim, em face ao espelho emoldurado de folhedos de prata, permanecia este Príncipe passando pêlos sobre o seu pêlo durante catorze minutos.

No entanto o Grilo e outro escudeiro, pôr trás dos biombos de Quioto, de sedas lavradas, manobravam,

com perícia e vigor, os aparelhos dp lavatório – que era apenas um resumo das máquinas monumentais da Sala de banho, a mais estremada maravilha do 202. Nestes mármores simplificados existiam unicamente dois jatos graduados desde zero até cem; as duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; e ainda botões discretos, que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve orvalho estival. Desse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham em disciplina e servidão tantas águas ferventes, tantas águas violentas, saía enfim o meu Jacinto enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a circulação, a outra de seda frouxa para repolir a pele. Depois deste rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo, Jacinto, estendido num divã, folheava uma agenda, onde se arrolavam, inscritas pelo Grilo ou pôr ele, as ocupações do seu dia, tão numerosas pôr vezes que cobriam duas laudas.

Todas elas se prendiam à sua sociabilidade, à sua civilização muito complexa, ou a interesses que o meu Príncipe, nesses sete anos, criara para viver em mais consciente comunhão com todas as funções da Cidade (Jacinto com efeito era presidente do Clube da Espada e Alvo; comanditário do jornal O Boulevard; diretor da Companhia dos Telefones de Constantinopla; sócio dos Bazares Unidos da Arte Espiritualista; membro do Comitê de Iniciação das Religiões Esotéricas, etc. ). Nenhuma destas ocupações parecia porém aprazível ao meu amigo – porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos, freqüentemente arremessava para o tapete numa rebelião de homem livre aquela agenda que o escravizava. E numa dessas manhãs (de vento e neve), apanhando eu o livro opressivo, encadernado em pelica, de um carinhoso tom de rosa murcha – descobrí que o meu Jacinto devia depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir pôr fidelidade a uma votação no clube; acompanhar Madame de Oriol a uma exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um tribunal de honra numa questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao ecarté... E ainda se acavalavam outras indicações, escrevinhadas pôr Jacinto a lápis: - “Carroceiro – Five-o’clock dos Efrains – A pequena das Variedades – Levar a nota ao jornal...” Considerei o meu Príncipe. Estirado no divã, de olhos miserrimamente cerrados, bocejava, num bocejo imenso e mudo.

Mas os afazeres de Jacinto começavam logo no 202, cedo, depois do banho. Desde as oito horas a campainha do telefone repicava pôr ele, com impaciência, quase com cólera, como pôr um escravo tardio. E mal enxugado, dentro do seu roupão de pêlo de cabra do Tibete ou de grossos pijamas de pelúcia cor de ouro velho, constantemente saía ao corredor a cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um desses, sempre presente (e que pertencia decerto aos Telefones de Constantinopla), era temeroso – todo ele chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma enorme pasta sebenta, e dardejando, de entre a alta gola duma peliça puída, como da abertura dum covil, dois olhinhos torvose de rapina. Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro aparecia, com bilhetes numa salva... depois eram fornecedores de Indústria e de Arte; negociantes de cavalos, rubicundos e de paletó branco; inventores com grossos rolos de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição “única”, quase inverossímil, de Ulrich Zell ou do Lapidanus. Jacinto circulava estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telefone, desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum emboscado que surdia das sombras da antecâmara, estendia como um trabuco o seu memorial ou o seu castigo!

(continua...)

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