Por Coelho Neto (1924)
Dar-se-á que os degraus conservem a impressão do seu andar e trepidem, como os móveis estalam, à noite, retraindo ou dilatando as fibras ao contato do ar? As tábuas não soam por si e, se estalidam, é que algum piso as recalca.
Paredes de pedra e cal, assoalhos de madeira morta, é possível que dele vos lembreis às horas justas em que ele entrava, pé ante pé, subtil, sem que o sono, que dominava a casa, fosse perturbado?
Se o lar assim se recorda como havemos nós de abandonar esse cantinho cheio de reminiscências, (memória inerte em que ele persiste), porque nele viveu toda a sua alegre infância, nele passou toda a sua adolescência e nele começava a gozar a mocidade?
Se o túmulo, que lhe contém o corpo, não o relega, a casa, que lhe guardou o espírito, não o havia de repudiar, decerto.
Em todos os cantos brincou, saltou, espalhou risos. O raio de sol que, todas as manhãs, entra pela janela junto à qual ficava a sua cama, mal o dia aponta, lá vem insinuando-se no mesmo filão de ouro com que, desde pequenino, lhe enfeitava o sono.
A lâmpada, que o alumiava, acende-se todas as noites; e tudo continua como dantes.
Ao passar junto do meu quarto sinto-o, lá dentro, andar, mover-se. Faro, à escuta. Tudo cessa. Para que insistir? Para que hei de, com a curiosidade ansiosa do meu desespero, violar o segredo que já não é da vida?
Se ele ali está e não me aparece, ele! Tão meu amigo, é porque não deseja ser visto.
Deixemo-lo com o seu misterioso pudor. É o filho em visita ao lar paterno.
Bem-vindo seja e que Deus o abençoe.
E se, ouvindo aos que nos aconselhavam, nos houvéssemos mudado...?! Pobre espírito! Quem sabe o que sofreria recorrendo a casa e achando-a habitada por outros, transformada em tudo - na disposição dos móveis, no arranjo dos aposentos, com outros hábitos, outras vozes.
E a própria casa não sentiria com ele? Talvez!
Se vamos piedosamente visitar-lhe o túmulo no cemitério, porque havíamos de fugir ao ambiente onde o seu espírito demora? Lá, debaixo da terra, é a morte; aqui, em todos os ângulos, é a vida: o que ficou, o que existe, o que não parece: ele.
Mudar-nos... Isso seria abandoná-lo, desertar o ninho da saudade, o canto em que ele viveu. O mesmo seria arrancarmo-lo do coração desprezando-o no esquecimento. Se a casa o retém, nós é que o havíamos de repelir? Não!
Onde uma vida se exala fica sempre vestígio. Os tímidos receiam-no; os fortes, os que verdadeiramente amam, com as veras da alma, instam por encontrá-lo, como quem rastreia, em caminho, pegadas de alguém que procura. Mudar-nos... Não! Fiquemos onde ele perdura.
Longe, entre outras paredes, que nunca lhe copiaram o corpo em sombra; com outras portas, que nunca se lhe abriram; com outros aposentos nunca, em vida, visitados por ele, como o poderíamos sentir?
Aqui, não. Aqui ele está conosco: é a sua casa. Que nela viva.
A LUZ
Acordo. Ainda é noite. O céu esfuma-se na sombra e o perfil umbroso da montanha, fronteira à minha janela, destaca-se no dilúculo. Respira de leve a aragem.
Aclara aos poucos. Sente-se a luz em marcha. Já as árvores aparecem e as casas realçam, brancas, na massa da verdura.
Chia uma cigarra; outras respondem vividas e um coro de chilreios enche o silêncio pálido. É o despertar nos ramos.
Debruço-me à janela e, em êxtase, contemplo o maravilhoso espetáculo do amanhecer. O céu recama-se de cores: e uma palheta o oriente e as tintas, que dele escorrem, broslam a paisagem, colorindo-a.
Chove polilha de ouro. Abre-se de todo o azul; responde a terra com o seu verde.
O primeiro raio de sol recena um outeiro e logo as ervas rebrilham. A claridade alastra. Enche-se o ar de vôos ágeis. Estrídulo recresce o canto matinal dos pássaros.
Um sino soa, límpido.
Passam trabalhadores ainda estremunhados; rodam veículos.
Ressoa soturnamente, longínqua, uma sereia de fábrica.
São os rumores da vida que recomeça.
A vida... Tudo ressurge! Entre as folhas rasteiras andam insetos minúsculos, formigas desfilam em fieiras.
Tudo acorda e entra em atividade: os elementos da natureza, o homem, os animais, os mínimos seres, as coisas, porque as folhas vibram, as flores exalam, o mesmo pó levanta-se. É a vida!...
O relógio bate sonoramente: são os passos do tempo, as horas.
O próprio invisível agita-se, porque é ele, o vento, que meneia, brando e brando, as folhas. Entretanto, em todo esse deslumbramento ativo, há escuridão e silêncio, falta alguma coisa que minha alma procura em vão.
Já o sol rebrilha, fúlguro. Abrem-se todas as janelas: são as casas que acordam. Foi-se o sono dentro da noite.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.