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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

E Pavia, como que temendo iluminar o seu crime, tirou com a mão trêmula uma caixa de fósforos e uma vela de que se munira, mas hesitou em ferir fogo...

— Não achou a vela? — informou-se o criado do duque. — Achei... aqui tem... segure, para eu riscar o fósforo.

Inácio tateou pelo ar até encontrar a mão de Pavia e tomou a vela. Pavia riscou o fósforo. O fósforo falhou.

— Diabo! Estou trêmulo...

Pavia riscou de novo. Riscou terceira vez. Toda a escuridão da sala fugiu à explosão do fulminante.

Os ladrões tinham certeza de que aquela porção do palácio devia estar sem viva alma. O particular do duque, que habitava um compartimento vizinho da sala do armário, achava-se fora. Os criados alojavam-se no pavimento inferior. Não havia, pois, quem ouvisse os rumores feitos na sala.

Entretanto, quando a chama do fósforo brilhou, os bandidos estremeceram como que de susto e lançaram instintivamente um rápido olhar indagador aos quatro lados da sala.

Era um espaçoso aposento sem utilidade especial. Parecia servir apenas de passagem para o jardim. Não tinha móveis ao centro. Filas de cadeiras de grandes encostos, espichando para o teto uns florões medievais, antigos como a genealogia dos Bragantinas, bordavam as paredes, afetando altivamente a sua imobilidade nobre, estúpida, militar. Da ombreira das portas desabavam reposteiros verdes, pesados como chumbo.

No ar pairavam cheiros de mofo e de pó; no teto, revoluteavam uns dourados de mau gosto, como serpentes amarelas, enroscadas pelos estuques... Pavia e Inácio viram que não havia, além deles, pessoa alguma no lugar.

No fundo da sala, havia um grande armário envidraçado por dois largos espelhos. Aí, estavam as desejadas preciosidades.

Pavia imaginava estar vendo as pedrarias estrelando o fundo de um bonito cofre de madeira lavrada... ali ao alcance da mão.

Ao receio de uma surpresa sucedera um íntimo prazer avarento, à vista de um montão de riquezas...

A vela refletia-se no espelho do armário... Pavia espantou-se... Pareceu-lhe que havia gente lá dentro...

— Que poltrão! — disse ele —. Estou com medo de mim mesmo.

E os dois chegaram ao depósito do tesouro...

Estava ali o sonho... e não havia dragões a guardarem-no.

Os ladrões começaram.

Manuel de Pavia sabia que as jóias estavam num escaninho à direita.

— Elas estão por aqui... Quebrar o espelho é fazer muito barulho e... depois, a madeira é fraca...

Enquanto falava, Pavia bateu com a mão no ângulo direito do armário como que avaliando a espessura da tábua. Pediu em seguida o formão a Inácio, tomou o macete e encostou o corte do seu instrumento no armário.

Começaram então umas pancadinhas abafadas pelo pano que envolvia o macete... A sala enchia-se de sonoridades surdas como as de um tambor em que se toca levemente.

O trabalho foi demorado.

Afinal, um grito alegre como a detonação de um foguete escapou dos lábios de Pavia:

— Entrou! — exclamou ele com as feições alargadas na mais expansiva satisfação.

Tinha entrado o formão.

Deste momento em diante, todo o trabalho consistia em fazer rachar-se a tábua do armário.

Pavia calcou sobre o formão como sobre uma alavanca. A madeira estalou... Inácio substituiu a Pavia no trabalho; meteu as mãos na abertura que o companheiro fizera e completou a obra.

Estava feita a passagem.

Manuel de Pavia apanhou a vela que o cúmplice deixara no soalho e iluminou o interior do armário. Mal chegou a chama à abertura do arrombamento, mil cintilações brilharam...

— O cofre!...

Os dois ladrões sentiram-se chocados. Toda a emoção traduziu-se-lhes por um silêncio absoluto.

Inácio quis retirar o cofre... Pavia, com medo talvez de ser roubado pelo companheiro, desviou-lhe as mãos do buraco do armário.

Inácio cravou-lhe um olhar afiado, terrível. Dir-se-ia que passava pelo espírito do criado um meio muito simples de assenhorear-se daquilo que o cúmplice queria para si.

Pavia tirou o cofre e, voltando-se para Inácio:

— Está feito o mais difícil! Agora convém... convém... disfarçar a coisa...

— Será para isso que quer esta corda?

— Para isso mesmo!... Vamos abrir os trinchos de várias janelas para se acreditar que houve descuido do fechador... De uma das janelas atiraremos a corda por cima da hera da parede... Se houver indagações da polícia, esta corda pode fazer uma embrulhada... A polícia é estúpida... dirá que o ladrão veio de fora... tanto que serviu-se de uma corda... A questão é achar onde se prenda um nó... Vamos ver...

Pavia, seguido pelo companheiro, afastou-se do armário, sobraçando o cofre e atravessou a sala em direção às janelas.

Abriram cuidadosamente algumas. Espiaram para fora e examinaram.

(continua...)

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