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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— E então, é que a força armada.

Basta de política, basta de política, Sr. Evaristo. Ó Luís, por favor, continua a ler teu jornal - interveio D. Branca. — É favor!

Adelaide correu a tapar a boca do marido com a mão espalmada: — "Não senhor, nada de política!"

E continuou-se a falar no batizado da pequena, sem alusões à princesa, nem ao monarca. A esposa do secretário disse que tinha mandado fazer um vestido para estrear nesse dia — uma toilette simples, de um tecido novo, muito usado em Paris, que A Notre Dame recebera...

Adelaide mordiscou a pelezinha do beiço com tristeza. — Um vestido novo, chegado de Paris!... E ela como se havia de apresentar no dia da festa? Oh, com o seu vestido de provinciana, de mangas compridas e babados! Que vergonha, Santo Deus! O melhor vestido que possuía era o de gorgorão, com que embarcara..., mas estava fora da moda e da etiqueta. Antes nunca tivesse vindo ao Rio de Janeiro...

Quase não dormiu, essa noite, pensando no batizado. À hora de recolher, Evaristo achou-a triste, com um arzinho de choro, descobrindo mesmo uma lágrima vagarosa na face dela. Mas não disse nada. Adelaide continuou a se despir à meialuz do gás, e rolou na cama silenciosamente, de rosto para a parede.

— Ó Adelaide!... — chamou Evaristo, já desconfiado.

A mulher não respondeu.

Adelaide! tornou ele, aproximando-se.

— Que é?... choramingou a rapariga, encolhendo-se. — Olha...

Ela não se moveu.

— Olha!

Mesma posição, mesmo silêncio.

— Olha cá uma coisa.

— Que é?

— Estás chorando? — Não...

Mas pelo tom da voz, conheceu bem que alguma coisa havia no coração de Adelaide.

— Como não, se te ouvi soluçar?

— Eu?!...

— Exatamente. Queres ocultar-me algum desgosto?

E devagarinho, como para não acordar uma criança, o bacharel foi-se inclinando no leito.

— Vamos: é a primeira vez que choras em minha companhia, depois que estamos casados.

— Nada... lembrei-me da Balbina.

Da Balbina? Homessa!

Falavam muito em segredo, cochichando, ela de costas para ele. A casa estava toda no escuro. Furtado e a mulher não davam sinal de vida.

— Que tens tu com a Balbina? — tornou Evaristo. — Não é má a lembrança!

Como se a Balbina fosse tua mãe!

— Mas lembrei-me.

— Se me não dissesses, eu não acreditaria, palavra de honra!

E admirado:

— Chorar com saudades da Balbina! É curioso, é singular!

Os inquilinos do segundo andar apagaram a luz e um relógio bateu meianoite.

Involuntariamente, por causa de Adelaide, Evaristo adormeceu pensando na Balbina, a negra velha de Coqueiros, sem atinar com a significação da lágrima que vira na face da esposa.

Certo é que a amiga de D. Branca recolhera com o pensamento no batizado da Julinha. Quis desabafar, dizer tudo a Evaristo, suplicar-lhe que trouxesse um vestido novo para a festa de D. Branca, rogar-lhe, pelo amor de Deus, que fizesse um pequeno sacrifício... Mas não teve ânimo: podia parecer uma exigência, uma falta de atenção, e ela nunca abrira a boca para pedir a Evaristo um grampo, quanto mais um corte de fazenda! Não era por vaidade, nem por orgulho, nem por capricho — é que tinha obrigação de se apresentar à aristocracia em trajos de mulher educada e não com um pobre vestido fora da moda, sem elegância, mal cosido, mal ajustado ao corpo - horrível!

No outro dia Evaristo, inda na cama, interpelou-a sobre o acidente da véspera, gracejando, rindo, na melhor boa-fé, longe de adivinhar o que se passava no espírito de Adelaide. — Chorar pela Balbina — ela! Que extraordinário coração, que alma cândida!

— Chora-se até pelos animais, por um gatinho, por um cachorro, por um pássaro que a gente criou!...

E Adelaide, ocultando ingenuamente o desgosto que a pungia, lembrou ao marido o fato de ter ele chorado a morte de uma patativa, antes de vir para o Rio de Janeiro.

O bacharel não disse que não, mas afirmou que o caso era diverso e que entre a patativa e a Balbina preferia a patativa.

E a lágrima da jovem senhora caiu no esquecimento como todas as coisas deste mundo.

(continua...)

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