Por Inglês de Sousa (1891)
A pobre mãe quisera, a princípio, opor-se à resolução do compadre coronel, sentindo-se incapaz de resistir às saudades do Antonico, o seu filho predileto mas o bom senso e a lucidez intelectual de que era dotada venceram a excesso de amor materno, e, debulhada em lágrimas, deixou-o partir, depois de recomendá-lo muito aos cuidados do padrinho. Quanto a Pedro Ribeiro, a idéia de vir a ter um filho padre lisonjeara-lhe a vaidade.
0 Antonico, quando o mandaram para o Seminário, mal soletrava a História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França, que o pai herdara do avô e era o único livro que se encontrava na fazenda das Laranjeiras. O livro já se sabia que era aquele. Mas compensando o atraso intelectual e literário, o Antonico atirava com arco e flecha, governava uma montaria, laçava um boi com ligeireza, subia à árvore mais alta para desanichar uns ovos de japiim ou de tamburu-pará e perseguia as mulatinhas da mãe, ainda não pertencentes ao serralho paterno, com apertos e beliscões, significativos da puberdade incipiente.
Mal se amanhara, a princípio, com a batina e a volta com que o vestiram. Os sapatos brancos, de couro cru disciplinares, arrebentaram-lhe os pés em calos e frieiras que o torturaram por meses, sujeitando-o a ainda às vaias e às caçoadas dos companheiros de classe. Mas o rigor da disciplina, a convivência obrigada com rapazes educados, e o despertar da inteligência, com a curiosidade de saber e a emulação, foram-lhe pouco a pouco tirando o ar palerma e os modos achavascados, amorteceram as saudades da mãe e da fazenda natal, e incutiram-lhe hábitos de asseio e de ordem.
Por outro lado, o seu espírito indômito e a meio selvagem foi paulatinamente cedendo à influência suave do cultivo e da doutrina dos padres-mestres, mas não sem rebeldias bruscas e inesperadas que tonteavam o padre reitor e tornavam necessárias as valentes palmatoadas que lhe aplicava o carrasco do Seminário, um caboclo robusto e impassível, de olhar estúpido e gestos de bonifrate.
No tocante aos ardores juvenis, que as mulatinhas haviam experimentado, pareciam sopiados na atmosfera fria e severa em que se achava, se bem que às vezes - com muito nojo o recordava - se desregrassem em extravagâncias, confessadas na quaresma, e justamente punidas com jejuns e macerações, a que Antônio se dava com um entusiasmo que lhe valia a admiração dos mestres e a zombaria invejosa dos condiscípulos e cúmplices. Alguns dias dava-lhe uma gana de satisfazer o apetite, devorando lascas de pirarucu assado, com farinha-d’água e latas de marmelada, compradas com os seus ganhos de acólito e cantor do coro. Apanhava indigestões de queijo-do-reino e de bananas-da-terra, ingeridas às dúzias, às escondidas, na latrina, para evitar a censura do confessor, a quem, logo depois, quando lhe apertavam as cólicas e a moléstia se denunciava, revelava a falta, culpando dela o demônio, pertinaz em o perseguir e tentar. E jejuava severamente, privando-se de todo alimento dias inteiros para purgar os pecados e provar o arrependimento.
Não saía nunca. O Felipe do Ver-o-peso, seu correspondente, ou fosse recomendação do padrinho, ou esquecimento, jamais fora buscar um domingo à tarde para passear, para respirar um pouco de ar livre. Da cidade nada sabia, conservara a impressão que dela recebera na tarde da chegada. O pai e o padrinho algumas vezes escreviam, o padrinho para perguntar pelos progressos e o exortar a obedecer em tudo aos mestres, que bem sabiam o que era conveniente; o pai para dar-lhe minuciosas notícias da fazenda, a morte do mouro, o bom sucesso da malhada, a cobertura da Diana, o roubo da Estrelinha, o combate dos garrotes com a onça, e outros pormenores da vida rural que lhes causavam nostalgia intensa, afundando-o numa melancolia negra. Mas as cartas eram raras, e na falta de comunicação com a mãe e o mundo exterior, Antônio sentia o isolamento da vida pesar-lhe sobre o coração e fechá-lo a todas as expansões. Ficara assim, suspeitoso e arredio no trato dos colegas. Mal visto deles, por força da sua superioridade incontestável, passava horas de folga a enterrar-se nos velhos livros teológicos ou de história eclesiástica, saturando-se das doutrinas absorventes que os condiscípulos encaravam como boas tão-somente para ilustrar o espírito.
A concentração em que vivia por força das circunstâncias, entregara-o avidamente ao estudo dos tempos heróicos do cristianismo exaltando-lhe a imaginação com os exemplos de abnegação e de sacrifício dos mártires da Igreja. E ao passo que os colegas decoravam tudo aquilo, para a utilidade prática dos sermões, Antônio de Morais criava para si um mundo à parte, e ardia em desejos de reproduzir neste século as lendas que enchiam aqueles livros santos...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.