Por Aluísio Azevedo (1880)
Enquanto Miguel, encostado à árvore, era todo meditação e cismar, do alto indeciso da ladeira alvejava um vulto trêmulo, cujas roupagens flutuantes se desvaneciam nas sombras transparentes da noite.
O coração do moço estremeceu, como o ferro quando se avizinha o imã: era Rosalina que se aproximava.
Com aquela cega e santa confiança, que as singelas camponesas têm em si, com o desamparo dos corações que não se arreceiam das trevas nem da luz, descia a ladeira, descuidosa, a filha do pescador, procurando descobrir nas sombras o vulto querido do seu amado.
Assim que o divisou, deitou a correr francamente para ele com os braços abertos.
Mais parecia descer voando, que correndo; Miguel com os olhos do coração via-lhe as asas, que a amparavam no vôo.
O vento, repuxando-lhe para trás as saias e os cabelos, contornava-lhe a redondeza correta da cabeça e as curvas voluptuosas e macias do corpo; era como se a mão invisível de um gigante a segurasse por trás, e pouco a pouco a viesse aproximando dos lábios de Miguel.
Nessa ocasião, para ele Rosalina mais que nunca parecia um anjo; para os amantes — vir por cima — é sempre baixar do céu quando se trata do objeto amado.
Era aquilo um descer vertiginoso e quase fantástico: as pedrinhas do chão desprendiam-se e rolavam com ruído até a praia; os belos e adestrados pés de Rosalina corriam pelo solo conhecido, com a facilidade com que deslizam pelo telhado os dedos de um mestre de piano. Atravessando a alameda, ora recebia em cheio o luar pelos claros da folhagem e pelos espaços de entre as árvores, ora se cobria rapidamente de sombra, para reaparecer logo na luz. Miguel correu ao encontro de Rosalina, recebendo-a em cheio nos braços.
Vinha ofegante de cansaço, e nesse estado se abandonava de si, para de todo se entregar negligentemente aos braços do amante.
Assim ficaram por algum tempo silenciosamente abraçados; ela a respirar sofregamente e ele a fartar-se de vê-la, queimando-a com esse olhar, que parece o reflexo vermelho do incêndio que cai pelo coração.
Desabraçaram-se para segurar as mãos um do outro; os amantes, quando sós, nunca têm as mãos ociosas.
— Oh! Como estão frias! Disse Rosalina, tomando entre as suas as de Miguel.
— Tenho-as frias como tenho despedaçado o coração. Não há calor nas ruínas! — volveu tristemente Miguel e recolheu-se a cismar; porém, pouco depois, tomado de súbita agitação, ergueu com força a cabeça e rompeu a falar desordenadamente, como se a dor, que desde a véspera prendera em ferros, rebentasse à vista de Rosalina, medonha e troadora, rompendo cadeias, violando represas.
— Ouve Rosalina! Eu tinha uma fortuna, uma esperança, uma alegria, uma única felicidade, desde o princípio de minha vida, isto é, desde que te conheço, meu amor! Teu pai entendeu para si de transformar numa chaga sempre aberta isso que era o meu único sorriso. Vais partir para Nápoles e vais rica; conheço bem os costumes dessa cidade: são maus e perigosos, principalmente para os ricos! Serás porventura a mesma quando lá te vires, cercada de opulência e de aduladores?...
Essa dúvida me mata!...
E soluçou.
— Miguel!...
— Tenho medo, minha Rosalina; pode muito a ausência! Tenho medo de que te esqueças por uma vez do pobre artista! E que seria de mim se me deixasses de amar? Desaparece, e nada mais aqui fica que me aproveite! Apaga a luzinha que conduz o viajante, e vê-lo-ás perdido; toma o cajado ao cego, e vê-lo-ás cair; priva do sol a planta, e vê-la-ás murchar; arranca do desgraçado a crença em Deus, e vêlo-ás sucumbir. Pois bem! Tu és a estrela que me guia ao futuro, o cajado que me ampara na vida, a luz que me dá crenças e a crença que me dá forças. Desaparece e eu cairei nas trevas e morrerei sem crenças! Repito, Rosalina! — disse Miguel comovido e enxugando as lágrimas — Repito! Tenho medo que te esqueças para sempre de mim!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.