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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

No casamento o escravizado é o marido; no outro caso a escravizada é a mulher. O casamento é o sacrifício de um homem em proveito da sociedade; o concubinato é o sacrifício de uma mulher feito a um homem. A mulher casada vê no “seu” marido uma propriedade sua; e, para manter a felicidade burguesa do seu lar e para não perturbar a suposta tranqüilidade da sua vida conjugal, quer que ele, ao entrar casado na câmera nupcial, despeje para sempre o coração de todos os seus sonhos de glória; quer que ele abdique, em proveito do seu novo estado, de todas as suas ambições brilhantes, de todo o seu ideal de conquistas na vida pública. E desse dia em diante, tudo o que nele for pessoal e de alcance exterior encontrará nela um inimigo terrível. No triunfo individual dele ela verá uma perene ameaça aos seus direitos de proprietária conjugal. A felicidade particular dele, posto que de caráter moral, será por ela considerada um roubo, um atentado cometido contra a solidariedade do casal. Que ele seja um “Bom marido” é o essencial, é quanto basta; é tudo o que ela exige dele e é só o que ela consente que ele ambicione.

E para ser um “Bom marido” convém que ele seja caseiro, metódico, pacato, previdente; que disponha de recursos para manter a família, e não tenha a menor ambição de nome. O que por aí se chama “Bom marido” é um ser genérico e coletivo, que, por si só, particularmente, nada representa, e que não pode ser aproveitado, na cadeia dos interesses gerais da vida humana, senão como simples e obscuro elemento de procriação. Um bom marido é útil somente porque produz filhos.

Para ser um bom marido não pode o indivíduo ser um “homem de ação”, como não pode ser um “contemplativo”. Não pode ser um conquistador, um revolucionário ou um grande empreendedor, como não pode ser um poeta, um artista ou um sábio. E como são essas as duas únicas ordens em que se divide a humanidade produtora, da soma de cujo esforço de ação ou de pensamento tira a evolução histórica a sua grande força de impulso e de aperfeiçoamento geral, segue-se que o “Bom marido”, na comunhão da vida inteligente e na obra do progresso do mundo, não tem lugar como homem, mas só como animal, e seu esforço só poderá ser aproveitado como passivo instrumento da vontade alheia.

Por isso um bom marido deve ser única e exclusivamente um bom marido, e nisso limitar todas a sua aspiração. Um bom marido não deve ter pátria, nem idéias. A sua pátria é a casa, e o programa de todo o seu pensamento é o seguinte: ter ou obter meios para a regulada subsistência da família; não perturbar nunca a paz burguesa do lar; atrair à casa, de vez em quando, amigos sérios e respeitadores dos princípios estabelecidos; promover partidas de dança, em que a mulher se divirta, em que as filhas, se já estiverem desenvolvidas, possam namorar para obter marido; não faltar nunca ao lado da esposa com o provimento sexual de que ela, conforme o seu temperamento, careça para o seu bem-estar e perfeita sinergia do organismo; e nunca, nunca, dar ou promover escândalos, sejam estes de ordem política, artística, amorosa, doméstica, ou sejam de simples e inocente folguedo.

Para o satisfatório desempenho desta última parte do programa, deve o bom marido abster-se de escrever, com assinatura, artigos em jornais e livros principalmente; não deve ter senão as obras que possa dar também a ler à sua família; não deve expor ao público e à venda qualquer produção artística de sua lavra, mas reservá-las para ornamento da sua sala de visitas ou de jantar; no seu modo de vestir nunca trazer a roupa muito à moda, nem muito fora da moda; deve, enfim, nisto, como em tudo absolutamente, escolher sempre o meio-termo, o regular, o médio, porque a mediocridade deve ser o seu nível. Razão esta para que evite, escrupulosamente, aperfeiçoar-se em qualquer ramo de conhecimento científico ou artístico, que da perfeição pode, mesmo sem querer, cair no sucesso e aplauso público o que lhe não convém de modo algum, por ser escandaloso. Todo o sucesso é um escândalo, e o bom marido deve temer o escândalo antes de tudo.

E mais: o bom marido deve recolher-se à casa sempre cedo; não sair para o passeio ou para o teatro sem levar a família; evitar a convivência mundana com todo o indivíduo que for popular e apontado a dedo. Não lhe convém igualmente, e nem por sombra, a menor relação de amizade com os agitadores de idéias e com os artistas reformadores. O seu círculo, além da família, só pode estender-se um bocadinho às circunspectas classes conservadoras; o seu nome não deve figurar nunca senão em listas oficiais e graves. O bom marido deve ser, nos seus atos e nas suas funções, inalterável como uma pêndula: — Da casa para o trabalho e do trabalho para casa. Qualquer desvio do movimento estabelecido pode alterar a marcha do relógio, que é o lar.

Logicamente, quem deveria perder o nome com o casamento e adotar o do cônjuge era o homem e não a mulher, porque se o casamento for o que se chama “regular” e o marido sair “um bom marido”, é ele quem desaparece engolido pela família; ao passo que ela, até aí escondida atrás dos parentes, sem ter mesmo até então o direito de pensar, casando-se, surge desassombradamente à tona social e forma à direita do esposo um novo elo na grande cadeia.

(continua...)

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