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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

A Alma do Lázaro, de José de Alencar, é um texto de caráter reflexivo que aborda temas como sofrimento, culpa e redenção a partir de uma perspectiva moral e humana. A obra acompanha o drama interior de um personagem marcado pela dor e pelo arrependimento, explorando conflitos da consciência e questões espirituais, convidando o leitor a refletir sobre limites, fé e transformação interior.

Alfarrábios


ADVERTÊNClA


Este alfarrábio, não o devo ao meu velho cronista do Passeio Público. É, como se disse no prólogo, uma escavação dos tempos escolásticos.

Tem ele porém, se me não engano, o mesmo sabor de antiguidade que os outros, e ao folheá-lo estou que o leitor há de sentir o bafio de velhice, que respira das cousas por muito tempo guardadas.

Para alguns esse mofo literário é desagradável. Há porém antiquários que acham particular encanto nestas exsudações do passado que ressumam dos velhos monumentos e dos velhos livros. 

Rio de Janeiro, dezembro de 1872.


PRIMEIRA PARTE


A ALMA PENADA


Triste irrisão é a glória. Quantos engenhos sublimes, criados para as arrojadas concepções, que ficam aí tolhidos pelo estalão do viver banal, senão sepultos em vida na indiferença, quando não é no desprezo das turbas?

Também quanta ralé, feita para patinhar no pó, que se ala as eminências, insuflada pelos parvos, e se apavona com as galas da celebridade?

E dizer que homens de são juízo labutam ou porfiam após esse fogo4átuo, e deslumbram-se a ponto de esquecerem afetos e bens, sacrificados em má hora à ilusão falaz!

Lá volvem os anos; e um dia vem à flor da terra o crânio que foi um poeta, ou um herói. Quem se importa com o sobejo dos vermes? É um pouco de cal e nada mais. Não tarda que a pata do homem ou do bruto passando por aí triture esse pó, a que animou outrora o sopro de Deus, mens divinior.

O autor do Diário do Lázaro foi um de tantos engenhos, atados à grilheta da miséria Poeta desconhecido, enquanto a sua alma inspirada se derramava em ânsias e prantos, o bestunto de muito zote agaloado lá se estava enfunando com os aplausos, furtados à virtude e saber.

Foi há muito tempo.

Era eu estudante na academia de Olinda. Tinha então dezenove anos, e sentia minhas quedas para a poesia, mas pela poesia plebéia, em prosa estirada, que isso de verso é cousa com que não se conformava o meu espírito. Vão lá medir o pensamento, rimar as paixões?

Muitas vezes sucedia-me nas vigílias do estudo apanhar o eu em flagrante delito de literatura, a idear romances e fantasiar dramas, enquanto lá o outro, o estudante de carne e osso, tressuava às voltas com o Corpus Juris Civilis.

Qual é a alma que nas primeiras expansões da vida, a dilatar-se pelos largos horizontes desta terra do Brasil; a embeber-se nas ondas de luz que imergem essa porção mimosa da criação; a coar-se nas harmonias das brisas que passam pelas florestas, não solta o vôo e se arroja ao céu, embora o calor do sol lhe requeime as asas, precipitando-a num oceano, que é a dúvida!

Era poeta; posso confessá-lo agora que essa veleidade passou de uma feita e já agora não voltará mais.

Tinha a febre da imaginação que delira, envolvendo-se como em uma crisálida, no prisma de suas ilusões.

Olinda, a velha cidade em ruínas, abrigando no seio a mocidade rica de seiva e de vida; o passado com todas as suas gloriosas recordações, e o futuro com as suas brilhantes esperanças; essa aliança misteriosa de dois mundos, de duas gerações, uma apenas em flor, a outra já cinzas, separadas pelo tempo, e reunidas pelas vicissitudes da existência humana, me impressionava profundamente.

A descuidosa jovialidade da vida do estudante, o riso franco, o dito chistoso, a magra ceia que o prazer fazia lauta, o descante livre, tudo isto que em outra cena seria tão natural, me parecia uma profanação no meio desses muros aluídos, desses claustros ermos, sobre esse túmulo de uma população extinta, à face dessa cidade múmia.

Meu gosto era vagar à calada da noute por aquelas ruas solitárias, quando cessava o arruído, quando a palpitação e o resfolgar de emprestada existência já não galvanizava o cadáver da nobre e florescente vila de Duarte Coelho.

De ordinário ia sentar-me no adro desse Convento do Carmo, esqueleto de pedra, cuja ossada gigante o tempo ainda não tinha de todo arruinado. De um lado, sobre a quebrada que faz a montanha, descortinava-se o mar límpido e calmo; de outro erguia-se a massa informe da cidade recortando o seu perfil no azul do céu.

O silêncio que pesava sobre aquela solidão era apenas interrompido pelo esvoaçar dalguma ave noturna no âmbito do claustro, pelo estalido das lendas que se abriam nos muros, e pelo atrito das escaras soltas das velhas paredes.

Às vezes a lua vinha dar a esta cena triste e grave traços fantásticos, e um toque de sua doce e suave melancolia. Os raios da luz pálida e alvacenta, esbatendo-se nas pedras do átrio, enfiando pelas largas frestas, e debuxando nos claros sombras esguias, criavam mil formas incertas e vacilantes.

(continua...)

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