Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
As Mulheres de Mantilha apresenta um retrato crítico da sociedade urbana do século XIX, destacando costumes, relações sociais e as limitações impostas às mulheres. Por meio de intrigas amorosas, disfarces e jogos de aparência, a narrativa constrói um tom irônico e envolvente, revelando contradições morais e a hipocrisia presente no convívio social, ao mesmo tempo em que entretém e provoca reflexão.
Romance histórico
INTRODUÇÃO
Os quatro anos que correram de 1763 a 1767 não foram por certo dos mais suaves e agradáveis para os habitantes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, embora muito ufanos e orgulhosos devessem eles estar em conseqüência da definitiva mudança da capital do Brasil que passara da primogênita de Cabral para a bela filha de Mem de Sá, assumindo com caráter de permanência o chefe da grande colônia portuguesa da América a graduação e hierarquia de vice-rei.
Mas o primeiro vice-rei que d. José ou por ele o marquês de Pombal despachou para o Rio de Janeiro, e que governou o Brasil desde 16 de outubro de 1763 até 21 de novembro de 1767, foi d. Antônio Álvares da Cunha, conde do mesmo título, homem talvez animado de boas intenções, porém tão facilmente irritável como violento e déspota.
Não é da nossa conta o que fez o conde da Cunha em Mazagão e Angola que também governara; no Rio de Janeiro porém deixou ingrata e turva memória pelos desabrimentos e escandalosos abusos da sua administração.
É verdade que lhe podem dar como circunstância atenuante da aspereza e despotismo do seu governo as prevenções bem ou mal fundadas que trouxera contra o corpo do comércio e talvez contra toda a população da nova capital do Brasil.
E precisamente eram os naturais de Portugal habitantes da cidade os mais suspeitos ao vice-rei, que aliás estendia a todos sem exceção o rigor e as violências que, ou provinham do seu gênio, ou adotara por sistema.
Os negociantes estabelecidos no Rio de Janeiro eram todos portugueses, e tendo sofrido grandes prejuízos com a tomada da colônia do Sacramento pelos espanhóis em 1762, vingaram-se no governador geral conde de Bobadela, atando-o e flagelando-o no pelourinho da maledicência, e injuriando-o e caluniando-o tão furiosamente em pasquins e cartas anônimas que o brioso Gomes Freire de Andrade apaixonou-se a ponto de adoecer gravemente, vindo a morrer no dia 1º de janeiro de 1763.
O conde de Bobadela fora muito amado pelos brasileiros e com especialidade pelos fluminenses, a estes porém a lembrança desse amor não serviu de escudo contra os golpes do aspérrimo rigor do vice-rei, que incessante lembrava a morte de Bobadela, e por isso agradava sempre a opressão em que desconfiado tinha o povo.
É provável que também uma sinistra medida tomada pelo governo de Lisboa e executada pelo conde da Cunha concorresse muito para o desgosto profundo que causou a sua administração.
Ou porque se quisesse prevenir o muito descaminho do ouro em pó e em folhetas, ou porque, como parece mais verdadeiro, se resolvesse sob aquele pretexto sacrificar os interesses legítimos dos colonos aos interesses egoístas dos ourives da metrópole, a Carta Régia de 30 de julho de 1766 mandou extinguir o ofício de ourives nas capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, e foi o conde da Cunha o infeliz executor desse assassinato da ourivesaria que principalmente no Rio de Janeiro tinha chegado a um grau de perfeição que excluía o concurso dos produtos respectivos da metrópole.
A Carta Régia de 30 de julho de 1766 era a pobreza para muitos, e a iniqüidade para todos. Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma jóia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal.
O governo de Lisboa sentenciara à morte a ourivesaria do Brasil, e o conde da Cunha era o algoz que enforcava a vítima no patíbulo levantado pelo despotismo.
Ora, em fato de execução de sentença de morte, dos juizes se maldiz, mas do carrasco tem-se horror.
Ao conde da Cunha sobreveio quase no fim do seu governo essa infelicidade.
Mas uma outra ainda maior o perseguiria desde 1763.
Era opinião corrente e averiguada que muitas vezes e em muitos casos a bolsa aberta em segredo poupava vexames e até iludia a justiça do vice-rei.
Escândalo tão revoltante ajuntava-se à experiência de extorsões do fisco sem regra, às crueldades do mais arbitrário e atroz recrutamento, que deixava mães, viúvas e irmãs órfãs ao desamparo, filhos sem pais e esposas sem maridos, os atentados contra a propriedade, e contra a liberdade individual, privando-se em proveito das obras públicas os senhores dos serviços de seus escravos, e coagindo-se homens livres, sob pretexto de que eram vadios, a ir trabalhar nas obras do rei.
Tudo isso se mandava e tudo isso se cumpria com energia tirânica, e sem que houvesse para as vítimas o direito de queixa: porque a queixa era insulto e crime punidos imediatamente e com descomedimento brutal.
E, pior ainda, era ponto incontroverso a impunidade do ajudante oficial-de-sala e dos protegidos do vice-rei que atentavam contra a honra das famílias, desrespeitando a inocência de donzelas, a honestidade de esposas, e o recato de viúvas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. As mulheres de mantilha. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1870. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2133 Acesso em: 3 jan. 2026.