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#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

Antonica da Silva, de Joaquim Manuel de Macedo, é uma obra de caráter teatral — uma burleta em quatro atos — que convida o leitor a acompanhar uma trama cheia de humor, disfarces e tensões morais. Ambientada no Rio de Janeiro do período colonial, a peça gira em torno de Benjamim, um jovem forçado a se passar por mulher para escapar da perseguição do poder, provocando equívocos amorosos, ciúmes e situações cômicas. Entre críticas sociais e jogos de aparência, a obra prende pela vivacidade das cenas e pelo dinamismo típico do teatro.

ANTONICA DA SILVA

Burleta em 4 atos

Joaquim Manuel de Macedo


Personagens

JOANA ............................................................................................. D. Matilde

INÊS................................................................................................. D. Rosa Villiot

BRITES............................................................................................. D. Isabel Porto

PERES .............................................................................................. Sr. Lisboa

MENDES.......................................................................................... Sr. Guilherme

BENJAMIM ..................................................................................... Sr. Vasques

PANTALEÃO DE BRAGA............................................................. Sr. Pinto

FREI SIMÃO.................................................................................... Sr. Vicente

CÔNEGO BENEDITO..................................................................... Sr. Machado

CAPITÃO PINA .............................................................................. Felipe

ALFERES PAULA .......................................................................... Sr. Leal

SARGENTO PESTANA.................................................................. Sr. André

MARTINHO (Criado) ...................................................................... Sr. Adelino


Cavalheiros idosos e senhoras, dois leigos franciscanos, soldados do regimento de Moura, homens e mulheres, escravos e escravas de Peres.

A ação se passa na cidade do Rio de Janeiro; época: a do vice-reinado do Conde da Cunha, fins de 1763 a 1767.

VISTO. – Rio, Sala das Sessões do Conservatório Dramático, 22 de abril de 1879. Cardozo de Meneses.

VISTO. – Rio, 28 de Janeiro de 1880. P. de Mattos.

Representada pela primeira vez no Rio de Janeiro, no teatro da Phenix Dramática, na noite de 29 de Janeiro de 1880.


ATO PRIMEIRO

Sala na casa de Peres: portas ao fundo, e uma, a de entrada, à esquerda; janelas à esquerda e à direita; mobília antiga.


CENA primeira


Peres, Mendes, Benjamim, vestido de mulher e de mantilha; alguns homens idosos;

Joana, Inês, Brites, e algumas senhoras. Sinais de festim;

Peres lê uma carta que traz outra inclusa.


CORO meio abafado

A esta hora

Uma senhora!

Que será?

Trouxe carta

Longa e farta:

Que será?

Há mistério...

O caso é sério

Que será?...


PERES (A Mendes.) – Compadre, vem ler esta carta. (Mendes vai.).

INÊS e BRITES (Curiosas.) – Será bonita ou feia?...


CORO

A carta é de segredo,

Ali anda mexida...

JOANA – Receio algum enredo.


CORO

Há mistério...

O caso é sério

Que será?...


MENDES (Entregando a carta a Peres.) – E tu?...

PERES (A Mendes.) – Dou-lhe asilo. Então?...

MENDES (A Peres.) – E que o diabo leve o vice-rei.

PERES – Joana, esta senhora é filha de um velho amigo meu, e vem passar alguns dias em nossa casa.

JOANA – É uma fortuna! (Vai abraçar Benjamim).

PERES (A todos) – Questão de casamento que o pai não aprova: a menina há de mostrar-se razoável. O dever das filhas é aceitar os noivos da escolha dos pais. (Vai conversar com Mendes).

BRITES (A Inês) – Inês, isto é conosco. Ouviste?

INÊS (A Brites) – Que me importa?... coitadinha da moça... que barbaridade!...

JOANA (A Benjamim) – Porque não tira a sua mantilha?...

BENJAMIM – Tenho muita vergonha, sim senhora...

JOANA – Mas é preciso descansar... (Curiosidade das senhoras).

BENJAMIM – Então eu tiro a mantilha, sim senhora (Joana ajuda-a).

BRITES (A Inês) – Que cintura grossa... (BENJAMIM muito vexado)

INÊS (A Brites) – Olha o buço que ela tem!

JOANA – A sua idade, menina?...

BENJAMIM – Minha mãe que é quem sabe, diz que tenho dezoito anos.

JOANA – Como se chama?

BENJAMIM – Antonica da Silva, para servir a vosmencê.

MENDES – Toca para a cidade! Minha afilhada, teu pai deu-nos excelente jantar; mas é tempo... recebe minha bênção e dá-me um abraço. (Despedidas: as senhoras vão tomar suas mantilhas em quarto vizinho).

INÊS (A Brites) – Jantar excelente!... meia dúzia de velhos, e nem um único moço para a gente entreter os olhos! (Despedidas).

BENJAMIM (À parte) – Que peixão de afilhada tem aquele velho! dessa fazenda eu nunca vi nem por amostra em Macacu!


CORO

Agora até mais ver!

Saúde e felicidade

E quem tiver saudade

(continua...)

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