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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Amor e Pátria, de Joaquim Manuel de Macedo, é uma peça teatral em um ato escrita em meados do século XIX que articula temas de amor, honra e patriotismo no contexto das lutas pela Independência do Brasil. A trama acompanha personagens que debatem valores pessoais e cívicos enquanto se entrelaçam relações amorosas e eventos históricos, mostrando como o compromisso com a pátria se reflete tanto na vida pública quanto nos afetos privados. A obra combina elementos dramáticos e situações cômicas para refletir sobre o sentido de dever, lealdade e identidade nacional em um momento decisivo da história brasileira.

Personagens:

Plácido

Prudêncio

Luciano

Velasco

Afonsina

Leonídia

Senhoras e Cavalheiros

Povo



A ação se passa no dia 15 de Setembro de 1822.



Drama em Um Ato



ATO ÚNICO

O teatro representa uma sala ornada com luxo e esmero em relação à época. Duas portas ao fundo, uma dando saída para a rua, e outra comunicando com uma sala; portas à direita; janelas à esquerda.



CENA I

Plácido, Prudêncio, Leonídia e Afonsina, que observa curiosa uma caixa que está sobre uma cadeira, e a porta da sala do fundo que se acha fechada.

Plácido – Ela já nem pode disfarçar a curiosidade que a atormenta; tem andado em volta da caixa mais de quatro vezes.

Leonídia – Coitadinha! Aquilo é tão natural na sua idade...

Prudêncio – Acrescente-lhe: e no seu sexo... Nunca vi pais tão desfrutáveis!

Plácido – Agora lá vai ela direitinha olhar pelo buraco da fechadura da porta: então que disse eu?...

Leonídia – Faz-me pena vê-la assim martirizando-se.

Plácido – É para que no fim ainda mais agradável e completa lhe seja a surpresa.

Prudêncio – E vocês acham muito bonito o que está fazendo minha sobrinha?...

Plácido – Então que lhe acha, senhor tenente rabugento?...

Prudêncio – Nada: apenas uma comédia em que uma sala trancada e uma caixa fechada fazem lembrar o pomo vedado, e em que Afonsina representa o papel de Eva e minha irmã e meu cunhado o da serpente tentadora ou do diabo, que é a mesma coisa.

Leonídia – Este meu irmão tem lembranças felizes!

Prudêncio – Vocês hão de acabar por perder completamente aquela menina! O senhor meu cunhado com as idéias que trouxe da sua viagem à França e a senhora minha irmã com a sua cegueira de mãe extremosa, deram-lhe uma educação como se a quisessem para doutora de borla e capelo: fizeram-na aprender tudo quanto ela podia ignorar, e a deixaram em jejum a respeito do que devia saber. Assim, minha sobrinha dança melhor do que as bailarinas do teatro de S. João; toca o seu cravo a ponto de admirar ao padre José Maurício: canta e gorjeia que parece um dos italianos da capela real; conversa com os homens como se eles fossem mulheres; é capaz de discutir sobre teologia com Frei Sampaio, e sobre arte militar com o general Corado; mais se lhe perguntarem como se toma ponto a uma das meias, como se prepara um bom jantar, como se governa uma casa, espicha-se completamente: eu até aposto que ela não sabe rezar.

Leonídia – Afonsina é um tesouro de talentos e de virtudes, e você na passa de uma má língua.

Prudêncio – Oh! Pois não! Nem os sete sábios da Grécia lhe dão volta! Ela faz versos como o defunto padre Caldas; fala em política e é tão eloqüente como o Antônio Carlos; é tão revolucionária como o Barata... Não sei por que ainda não quis se deputado às cortes!...Havemos de lá chegar: creio, porém, que já escreve seus artigos para o Reverbero, e que para isso está de inteligência com o Ledo e o padre Januário: até bem pode ser que vocês já a tenham feito pedreira livre, e que a menina fale com o diabo à meia-noite.

Afonsina (Vem à frente) – Minha mãe...

Leonídia – Que tens, Afonsina? Pareces-me triste...

Plácido – É verdade, minha filha: que quer dizer esse ar melancólico no dia dos teus anos, e quando te preparamos uma bela festa?...

Afonsina – É que ...eu...meu pai, eu não posso mais...

Prudêncio – Talis arbor, talis fructus! De um casal sem juízo na podia nascer senão uma doidinha.

Leonídia – Mas que te falta, dize?

Afonsina – Ah! Minha mãe, aquela sala e esta caixa atormentam-me, exasperamme...

Prudêncio – Andem depressa...andem...satisfaçam a curiosidade da menina, antes que ela arranje algum faniquito.

Plácido – E que tens que ver com aquela sala e com essa caixa?...

Afonsina – É uma curiosidade bem natural: esta caixa, que está fechada, talvez contenha algum objeto interessante, e aquela porta, que e sempre esteve aberta e que hoje amanheceu trancada, encerra necessariamente algum mistério, e portanto...

Prudêncio – Vamos à conseqüência, que há se ser sublime!...

Afonsina – A conseqüência, meu tio?... Ei-la, aí vai:

Deixar de ser curiosa Por certo não está em mim:

É pecado feminino, Por força hei de ser assim.

O que em todas se perdoa, Também se desculpe em mim: Mamãe sabe que as mulheres São todas, todas assim.

Mamãe, aquela caixa,

Papai, aquela sala,

Encerram um segredo

Que o meu sossego abala.

Juntamente

(continua...)

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