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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

O “Sermão da Bula da Santa Cruzada”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1647, na Catedral de Lisboa, em Portugal, no contexto da publicação da Bula da Santa Cruzada. O objetivo era explicar e valorizar suas graças espirituais, incentivando os fiéis a participar desse ato religioso. Vieira discute a misericórdia e a salvação, defendendo a importância da fé, da penitência e da prática cristã.


Unus militum lancea latus ejus aperuit, et continuo exivit sanguis et aqua.

§I

Do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja. A escritura de nossos pecados, e a nova escritura de graças, a bula do Papa Inocêncio Décimo. Razão pela qual um soldado é quem deveria franquear com a lança os tesouros do lado de Cristo.

Como do lado do primeiro Adão dormindo foi formada Eva, assim do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja. Daquele lado ferido saíram e manaram os sacramentos, e daquele lado aberto se derramaram os tesouros das graças, com que o mundo depois de remido se enriquece. Mas, se bem todas as graças da Igreja se representam admiravelmente na história deste mistério, reparando eu com atenção em todas as circunstâncias dele, ainda acho com maior propriedade as da Bula da Santa Cruzada, que hoje se concedem e publicam solenemente ao Reino e Reinos de Portugal.

Saíram estas graças do lado de Cristo não antes, nem depois, senão quando estava pregado na Cruz, porque da Cruz trouxeram o merecimento, e da Cruz tomou a mesma Bula o nome, que por isso se chama da Cruzada. Saíram em figura de sangue e água: Exivit sanguis et aqua; de água, para apagar o que estava escrito, e de sangue, para se escrever de novo o que naquele sagrado papel se lê. Diz S. Paulo que Cristo morrendo apagou a escritura de nossos pecados, e que assim apagada a pregou na sua Cruz: Delens quod contra nos erat, chirographum et ipsum tulit de medio, affigens illud cruci. Mas se Cristo então apagou uma escritura, e a fixou na Cruz para o remédio, hoje escreve outra escritura e fixa nela a mesma cruz para o efeito. Isto é o que significa aquela cruz, e isto o que contém aquela escritura: tudo graça, e tudo graças.

Vejo porém que me estão perguntando todos, e com razão, se estes tesouros e graças manaram do lado de Cristo aberto, como os abriu não outrem, senão um soldado: Unus militum lancea latus ejus aperuit. Esta é a maior circunstância da história, e a mais viva energia do mistério. O princípio e primeira instituição da Bula da Cruzada, foi em tempo do Concílio Lateranense, quando se concederam estas graças e indulgências a todos os que, tomando a insígnia da cruz, se alistassem por soldados para a conquista da Terra Santa. E como elas foram concedidas, não a outros, senão aos soldadas daquela sagrada empresa, por isso, com a mesma propriedade, não outrem, senão um soldado, foi o que abriu o lado de Cristo: Unus militum. Mas não porou aqui o mistério, como também não pararam aqui as graças. O motivo que teve primeiro o Papa Gregório Décimo Tércio, e depois seus sucessores, e hoje o Santíssimo Padre Inocêncio Décimo, Nosso Senhor, para conceder as mesmas indulgências da Cruzada aos Reinos de Portugal, foi, como se contém na mesma bula, o subsidio dos nossos soldados da África, que armados sempre, e em velas naquelas fronteiras, defendem as portas de Espanha e da Cristandade contra a invasão dos mouros. E como os soldados da África propriamente são soldados de lança, e os cavaleiros que lá servem, servem ou com uma, ou com muitas lanças, para cumprimento e realce do mistério em toda a sua propriedade, o soldado que abriu o lado de Cristo e franqueou os tesouros das mesmas graças, não foi só, nem devia ser de qualquer modo soldado, senão soldado de lança, e com lança: Lancea latus ejus aperuit.

Temos declarado o tema, e proposta a matéria em comum. Para descer aos porticulares dela, publicando as graças da Santa Bula e descobrindo um por um os inestimáveis tesouros que nelas se encerram, o mesmo tema nos dará o discurso. Em todo ele não seguirei outra ordem, nem outra divisão, que as das mesmas palavras. Ave Maria.

§II

Unus: As graças dos reis da terra dependem de muitos, as do rei do céu, dependem de um só. Como aconteceu a Davi com Saul, nos despachos dos reis da terra, mais custa o requerimento que o merecimento. O leproso do Evangelho e o Príncipe dos Sacerdotes. Na Bula da Cruzada, cada um pode eleger o confessor de que mais se contentar; mesmo que seja estrangeiro e cego, como Longuinhos.

Unus militum lancea latus ejus aperuit.

A primeira excelência que acho na Bula da Santa Cruzada, é ser um o que abre estes tesouros do lado de Cristo: Unus. Se estas graças e indulgências dependeram de muitos, para mim quase deixaram de ser graças. Esta é a grande diferença que há entre as graças e mercês dos reis da terra, e as do Rei do céu. As graças dos reis da terra, sendo por merecimentos nossos, dependem de muitos ministros; as do Rei do céu, sendo por merecimentos seus, dependem de um só: Unus.

(continua...)

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