Por Padre Antônio Vieira (1652)
O “Sermão de Nossa Senhora de Penha de França”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado em 1652, na Igreja e Convento de Santo Agostinho, em Lisboa, durante o tríduo da festa de Nossa Senhora, com o Santíssimo Sacramento exposto. Vieira exalta os milagres atribuídos à santa e destaca a permanência de sua devoção, refletindo sobre a memória, a fé e o poder dos milagres.
Liber generationis Jesu Christi, Filii David, Filii Abraham.
§I
Na Penha de França reúnem-se dois tronos de duas majestades: o de Maria e o de Cristo.
Com digno pensamento, Senhor, de vossa divina sabedoria, e com bem merecida correspondência de vosso amor, vemos juntos hoje, como antigamente os ajuntou Salomão (3 Rs. 2,19), os dois tronos de ambas as majestades: o de vossa santíssima Mãe, subida a esta penha, e o vosso, descido a ela. Sobre uma penha, diz Jó, que havia de fabricar seu ninho a águia que moraria nas rochas mais altas e inacessíveis, e que dali contemplaria o corpo morto, para voar e se pôr com ele: In arduis ponet nidum suum; in petris manet; et in accessis rupibus: inde contemplatur escam, et ubicumque fuerit cadaver, statim adest.2 Que águia, que penha e que corpo morto é este, senão tudo o que estamos vendo? A águia, Maria Santíssima; a penha, Penha de França; o corpo morto,. vosso corpo sacramentado, vivo, mas em forma de morto. Esta águia, como a viu Ezequiel, é a que vos tirou das entranhas do eterno Padre e vos trasladou às suas.3 Ela é a que vestiu vossa divindade deste mesmo corpo, e ele o que reciprocamente, com sua real presença, vem honrar hoje e divinizar a celebridade de sua Mãe, e fazer maior este grande dia.
Para que eu, nos arcanos secretíssimos desse mistério, e nos que com igual secreto encerra o Evangelho, possa descobrir os motivos de nossa obrigação e agradecimento, e para que de algum modo alcance a ponderar as mercês tão prodigiosas e tão contínuas, que em todas as partes da terra, do mar, e do mundo deve Portugal a este soberano propiciatório, debaixo do glorioso nome de Penha de França, por intercessão da mesma Senhora peço, e da mesma presença de vossa divina e humana majestade, espero aquelas assistências de graça que para tão imenso assunto me é necessária: Ave Maria.
§II
Sermão sem livro e sem história. Na observação final do Evangelho de S. João, a Águia dos evangelistas, a razão pela qual não existe o Livro dos milagres da Penha. Santo Agostinho, águia entre os doutores, nega-se a escrever o Livro dos Milagres.
Liber generationis Jesu Christi, Filii David, Filii Abraham (Mt. 1, 1). A primeira palavra que diz o evangelista, e a primeira coisa que me oferece o tema, é a primeira e a única que me falta neste dia: Liber, o livro. Quando esta sagrada religião me fez a honra de que subisse hoje a este lugar, quando me encomendou, ou mandou, que tomasse por minha conta este sermão, como a matéria para todos é tão grande, e para mim, sobre tão grande, era tão nova, para ter, mais que por fama, as notícias e documentos do que havia de dizer deste santuário, pedi o livro da sua história e dos seus milagres. E que vos parece que me responderiam? Esperava eu que me dissessem que eram tantos os volumes, que faziam uma livraria inteira. Responderam-me que não havia livro. Não há livro da história e milagres de Nossa Senhora de Penha de França? Pois seja esta a matéria do sermão, já que me não dão outra. Assim o disse, assim o venho cumprir. Os outros sermões, estudam-se pelos livros: este será sermão sem livro, mas não sem estudo.
Se este caso
sucedera em outra parte, pudera parecer descuido. Mas na religião do pai dos
patriarcas, Santo Agostinho, tão pontual, tão advertida, tão observante, tão
ordenada, que ela foi a que deu ordem e regras a todas ou quase todas as
religiões do mundo, claro está que não foi descuido. Se sucedera em outra
parte, pudera parecer menos devoção. Mas na religião do serafim da terra,
Agostinho, que deixou por herança a seus filhos o coração abrasado que traz na
mão, e entre o amor de Jesus e Maria, aquela piedosa indiferença: Quo me
vertam, nescio,4 claro está que não foi falta de devoção. Se sucedera em outra
parte, pudera parecer menos suficiência. Mas na religião da Águia dos doutores,
Agostinho, de cujas asas tirou a Igreja em todas as idades as mais bem cortadas
penas, com que se ilustra, as mais delgadas, com que se apura, e as mais doutas
e copiosas, com que se dilata, claro está que não é insuficiência. Pois se não
é insuficiência, se não é indevoção, se não é descuido, por que razão não há livro
da história e milagres de Penha de França, deste nome, deste templo, desta
imagem, deste assombro do mundo, a que justamente podemos chamar o maior e mais
público teatro da onipotência? Sabeis por quê? Porque do que não cabe em
livros, não há livro.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 23 ago. 2026.