Por Padre Antônio Vieira (1655)
O “Sermão da Terceira Dominga da Quaresma”, de Padre Antônio Vieira, foi pregado na Capela Real de Lisboa, em 1655, durante a Quaresma. Dirigido a um público ligado à corte, o sermão busca refletir sobre a responsabilidade dos ministros e governantes. Vieira critica a corrupção, as injustiças e a demora nas decisões, defendendo uma atuação responsável, justa e comprometida com o bem público.
Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus, et admiratae sunt turbae.
§I
O milagre deste dia representa o mistério da Confissão perfeita: o mudo fala depois da expulsão do demônio. Na parábola das bodas o pecador é condenado por não falar: Na parábola do filho pródigo, auto sacramental da confissão, o pecador é condenado antes de falar As piores confissões: as em que o mudo fala e o demônio fica, como no caso de Judas. A confissão das confissões será a matéria do presente sermão. Como a turba que presenciou o milagre, o autor se admira das confissões malfeitas.
Quando ou as cortes eram mais cristãs, ou os pregadores menos de corte, quando se fazia menos caso da graça dos ouvintes, para que eles só fizessem caso da graça de Deus, quando a doutrina que se tirava do Evangelho eram verdades sólidas e evangélicas, e não discursos vãos e inúteis, quando finalmente as vozes dos precursores de Cristo chamavam os pecadores ao Jordão e os levavam às fontes dos sacramentos, o argumento comum deste Evangelho e a matéria utilíssima deste dia era a confissão. Esta antigüidade determino desenterrar hoje, esta velhice determino pregar, e só me pesa que há de ser, ainda que eu não queira, com grande novidade.
O pior estado desta vida, e o mais infeliz, de todos, é o pecado. Mas se neste extremo de mal pode haver ainda outro mal maior, é o de pecado, e mudo. O mais desventurado homem de que Cristo nos quis deixar um temeroso exemplo, foi aquele da parábola das bodas, a quem o rei, atado de pés e mãos, mandou lançar para sempre no cárcere das trevas. O rei era Deus, o cárcere o infemo, e o homem foi o mais desventurado de todos os homens, porque no dia e no lugar em que todos se salvaram, só ele se condenou. E em que esteve a sua desgraça? Só em pecar? Não, porque muitos depois de pecar se salvaram. Pois em que esteve? Em emudecer depois de pecar. Estranhou-lhe o rei o descomedimento de se assentar à sua mesa, e em tal dia, com vestido indecente, e ele em vez de solicitar o perdão da sua culpa confessando-a, confirmou a sua condenação emudecendo: At ilIe obinutuit (Mt. 22,12): E ele, diz o evangelista, emudeceu. – Aqui esteve o remate da desgraça. Mais mofino em emudecer que em pecar, porque cometido o pecado tinha ainda o remédio da confissão, mas emudecida a confissão, nenhum remédio lhe ficava ao pecado. Pecar é enfermar mortalmente; pecar é emudecer, é cair na enfermidade, é renunciar o remédio. Pecar é fazer naufrágio o navegante; pecar e emudecer, é ir-se com o peso ao fundo, e não lançar mão da tábua em que se pode salvar. Pecar é apagarem-se as lâmpadas às virgens néscias; pecar e emudecer é apagar-se-lhes as lâmpadas e fechar-se-lhes as portas. O pecado tem muitas portas para entrar e uma só para sair, que é a confissão. Pecar é abrir as portas ao demônio para que entre à alma; pecar e emudecer, é abrir-lhe as portas para que entre, e cerrar-lhe a porta para que não possa sair. Isto é o que em alegoria comum temos hoje no Evangelho. Um homem endemoninhado e mudo. Endemoninhado, porque abriu o homem as portas ao pecado; mudo, porque fechou o demônio a porta à confissão.
E que fez Cristo
neste caso? Maior caso ainda! Erat ejiciens daemonium (Lc. 11, 14). Não diz o
evangelista que lançou Cristo o demônio fora, senão que o estava lançando.
Achava Cristo repugnância, achava força, achava resistência, porque não há
coisa que resista a Deus neste mundo senão um pecador mudo. Tantas vozes de
Deus aos ouvidos, e o pecador mudo? Tantos raios e tantas luzes aos olhos, e o
pecador mudo? Tantas razões ao entendimento, tantos motivos à vontade, tantos
exemplos e tão desastrados e tão repetidos à memória, e o pecador mudo? Que fez
aí fim Cristo? Aplicou a virtude de seu poder eficaz, bateu à porta; porque não
bastou bater à porta, insistiu, apertou, venceu, saiu rendido o demônio, e
falou o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus. Este foi o fim da
batalha, glorioso para Cristo, venturoso para o homem, afrontoso para o
demônio, maravilhoso para os circunstantes, e só para o nosso intento parece
que menos próprio e menos airoso. Diz que primeiro saiu o demônio, e depois falou
o mudo: Cum ejecisset daemonium, locutus est mutus. E nesta circunstância,
parece que se encontra a ordem do milagre com a essência do mistério. Na
confissão, primeiro fala o mudo, e depois sai o demônio; primeiro se confessa o
pecador, e depois se absolve o pecado. Logo, se neste milagre se representa o
mistério da confissão, primeiro havia de falar o mudo, e depois havia de sair o
demônio. Antes não, e por isso mesmo, porque aqui não só se representa a
confissão, senão a confissão perfeita, e a confissão perfeita não é aquela em
que primeiro se confessa o pecado, e depois se perdoa, senão aquela em que
primeiro se perdoa, e depois se confessa.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.