Por Eça de Queirós (1870)
O Mistério da Estrada de Sintra apresenta uma trama repleta de suspense, crimes, desaparecimentos e reviravoltas. Construída como uma sequência de cartas e relatos, a narrativa envolve o leitor na investigação de acontecimentos enigmáticos, misturando mistério, aventura e crítica aos costumes da sociedade, em uma história que desafia as aparências e prende a atenção até o desfecho.
O Mistério da Estrada de Sintra
Eça de Queirós
PREFÁCIO CARTA AO EDITOR DO «MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA»
Há catorze anos, numa noite de Verão, no Passeio Público, em frente de duas chávenas de café, penetrados pela tristeza da grande cidade que em torno de nós cabeceava de sono ao som de um soluçante pot-pourri dos Dois Foscaris, deliberámos reagir sobre nós mesmos e acordar tudo aquilo a berros, num romance tremendo, buzinado à Baixa das alturas do Diário de Notícias.
Para esse fim, sem plano, sem método, sem escola, sem docu mentos, sem estilo, recolhidos à simples «torre de cristal da Imaginação», desfechámos a improvisar este livro, um em Leiria, outro em Lisboa, cada um de nós com uma resma de papel, a sua alegria e a sua audácia.
Parece que Lisboa efectivamente despertou, pela simpatia ou pela curiosidade, pois que tendo lido na larga tiragem do Diário de Notícias, o Mistério da Estrada de Sintra, o comprou ainda numa edição em livro; e hoje manda-nos V. as provas de uma terceira edição, perguntandonos o que pensamos da obra escrita nesses velhos tempos, que recordamos com saudade...
Havia já então terminado o feliz rei nado do Senhor» João VI. Falecera o simpático Garção, Tolentino o jucundo, e o sempre chorado Quita. Além do Passeio Púb lico, já nessa época evacuado como o resto do país pelas tropas de Junot, encarregava-se também de falar às imaginações o Sr. Octave Feuillet. O nome de FIaubert não era familiar aos folhetinistas. Ponson du Terrail trovejava no Si nai dos pequenos jornai s e das bibliotecas económicas. O Sr. Jules Claretie publicava um livro intitulado... (ninguém hoje se lembra do título) do qual diziam comovidamente os críticos: — Eis a (uma obra que há-de ficar!... Nós, enfim, éramos novos.
O que pensamos hoje do romance que escrevemos há catorze anos?... Pensamos simplesmente — louvores a Deus! — que ele é execrável; e nenhum de nós, quer como romancista, quer como critico, deseja, nem ao seu pior inimigo, um livro igual. Porque nele há um pouco de tudo quanto um romancista lhe não deveria pôr e qua se tudo quanto um crítico lhe deveria tirar
Poupemo-lo — para o não agravar fazendo-o em três volumes — à enumeração de todas as suas deformidades? Corramos um véu discreto sobre os seus mascarados de diversas alturas, sobre os seus médicos misteriosos, sobre os seus louros capitães ingleses, sobre as suas condessas fatais, sobre os seus tigres, sobre os seus elefantes, sobre os seus iates em que se arvoram, como pavilhões do ideal, len ços brancos de cambraia e renda, sobre os seus sinistros copos de ópio, sobre os seus cadáveres elegantes, sobre as suas toilettes românticas, sobre os seus cavalos esporeados por cavaleiros de capas alvadias desaparecendo envoltos no pó das fantásticas aventuras pela Porcalhota fora!...
Todas estas coisas, aliás simpáticas, comoventes por vezes sempre sinceras, desgostam todavia velhos escritores, que há muito desviaram os seus olhos das perspectivas enevoadas da senti mentalidade, para estudarem pacientemente e humildemente as claras realidades da sua rua.
Como permitimos pois que ser e publique um livro que, sendo to do de imaginação, cismado e não observado. desmente toda a campanha que temos feito pela arte de análise e de certeza objectiva?
Consentimo-lo porque entendemos que nenhum trabalhador deve parecer envergonhar-se do seu trabalho.
Conta-se que Murat, sendo rei de Nápoles, mandara pendurar na sala do trono o seu antigo chicote de postilhão, e muitas vezes, apontando para o ceptro, mostrava depois o açoite, gostando de repetir: Comecei por ali. Esta gloriosa história confirma o nosso parecer, sem com isto querermos dizer que ela se aplique às nossas pessoas. Como trono temos ainda a mesma velha cadeira em que escrevíamos há quinze anos; não temos dossel que nos cubra; e as nossas cabeças, que embranquecem não se cingem por enquanto de coroa alguma, nem de louros, nem de Nápoles.
Para nossa modesta satisfação basta-nos não ter cessado de trabalhar um só dia desde aquele em que datámos este livro até o instante em que ele nos reaparece inesperadamente na sua tercei ra edição, com um petulante aninho de triunfo que, à fé de Deus, não lhe vai mal!
Então, como agora, escrevíamos honestamente isto é o melhor que podíamos desse amor da perfeição, que é a honradez dos artistas, veio talvez a simpatia do público ao livro da nossa mocidade.
Há mais duas razões, para autorizar esta reedição. A primeira é que a publicação deste livro, fora de todos os mol des até o seu tempo consagrados, pode conter, para uma geração que precisa de a receber, uma tal lição de independência.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.