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#Ensaios#Literatura Brasileira

Ao longo de uma estrada

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

Margem do Turvo Novembro de 901

Considero, à porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que abriguei, este trecho torturante da estrada de Taboado, onde me colheu a noite.

E penso, desapontado, nas três mil léguas das quarenta e oito estradas romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora e forte desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava o Forum.

O viajante abalava por uma delas, a Via Flaminia, por exemplo, e contorneava todo o norte da Itália; entrava na Panonia; varava, adiante, a Moeda e a Tracia, seguindo por Heracléa até Constantinopla; e daí para a Bitínia, para a Capadócia, para Antióquia, atravessando o Tauros, e para a Sina, a Palestina e o Egito; inflectindo, afinal, vivamente, à. direita, perlongando todo o norte da África, de Alexandria a Tanger.

Neste longo percurso — atravessando pantanais e montanhas sobre paredões de pedra ou galerias subterrâneas, pisava o chão duro dos stracta enrijados, a cimento, cobertos pelas glareas de saibro sobre que se estendiam os ladrilhos largos dos silhares.

Por ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o pedestre desviava-se, a salvo, sobre as calçadas laterais de basalto, das margines, ladeadas de bancos intervalados e cômodos.

A viagens transcorriam rápidas naquelas avenidas continentais, animadas e vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para as Gálias ou para a Síria, e derivavam, vagarosas, as caravanas dos mercadores, estacando às vezes para que de permeio lhe passassem céleres, no ritmo acelerado da estratégia de Cesar, as cortes das legiões.

Há dois mil e tantos anos.

É natural que nos entristeçam hoje, contemplando este trecho medonho de estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives vivos, afundando em grotões, enfiando, feito num túnel, pelos tabocais que o cobrem, ou diluindo-se, impraticável, em tremedais extensos; — um picadão malgradado, de dezenas de léguas, atravessando todo o Estado de S. Paulo até ao Mato Grosso.

Dir-se-á que os tempos são outros, outros os nossos recursos, e que a linhas férreas substituem com vantagem aquelas construções monumentais da engenharia antiga, com maior economia de esforços e resultados incomparavelmente maiores.

Mas esta estrada de Taboado que, pelo seu traçado, é a mais importante não já de S. Paulo mas do Brasil inteiro, merecia trabalhos excepcionais. Tem um caráter continental tão frisante que devíamos, tanto quanto possível, aproximá-la de uma estrada romana.

Desenvolvendo-se do Jaboticabal ao porto do Paraná, que a batiza, o seu prolongamento levá-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas e do Paraguai, a Cuiabá, quase no centro geométrico da América do Sul. Teria, então, um comprimento de duzentas léguas escassas e se fosse construída — não diremos com o luxo estupendo dos caminhos antigos, nem mesmo como os modernos planck-roads do Canadá — mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros para sempre desfeitos com aterros firmes e drenagem completa, faixas reforçadas por uma macadamizacão pouco espessa embora, pontes que não constringissem a vazão do rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente espaçados, estações e postos de segurança garantindo e policiando o tráfego; assim constituída, aquela estrada duplicaria em poucos anos a vitalidade nacional.

Não idealizamos.

Entre os coeficientes de redução do nosso progresso, avulta uma condição geográfica, que toda a gente conhece.

O Brasil é compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado fundo das costas, essa diferenciação do espaço que em todos os tempos e lugares da Grécia antiga a Inglaterra de hoje e ao Japão, reage vigorosamente sobre as civilizações locais.

Por outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiriço, a sua estrutura geológica, matriz do facies topográfico — antemurais graníticas precintando planaltos — impropria-o ainda mais ao domínio franco.

Dai todo o esforço despendido para se modificar esta fatalidade geográfica.

Em torno do problema da viação geral do Brasil tem-se travado discussões entre as mais interessantes de toda a engenharia.

Começaram em 1870. Tiveram a princípio, como objetivo exclusivo, o abandono do perigoso desvio pelo Prata que, de 1850 a 1866, através de longa série de desastres diplomáticos enfeixados afinal numa campanha feroz, tornava precárias as comunicações com o Mato Grosso.

(continua...)

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