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#Ensaios#Literatura Brasileira

Temores vãos

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

Numa quase mania coletiva da perseguição, andamos, por vezes, às arrancadas com alguns espectros: o perigo alemão e o perigo ianque. Nunca, em toda a nossa vida histórica, o terror do estrangeiro assumiu tão alarmante aspecto, ou abalou tão profundamente as almas. Estamos, neste ponto, como os romanos da decadência depois dos revezes de Varus: escutamos o rumor longínquo da invasão. Uma diferença apenas: Átila não ruge o stella cadi, tellus fremit! descarregando-nos à cabeça o frankisk pesado, e sobre o chão as patas esterilizadoras do cavalo, é Guilherme II, um sonhador medieval desgarrado no industrialismo da Alemanha; e Genserico, a despeito da sua envergadura rija de cowboy dominador das pastagens, é Roosevelt, o grande professor da energia, o maior filósofo prático do século, o ríspido evangelista da vida intensa e proveitosa.

Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora. Esta última consideração é expressiva. Mostra que os receios são vãos.

De fato, atentando-se para a maior destas ameaças, a da absorção ianque, põe-se de manifesto que o imperialismo nos últimos tempos dominante na política norte-americana não significa o fato material de uma conquista de territórios, ou a expansão geográfica à custa do esmagamento das nacionalidades fracas — senão, numa esfera superior, o triunfo das atividades, o curso irresistível de um movimento industrial incomparável e a expansão naturalíssima de um país onde um individualismo esclarecido, suplantando a iniciativa oficial, sempre emperrada ou tardia, permitiu o desdobramento desafogado de todas as energias garantidas por um senso prático incomparável, por um largo sentimento da justiça e até por uma idealização maravilhosa dos mais elevados destinos da existência.

Esta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresistível de uma queda de potenciais. Mas não leva exclusivamente o vigor de uma indústria em busca de mercados, ou uma pletora de riquezas que impõe o desafogo de emigração forçada dos capitais senão também as mais belas conquistas morais do nosso tempo, em que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez mais ao respeito crescente da liberdade humana.

Sendo assim, é pelo menos singular que vejamos uma ameaça naquela civilização. Singular e injustificável. Tomemos um exemplo recentíssimo.

Quando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que em tão pouco tempo se alongara, num teatro de operações de 160o de longitude, da ilha de Cuba às extremas do Pacifico, a conquista das Filipinas pareceu a toda a gente uma intervenção desassombrada do ianque na partilha do continente asiático. Os melhores propagandistas de uma política liberal e respeitadora da autonomia de outros povos, os mesmos antiexpansionistas do North América, justificavam uma posse arduamente conseguida através de uma luta penosa e ferocíssima. Além disto, o arquipélago não decairia da situação anterior, permanecendo no sistema subalterno de colônia. Melhoraria com a troca das metrópoles; e as suas 114.000 milhas quadradas de terras fertilíssimas, onde se entranham as mais opulentas minas e pompeiam os primores de uma flora surpreendente, eram um novo palco que se abria às grandes maravilhas do trabalho. Realizava-se a profecia de J. Keill: a civilização, depois de contornar a terra, volvia ao berço fulgurante do Oriente, levando-lhe os tesouros de uma faina secular...

Deste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira "comissão filipina" a manter entre os tagalos o prestígio americano, consolidar a paz e instituir a justiça, viu-se neste aparato pacífico o primeiro sintoma da absorção inevitável. E era falso.

Aquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiescência de todas as nações, e pela submissão completa dos indígenas, sem nenhum empeço material que se lhe oponha, é, neste momento, duvidosa, problemática e talvez inexeqüível.

Não no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco argumentar incisivo, o homem mais competente para isto — Gould Shurmann, precisamente o chefe daquela primeira comissão, e o intérprete mais veraz, senão único, dos intuitos da política nos Estados Unidos naquele caso.

A sua linguagem é franca; não segreda ou coleia. no abafamento e nas minúcias das informações oficiais; vibra às claras e alto numa revista — The Ethical Record, de março último, onde o assunto, a great national question, está sob as vistas de todo o mundo.

(continua...)

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