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#Ensaios#Literatura Brasileira

O ideal americano

Por Euclides da Cunha (1907)

Euclides da Cunha (1866–1909) foi engenheiro, jornalista e escritor brasileiro, marcado pela análise crítica do país. Em Contrastes e Confrontos, reúne textos que discutem tensões sociais, políticas e culturais do Brasil republicano, com olhar científico e literário. A obra foi publicada originalmente em 1907, no Rio de Janeiro, consolidando sua reflexão sobre o país.

Roosevelt é um estilista medíocre. A frase adelgaça-se-lhe no distendido de uns períodos oratórios cheios de incidentes intermináveis e rematados pela simulcadência inaturável das mesmas idéias repisadas, volvidas e revolvidas sob todas as faces, com o sacrifício absoluto da forma à clareza, ou à exposição desatada em pormenores e minúcias exemplificadoras. Não escreve, leciona. Não doutrina, demonstra. Não generaliza, não sintetiza e não se compraz com os aspectos brilhantes de uma teoria: analisa, disseca, induz friamente, ensina.

Mas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, senão com a modéstia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.

E o grande repetidor da filosofia contemporânea. Nada diz de novo.

Diz tudo de útil.

O seu último livro, o Ideal Americano, é uma sistematização de truísmos, para adotarmos o anglicismo indispensável às coisas sabidíssimas e claras. E no primeiro momento, deletreadas as primeiras páginas, imaginamo-nos às voltas com um excêntrico rival de Marc Twain, abalançando-se a ressuscitar velharia e a demonstrar axiomas.

No entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. Há um encanto irresistível naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino rejuvenescido de coisas tão antigas - a energia, a ocupação aparente dos destinos de seu pais, vai, realmente, traçando todas as condições imprescindíveis à vida de todos os países.

Para nós, sobretudo, a sua leitura é imperiosa e urgente.

Copiamos, numa quase agitação reflexa, com o cérebro inerte, a Constituição norte-americana, arremetendo com as mais elementares noções do nosso tirocínio histórico e da nossa formação, violando do mesmo passo as nossas tradições e a nossa índole; é natural e obrigatório que lhe vejamos, a par da grandeza, os males, sobretudo quando eles entendem especialmente com a nossa situação presente e o nosso caráter nacional.

De fato, Roosevelt, ao delatar os "perigos excepcionais" que ameaçam a grande República, antepõe-lhes por vezes de relance, mas insistentemente, feito uma contraprova expressiva, o quadro da anarquia sul-americana; "rusguento grupo de Estados, premidos pelas revoluções, onde um único senão destaca mesmo como nação de segunda".

Deste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do perigo ianque, o estrênuo professor de energia põe, na frente da opinião ianque, o espantalho do perigo sul-americano. Temos medo daquela força; e, no entanto, ela é quem se assusta e foge apavorada da nossa fraqueza.

Ora, infelizmente para nós, a covardia paradoxal do colosso é mais compreensível que a infantilidade dos nossos receios.

Folheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos para logo uma novidade: o homem tão representativo do absorvente utilitarismo e do triunfo industrial da América do Norte é um idealista, um sonhador, um poeta incomparável de virtudes heróicas.

Para ele, as garantias de sucesso da sua terra estão menos nos prodígios da atividade e no assombro de uma riqueza material sem par, do que nas belíssimas tradições de honra, e eficiência, traduzidas na ordem política pelos nomes que se inserem entre os de Washington e Lincoln, e na ordem social pelo repontar ininterrupto dessas emoções generosas, que propelem aos verdadeiros estadistas e sem as quais as nações se transmudam "em trambolhos obstrutivos de alguns tratos da superfície terrestre". Não lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho; superpõe-lhes a glorificação permanente da honra nacional, da coragem e da persistência, do altruísmo, da lealdade e das grandes tradições provindas das façanhas passadas, formando a capacidade crescente para as empresas maiores do futuro...

Traçado este rumo, é inflexível. Caem-lhe sob o passo de carga de uma lógica inteiriça, confundidos, embolados e ruídos no mesmo esmagamento: — o político tortuoso e solerte que, malignado pelo oblíquo incurável da visão moral, faz da política um meio de existência e supre com a esperteza criminosa a superioridade de pensar; o doutrinador estéril que não transforma a vida numa força ativa e combatente; o indiferente que resmoneia, agressivo, contra a corrupção política ou administrativa, e não intervém num protesto vigoroso e alto, definito por atos decisivos; o jornalista que não exercita uma critica intrépida dos homens e dos partidos, ou se desfaz em lisonjarias indecorosas... e sobre todos eles, os que formam a platéia louvaminheira, não só para lhes explorar as ações como para lhas divinizar e aplaudir, garantindo-lhes no mesmo lance a impunidade dos crimes e a recompensa das males perpetrados.

Ao lermos estas páginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma alusão ferina. Ali está, latente, um comentário interlinear, de onde ressalta o pior da nossa desalentadora psicologia.

(continua...)

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