Círculo Linguístico de Praga

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Círculo Linguístico de Praga — em tcheco, Pražský lingvistický kroužek; em francês, Cercle linguistique de Prague — foi uma associação científica fundada em Praga, em 1926, por linguistas, filólogos, críticos literários, folcloristas e teóricos da literatura de diferentes nacionalidades. O grupo desempenhou papel central na constituição do estruturalismo europeu e na formulação de uma concepção funcional da linguagem, segundo a qual as unidades linguísticas devem ser estudadas como componentes de sistemas organizados para cumprir determinadas funções comunicativas.

Embora seja frequentemente lembrado por suas contribuições à fonologia, o Círculo de Praga não se limitou ao estudo dos sons da língua. Seus pesquisadores trabalharam também com sintaxe, morfologia, formação de palavras, semântica, estilística, tipologia linguística, teoria da língua literária, política linguística, poética, folclore, estética e semiótica. Entre os conceitos associados à tradição praguense encontram-se a oposição fonológica, o traço distintivo, a marcação, a neutralização, o arquifonema, a perspectiva funcional da frase, a estrutura tema–rema, a potencialidade dos fenômenos linguísticos, a diferenciação funcional das variedades de língua, a atualização estética e a função poética.

O Círculo não constituiu uma escola inteiramente homogênea. Seus membros compartilhavam certos princípios gerais, mas divergiam quanto à definição das unidades linguísticas, à natureza das funções da linguagem, à relação entre sincronia e diacronia e ao grau de formalização adequado à análise. A designação Escola de Praga refere-se, por isso, tanto à associação histórica criada em 1926 quanto a uma tradição intelectual mais ampla, desenvolvida por diferentes gerações de pesquisadores na Tchecoslováquia e em outros países.

Contexto histórico e intelectual[editar]

A formação do Círculo Linguístico de Praga deve ser situada no contexto político e cultural da Europa Central após a Primeira Guerra Mundial. A Tchecoslováquia, criada em 1918 com o desmembramento do Império Austro-Húngaro, reunia uma população linguisticamente heterogênea e procurava consolidar suas instituições científicas, educacionais e culturais. Praga tornou-se um importante centro de intercâmbio entre estudiosos tchecos, russos, alemães, austríacos, franceses e outros intelectuais europeus.

A cidade recebeu, durante a década de 1920, numerosos emigrados provenientes do antigo Império Russo. Entre eles estavam pesquisadores ligados ao Círculo Linguístico de Moscou, ao formalismo russo e aos novos estudos de poética e folclore. A presença desses intelectuais favoreceu o encontro entre diferentes tradições: a linguística histórico-comparativa centro-europeia, a reflexão de Ferdinand de Saussure, a psicologia e a filosofia de Edmund Husserl, Anton Marty e Karl Bühler, o formalismo russo, a filologia eslava e a tradição funcional representada por autores como Georg von der Gabelentz, Henry Sweet, Hermann Paul, Philipp Wegener e Otto Jespersen.

O surgimento da Escola de Praga relaciona-se também à insatisfação com alguns pressupostos dos neogramáticos. Os neogramáticos haviam promovido grande desenvolvimento da linguística histórica, especialmente por meio da formulação de leis fonéticas e da reconstrução de línguas. Para os praguenses, entretanto, a concentração exclusiva em mudanças isoladas podia produzir uma visão atomista da língua. Era necessário compreender como cada mudança afetava o conjunto do sistema e como as unidades se organizavam em função das necessidades comunicativas.

A leitura do Curso de Linguística Geral, atribuído a Saussure e publicado em 1916, ofereceu instrumentos decisivos para essa mudança de perspectiva. O princípio de que a língua constitui um sistema de valores definidos por relações e oposições foi amplamente incorporado pelo Círculo. Os praguenses, contudo, não aceitaram de maneira passiva todas as dicotomias saussurianas. Procuraram aproximar sincronia e diacronia, língua e fala, sistema e uso, estrutura e função.

Fundação e organização[editar]

A primeira reunião que deu origem ao Círculo ocorreu em 6 de outubro de 1926. Nessa ocasião, o linguista alemão Henrik Becker, que visitava Praga, apresentou uma conferência a um pequeno grupo formado por Vilém Mathesius, Roman Jakobson, Bohuslav Havránek, Bohumil Trnka e Jan Rypka. O encontro foi organizado por iniciativa de Mathesius, que se tornaria o primeiro presidente da associação e permaneceria no cargo até sua morte, em 1945.

A reunião de 1926 não representou o início absoluto das ideias posteriormente identificadas com a Escola de Praga. Mathesius já vinha desenvolvendo, desde o início do século XX, uma concepção sincrônica e funcional da língua. Em seu estudo de 1911 sobre a potencialidade dos fenômenos linguísticos, argumentara que a língua não devia ser considerada um mecanismo absolutamente uniforme: apresentava oscilações, tendências e possibilidades coexistentes. Jakobson, por sua vez, trouxera para Praga a experiência do Círculo Linguístico de Moscou e do formalismo russo.

O grupo passou a promover reuniões regulares, em geral organizadas em torno de conferências seguidas de debates. O formato das sessões favorecia a discussão coletiva e a confrontação entre perspectivas. Além dos membros residentes em Praga, participavam pesquisadores de outras cidades e países, pessoalmente ou por colaboração editorial. O Círculo constituiu-se, assim, como uma rede internacional, e não apenas como uma associação local.

Entre os pesquisadores que participaram das atividades ou mantiveram colaboração estreita com o grupo estavam Nikolai Trubetzkoy, Sergei Karcevski, Petr Bogatyrev, Jan Mukařovský, Josef Vachek, Vladimír Skalička, Pavel Trost, René Wellek, Dmitri Tchijevsky, Jiří Veltruský, František Trávníček, Jan Kořínek, André Martinet, Lucien Tesnière e Aleksandr Isačenko. Também houve intercâmbio com representantes da Escola de Genebra, como Charles Bally e Albert Sechehaye, e com linguistas como Louis Hjelmslev, Jerzy Kuryłowicz e Alf Sommerfelt.

A língua de circulação internacional mais utilizada nas primeiras publicações foi o francês. A adoção do francês permitia que trabalhos produzidos em Praga alcançassem pesquisadores de diferentes países. Textos também eram publicados em tcheco, alemão, russo e outras línguas, característica que expressava a composição multinacional do Círculo.

As Teses de 1929[editar]

O primeiro documento programático de grande alcance do Círculo foi apresentado ao Primeiro Congresso Internacional de Filólogos Eslavos, realizado em Praga em 1929. Conhecido como Teses do Círculo Linguístico de Praga ou simplesmente Teses de 1929, o texto foi publicado em francês no primeiro volume dos Travaux du Cercle Linguistique de Prague.

As Teses constituem uma obra coletiva. Não devem ser lidas como exposição integral do pensamento de um único autor, mas como formulação de um programa de pesquisa comum. O documento tratava da natureza e do método da linguística, das tarefas do estudo dos sistemas eslavos, da língua literária, da poética e de problemas de descrição fonológica e gramatical.

A primeira tese define a língua como um sistema funcional. A atividade linguística aparece como orientada para uma finalidade: os falantes empregam meios linguísticos para produzir compreensão, expressão, interação e outros efeitos. A análise deve, portanto, relacionar os meios disponíveis no sistema às funções que desempenham.

Essa concepção não implica que toda forma linguística tenha sido conscientemente criada para uma finalidade precisa. O funcionalismo praguense é predominantemente metodológico: ao investigar uma unidade, o linguista pergunta que papel ela exerce na organização do sistema e na comunicação. Uma distinção fonológica, uma construção sintática ou uma escolha lexical são examinadas segundo sua capacidade de diferenciar significados, organizar informações, caracterizar estilos ou atender a determinadas situações comunicativas.

As Teses também rejeitam a separação absoluta entre sincronia e diacronia. O estado de uma língua é resultado de processos históricos, mas a mudança não pode ser entendida como simples sucessão de fatos isolados. Uma alteração adquire importância linguística quando modifica relações no interior do sistema. Ao mesmo tempo, um sistema sincrônico contém elementos de diferentes idades, tendências emergentes, resíduos de fases anteriores e possibilidades de transformação.

Outro princípio importante é a comparação estrutural. Em vez de comparar apenas formas historicamente cognatas, a linguística poderia confrontar sistemas para identificar semelhanças e diferenças em sua organização. Essa orientação contribuiu para o desenvolvimento da tipologia linguística e da caracterologia das línguas.

As seções dedicadas à língua literária afirmavam que a variedade padrão devia ser estudada segundo as funções sociais e culturais que desempenhava. A estabilidade era necessária para assegurar continuidade e inteligibilidade, mas a língua literária também precisava de flexibilidade para responder a novas exigências científicas, administrativas, artísticas e cotidianas.

Na parte referente à linguagem poética, as Teses defendiam que os procedimentos literários não fossem tratados como simples ornamentação acrescentada a um conteúdo previamente constituído. Na poesia, os elementos linguísticos — sons, ritmos, paralelismos, construções sintáticas e relações semânticas — adquirem organização particular e tornam-se perceptíveis como componentes da própria mensagem.

Princípios teóricos gerais[editar]

Língua como sistema[editar]

Para os praguenses, uma língua não é um inventário de elementos independentes, mas um conjunto organizado de relações. Uma unidade só pode ser descrita adequadamente quando se determina sua posição no sistema. Um som, por exemplo, não funciona como fonema em razão de suas propriedades físicas isoladas, mas por se opor a outros sons e participar da distinção entre unidades significativas.

Essa concepção é estrutural porque atribui primazia às relações. É funcional porque relaciona essas estruturas às tarefas cumpridas pela linguagem. O estruturalismo e o funcionalismo não constituem, na Escola de Praga, orientações incompatíveis: a estrutura é considerada uma organização de meios funcionalmente diferenciados.

O sistema linguístico não é concebido como inteiramente fechado ou estático. Mathesius falava em potencialidade; Jakobson e Trubetzkoy investigavam a reorganização dos sistemas fonológicos; Havránek analisava a diferenciação das variedades segundo suas funções; membros posteriores da tradição praguense desenvolveram noções de centro e periferia. Em todos esses casos, o sistema aparece como relativamente estável, mas internamente heterogêneo e historicamente transformável.

Estrutura e função[editar]

A noção de função assume sentidos diferentes nos trabalhos praguenses. Pode designar a finalidade geral da linguagem na comunicação; a contribuição de uma unidade para a distinção de significados; o papel desempenhado por um elemento em uma estrutura maior; ou ainda uma modalidade específica de uso, como a função estética, científica, prática ou expressiva.

Na fonologia, um traço é funcional quando participa de uma oposição capaz de distinguir unidades. Na sintaxe, a ordem dos constituintes pode exercer a função de distribuir informação conhecida e nova. Na teoria da língua literária, diferentes recursos respondem às exigências de diferentes esferas sociais. Na poética, certos procedimentos concentram a atenção na organização material e formal da mensagem.

A diversidade desses empregos explica por que não existe uma única definição de funcionalismo válida para todos os membros do Círculo. O que os aproxima é a recusa de descrever formas sem considerar sua inserção em totalidades organizadas e em práticas comunicativas.

Sincronia e diacronia[editar]

Saussure distinguira a análise sincrônica, voltada a um estado de língua, da análise diacrônica, dedicada às mudanças. Os praguenses aceitaram a utilidade metodológica da distinção, mas criticaram sua transformação em separação absoluta.

Jakobson sustentou que as mudanças fonológicas precisam ser compreendidas estruturalmente. Quando um fonema desaparece, se divide ou modifica seu campo de realização, as consequências atingem as oposições que constituem o sistema. A história de uma língua é, desse ponto de vista, uma sucessão de reorganizações estruturais.

A análise sincrônica também deve reconhecer a presença de variação e de tendências. Formas antigas e recentes podem coexistir; uma oposição pode ter rendimento diferente em setores do vocabulário; uma construção pode estar em expansão ou retração. Sincronia não equivale, portanto, a imobilidade.

Oposição e valor[editar]

O conceito de oposição é central na tradição praguense. Uma unidade linguística possui valor porque se distingue de outras unidades. Em fonologia, uma oposição pode contrastar segmentos sonoros; em morfologia, categorias como singular e plural, presente e passado ou nominativo e acusativo; no léxico, termos relacionados por contraste; na poética, séries paralelas de elementos.

As oposições não são necessariamente simétricas. Uma forma pode apresentar uma propriedade que outra não apresenta. Esse tipo de relação tornou-se especialmente importante na teoria da marcação.

Marcação[editar]

A teoria da marcação foi elaborada principalmente nos trabalhos de Trubetzkoy e Jakobson. Em uma oposição privativa, um dos termos apresenta determinada propriedade, enquanto o outro não a apresenta. O primeiro é denominado marcado; o segundo, não marcado.

Na fonologia, uma consoante sonora pode ser marcada pela presença de sonoridade em oposição a uma consoante não sonora. A aplicação da marcação, porém, não se limitou aos sons. Jakobson estendeu o princípio a categorias gramaticais e semânticas. Em certos contextos, o termo não marcado pode possuir distribuição mais ampla e ser empregado sem que a propriedade contrastiva esteja explicitamente em questão.

A noção tornou-se influente em diferentes correntes linguísticas, mas também recebeu interpretações variadas. Marcação formal, frequência, complexidade, neutralidade semântica e ordem de aquisição nem sempre coincidem. A literatura posterior mostrou que é necessário distinguir esses critérios, em vez de supor que todo termo não marcado seja simultaneamente mais simples, mais frequente e adquirido mais cedo.

Centro e periferia[editar]

A distinção entre centro e periferia foi desenvolvida de maneira mais sistemática por gerações posteriores da Escola de Praga. O sistema linguístico não apresenta o mesmo grau de regularidade em todas as suas áreas. Algumas unidades integram o núcleo produtivo e estável da língua; outras ocupam posições marginais, apresentam distribuição restrita ou combinam propriedades de categorias diferentes.

A periferia não constitui um depósito de exceções sem relevância teórica. Pode revelar zonas de transição, mudanças em curso, contatos entre subsistemas e limites das classificações. A perspectiva centro–periferia permite substituir modelos rigidamente binários por descrições graduais sem abandonar a ideia de estrutura.

Principais integrantes[editar]

Vilém Mathesius[editar]

Vilém Mathesius (1882–1945) foi o principal articulador da fundação do Círculo e seu primeiro presidente. Professor de língua e literatura inglesas na Universidade Carolina, desenvolveu uma concepção funcional da linguagem antes mesmo da formação da associação.

Seu estudo sobre a potencialidade dos fenômenos linguísticos, publicado em 1911, contestava a ideia de que a língua de uma comunidade fosse completamente uniforme. Mathesius observava oscilações na fala de indivíduos e grupos e defendia que essas variações integravam a própria realidade linguística.

Mathesius trabalhou com análise contrastiva, caracterologia linguística, sintaxe e organização informacional da frase. Distinguiu a divisão formal da oração, baseada em categorias gramaticais, de sua divisão atual ou comunicativa. Nesta última, a frase organiza-se segundo aquilo de que se fala e aquilo que se afirma a respeito. Essa proposta tornou-se uma das bases da perspectiva funcional da frase.

Roman Jakobson[editar]

Roman Jakobson (1896–1982) foi um dos principais responsáveis pela articulação entre o formalismo russo, o Círculo de Moscou e a Escola de Praga. Sua produção abrangeu fonologia, morfologia, aquisição da linguagem, afasia, poética, folclore, comunicação e semiótica.

No período praguense, Jakobson investigou a estrutura dos sistemas fonológicos, as mudanças sonoras, as correlações de traços distintivos e a aplicação da marcação a categorias linguísticas. Em colaboração com Trubetzkoy, ajudou a consolidar a fonologia como disciplina voltada à função distintiva dos sons.

Após deixar a Tchecoslováquia em consequência da ocupação nazista, Jakobson passou pela Escandinávia e, posteriormente, estabeleceu-se nos Estados Unidos. Ali colaborou com pesquisadores como Morris Halle e Claude Lévi-Strauss e contribuiu para a difusão internacional de princípios praguenses.

Seu modelo das funções da linguagem, formulado de maneira madura no período norte-americano, distingue funções referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética. Embora essa formulação seja posterior ao período clássico do Círculo, prolonga a concepção funcional desenvolvida em Praga.

Nikolai Trubetzkoy[editar]

Nikolai Trubetzkoy (1890–1938), linguista russo radicado em Viena, manteve colaboração intensa com o Círculo, embora não residisse permanentemente em Praga. Sua obra mais conhecida, Grundzüge der Phonologie, publicada postumamente em 1939, sistematizou princípios fundamentais da fonologia estrutural.

Trubetzkoy distinguiu fonética e fonologia, formulou procedimentos para identificação de fonemas, classificou tipos de oposição e desenvolveu os conceitos de neutralização e arquifonema. Também trabalhou com morfonologia, entendida como estudo das relações entre estrutura fonológica e estrutura morfológica.

A correspondência entre Trubetzkoy e Jakobson documenta tanto a cooperação quanto as divergências entre ambos. A fonologia praguense não deve, por isso, ser apresentada como construção individual ou como doutrina plenamente consensual.

Sergei Karcevski[editar]

Sergei Karcevski (1884–1955) participou da circulação das ideias saussurianas entre Genebra, Moscou e Praga. Seu trabalho sobre a natureza assimétrica do signo linguístico teve importância para a compreensão da relação entre forma e significado.

Segundo Karcevski, o signo precisa apresentar relativa estabilidade para funcionar socialmente, mas também flexibilidade suficiente para ser aplicado a novas situações. A forma pode adquirir novos sentidos, e um mesmo conteúdo pode ser expresso por diferentes formas. Essa assimetria impede que o sistema linguístico seja reduzido a correspondências fixas e biunívocas.

Bohuslav Havránek[editar]

Bohuslav Havránek (1893–1978) contribuiu para a dialetologia, a linguística eslava, a teoria da língua literária e a política linguística. Foi um dos principais responsáveis pela aplicação do funcionalismo ao estudo da variedade padrão.

Havránek distinguiu diferentes formas de uso da língua conforme suas funções sociais. A língua literária não seria uma variedade naturalmente superior, mas um sistema historicamente elaborado para responder a necessidades culturais complexas. Sua relativa estabilidade, sua codificação e sua diferenciação estilística relacionam-se às funções que desempenha.

No estudo da linguagem literária, Havránek diferenciou automatização e atualização. A automatização ocorre quando os recursos linguísticos são empregados de modo habitual e pouco perceptível. A atualização torna uma expressão especialmente saliente, rompendo expectativas e chamando atenção para sua forma. Essa distinção foi importante para a teoria praguense da linguagem poética.

Jan Mukařovský[editar]

Jan Mukařovský (1891–1975) foi uma das figuras centrais do estruturalismo estético e da semiótica de Praga. Aplicou princípios relacionais ao estudo da literatura e das artes, analisando a obra como signo e como estrutura inserida em normas e valores sociais.

Para Mukařovský, a função estética não se restringe a objetos convencionalmente classificados como arte. Ela pode aparecer em diferentes práticas, embora adquira predominância particular na obra artística. O valor estético não é propriedade imutável do objeto, pois depende de normas coletivas historicamente variáveis.

Sua teoria da atualização descreve a linguagem poética como reorganização dos recursos linguísticos. Na comunicação prática, as formas tendem a tornar-se transparentes em relação ao referente; na poesia, os signos e suas relações tornam-se perceptíveis. Isso não significa que a poesia seja desprovida de referência, mas que a organização da mensagem adquire peso especial.

Bohumil Trnka[editar]

Bohumil Trnka (1895–1984), anglicista e linguista, participou da reunião inaugural do Círculo. Trabalhou com fonologia, morfologia, sintaxe, estatística linguística e história da língua inglesa. Seus estudos contribuíram para a caracterologia das línguas e para a análise quantitativa de estruturas fonológicas e lexicais.

Trnka teve também papel importante na continuidade da tradição praguense durante os períodos em que a associação não pôde funcionar regularmente. Em torno dele e de Josef Vachek manteve-se um núcleo dedicado à linguística funcional.

Josef Vachek[editar]

Josef Vachek (1909–1996) integrou a geração mais jovem do período clássico e tornou-se um dos principais historiadores e divulgadores da Escola de Praga. Trabalhou especialmente com fonologia, língua escrita, grafemática e contraste entre sistemas linguísticos.

Vachek criticou a ideia de que a escrita fosse apenas transcrição secundária da fala. Para ele, língua falada e língua escrita constituem normas funcionalmente diferenciadas, dotadas de recursos próprios. A escrita pode explorar segmentação gráfica, pontuação, disposição espacial e convenções que não possuem correspondência direta com elementos da fala.

Suas antologias, dicionários terminológicos e estudos históricos foram decisivos para a preservação e a difusão internacional da produção do Círculo.

Vladimír Skalička[editar]

Vladimír Skalička (1909–1991) destacou-se no campo da tipologia linguística. Em vez de classificar as línguas em tipos rígidos e mutuamente exclusivos, propôs tipos ideais definidos por conjuntos de propriedades correlacionadas.

Uma língua concreta pode combinar características de diferentes tipos. Os tipos aglutinante, flexional, isolante, polissintético e introflexivo funcionam, assim, como construções analíticas. A proposta tornou possível descrever tendências estruturais sem reduzir a diversidade das línguas a categorias estanques.

Petr Bogatyrev[editar]

Petr Bogatyrev (1893–1971) trabalhou com folclore, teatro popular, etnografia e semiótica. Sua colaboração com Jakobson contribuiu para tratar os fatos folclóricos como fenômenos coletivos regulados por convenções, e não como simples criações individuais transmitidas passivamente.

Bogatyrev analisou roupas, rituais, teatro e costumes como sistemas de signos. Seus trabalhos ajudaram a ampliar o método estrutural-funcional para além da linguagem verbal.

René Wellek[editar]

René Wellek (1903–1995), crítico e historiador da literatura, participou das atividades do Círculo antes de desenvolver sua carreira nos Estados Unidos. Manteve diálogo com a fenomenologia, o formalismo e o estruturalismo de Praga.

Wellek tornou-se conhecido internacionalmente por trabalhos de teoria literária e literatura comparada. Sua trajetória ilustra a difusão das ideias centro-europeias em instituições acadêmicas anglófonas.

Lucien Tesnière[editar]

Lucien Tesnière (1893–1954), linguista francês que lecionou em Liubliana e Estrasburgo, manteve vínculos com o Círculo. Sua sintaxe estrutural, embora possua desenvolvimento próprio, compartilhava com os praguenses a tentativa de construir para a sintaxe uma análise relacional comparável àquela realizada pela fonologia.

Tesnière descreveu a frase como estrutura de dependências organizada em torno do verbo. Sua teoria da valência examina o número e o tipo de participantes requeridos por um predicado. A obra Éléments de syntaxe structurale, publicada postumamente em 1959, tornou-se referência para as gramáticas de dependência.

Fonética e fonologia[editar]

A distinção entre fonética e fonologia é uma das contribuições mais conhecidas da Escola de Praga. A fonética estuda os sons em suas propriedades articulatórias, acústicas e perceptivas. A fonologia investiga como diferenças sonoras são utilizadas no sistema de uma língua para distinguir unidades significativas.

Essa separação não implica ausência de relação entre as disciplinas. A fonologia depende de dados fonéticos, mas seleciona apenas as propriedades relevantes para a organização linguística. Duas realizações acusticamente diferentes podem funcionar como variantes de um mesmo fonema; diferenças relativamente pequenas podem, em outra língua, sustentar uma oposição funcional.

Fonema[editar]

O fonema é definido por sua posição em um sistema de oposições. Não corresponde simplesmente a um som material nem a uma imagem psicológica isolada. Constitui uma unidade abstrata cuja função principal é diferenciar significados.

A identificação de fonemas envolve a investigação das possibilidades de contraste. Quando a substituição de um segmento por outro produz diferença entre palavras ou formas gramaticais, há indício de oposição fonológica. A análise também precisa considerar distribuição, variação contextual e neutralização.

Oposições fonológicas[editar]

Trubetzkoy propôs diferentes classificações das oposições. Quanto à relação entre seus membros, distinguiu oposições:

  • privativas, em que um membro possui determinada propriedade e o outro não;
  • graduais, em que os membros apresentam diferentes graus de uma propriedade;
  • equipolentes, em que cada membro possui características positivas próprias, sem que a relação possa ser reduzida à presença ou ausência de um único traço.

As oposições também podem ser classificadas conforme sua relação com o sistema total e conforme sua estabilidade em diferentes contextos. Essas classificações procuravam descrever não apenas os segmentos, mas a arquitetura dos inventários fonológicos.

Neutralização e arquifonema[editar]

Uma oposição existente em determinados contextos pode deixar de funcionar em outros. Esse fenômeno é denominado neutralização. Em posição de neutralização, a diferença entre dois fonemas não é utilizada para distinguir significados.

Trubetzkoy chamou de arquifonema o conjunto de propriedades comuns aos membros de uma oposição neutralizada. O conceito permitia representar a suspensão contextual de um contraste sem identificar automaticamente o resultado com um dos fonemas envolvidos.

A teoria do arquifonema foi posteriormente discutida e reformulada por diferentes correntes. Mesmo onde a terminologia não foi preservada, a análise da neutralização permaneceu central para a fonologia.

Traços distintivos[editar]

Jakobson desenvolveu progressivamente a concepção de que os fonemas podem ser decompostos em propriedades contrastivas. Em trabalhos posteriores, realizados com Gunnar Fant e Morris Halle, os traços distintivos foram apresentados como componentes binários e relacionados a propriedades acústicas e articulatórias.

A teoria dos traços teve grande impacto sobre a fonologia estrutural e a fonologia gerativa. As listas e definições de traços foram modificadas ao longo do tempo, mas permaneceu o princípio de que os segmentos não são unidades indivisíveis: organizam-se por combinações de propriedades que participam de oposições.

Morfonologia[editar]

A morfonologia estuda a interação entre estrutura fonológica e estrutura morfológica, especialmente as alternâncias que ocorrem em paradigmas e processos de formação de palavras. Trubetzkoy empregou o termo para designar um campo que examinaria a composição fonológica dos morfemas, suas combinações e as alternâncias com função morfológica.

O desenvolvimento posterior da morfofonêmica e de teorias fonológicas não lineares retomou muitos desses problemas, embora com instrumentos diferentes.

Morfologia, léxico e formação de palavras[editar]

A produção praguense em morfologia é menos conhecida internacionalmente que sua fonologia, mas constitui parte importante da tradição. A análise morfológica aplicou os conceitos de oposição, marcação e função às categorias gramaticais.

Jakobson examinou os casos gramaticais das línguas eslavas como sistemas estruturados. Em vez de atribuir a cada caso uma lista de usos independentes, procurou formular significados gerais capazes de explicar suas diferentes ocorrências. Essa busca por invariantes semânticas influenciou estudos posteriores de categorias gramaticais.

A teoria da formação de palavras foi desenvolvida especialmente por Miloš Dokulil. Sua abordagem onomasiológica partia das categorias conceituais e das necessidades de nomeação para investigar os processos derivacionais disponíveis em uma língua. A formação lexical era analisada como interação entre estrutura semântica, forma morfológica e função denominativa.

Josef Filipec e outros pesquisadores desenvolveram estudos de lexicologia e lexicografia segundo princípios estruturais e funcionais. O léxico era compreendido como sistema complexo, marcado por relações de sinonímia, antonímia, hiperonímia, polissemia e diferenciação estilística.

Perspectiva funcional da frase[editar]

A perspectiva funcional da frase é uma das principais contribuições praguenses para a sintaxe e para o estudo da organização informacional. Sua origem encontra-se na distinção proposta por Mathesius entre a estrutura gramatical da frase e sua divisão comunicativa.

Uma frase pode ser analisada segundo sujeito, predicado, objetos e complementos, mas também segundo a maneira como apresenta informação em um contexto. Mathesius distinguiu o ponto de partida do enunciado daquilo que se afirma sobre ele. A tradição posterior empregou frequentemente os termos tema e rema.

O tema costuma relacionar-se ao elemento contextualizado ou tomado como base da comunicação. O rema apresenta a contribuição informativa principal do enunciado. Tema não equivale necessariamente a sujeito gramatical, nem rema a predicado. A correspondência depende da ordem das palavras, da entoação, da construção sintática e do contexto.

František Daneš desenvolveu o estudo da progressão temática, isto é, das maneiras pelas quais os temas e remas se encadeiam em sequências textuais. Um rema pode tornar-se tema do enunciado seguinte; diferentes frases podem compartilhar um tema constante; temas particulares podem derivar de um hipertema mais geral.

Jan Firbas introduziu o conceito de dinamismo comunicativo. Os elementos de uma frase apresentam diferentes graus de contribuição para o avanço da comunicação. O dinamismo resulta da interação entre contexto, semântica, estrutura linear e, na fala, entoação.

A perspectiva funcional da frase antecipou problemas posteriormente estudados pela linguística textual, pela pragmática e pelas teorias da estrutura informacional. Sua terminologia varia entre autores, e as correspondências com conceitos como tópico, foco, dado e novo não são exatas.

Língua padrão, cultura linguística e diferenciação funcional[editar]

Os membros do Círculo participaram ativamente de debates sobre a língua tcheca padrão. A criação da Tchecoslováquia aumentara a necessidade de empregar o tcheco em administração, ciência, ensino, imprensa e vida pública. Surgiram controvérsias entre orientações puristas, que procuravam eliminar formas consideradas inadequadas ou estrangeiras, e propostas favoráveis a uma avaliação funcional do uso.

Havránek, Mathesius e outros praguenses argumentaram que a correção não deveria ser definida apenas pela antiguidade de uma forma ou por sua origem. Era necessário observar a norma efetivamente estabilizada, a inteligibilidade, a produtividade e a adequação às funções da língua padrão.

A norma corresponde ao conjunto de regularidades aceitas por uma comunidade, enquanto a codificação consiste na descrição e sistematização dessas regularidades em gramáticas, dicionários e manuais. A codificação pode influenciar a norma, mas não deve ser confundida com ela nem tratada como fonte autônoma de todos os usos legítimos.

A língua padrão caracteriza-se por relativa estabilidade, mas também por diferenciação. Uma comunidade moderna necessita de recursos para comunicação cotidiana, produção científica, administração, jornalismo, literatura e outras esferas. Cada domínio favorece determinadas escolhas lexicais, sintáticas e textuais.

O conceito de cultura linguística designa a reflexão sobre o desenvolvimento e o uso eficiente da língua. Em sua formulação praguense, não se tratava apenas de conservar formas tradicionais, mas de promover recursos adequados às necessidades sociais. Essa orientação exerceu influência sobre políticas linguísticas e processos de padronização em diferentes países.

A abordagem recebeu também críticas. A intervenção institucional sobre a língua pode transformar-se em prescrição excessiva, e a identificação entre língua padrão e necessidades coletivas pode ocultar conflitos sociais. Estudos sociolinguísticos posteriores chamaram atenção para relações de poder, desigualdade e estigmatização que não ocupavam o centro de muitas formulações clássicas.

Linguagem poética e função estética[editar]

A teoria literária praguense desenvolveu-se em diálogo com o formalismo russo, mas ampliou sua atenção para a dimensão social, histórica e semiótica da obra. A literatura passou a ser tratada como sistema de normas e procedimentos em transformação.

Na linguagem prática, os signos tendem a atuar como meios relativamente transparentes de referência. Na linguagem poética, a organização do próprio signo torna-se mais perceptível. Sons, repetições, paralelismos, ritmos, figuras e desvios de expectativa adquirem função estrutural.

A noção de atualização aproxima-se do conceito formalista de estranhamento, mas não é idêntica a ele. Um recurso atualizado destaca-se em relação a uma norma de fundo. Como as normas mudam, um procedimento inicialmente inovador pode automatizar-se, enquanto formas antes comuns podem adquirir novo valor estético.

Mukařovský definiu a obra de arte como signo autônomo, sem com isso negar sua relação com a realidade social. A autonomia refere-se ao modo particular de organização e significação da obra, não ao isolamento absoluto em relação à história.

A função estética pode entrar em relação com funções práticas, religiosas, políticas ou informativas. Em uma obra artística, ela tende a ocupar posição dominante, reorganizando as demais. O conceito de dominância, associado também a Jakobson, descreve o componente que governa e transforma a hierarquia interna de uma estrutura.

O modelo funcional da comunicação[editar]

O conhecido modelo de comunicação de Jakobson foi apresentado em sua forma mais difundida em 1960, depois do período clássico do Círculo, mas sistematiza preocupações presentes na tradição praguense.

Jakobson relacionou seis fatores da comunicação a seis funções predominantes:

  • ao contexto, a função referencial;
  • ao remetente, a função emotiva;
  • ao destinatário, a função conativa;
  • ao contato, a função fática;
  • ao código, a função metalinguística;
  • à mensagem, a função poética.

Um enunciado raramente realiza apenas uma função. O que varia é a hierarquia entre elas. Uma ordem pode apresentar predominância conativa; uma definição, predominância metalinguística; uma saudação, predominância fática; um poema, predominância poética.

A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação. Isso significa que semelhanças, contrastes, paralelismos e recorrências entre unidades escolhidas passam a organizar a sequência. A fórmula não reduz a poesia à repetição sonora, pois pode envolver estruturas gramaticais, semânticas e rítmicas.

O modelo tornou-se amplamente utilizado no ensino, mas sofreu simplificações. As funções não devem ser entendidas como tipos mutuamente exclusivos de texto, nem como etiquetas determinadas apenas pela intenção psicológica do falante.

Tipologia e caracterologia linguística[editar]

A Escola de Praga contribuiu para a renovação da tipologia. A comparação entre línguas não se limitava à genealogia, mas examinava soluções estruturais oferecidas para problemas semelhantes.

Mathesius empregou a expressão caracterologia linguística para designar a descrição dos traços estruturais característicos de uma língua. Essa abordagem teve importância para a comparação entre tcheco, inglês, alemão e outras línguas.

Skalička elaborou uma tipologia baseada em tipos ideais. Cada tipo reúne propriedades que tendem a ocorrer conjuntamente. O tipo aglutinante, por exemplo, associa-se a determinadas relações entre morfema, palavra, paradigma e sintaxe. Nenhuma língua precisa realizar integralmente um tipo.

A tipologia praguense rejeita a hierarquização evolucionista das línguas. Tipos diferentes representam formas distintas de organização, não estágios obrigatórios de uma evolução que conduziria a uma estrutura superior.

Língua falada e língua escrita[editar]

Josef Vachek desenvolveu uma teoria funcional da língua escrita. A tradição linguística frequentemente tratara a escrita como representação imperfeita da fala. Vachek reconhecia a prioridade histórica e biológica da linguagem oral, mas defendia que, em comunidades letradas, fala e escrita constituíam sistemas normativos diferenciados.

A norma falada utiliza entoação, ritmo, pausas, intensidade, gestos e interação imediata. A norma escrita explora segmentação gráfica, ortografia, pontuação, disposição espacial e possibilidade de revisão. As duas modalidades podem expressar conteúdos semelhantes, mas não são funcionalmente idênticas.

Essa concepção antecipou estudos contemporâneos sobre oralidade e letramento. Também permite analisar a ortografia não apenas como reprodução de sons, mas como sistema que pode representar relações morfológicas, diferenças lexicais e convenções históricas.

Interdisciplinaridade[editar]

Uma característica essencial do Círculo foi a circulação de conceitos entre linguística, literatura, folclore, teatro e estética. O método estrutural-funcional não era considerado exclusivo do sistema fonológico.

Bogatyrev estudou trajes e manifestações folclóricas como sistemas de signos. Mukařovský analisou pintura, arquitetura, cinema e teatro. Veltruský investigou o signo teatral e a função dos objetos em cena. Jakobson examinou poesia, comunicação, afasia e aquisição da linguagem.

A interdisciplinaridade praguense contribuiu para o desenvolvimento da semiótica. Um fenômeno cultural podia ser analisado como estrutura composta por elementos cujos valores dependiam de relações internas e de funções sociais.

Publicações[editar]

Em 1929, o Círculo iniciou a série Travaux du Cercle Linguistique de Prague. Os volumes reuniram trabalhos de membros e colaboradores internacionais e tiveram grande circulação na linguística europeia.

O primeiro volume continha as Teses de 1929. Volumes posteriores publicaram estudos de fonologia, morfologia, línguas eslavas, poética e teoria literária. Os Travaux ajudaram a consolidar uma terminologia internacional e a apresentar o programa do grupo em congressos científicos.

Em 1935, foi criada a revista tcheca Slovo a slovesnost — aproximadamente, “Palavra e arte verbal” —, dedicada à teoria linguística, à língua literária e aos estudos de literatura. A revista tornou-se um dos principais veículos da tradição praguense e continuou a ser publicada sob diferentes condições políticas.

A série Travaux linguistiques de Prague, iniciada na década de 1960, procurou retomar o projeto internacional dos antigos Travaux. Novas séries e publicações foram criadas após a reorganização do Círculo no fim do século XX.

Guerra, dispersão e interrupção das atividades[editar]

A ocupação alemã da Tchecoslováquia, iniciada em 1939, atingiu profundamente a vida acadêmica. As universidades tchecas foram fechadas pelos nazistas em novembro daquele ano, e a cooperação científica internacional tornou-se extremamente difícil.

Trubetzkoy morrera em 1938. Jakobson deixou Praga e passou pela Dinamarca, Noruega e Suécia antes de emigrar para os Estados Unidos. Mathesius morreu em 1945. Outros membros enfrentaram perseguição, deslocamento, censura ou restrições institucionais.

O Círculo retomou parte de suas atividades após a Segunda Guerra Mundial, mas a reorganização política da Tchecoslováquia depois de 1948 alterou o ambiente científico. A imposição de orientações ideológicas inspiradas no stalinismo e a reestruturação das instituições acadêmicas limitaram a continuidade da associação. O Círculo deixou de funcionar como organização autônoma no início da década de 1950.

A interrupção institucional não significou desaparecimento da tradição. Pesquisadores como Bohumil Trnka, Josef Vachek, Miloš Dokulil, František Daneš, Jan Firbas, Karel Hausenblas, Miroslav Komárek e outros continuaram a desenvolver abordagens funcionais e estruturais.

Desenvolvimentos posteriores[editar]

A chamada segunda geração da Escola de Praga ampliou a investigação para morfologia, formação de palavras, sintaxe, semântica, estilística e linguística textual.

Daneš desenvolveu a teoria da progressão temática e trabalhou com sintaxe, semântica, texto e cultura linguística. Firbas aprofundou a perspectiva funcional da frase por meio do conceito de dinamismo comunicativo. Dokulil formulou uma teoria onomasiológica da formação de palavras. Hausenblas contribuiu para a estilística funcional e a teoria do texto.

Petr Sgall e colaboradores desenvolveram a descrição funcional gerativa, modelo formal de gramática que combinou elementos da tradição praguense com problemas levantados pela linguística gerativa. O modelo distinguiu diferentes níveis de representação e dedicou atenção à estrutura tópico–foco.

Durante a década de 1960, houve maior abertura para a recuperação do legado clássico. A invasão da Tchecoslováquia pelas forças do Pacto de Varsóvia, em 1968, e o período posterior de “normalização” novamente restringiram atividades científicas e contatos internacionais.

O Círculo Linguístico de Praga foi formalmente reativado em 1990, após a queda do regime comunista. Josef Vachek tornou-se presidente honorário, e Miloš Dokulil assumiu a presidência da associação reorganizada. Desde então, o Círculo retomou conferências, publicações e intercâmbios internacionais.

Difusão internacional[editar]

A influência da Escola de Praga espalhou-se por diferentes vias. André Martinet desenvolveu uma linguística funcional própria, marcada pelo conceito de dupla articulação, pela economia das mudanças e pelo estudo das pressões que atuam sobre os sistemas. Embora não possa ser reduzida à doutrina do Círculo, sua obra manteve diálogo estreito com a fonologia praguense.

Jakobson levou conceitos praguenses aos Estados Unidos. Sua colaboração com Morris Halle influenciou a fonologia gerativa, especialmente por meio da teoria dos traços distintivos. Seu contato com Claude Lévi-Strauss contribuiu para a expansão do estruturalismo na antropologia.

A teoria da marcação foi incorporada, reformulada e criticada na gramática gerativa, na tipologia, na aquisição da linguagem e na semiótica. A perspectiva funcional da frase influenciou estudos de estrutura informacional, análise do discurso e linguística textual.

Dell Hymes recorreu explicitamente ao funcionalismo praguense na formulação da etnografia da comunicação. Michael Halliday e outros funcionalistas desenvolveram modelos próprios, mas compartilharam com Praga o interesse pelas relações entre sistema linguístico, função e contexto social.

Os trabalhos de Mukařovský, Bogatyrev e Jakobson exerceram influência sobre a teoria literária, a semiótica, a narratologia e os estudos do teatro. A recepção ocorreu de maneira desigual, frequentemente mediada por traduções e antologias publicadas décadas depois dos textos originais.

Fortuna crítica[editar]

A avaliação histórica da Escola de Praga passou por diferentes fases. Durante as décadas de 1930 e 1940, a fonologia foi a área de maior reconhecimento internacional. A distinção entre fonética e fonologia e a análise das oposições transformaram a investigação dos sistemas sonoros.

No ambiente norte-americano do pós-guerra, “estruturalismo” tornou-se frequentemente associado ao distribucionalismo de Leonard Bloomfield e de seus seguidores. Essa identificação obscureceu diferenças importantes. Ao contrário de parte do descritivismo norte-americano, os praguenses não excluíam sistematicamente a semântica e atribuíam papel central à função comunicativa.

A ascensão da gramática gerativa, a partir do fim da década de 1950, produziu avaliação ambivalente. A fonologia gerativa incorporou traços distintivos, mas rejeitou ou reformulou vários aspectos da análise fonêmica estrutural. Em sintaxe, a repercussão da Escola de Praga foi inicialmente menor no mundo anglófono, em parte porque muitos estudos permaneciam pouco acessíveis.

A partir das décadas de 1960 e 1970, traduções organizadas por Josef Vachek, Paul Garvin, Ladislav Matejka e outros pesquisadores ampliaram o conhecimento da produção praguense. O crescimento da semiótica, da linguística funcional, da análise do discurso e da linguística textual favoreceu nova apreciação de seus trabalhos.

A historiografia posterior questionou a imagem de uma escola perfeitamente unificada. Estudos de correspondência, arquivos e contextos intelectuais mostraram divergências entre Jakobson, Trubetzkoy, Mathesius, Mukařovský e outros membros. A força do Círculo teria residido menos em uma doutrina fechada do que na criação de um espaço de debate e na combinação de tradições distintas.

Também se revisou a narrativa segundo a qual a Escola de Praga seria apenas aplicação direta de Saussure. Além do saussurianismo, sua formação envolveu a linguística eslava, o formalismo russo, a fenomenologia, a psicologia funcional, a filosofia da linguagem centro-europeia e debates sobre identidade nacional e padronização linguística.

Alguns críticos apontam tendências teleológicas em determinadas formulações. A afirmação de que uma mudança ocorre para atender às necessidades do sistema pode sugerir que a língua possua intenções próprias. Leituras contemporâneas tendem a interpretar a orientação para fins como princípio explicativo relacionado às pressões comunicativas, evitando atribuir consciência ao sistema.

A noção de função também foi criticada por sua polissemia. Função distintiva, função comunicativa, função social e função estética não são conceitos idênticos. A tradição praguense nem sempre estabeleceu fronteiras terminológicas rígidas entre esses usos.

Na teoria da língua padrão, a ênfase na estabilidade e na cultura linguística foi considerada inovadora por combater o purismo histórico. Entretanto, abordagens sociolinguísticas posteriores observaram que a seleção de uma norma envolve instituições, ideologias e relações de poder. Uma análise funcional precisa, portanto, ser complementada pelo estudo das condições sociais de legitimação das variedades.

A teoria da marcação permanece influente, mas sua aplicação generalizada encontrou dificuldades. Critérios fonológicos, morfológicos, semânticos, estatísticos e cognitivos podem produzir classificações diferentes. A pesquisa atual costuma tratar marcação como conjunto de fenômenos relacionados, e não como princípio único aplicável de maneira automática.

Na teoria literária, a atualização e a função estética foram fundamentais para superar explicações puramente biográficas ou impressionistas. Críticos posteriores, contudo, advertiram que a atenção à estrutura interna não deve reduzir a obra a mecanismo autônomo nem ignorar conflitos históricos, sociais e políticos. O próprio Mukařovský, especialmente em sua produção madura, reconheceu a historicidade das normas e dos valores estéticos.

Apesar dessas críticas, muitos problemas formulados pelo Círculo permanecem ativos: a relação entre forma e função, a interação entre estabilidade e variação, a organização informacional, a estrutura interna das categorias, a heterogeneidade dos sistemas e a relação entre linguagem e outras formas de significação.

Importância histórica[editar]

A importância do Círculo Linguístico de Praga não se reduz à criação de técnicas fonológicas. O grupo estabeleceu um programa que articulava estrutura, função, uso e história.

Sua contribuição pode ser observada:

  • na consolidação da fonologia como disciplina;
  • na teoria das oposições e dos traços distintivos;
  • na formulação da marcação e da neutralização;
  • na análise funcional da ordem das palavras e da estrutura informacional;
  • na tipologia estrutural;
  • no estudo funcional da língua padrão;
  • na distinção entre norma e codificação;
  • na análise da língua escrita;
  • na teoria da linguagem poética;
  • na estética estrutural e na semiótica;
  • na aproximação entre sincronia e diacronia;
  • na concepção do sistema linguístico como estrutura dinâmica e heterogênea.

O legado praguense encontra-se hoje distribuído por diferentes áreas e tradições. Alguns conceitos foram preservados com os nomes originais; outros foram reformulados em novos modelos. Sua permanência reside sobretudo na ideia de que os fenômenos linguísticos devem ser compreendidos pelas relações que mantêm no sistema, pelas funções que desempenham e pelas condições históricas e comunicativas em que são utilizados.

Ver também[editar]

Referências[editar]


Bibliografia[editar]

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