Pragmática
Até meados do século XX, os estudos estruturalistas e gerativistas focavam predominantemente na língua como um sistema abstrato, formal ou como um conjunto de regras internas. A Virada Pragmática subverte esse paradigma ao propor que a língua não deve ser estudada isoladamente do seu contexto real de produção [cf. image_8625bc.png].
- Ludwig Wittgenstein (1887-1951): Em sua obra póstuma Investigações Filosóficas (1953), o filósofo austríaco postula que o significado é o uso [cf. image_8625bc.png]. Afasta-se a visão de que as palavras apenas nomeiam coisas no mundo de forma estática; a linguagem passa a ser vista por meio de "jogos de linguagem" inseridos em formas de vida.
- A língua como interação social: Sob essa ótica, a língua deixa de ser encarada apenas como um código ou sistema abstrato de regras para ser compreendida como uma forma de ação e de interação social [cf. image_8625bc.png].
A Teoria dos Atos de Fala: Austin e Searle[editar]
A consolidação teórica de que falar é uma forma de agir no mundo veio por meio da Filosofia da Linguagem Comum em Oxford [cf. image_8625c4.png].
John L. Austin (1911-1960) e a Ação Verbal[editar]
Austin demonstrou que falar é agir [cf. image_8625c4.png]. Ele propôs que a emissão de qualquer enunciado envolve a realização simultânea de três atos [cf. image_8625c4.png]:
- Ato locucionário: O ato físico de dizer algo (produzir sons, palavras e frases gramaticais com sentido determinado).
- Ato ilocucionário: A força da ação realizada ao dizer algo (uma promessa, uma ordem, uma pergunta, uma ameaça).
- Ato perlocucionário: O efeito ou consequência gerada pelo dizer no interlocutor (convencer, assustar, confortar, irritar).
John Searle (1932-2025) e a Sistematização dos Atos[editar]
Searle expandiu e formalizou a teoria de Austin, classificando os atos ilocucionários em cinco grandes categorias tipológicas [cf. image_8625c4.png]:
- Atos representativos (ou assertivos): Comprometem o falante com a verdade de uma proposição (ex: afirmar, relatar) [cf. image_8625c4.png].
- Atos diretivos: Tentativas do falante de fazer o ouvinte realizar algo (ex: ordenar, pedir, sugerir) [cf. image_8625c4.png].
- Atos comissivos: Comprometem o próprio falante com uma ação futura (ex: prometer, garantir) [cf. image_8625c4.png].
- Atos expressivos: Expressam o estado psicológico do falante em relação a uma situação (ex: agradecer, desculpar-se, parabenizar) [cf. image_8625c4.png].
- Atos declarativos: Alteram imediatamente o estado da realidade externa por meio da própria fala (ex: batizar, declarar guerra, casar alguém) [cf. image_8625c4.png].
Condições de Felicidade[editar]
Para que um ato de fala funcione com sucesso (especialmente os declarativos), Searle aponta que ele deve cumprir certas condições de felicidade [cf. image_8625c4.png]. Por exemplo, para um juiz declarar um réu culpado, ele precisa ter a autoridade legal (condição de status), estar no tribunal adequado (contexto) e seguir o rito correto; do contrário, o ato falha por ser "infeliz".
A Lógica da Conversação de H. Paul Grice (1913-1988)[editar]
Grice investigou como os interlocutores conseguem entender intenções que vão além do significado literal das palavras. Ele postulou o Princípio da Cooperação, que orienta as interações humanas sob o pressuposto de que os participantes cooperam para que a comunicação funcione [cf. image_8625e1.png]. Esse princípio subdivide-se em quatro máximas conversacionais [cf. image_8625e1.png]:
- Quantidade: Fale o necessário (nem a mais, nem a menos) [cf. image_8625e1.png].
- Exemplo de excesso: "Que horas são?" $\rightarrow$ "São 14h17. Aliás, meu relógio é suíço, ganhei de aniversário em 2019, custou caro e nunca atrasou." [cf. image_8625e1.png]
- Exemplo de falta: "Que horas são?" $\rightarrow$ "É tarde." [cf. image_8625e1.png]
- Relevância: Seja relevante (diga o que tem a ver com o assunto corrente) [cf. image_8625e1.png].
- Exemplo de violação: Professor: "Você fez o exercício?" $\rightarrow$ Aluno: "O café da cantina está muito bom hoje." [cf. image_8625e1.png]
- Qualidade: Fale a verdade (não afirme o que crê ser falso ou o que não tem evidências) [cf. image_8625e1.png].
- Exemplo de ironia (violação intencional): "Que prova excelente! Você conseguiu dizer tudo sem escrever uma única palavra." [cf. image_8625e1.png]
- Modo: Seja claro, evite ambiguidades e seja ordenado [cf. image_8625e1.png].
- Exemplo de falta de clareza: "Como foi a viagem?" $\rightarrow$ "Primeiro chegamos ao hotel... quer dizer, antes disso o avião atrasou... aliás, nem contei que quase perdi o táxi... enfim..." [cf. image_8625e1.png]
Implicaturas Conversacionais[editar]
Quando um falante quebra deliberadamente uma dessas máximas, mas o ouvinte assume que ele ainda está cooperando, surge uma violação que gera implicaturas conversacionais [cf. image_8625e1.png]. A implicatura é o sentido implícito extraído pelo contexto (ex: na violação de relevância acima, o aluno implica que não fez a tarefa e quer mudar de assunto).
Tópicos Contemporâneos e Ramificações Pragmáticas[editar]
Dêixis[editar]
A dêixis compreende os elementos linguísticos que não possuem significado fixo, dependendo integralmente do contexto físico e situacional para serem interpretados [cf. image_8625fc.png]. Classificam-se em:
- Pessoa: pronomes e desinências (eu, você, ele) [cf. image_8625fc.png].
- Lugar: advérbios de espaço e demonstrativos (aqui, lá, este, aquele) [cf. image_8625fc.png].
- Tempo: advérbios de tempo e tempos verbais (agora, ontem, amanhã) [cf. image_8625fc.png].
- Discurso: referências a partes do próprio texto que está sendo produzido [cf. image_8625fc.png].
- Social: marcadores que sinalizam a relação de status ou poder entre os interlocutores (Sr., Você, Vossa Excelência) [cf. image_8625fc.png].
Teoria da Relevância[editar]
Desenvolvida por Dan Sperber e Deirdre Wilson, reformula a lógica de Grice ao propor que a mente humana é orientada para a maximização da relevância cognitiva [cf. image_8625fc.png]. Processamos a informação gerando o maior número de efeitos contextuais com o menor esforço cognitivo possível.
Pragmática da Cortesia[editar]
Investiga as estratégias linguísticas que os falantes utilizam para gerenciar as faces sociais, regulando os níveis de polidez e intimidade de modo a evitar conflitos e suavizar atos que possam ameaçar a autoimagem do interlocutor [cf. image_8625fc.png].
Pragmática Cognitiva[editar]
Vertente que associa os usos linguísticos contextuais aos processos de conceptualização mental do ambiente e da experiência corporal. Reúne teóricos fundamentais da Linguística Cognitiva como George Lakoff, Mark Johnson, Ronald Langacker e Charles Fillmore [cf. image_8625fc.png].
Fontes e Referências Bibliográficas[editar]
Fontes Primárias[editar]
- AUSTIN, John L. How to do Things with Words. Oxford: Clarendon Press, 1962. [Edição em português: Como fazer coisas com palavras].
- GRICE, H. Paul. Logic and conversation. In: COLE, P.; MORGAN, J. (Eds.). Syntax and Semantics 3: Speech Acts. New York: Academic Press, 1975.
- SEARLE, John. Speech Acts: An essay in the philosophy of language. Cambridge: Cambridge University Press, 1969.
- SPERBER, Dan; WILSON, Deirdre. Relevance: Communication and Cognition. Oxford: Blackwell, 1986.
- WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical Investigations. Oxford: Blackwell, 1953. [Edição em português: Investigações Filosóficas].
Referências Secundárias[editar]
- COSTA, Jorge Campos da. A Teoria das Implicaturas. In: DALL'AGNOL, D. (Org.). Verdade e Respeito. Pelotas: Editora da UFPel, 2007.
- ESCANDELL VIDAL, M. Victoria. Introducción a la Pragmática. Madrid: Ariel, 2006.
- LEVINSON, Stephen C. Pragmática. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
- MARCONDES, Danilo. A Pragmática na Filosofia Contemporânea. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.
- PINTO, Joana Plaza. Pragmática. In: MUSSALIM, F.; BENTES, A. C. (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Vol. 2. São Paulo: Cortez, 2001.