Linguística textual
Durante grande parte do século XX, os estudos linguísticos — tanto estruturalistas quanto gerativistas — limitaram seu escopo analítico ao nível da frase (a sentença isolada). A partir das décadas de 1960 e 1970, porém, percebeu-se que uma gramática puramente frástica era incapaz de explicar fenômenos que ocorrem na comunicação real. Desse cenário emerge a Linguística Textual (LT), que redefine o objeto de estudo da linguística: o foco deixa de ser a frase abstrata e passa a ser o texto, concebido como a unidade básica de interação verbal humana.
A grande pergunta norteadora que inaugura este campo é: "O que faz de um texto um texto?" Ou seja, o que diferencia um amontoado caótico de palavras ou frases de um evento comunicativo dotado de sentido?
Os Fundamentos da Textualidade[editar]
Coesão e Coerência Textual (Halliday & Hasan, 1976)[editar]
A virada nos estudos do texto ganha forte impulso internacional com os trabalhos de Michael Halliday e Ruqaiya Hasan (1976), que propõem dois conceitos estruturantes para a constituição textual:
- Coesão Textual: Refere-se às ligações formais e linguísticas que conectam os elementos da superfície do texto (palavras, orações, períodos). Manifesta-se por meio de pronomes, conectores, elipses e repetições lexicais.
- Coerência Textual: Refere-se à continuidade de sentido do texto. Não está presa à superfície linear, mas sim à articulação lógica, semântica e cognitiva das ideias, permitindo que o receptor construa uma representação mental global e consistente do que está sendo comunicado.
Os Padrões de Textualidade (Beaugrande & Dressler, 1981)[editar]
Em 1981, Robert-Alain de Beaugrande e Wolfgang Dressler expandiram essa discussão ao sistematizar os chamados padrões de textualidade, estabelecendo sete fatores essenciais para que uma produção linguística seja considerada um texto:
- Coesão: A conectividade linear da estrutura superficial.
- Coerência: A acessibilidade e relevância mútua dos conceitos e sentidos subjacentes.
- Intencionalidade: O esforço e a intenção do autor em produzir um texto claro, coeso e coerente para atingir um objetivo específico.
- Aceitabilidade: A atitude do receptor em receber aquela produção como um texto que possui relevância e merece ser interpretado.
- Informatividade: O grau de novidade ou imprevisibilidade que o texto traz (um texto sem nenhuma informação nova falha por redundância extrema).
- Situacionalidade: A adequação do texto ao contexto ou situação em que ele ocorre.
- Intertextualidade: A dependência que um texto tem em relação ao conhecimento de outros textos produzidos previamente.
Dinâmica, Estrutura e Fronteiras do Texto[editar]
Progressão Temática[editar]
Estudada profundamente no Brasil por teóricos como Ingedore Villaça Koch e Luiz Antônio Marcuschi, a progressão temática analisa como o texto caminha e se desenvolve de maneira equilibrada entre informações já conhecidas (tema) e informações novas (rema).
Nesse contexto, contrapõe-se a tradicional estrutura frástica (regida pelas regras gramaticais de ligação direta do período) à estrutura parafrástica (anelar), na qual os sentidos orbitam, retomam a si mesmos e se expandem em anéis semânticos, garantindo que o texto progrida sem perder o seu núcleo temático.
Tipologia Textual vs. Gêneros Textuais[editar]
A Linguística Textual propõe uma distinção fundamental entre a natureza interna/formal e a utilidade social do texto:
- Tipologia Textual: Refere-se à estrutura linguística interna e sequencial dos textos. São categorias fixas e universais, definidas pela natureza gramatical predominante. São os tipos: dissertação, narração, descrição, exposição e injunção.
- Gêneros Textuais: Referem-se às formas empíricas de realização do texto na vida social, definidas por sua função comunicativa. São dinâmicos, históricos e infinitos. Exemplos: carta, notícia, receita, bula, artigo de opinião, conto, anúncio, lista de compras, e-mail e post.
Competência Textual e Fronteiras Textuais[editar]
- Competência Textual: É a capacidade inata e desenvolvida que os falantes possuem de não apenas produzir frases isoladas, mas de criar, compreender, parafrasear e categorizar textos adequados aos seus contextos de uso.
- Fronteiras Textuais: Os estudos de delimitação do início e do fim de um texto. Elementos como títulos, fórmulas de abertura (ex: "Era uma vez..."), saudações finais (ex: "Atenciosamente,") e pontuações finais demarcam as barreiras físicas e pragmáticas que isolam o evento textual do silêncio ou de outros discursos circundantes.
Exemplos de Análise Textual[editar]
Exemplo 1: Quebra de Coesão, mas Manutenção de Coerência[editar]
Considere o seguinte diálogo:
- Locutor A: "O telefone está tocando!"
- Locutor B: "Estou no banho."
Se analisarmos estritamente pela estrutura frástica ou pela coesão gramatical de superfície, não há conectivo ou ligação lexical direta entre as frases. No entanto, nossa competência textual e o fator da situacionalidade nos permitem interpretar imediatamente o texto como coerente: o Locutor B justifica pragmaticamente o motivo pelo qual não pode atender ao telefone.
Exemplo 2: Intertextualidade e Gênero Textual[editar]
Um anúncio publicitário que estampa a imagem de uma fruta e os dizeres: "Espelho, espelho meu, existe alguma fruta mais saborosa do que eu?".
- Análise do Gênero: Trata-se de um anúncio (gênero textual) com predominância da estrutura de sequência descritivo-expositiva (tipologia).
- Análise do Padrão: O texto exige o acionamento imediato da intertextualidade com o conto de fadas da Branca de Neve. Se o receptor não possuir esse repertório intertextual, a informatividade e o efeito humorístico do texto ficam severamente comprometidos, alterando a sua aceitabilidade.
Fontes e Referências Bibliográficas[editar]
Fontes Primárias[editar]
- BEAUGRANDE, Robert-Alain de; DRESSLER, Wolfgang U. Introduction to Text Linguistics. London: Longman, 1981. [Obra clássica dos padrões de textualidade].
- HALLIDAY, Michael A. K.; HASAN, Ruqaiya. Cohesion in English. London: Longman, 1976.
Referências Secundárias (Linguística Textual no Brasil)[editar]
- KOCH, Ingedore Villaça. A Coesão Textual. São Paulo: Contexto, 1989.
- KOCH, Ingedore Villaça. O Texto e a Construção dos Sentidos. São Paulo: Contexto, 1997.
- MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção de texto, gênero e textualidade. São Paulo: Parábola Editorial, 2008.
- MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Vol. 1. São Paulo: Cortez, 2001. (Capítulo devotado à Linguística Textual).