Gerativismo

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Na segunda metade do século XX, a linguística passou por uma profunda virada paradigmática, frequentemente denominada pela Historiografia Linguística como a "Revolução Gerativista". Até o final da década de 1950, a ciência da linguagem na América era dominada pelo Distribucionalismo de base behaviorista (proposto por Leonard Bloomfield), que limitava a análise linguística à descrição empírica de um corpus fixo de enunciados reais e observáveis.

Em 1957, com a publicação de Syntactic Structures (Estruturas Sintáticas), e consolidando-se em 1965 com Aspects of the Theory of Syntax (Aspectos da Teoria da Sintaxe), o linguista estadunidense Noam Chomsky (1928-) rompeu drasticamente com esse modelo. Chomsky deslocou o foco da linguística do comportamento exteriorizado para a capacidade cognitiva interna do falante, inaugurando o Gerativismo.

O Problema de Chomsky: A Criatividade Linguística[editar]

A grande questão que norteia a teoria chomskyana e que o distribucionalismo behaviorista não conseguia responder de forma satisfatória é: "Como conseguimos entender e produzir sentenças que nunca produzimos ou ouvimos antes?"

Para Chomsky, a linguagem humana possui uma natureza essencialmente criativa. Uma criança exposta a uma quantidade finita de estímulos linguísticos (muitas vezes fragmentados e incompletos) é capaz de internalizar um sistema de regras que a permite gerar e compreender um número infinito de novas sentenças. Esse fenômeno demonstra que o aprendizado da língua não se dá por mera imitação, hábito ou memorização de um corpus, mas sim por um processo cognitivo ativo de reconstrução de regras.

Fundamentos Teóricos do Gerativismo[editar]

Competência x Performance[editar]

Para explicar essa dicotomia entre o conhecimento abstrato e o uso real da língua, Chomsky propõe uma distinção fundamental:

  • Competência Linguística: É o conhecimento implícito e idealizado que o falante-ouvinte nativo tem de sua própria língua. Trata-se do sistema interno de regras que o permite julgar se uma sentença é gramatical (aceitável na língua) ou agramatical. É o objeto de estudo central da linguística gerativa.
  • Performance (Desempenho): É o uso concreto e real da língua em situações comunicativas cotidianas. A performance é afetada por fatores não linguísticos, como lapsos de memória, cansaço, distrações, pigarros e hesitações, não refletindo perfeitamente a competência subjacente do indivídue.

Gramática Universal (GU)[editar]

Diante da rapidez com que as crianças adquirem sua língua materna (problema conhecido como "A Pobreza do Estímulo"), Chomsky postulou a existência da Gramática Universal (GU). A GU é uma faculdade da linguagem inata, isto é, um componente genético próprio da espécie humana que contém os princípios biológicos comuns a todas as línguas humanas. Ao nascer, a mente da criança possui um conjunto de "parâmetros" abertos que são fixados (ativados) de acordo com os dados linguísticos da comunidade em que ela está inserida (seja português, japonês, guarani, etc.).

Estrutura Profunda x Estrutura Superficial[editar]

Um dos conceitos mais célebres do modelo gerativo inicial (Teoria Padrão) diferencia a organização mental de uma sentença de sua realização fonética:

  • Estrutura Profunda: É o nível abstrato da organização sintática na mente do falante, onde as relações semânticas básicas e os papeis temáticos são definidos (quem faz a ação, quem sofre a ação, etc.).
  • Estrutura Superficial: É a organização sintática final da sentença, tal como ela é efetivamente pronunciada ou escrita, após passar pelas operações de movimento e transformação.

Gramática Gerativo-Transformacional[editar]

O modelo teórico recebeu esse nome porque postula que a sintaxe opera por meio de um sistema de regras que geram as estruturas básicas e de regras transformacionais que modificam essas estruturas. As transformações são operações mentais que movem, inserem ou deletam elementos, mapeando a Estrutura Profunda na Estrutura Superficial correspondente.

Exemplos de Análise Gerativa[editar]

Exemplo 1: Ambiguidade Estrutural[editar]

O distribucionalismo tinha dificuldades para explicar sentenças idênticas na superfície, mas com sentidos diferentes. O gerativismo resolve isso demonstrando que uma única Estrutura Superficial pode derivar de duas Estruturas Profundas distintas.

  • Sentença Superficial: "O guarda viu o ladrão com o binóculo."

Esta frase possui dois sentidos possíveis (ambiguidade sintática):

  1. Sentido A (O guarda usou o binóculo): Na Estrutura Profunda, o constituinte [com o binóculo] está ligado diretamente ao Sintagma Verbal, modificando a ação de ver.
  2. Sentido B (O ladrão carregava o binóculo): Na Estrutura Profunda, o constituinte [com o binóculo] está dentro do Sintagma Nominal do objeto, modificando diretamente o substantivo "ladrão".

Exemplo 2: Operações Transformacionais (Voz Ativa vs. Voz Passiva)[editar]

A análise gerativa demonstra que frases semanticamente equivalentes na superfície compartilham a mesma representação profunda, mas sofreram regras transformacionais de movimento diferentes.

  • Frase 1 (Ativa): "O gato caçou o rato."
  • Frase 2 (Passiva): "O rato foi caçado pelo gato."

Na Estrutura Profunda, ambas as sentenças partem da mesma configuração conceitual subjacente (onde "O gato" é o agente e "o rato" é o paciente). Para gerar a Frase 2, aplica-se uma regra transformacional de passivização, que move o objeto ("o rato") para a posição de sujeito na Estrutura Superficial, insere o verbo auxiliar ("foi") e desloca o sujeito original para o final da sentença precedido de preposição.

Considerações Finais[editar]

A linguística chomskyana provocou uma ruptura metodológica com o empirismo e inseriu o estudo da linguagem no campo das ciências cognitivas e da psicologia da mente. Embora o modelo tenha sofrido evoluções e reformulações drásticas pelo próprio Chomsky ao longo das décadas (como o Modelo de Regência e Vinculação e, posteriormente, o Programa Minimalista), os conceitos de inatismo, criatividade e representação mental profunda permanecem como marcos divisores de águas na história das ciências humanas.

Fontes e Referências Bibliográficas[editar]

Fontes Primárias[editar]

  • CHOMSKY, Noam. Syntactic Structures. The Hague: Mouton, 1957.
  • CHOMSKY, Noam. Aspects of the Theory of Syntax. Cambridge, MA: MIT Press, 1965.
  • CHOMSKY, Noam. Linguagem e Mente. Brasília: Editora UnB, 1998.

Referências Secundárias (Leituras Recomendadas)[editar]

  • FIORIN, José Luiz (Org.). Introdução à Linguística: I. Objetos teóricos. São Paulo: Contexto, 2019. (Capítulo sobre o Gerativismo).
  • KENEDY, Eduardo. Gerativismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (Org.). Manual de Linguística. São Paulo: Contexto, 2008.
  • LYONS, John. As Idéias de Chomsky. São Paulo: Cultrix, 1975.
  • MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à Linguística: domínios e fronteiras. Vol. 1. São Paulo: Cortez, 2001.