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#Entrevistas#Literatura do Distrito Federal

Entrevista com a escritora Nadja Rodrigues de Oliveira

Por Fernando Fidelix Nunes (2026)

Nadja Rodrigues de Oliveira é uma escritora que combina dança, psicanálise e poesia para conseguir construir significados poéticos potentes sobre a existência humana. Com “Povoemas e outroas nascentes” (2024), ela foi semifinalista do Prêmio Oceanos de 2025, o que ajuda a consolidar a força da poesia do Distrito Federal nesta década. Nesta entrevista, conversamos sobre sua estética e como sua obra dialoga com a dança e a psicanálise.

Fernando Fidelix Nunes: Além de escritora, você é psicanalista e bailarina. Como você acredita que a sua obra poética “Povoemas e outras nascentes” (2024) dialoga com a sua vivência como bailarina?

Nadja Rodrigues de Oliveira: Acredito que minha maneira de experimentar a vida e de conceber a linguagem passa inescapavelmente pelo corpo, o que aparece no meu modo de me colocar e de mover coisas no mundo – seja por meio do corpo da palavra, seja por meio do corpo que palavra. Para mim, escrever e dançar são gestos que buscam, que têm destinatários, ainda que não tenham destinos. Eles germinam por meio do pele a pele com a vida, com o mundo. São feitos do que se une e se desprende dessa interface, e têm o outro como endereço. Percebo que minha experiência com a dança aparece na escrita, especialmente neste livro, por meio de uma tendência a tratar as palavras como corpos sonoros, plásticos, vivos. Pego num vocabulário e experimento sua elasticidade, suas possibilidades de formar diferentes figuras a depender de como o posiciono, de abrir sensações por meio de seus movimentos no espaço, na língua, nos ouvidos e com outras palavras. Elas têm tônus, dialogam entre si, tal como numa prática de contato-improvisação. O movimento, a dança, está dentro da escrita. E não precisa ser uma dança com grandes deslocamentos espaciais. Em “Povoemas e outras nascentes”, por exemplo, acredito que muitas vezes os poemas fazem algo parecido com a pequena dança, do Steve Paxton. Dançam mais rentes à pele do que saltam no ar. E os poemas deste livro são gestos a partir da origem, da Fonte, das experiências de antes da palavra. Por isso talvez guardem especialmente uma dimensão sensorial, sejam mais rasteiros ao corpo, a um tempo em que dançamos antes de falar.

Fernando Fidelix Nunes: Durante a leitura de seus poemas, chamou muito a minha atenção o diálogo que você estabelece com a psicanálise, tanto pelas temáticas abordadas quanto pelos usos polissêmicos e abertos da linguagem para construir a sua expressividade poética. De que modo a sua formação e a sua atuação como psicanalista influenciaram a sua obra poética?

Nadja Rodrigues de Oliveira: Que legal que você observou essa aliança da psicanálise com a poesia na minha escrita. Acredito que tanto a psicanálise quanto a poesia buscam operar transformações por meio da linguagem. Mais ainda, compreendem a linguagem como uma pele, uma fronteira transformativa, uma interface dentro-fora. Ambas acontecem e movimentam sensações e pensamentos, alteram o lugar das coisas, porque engendram relações entre múltiplas superfícies. Minha formação em psicanálise foi tecida especialmente a partir dos estudos e da clínica voltada para os primórdios da vida psíquica, de modo a me interessar muito pelo processo de constituição da mente, pelo infans, pela relação pais-bebê, assim como pelas instâncias mais primitivas do psiquismo, o umbigo do sonho. Neste sentido, além da minha atuação em consultório particular, trabalhei em uma Maternidade e UTI Neonatal no SUS por 11 anos, experiência que habita profundamente a minha escuta e modo de prestar atenção. Neste livro, em particular, os temas do começo, das moções de vida e morte, assim como da hiância como modo de ir, são centrais e se nutrem inescapavelmente também da psicanálise como um dos eixos que me compõem.

Além disso, percebo que o livro traz uma dimensão de erotismo importante no corpo da escrita, o que pode ser compreendido a partir tanto da psicanálise quanto da dança, da implicação do corpo no modo de tratar a palavra. Concordo com Manoel de Barros quando diz que “a palavra poética vem, por antes, de um minadouro sensual”. Há um erotismo na palavra que pulsa, não necessariamente de referência genital e sexual, mas sim um erotismo que remete a Eros, à pulsão de vida, a Criação. Em “Povoemas e outras nascentes”, esta dimensão da palavra é muito cara. É um eixo a partir do qual os poemas se escrevem. Ao mesmo tempo, penso que a palavra é filha da morte, mas não apenas na direção do que apontou Octavio Paz. Penso nisso porque a eclosão da palavra rompe a casca; é topar a perda do puro sentir para abrir formas, debulhar caminhos; é reconhecer a incompletude, o outro, a falta e a falha como os únicos modos de ir. Escrever me parece próximo de operar nascimentos, é acontecimento na fronteira entre morte e vida. Percebo que as pulsões estão abraçadas nas palavras tanto quanto em nós.



(continua...)

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