Por Pedro Simões
22/12/2025
Um estudo do MIT descobriu que o cérebro de poliglotas apresenta uma atividade neural significativamente reduzida ao ouvir sua língua materna em comparação a outros idiomas que dominam. A pesquisa, que utilizou ressonância magnética funcional em indivíduos que falam até 54 línguas, sugere que a proficiência máxima e a exposição precoce tornam o processamento linguístico mais eficiente, exigindo menos energia cognitiva.
Embora a maioria da população mundial seja bilíngue ou fale apenas um idioma, os poliglotas — pessoas que dominam cinco ou mais línguas — oferecem uma janela única para entender a plasticidade e a organização do cérebro humano. O estudo liderado por pesquisadores do McGovern Institute for Brain Research do MIT investigou se o cérebro desses "superespecialistas" processa a linguagem de forma diferente.
A descoberta central da pesquisa é que a rede de linguagem no córtex cerebral — um conjunto de regiões nos lobos frontal e temporal — responde com muito menos intensidade à língua nativa do que às línguas aprendidas posteriormente, mesmo aquelas em que o poliglota tem alta fluência.
Segundo os autores, essa menor ativação não significa que o cérebro está "trabalhando menos" por falta de interesse, mas sim que ele é extremamente eficiente. Como a língua materna é consolidada muito cedo na vida, o cérebro desenvolve caminhos neurais otimizados que permitem extrair significado com um custo energético mínimo. Em média, a resposta cerebral foi 25% menor para a língua nativa em comparação com outros idiomas conhecidos.
O estudo utilizou ressonância magnética funcional (fMRI) em 34 participantes (20 homens e 14 mulheres) para monitorar a atividade cerebral enquanto ouviam trechos de textos como "Alice no País das Maravilhas" e passagens da Bíblia em diferentes idiomas.Os resultados mostraram que:
Línguas conhecidas vs. desconhecidas: A rede de linguagem acende com mais força quando o indivíduo entende o que está sendo dito. Se o poliglota ouve um idioma que não conhece, a atividade é menor porque o cérebro não consegue extrair significado linguístico.
O "ponto doce" da ativação: A atividade neural aumenta à medida que a proficiência no idioma aumenta, pois o cérebro se engaja ativamente no processamento de sintaxe e semântica. No entanto, essa curva cai abruptamente quando chegamos à língua nativa, devido à mencionada eficiência máxima.
Evelina Fedorenko, uma das autoras seniores, destaca que entender como os poliglotas gerenciam múltiplos sistemas linguísticos ajuda a mapear a "infraestrutura cognitiva" humana. O estudo reforça a ideia de que a rede de linguagem é separada de outras funções cognitivas, como o raciocínio lógico ou a resolução de problemas matemáticos, e que o cérebro é capaz de se adaptar para acomodar dezenas de línguas sem sobrecarregar o sistema, desde que a base (a língua materna) esteja solidamente estabelecida.
Essa pesquisa abre portas para futuras terapias de reabilitação de fala em pacientes que sofreram danos cerebrais, sugerindo que o cérebro possui estratégias distintas para lidar com conhecimentos linguísticos dependendo de quando e como eles foram adquiridos.
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