Por Ronaldo Martins
05/11/2026
Uma pesquisa publicada na revista Nature, em 28 de outubro, sugere que a chegada das línguas germânicas à Escandinávia pode ter ocorrido cerca de 800 anos depois do que se supunha. O estudo, baseado no sequenciamento de 712 genomas humanos antigos e na análise de outros 4.009, identificou movimentos populacionais associados à formação e à expansão desse grupo linguístico, que inclui o alemão, o inglês, o neerlandês e as línguas escandinavas.
Intitulado Tracing the spread of Germanic languages using ancient genomics (Rastreando a expansão das línguas germânicas por meio da genômica antiga), o trabalho foi desenvolvido por uma equipe internacional de especialistas em genética, arqueologia, história e linguística, entre eles Hugh McColl, Guus Kroonen e J. Víctor Moreno-Mayar. A pesquisa investigou as transformações demográficas ocorridas no norte da Europa nos últimos cinco mil anos, relacionando-as às hipóteses sobre a formação do protogermânico, ancestral comum das línguas germânicas modernas.
Um dos principais resultados foi a identificação de uma população que teria chegado à atual Suécia, provavelmente a partir da região do Báltico, há aproximadamente quatro mil anos. Sua ancestralidade genética tornou-se amplamente distribuída pela Escandinávia nos séculos seguintes. Segundo os pesquisadores, esse movimento pode ter introduzido na região uma variedade indo-europeia ancestral das línguas germânicas. A hipótese contrasta com a cronologia tradicional, que associava essa introdução às primeiras populações da cultura da Cerâmica Cordada, estabelecidas na Escandinávia aproximadamente 4.800 anos atrás.
O estudo também examinou a formação do protogermânico, geralmente situada no início da Idade do Ferro, há aproximadamente 2.450 anos. Essa transformação envolveu mudanças fonológicas importantes, entre elas as mutações consonantais germânicas, que diferenciaram esse ramo das demais línguas indo-europeias. Algumas hipóteses relacionavam essas mudanças à assimilação de falantes de outras línguas, mas os dados genéticos não revelaram grandes movimentos populacionais coincidentes com a transição. Isso sugere que as transformações podem ter resultado de processos linguísticos internos ou de mudanças sociais, sem necessidade de substituição demográfica significativa. Os resultados indicam ainda que, há cerca de dois mil anos, comunidades geneticamente distintas da Dinamarca, Noruega e Suécia compartilhavam variedades germânicas relativamente próximas, como também sugerem as primeiras inscrições rúnicas.
A análise genética permitiu investigar os deslocamentos associados à posterior divisão das línguas germânicas em três grandes ramos históricos: oriental, ocidental e setentrional. No caso das línguas germânicas ocidentais, foram identificadas migrações originadas principalmente no norte da atual Alemanha e no sul da península da Jutlândia. Os resultados são compatíveis com os registros históricos das migrações de anglos, saxões e jutos para a Britânia, nos séculos V e VI.
Para os grupos germânicos orientais, especialmente os godos, os pesquisadores encontraram uma situação diferente. Indivíduos associados à cultura de Wielbark, na atual Polônia, apresentaram ancestralidade relacionada à Escandinávia oriental, o que é compatível com tradições antigas sobre uma migração inicial dessa região. Entretanto, indivíduos posteriormente associados aos ostrogodos, na atual Ucrânia, e aos visigodos, na Península Ibérica, apresentaram predominantemente ancestralidade local. O resultado indica que a expansão das identidades e línguas góticas envolveu também processos de assimilação cultural e linguística, não apenas deslocamentos populacionais.
Outro resultado diz respeito à formação do nórdico antigo, ancestral do islandês, feroês, norueguês, dinamarquês e sueco. Os pesquisadores identificaram um movimento migratório em direção à Dinamarca e ao sul da Suécia entre os séculos V e VI, envolvendo populações relacionadas às do norte da Alemanha e do sul da Jutlândia. Esse deslocamento ocorreu aproximadamente no período em que as variedades germânicas escandinavas passaram por transformações que levariam ao desenvolvimento do nórdico antigo, documentado posteriormente nas inscrições rúnicas da Era Viking. A coincidência entre mudanças demográficas e linguísticas sugere uma possível contribuição dessas migrações para o processo.
Para reconstruir os movimentos populacionais, os pesquisadores utilizaram métodos de comparação de segmentos de DNA herdados de ancestrais comuns, combinados com análises estatísticas e informações arqueológicas e linguísticas. O estudo, entretanto, não permite determinar diretamente qual língua era falada pelos indivíduos examinados. As associações propostas dependem da correspondência entre evidências genéticas, contextos arqueológicos e reconstruções linguísticas. Os resultados indicam que a formação e a expansão das línguas germânicas envolveram diferentes combinações de migração, continuidade populacional e transmissão cultural, conforme a região e o período histórico.
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