Por Ronaldo Martins
08/10/2026
A poeta, ensaísta e tradutora canadense Anne Carson, de 76 anos, venceu o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado nesta quinta-feira (8) pela Academia Sueca. A escritora foi premiada por sua obra inovadora, que combina poesia, prosa, ensaio e tradução em diálogo com a tradição clássica greco-romana. Carson é a 19ª mulher a receber a distinção, que neste ano concede 12 milhões de coroas suecas, aproximadamente R$ 6 milhões.
Nascida em Toronto, em 21 de junho de 1950, Carson estudou Letras Clássicas na Universidade de Toronto, onde concluiu o doutorado em 1981. Além de escritora, desenvolveu carreira como professora de grego antigo em universidades canadenses e norte-americanas. Sua produção inclui poemas, romances em versos, ensaios, peças teatrais e traduções de autores como Safo, Sófocles e Eurípides.
A Academia Sueca destacou a capacidade da autora de criar novas formas literárias a partir de textos da Antiguidade. Sua escrita frequentemente rompe as fronteiras entre gêneros, combinando referências mitológicas, experiências pessoais e questões contemporâneas. Amor, desejo, perda e memória estão entre os temas recorrentes de sua produção. Um dos exemplos mais conhecidos dessa experimentação é Autobiografia do vermelho (1998), romance em versos que reinventa a história de Gerião, personagem da mitologia grega. Na versão de Carson, ele é um jovem contemporâneo que vive uma relação amorosa com Héracles. A obra combina narrativa, poesia e elementos da tradição épica.
Sua estreia editorial ocorreu com Eros, o doce-amargo (1986), obra derivada de sua pesquisa de doutorado, na qual investiga o desejo amoroso na literatura grega. Entre seus outros livros estão A beleza do marido (2001), narrativa de um casamento em 29 tangos que recebeu o Prêmio T. S. Eliot; Nox (2010), elegia dedicada ao irmão apresentada em formato experimental; e Wrong Norma (2024), finalista do National Book Award.
A relação com a cultura clássica também aparece em suas traduções e adaptações. Em Antigonick, Carson recria a tragédia Antígona, de Sófocles, incorporando referências modernas e procedimentos experimentais. Em Norma Jeane Baker of Troy (2019), aproxima a figura de Helena de Troia da atriz Marilyn Monroe. Também traduziu fragmentos da poeta grega Safo, reunidos em If Not, Winter (2002).
A escritora já havia recebido importantes reconhecimentos internacionais, entre eles bolsas das fundações Guggenheim e MacArthur. Com a premiação, torna-se a primeira canadense a receber o Nobel de Literatura desde Alice Munro, vencedora em 2013.
A produção de Carson começou a ser traduzida no Brasil em 2017, com O método Albertine, publicado pelas Edições Jabuticaba. Atualmente, a autora tem oito obras disponíveis em edições brasileiras, lançadas por diferentes editoras. Entre elas estão Autobiografia do vermelho e Sobre aquilo em que eu mais penso, da Editora 34; Eros, o doce-amargo e Antigonick, da Bazar do Tempo; e Falas curtas e Vidro, ironia e Deus, da Relicário. Este último, traduzido por Adriana Lisboa, chegou ao Brasil em 2026.
A autora também teve sua obra adaptada para o teatro brasileiro. Em 2026, a atriz Bianca Comparato protagonizou uma montagem de Autobiografia do vermelho, dirigida por Daniela Thomas.
Carson recebeu a notícia da premiação na Islândia, onde reside parte do ano. Segundo a Academia Sueca, ela estava ouvindo o vento quando foi informada do resultado. Em declaração à imprensa islandesa, manifestou surpresa com a escolha.
A cerimônia de entrega do Nobel ocorrerá em 10 de dezembro, em Estocolmo, aniversário da morte de Alfred Nobel. O prêmio de Literatura é concedido desde 1901 e teve como vencedor em 2025 o escritor húngaro László Krasznahorkai.