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#Notícias#Linguística Histórica

Estudo arqueogenético revela origem siberiana das línguas finlandesa, húngara e estoniana

Por Ronaldo Martins

19/08/2025

Uma pesquisa publicada em julho de 2025 na revista Nature confirma que os povos que deram origem às línguas urálicas — como finlandês, estoniano e húngaro — emergiram há cerca de 4,5 mil anos na região que hoje corresponde à Sibéria oriental (Yakutia), desafiando teorias anteriores que apontavam os Montes Urais como ponto de origem. A investigação, que conecta genética, arqueologia e linguística, analisou o DNA de 180 indivíduos antigos e traçou como os genes se espalharam pela Eurásia.

Os pesquisadores sequenciaram o genoma de 180 indivíduos antigos oriundos da Eurásia setentrional, entre 11 mil e 4 mil anos atrás, e os compararam com mais de 1.300 genomas já disponíveis.

O estudo identificou um componente genético específico, denominado Yakutia_LNBA, associado aos antigos povos da Sibéria — sobretudo da região de Yakutia — que hoje aparece em populações urálicas modernas. Esse traço genético sugere que os falantes proto-urálicos originaram-se bem a leste do que se imaginava, migrando para o oeste através de rotas arqueológicas como o fenômeno Seima-Turbino, conhecido por sua metalurgia avançada na Era do Bronze.

A análise evidencia que povos proto-urálicos migraram em direção ao atual Báltico — áreas como Finlândia e Estônia — e também para a Hungria, atravessando longas extensões de taiga e tundra sem as facilidades das grandes rotas equinas que impulsionaram outras famílias linguísticas, como a indo-europeia.

Segundo os pesquisadores, “um pulso genético vindo do leste aparece justamente quando as línguas urálicas começaram sua expansão” — uma evidência clara de que o caminho dessas línguas envolveu mais do que apenas transmissão cultural, mas também movimento populacional.

É importante frisar que genética não é sinônimo de língua – mas, quando dados arqueológicos, linguísticos e genéticos convergem, como nesse estudo, é possível traçar trajetórias pré-históricas com maior confiança. Populações atuais que falam línguas urálicas, como estonianos e finlandeses, ainda carregam vestígios desse ancestral siberiano: a Estônia apresenta cerca de 2 % de ascendência Yakutia_LNBA, a Finlândia aproximadamente 10 %, enquanto os Nganasan, no extremo norte da Rússia, retêm quase 100 % desse legado genético. Já a Hungria apresenta muito pouco desse componente hoje, embora os conquistadores medievais que levaram o idioma até lá tivessem esse traço presente em seus genomas.

Além disso, o estudo também aborda a família linguística Yeniseiana, hoje representada apenas pela língua ket na Sibéria central, cuja origem genética pode estar ligada a populações da região do Lago Baikal há cerca de 5,4 mil anos — outra linha investigativa fascinante do trabalho.

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