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#Notícias#Ensino de Literatura

“A Bolsa Amarela”, de Lygia Bojunga, é censurado em escola militar do DF

Por Ronaldo Martins

27/05/2026

O clássico infantojuvenil A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, foi objeto de censura no Colégio Militar Dom Pedro II, de Brasília. A medida ocorreu após um grupo de pais de alunos classificar o conteúdo como inadequado para o ensino fundamental por supostamente abordar questões de identidade de gênero.

O descontentamento de uma parcela dos pais e responsáveis ganhou tração em grupos de comunicação no WhatsApp voltados à rotina escolar da instituição, mantida pelo Corpo de Bombeiros Militar do Distrito Federal (CBMDF). Nas mensagens compartilhadas, a escolha do livro — que vinha sendo utilizado como material de apoio complementar nas aulas de Língua Portuguesa — foi duramente criticada. Alguns integrantes chegaram a classificar a abordagem pedagógica como "inadequada" e questionaram se a temática da obra seria compatível com os valores tradicionais promovidos pela instituição militar.

O ponto central da contestação reside em uma passagem específica da narrativa, na qual a protagonista expressa o desejo de ter nascido menino. De acordo com os relatos de pais que se opuseram à leitura, o trecho exigiu que os adultos fizessem intervenções e introduzissem o assunto em casa, o que consideraram precoce para a maturidade de estudantes de 9 anos. Sob forte pressão, a coordenação pedagógica da unidade iniciou uma reavaliação sobre a permanência da obra no cronograma letivo.

Publicado originalmente em 1976, em plena vigência da ditadura militar brasileira, A Bolsa Amarela é amplamente reconhecido como um dos pilares da literatura infantojuvenil no país. A história acompanha a trajetória de Raquel, uma menina sensível que decide esconder dentro de uma grande bolsa amarela três desejos profundos que a sua família e a sociedade da época reprimiam: a vontade de crescer, o sonho de se tornar escritora e o desejo de ter nascido homem.

Especialistas em literatura explicam que, no contexto sociohistórico da década de 1970, o desejo da protagonista de ser menino funcionava como uma metáfora poética e crítica à falta de liberdade, de direitos e de autonomia vivida pelas mulheres naquele período. Ao longo das últimas cinco décadas, a obra tem sido adotada por centenas de escolas em todo o território nacional para trabalhar o universo simbólico infantil, a criatividade, a superação de repressões cotidianas e o amadurecimento emocional dos estudantes.

Graças à relevância e sensibilidade de suas produções, a autora Lygia Bojunga recebeu em 1982 o prêmio Hans Christian Andersen, a honraria máxima da literatura voltada para crianças e jovens em nível mundial, frequentemente chamada de o "Prêmio Nobel" da categoria.

A notícia sobre o cerceamento da obra no ambiente escolar do Distrito Federal ecoou rapidamente fora dos muros do colégio, acendendo um alerta em entidades ligadas à educação e ao mercado editorial. Críticos literários, professores e escritores manifestaram preocupação com o que consideram uma onda crescente de revisionismo e tentativas de censura a clássicos da literatura brasileira.

Movimentos de defesa do direito à leitura destacaram que o episódio do Colégio Dom Pedro II se soma a outros casos recentes no país, em que textos renomados e premiados sofrem sanções a partir de leituras literais ou descontextualizadas de trechos específicos, ignorando o valor pedagógico global da obra.

A direção do Colégio Militar Dom Pedro II e o comando do Corpo de Bombeiros informaram que a inclusão do título ocorreu estritamente como atividade literária complementar. Diante da repercussão e do diálogo com a comunidade escolar, os setores responsáveis avaliam alternativas para conciliar as diretrizes de ensino com as expectativas das famílias, enquanto o caso segue gerando intensos debates sobre os limites da intervenção dos pais nos currículos escolares e a garantia da liberdade de cátedra dos educadores.

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