Por Ronaldo Martins
23/04/2026
Um fragmento da Ilíada, atribuída a Homero, foi identificado em um papiro encontrado dentro de uma múmia no Egito. A descoberta ocorreu durante escavações recentes em uma antiga cidade do período greco-romano, evidenciando a circulação da literatura grega na região.
A múmia foi encontrada em uma tumba na antiga cidade de Oxyrhynchus — atual Al-Bahnasa —, um dos mais importantes centros urbanos do Egito greco-romano. As escavações foram conduzidas por uma equipe da Universidade de Barcelona entre 2025 e 2026.
Durante o trabalho arqueológico, os pesquisadores identificaram um elemento incomum: um papiro colocado diretamente sobre o abdômen do corpo como parte do processo de mumificação. Diferentemente do uso mais comum de papiros reciclados em estruturas externas, como o cartonnage, o posicionamento do material chamou a atenção dos especialistas.
A análise revelou que o papiro continha um fragmento do Livro II da Ilíada, mais especificamente o famoso “catálogo das naus”, trecho que descreve as forças gregas reunidas para a Guerra de Troia. O texto foi identificado por especialistas em papirologia, que utilizam técnicas de conservação e leitura para recuperar inscrições antigas preservadas em contextos funerários.
Embora papiros já tenham sido encontrados em múmias antes, eles costumam conter textos mágicos, religiosos ou rituais. Esta é a primeira vez que um texto literário clássico grego é identificado como parte deliberada de um ritual funerário. Além do papiro, o sítio arqueológico revelou outros elementos curiosos, como amuletos e “línguas” de ouro colocadas na boca de algumas múmias — objetos que, segundo os pesquisadores, estavam ligados à crença de que os mortos precisariam se comunicar com divindades no além.
A descoberta reforça o papel de Oxyrhynchus como um dos principais sítios arqueológicos para o estudo de textos antigos. A cidade já havia fornecido, desde o século XIX, milhares de papiros com registros administrativos, cartas e obras literárias em grego, latim e outras línguas.
Além de seu valor arqueológico, o fragmento contribui para o estudo da transmissão textual da obra de Homero. Cada novo registro permite comparar versões do poema e compreender como ele foi copiado, preservado e difundido ao longo dos séculos.