Glossemática

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A Glossemática representa o ponto culminante do formalismo e do princípio de imanência na história da linguística moderna. Enquanto outras correntes estruturalistas — como o funcionalismo da Escola de Praga ou o distribucionalismo americano — mantiveram algum grau de concessão à realidade física dos sons (fonética) ou à realidade psicológica e social dos falantes, a glossemática buscou purificar a linguística de qualquer resquício não-linguístico.

O termo "glossemática" deriva do grego glossa (língua), acrescido do sufixo -ema (unidade abstrata/estrutural), cunhado para contrastar explicitamente com o termo "linguística". Enquanto a linguística tradicional muitas vezes estuda a linguagem em conexão com fenômenos biológicos, psicológicos ou históricos, a glossemática propõe-se a estudar exclusivamente o sistema abstrato de relações puras que subjaz a qualquer ato de linguagem. Trata-se de uma abordagem radicalmente imanente, que toma a língua não como uma substância ou um conjunto de objetos materiais, mas como uma rede de funções e dependências mútuas.

O Círculo Linguístico de Copenhague e Louis Hjelmslev[editar]

A glossemática foi desenvolvida e amadurecida no seio do Círculo Linguístico de Copenhague, fundado em 1931 pelo linguista dinamarquês Louis Hjelmslev (1899-1965) em colaboração com seu colega Hans Jørgen Uldall (1907-1957). O Círculo de Copenhague nasceu com o propósito de criar um fórum de debates que pudesse renovar a metodologia linguística europeia, inspirando-se no rigor lógico do Círculo de Viena e nas recém-descobertas teses saussurianas.

A obra-prima e manifesto epistemológico da glossemática é o livro Omkring sprogteoriens grundlæggelse, publicado por Hjelmslev em 1943 e traduzido para o português como Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem. Nessa obra, o autor empreende uma crítica severa à linguística de sua época, acusando-a de ser "transcedente", isto é, de tentar explicar a língua recorrendo a instâncias externas a ela (como a física das ondas sonoras, a fisiologia do aparelho fonador, a psicologia do pensamento ou a sociologia das interações).

Em contrapartida, Hjelmslev advoga por uma linguística estritamente imanente. A sua meta era edificar uma álgebra da linguagem — um sistema dedutivo, axiomático e puramente formal que operasse com constantes e variáveis universais. Para a glossemática, a estrutura linguística é uma geometria de posições relativas, uma rede matemática onde os elementos não possuem realidade fora das relações que travam entre si.

O objetivo máximo de Hjelmslev não era mapear apenas as línguas naturais humanas (como o português ou o dinamarquês), mas formular uma teoria semiótica geral capaz de descrever, sob o mesmo aparato teórico e computacional, qualquer sistema de signos concebível: a estrutura dos mitos, a sinalização de trânsito, a notação musical, as fórmulas lógicas e até os jogos.

Plano de conteúdo e plano de expressão[editar]

A contribuição teórico-metodológica mais célebre de Hjelmslev para as Ciências do Léxico e para a Semiótica foi o desdobramento e o refinamento analítico da dicotomia saussuriana significante/significado. Hjelmslev considerava que o par saussuriano clássico ainda carregava ambiguidades psicologizantes e substanciais. Para sanar esse problema, ele substituiu "significante" por Plano da Expressão e "significado" por Plano do Conteúdo.

O avanço crucial da glossemática consistiu em cruzar esses dois planos com uma nova dicotomia: a distinção entre Forma e Substância. Esse cruzamento gerou uma matriz quadripartite (um quadro de quatro termos) que constitui a base do mapeamento semiótico da teoria:

Estrutura Plano do Conteúdo (Significado) Plano da Expressão (Significante)
Forma
(O objeto da Linguística)
Forma do Conteúdo:
O esquema abstrato de relações que organiza, recorta e segmenta o pensamento ou a experiência numa determinada língua.
Forma da Expressão:
A estrutura formal, relacional e paradigmática de oposição entre as unidades fônicas ou gráficas (inventário de fonemas/regras silábicas).
Substância
(O plano manifestado)
Substância do Conteúdo:
O pensamento ou a experiência humana tal como se encontra moldada e manifestada pelas categorias daquela língua específica.
Substância da Expressão:
A matéria física e perceptível na qual a forma se projeta (o som físico, as letras impressas, os gestos espaciais).

Para compreender essa arquitetura conceitual, é necessário introduzir um terceiro conceito auxiliar usado por Hjelmslev: a Matéria (ou sentido, no original mening). A matéria é a massa amorfa e indiferenciada da realidade física e do pensamento puro, anterior a qualquer intervenção da linguagem. A matéria do conteúdo é a totalidade de tudo o que pode ser pensado; a matéria da expressão é a totalidade de todos os sons ou grafias emitíveis.

A língua atua sobre essa matéria amorfa como um molde ou uma rede de pescar, fatiando-a. Quando a Forma se projeta sobre a Matéria, ela produz e individualiza a Substância.

O Plano do Conteúdo e a autonomia do recorte semântico[editar]

O plano do conteúdo corresponde ao território dos sentidos e das significações. Hjelmslev bate-se veementemente contra a ilusão ingênua de que a língua é uma nomenclatura que carimba palavras diferentes em conceitos universais preexistentes. Cada língua possui uma forma do conteúdo autônoma e própria, o que significa que cada idioma recorta a massa de pensamentos da matéria de um modo particular.

Os signos de uma língua raramente encontram tradução ou equivalência conceitual exata bit a bit em outra língua, pois os limites de suas fronteiras semânticas divergem. Esse fenômeno — que tangencia e dialoga de forma teórica com as intuições do relativismo linguístico da hipótese Sapir-Whorf — pode ser evidenciado de maneira rigorosa através da análise de campos lexicais específicos, como o espectro de parentesco, as cores ou as divisões do mundo natural.

Para demonstrar esse princípio, Hjelmslev imortalizou um exemplo clássico, comparando como o campo semântico da matéria vegetal ("madeira/árvore/floresta") é formalizado e fatiado de maneiras completamente distintas pelos sistemas do dinamarquês, do alemão e do francês:

   MATÉRIA AMORFA         DINAMARQUÊS              ALEMÃO               FRANCÊS
+-------------------+ +-------------------+ +-------------------+ +-------------------+
| Árvore viva e     | |                   | |  Baum             | |  Arbre            |
| biológica         | |  træ              | +-------------------+ +-------------------+
+-------------------+ |                   | |                   | |                   |
| Matéria-prima /   | |                   | |  Holz             | |  Bois             |
| Madeira de corte  | +-------------------+ |                   | |                   |
+-------------------+ |  skov             | +-------------------+ +-------------------+
| Floresta / Bosque | |                   | |  Wald             | |  Forêt            |
+-------------------+ +-------------------+ +-------------------+ +-------------------+

A análise desse quadro estrutural revela que:

  • O dinamarquês fatiou essa matéria em apenas duas grandes unidades formais de conteúdo: træ (que engloba o vegetal vivo e a madeira cortada) e skov (a extensão de árvores).
  • O alemão recortou a mesma matéria em três unidades bem delineadas: Baum (árvore), Holz (madeira) e Wald (floresta).
  • O francês também operou três divisões, mas com fronteiras de valor interno diferentes das do alemão: arbre (árvore), forêt (floresta densa) e bois (termo ambivalente que pode significar tanto a madeira-prima quanto um bosque de menor extensão).

Esses exemplos provam que a forma do conteúdo é uma rede imotivada de distinções puramente linguísticas. Estudar o plano do conteúdo em linguística não é fazer psicologia ou filosofia; é rastrear a álgebra dessas segmentações formais de valor.

O Plano da Expressão e o Princípio de Biplanidade Semiótica[editar]

O plano da expressão abarca a face perceptível do sistema linguístico — a engrenagem formal pela qual o conteúdo é projetado no mundo sensível. Assim como ocorre no plano do conteúdo, a matéria fônica (a onda sonora indiferenciada) é fatiada por uma forma da expressão (o inventário abstrato de fonemas e oposições fonológicas da língua), gerando uma substância da expressão específica (os sons fonéticos efetivamente articulados pelos falantes).

A formulação de Hjelmslev acerca do plano da expressão trouxe uma das maiores libertações metodológicas da linguística estrutural e forneceu as bases científicas para a emergência da Linguística das Línguas de Sinais décadas mais tarde. Ao insistir que o objeto legítimo da ciência da linguagem é a forma abstrata e não a matéria física, Hjelmslev postulou que os dois planos da língua devem receber um tratamento rigorosamente simétrico e não hierarquizado. A tradição linguística clássica sempre tendeu a privilegiar o som (o fonocentrismo), tratando a fala como a essência intrínseca da linguagem e a escrita ou os gestos como meros substitutos secundários e artificiais.

A glossemática destrói o fonocentrismo ao demonstrar que a forma da expressão linguística pode ser perfeitamente transcodificada e projetada sobre qualquer substância de manifestação material sem que a identidade e as regras estruturais profundas do sistema linguístico sofram a menor alteração. A mesma forma da expressão de uma língua pode se manifestar na substância acústica (ondas sonoras produzidas pelas cordas vocais), na substância gráfica (marcas de tinta no papel ou pixels numa tela de computador), na substância tátil (os furos em relevo do sistema Braille) ou na substância gestual-visual (os movimentos cinéticos do corpo no espaço).

Esse princípio fundamenta a noção de biplanidade das línguas naturais. Para que um sistema de signos seja considerado uma língua de pleno direito, ele precisa possuir dois planos independentes, isomórficos e correlacionados — o plano da expressão e o plano do conteúdo —, cujas unidades mínimas (as unidades não-significativas, denominadas por Hjelmslev de figuras, que equivalem aos fonemas na expressão e aos traços semânticos mínimos no conteúdo) combinam-se para formar uma infinidade de signos complexos. É esse arranjo formal purificado de preconceitos materiais que permite equiparar, com o mesmo rigor algébrico e estatuto científico, o funcionamento interno das línguas orais-auditivas e o das línguas de sinais.

Bibliografia comentada — Glossemática[editar]

  • HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma Teoria da Linguagem. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, [1943] 2013. (Coleção Estudos).
  • Comentário: É o texto fundamental, denso e indispensável da glossemática. Nele, Hjelmslev deita as bases epistemológicas de seu modelo algébrico, destrincha as relações cruzadas entre forma, substância e matéria, e define os conceitos de plano de expressão e plano de conteúdo. Obra exigente, voltada para a fundamentação teórica avançada de alunos de Letras e Linguística.
  • HJELMSLEV, Louis. Ensaios Linguísticos. Tradução de Cidmar Teodoro Pais. São Paulo: Perspectiva, 1991.
  • Comentário: Coletânea de artigos e conferências em que Hjelmslev aplica os princípios abstratos formulados nos Prolegômenos a problemas práticos da análise gramatical, da morfologia e da evolução estrutural das línguas, ilustrando a flexibilidade descritiva de seu método.
  • BADIR, Sémir. Hjelmslev e a Glossemática. Tradução de diversos. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.
  • Comentário: Excelente obra de recepção e comentário contemporâneo que guia o estudante através do emaranhado terminológico e das abstrações geométricas de Hjelmslev, situando a importância da escola de Copenhague na transição do estruturalismo clássico para a semiótica de linha francesa (greimasiana).
  • GREIMAS, Algirdas Julien; COURTÉS, Joseph. Dicionário de Semiótica. São Paulo: Contexto, 2008.
  • Comentário: Obra de consulta permanente para o estudante de Letras. A semiótica discursiva francesa de Greimas apropriou-se integralmente da arquitetura de Hjelmslev (plano de expressão/conteúdo, forma/substância). Os verbetes deste dicionário ajudam a clarear o funcionamento prático desses conceitos na análise de textos.