Contato linguístico
Contatos Linguísticos na Sociolinguística: Fenômenos, Tipologias e o Desafio da Diversidade na Educação Básica
I. Introdução: O Estudo das Línguas em Interação
O estudo dos contatos linguísticos (CL) constitui um campo fundamental da Sociolinguística, área que se distingue da Linguística estrutural e gerativista por rejeitar a ideia de que a língua possa ser estudada "em si mesma e por si mesma".CALVET, Louis-Jean. Sociolingüística: uma introdução crítica. Tradução Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2002. (Edição original 1993). Para Louis-Jean Calvet, alinhado à visão de Antoine Meillet, a língua é um fato social e, consequentemente, a Sociolinguística é a própria Linguística, pois as línguas não existem sem as pessoas que as falam. A variação e a mudança linguística, centrais no estudo do CL, não podem ser explicadas por mecanismos internos e abstratos, mas sim pelas transformações e conflitos sociais.
I.1. A Perspectiva Crítica dos Estudos de Contato
A Sociolinguística de Contato (SC) no Brasil se desenvolveu a partir da perspectiva anteriormente chamada de "Línguas em/de Contato" (CL), enfatizando o CL como um processo dinâmico e relativo, determinado por fatores identificáveis em contextos específicos (familiar, sócio-histórico, profissional e educacional).SAVEDRA, Mônica Maria Guimarães; PEREIRA, Telma Cristina de Almeida Silva. Sociolinguística de Contato e Política Linguística: propostas de interseções teórico-metodológicas. Matraga, v. 31, n. 61, jan./abr. 2024. Esta área de pesquisa não considera o contato como um desvio da norma idealizada, mas como a condição básica da linguagem em comunidades plurilíngues.
No âmbito brasileiro, a SC adota uma perspectiva robusta que engloba todas as formas e manifestações do bilinguismo, além de fenômenos de maior escala, como a padronização de línguas nacionais, o estabelecimento de línguas oficiais, línguas pidgin, línguas crioulas, línguas francas e coinés. Essa vertente tem dedicado atenção especial às línguas minoritárias e/ou minorizadas, incluindo línguas indígenas, de imigração e as variedades de contato nas grandes fronteiras brasileiras, estudando processos de manutenção, revitalização e extinção.
I.2. Classificação dos Fenômenos de Contato
Os estudos em SC tipicamente agrupam os fenômenos decorrentes do contato em quatro categorias principais, refletindo a complexidade das interações sociolinguísticas :
Mudança Induzida pelo Contato: Fatores que causam alterações nas estruturas e no léxico de uma língua, como empréstimos e interferências. Manutenção e Revitalização: Fenômenos que envolvem a preservação de línguas em situação minoritária (com ou sem prestígio), muitas vezes consequência do reconhecimento linguístico e cultural dessas variedades. Apagamento (Language Shifting) e Morte de Línguas: Ocorre quando uma língua tende a desaparecer ou a se modificar drasticamente sob a pressão de uma língua dominante. Criação de Novas Línguas: Processos de reestruturação gramatical total, levando ao surgimento de pidgins e crioulos. A análise a seguir detalha esses fenômenos, seguindo a estrutura crítica proposta por Calvet e integrando as contribuições da Sociolinguística de Contato contemporânea.
II. O Contato em Nível Lexical e Estrutural: Empréstimos e Interferências
O primeiro nível de contato linguístico se manifesta nas trocas lexicais e estruturais entre duas línguas. Calvet (Capítulo II, Seção 1) trata de dois conceitos intimamente ligados: empréstimos e interferências.
II.1. Definição e Exemplos de Empréstimos e Interferências
Empréstimo (Borrowing) refere-se à incorporação de um elemento (geralmente lexical) de uma língua-fonte (L2) na língua-receptora (L1), que é então adaptado fonologicamente e morfologicamente ao sistema da L1. Por exemplo, no Português Brasileiro (PB), termos da informática e da tecnologia, como o verbo deletar (do inglês to delete) ou escanear, são exemplos de empréstimos adaptados. Há também neologismos por empréstimo que podem manter a forma original, como off-road , sendo frequentemente adotados em campos de alto prestígio, como a economia e a tecnologia.Embora o empréstimo 'off-road' seja citado, a referência genérica no texto original é sobre a dominação cultural/econômica.
Interferência, por sua vez, é geralmente definida como o desvio ou erro na produção da L1 causado pela influência da L2, manifestando-se frequentemente no uso individual, como o sotaque estrangeiro. Embora os linguistas estruturem essa distinção, é crucial notar que a linha entre uma interferência que se generaliza e um empréstimo que se lexicaliza pode ser fluida no contexto de um contato contínuo.
II.2. A Implicação da Dominação Cultural e Econômica
O estudo sociolinguístico dos empréstimos vai além da simples catalogação lexical, servindo como um barômetro do desequilíbrio de poder entre as comunidades falantes. A entrada maciça de estrangeirismos, notadamente anglicismos no PB, é impulsionada por valores simbólicos que acompanham os produtos e a cultura tecnológica dos países hegemônicos, como os Estados Unidos.Análise de neologismos por empréstimos no português brasileiro e a implicação da economia e cultura tecnológica na adoção de estrangeirismos.
A análise sociolinguística revela que o purismo linguístico, que busca impedir a entrada de empréstimos, geralmente falha porque a força de uma língua receptora contra o empréstimo não é gramatical, mas extralinguística: econômica e cultural. A prevalência do inglês não reflete uma "fragilidade" inerente ao português, mas sim o poder hegemônico global da cultura anglófona. Portanto, o volume e a natureza dos empréstimos em uma língua oferecem uma leitura direta da dominação cultural e econômica a que a comunidade falante está submetida.
III. A Dinâmica da Interação Bilíngue: Misturas de Línguas e Alternância de Código
Em comunidades onde o bilinguismo é a regra, o contato se manifesta de forma dinâmica e consciente na fala cotidiana através da alternância e da mistura de códigos (Calvet, Seção 3: "Misturas de línguas, alternâncias de código e estratégias lingüísticas").
III.1. Alternância de Código (Code-Switching) e Mistura de Código (Code-Mixing)
A Alternância de Código (Code-Switching - CS) é definida como a prática de falantes bilíngues alternarem entre duas ou mais línguas, dialetos ou registros dentro de uma única conversa ou enunciado.Definição de Code-switching como fenômeno linguístico de alternar entre duas ou mais línguas dentro de uma única conversa ou enunciado.O Code-switching é comum em comunidades bilíngues e exige que o falante seja altamente proficiente em ambas as línguas. Este fenômeno é predominante em numerosas comunidades bilíngues e exige que os falantes sejam proficientes em ambas as línguas envolvidas.
É fundamental distinguir o CS do empréstimo. Enquanto o empréstimo afeta o léxico da língua a longo prazo (lexicalização) e exige adaptação fonológica, o CS ocorre em enunciados individuais e pressupõe que ambos os sistemas linguísticos do falante estejam ativos e operantes.Distinção entre Code-switching e Empréstimo, sendo o primeiro um fenômeno em enunciados individuais, e o segundo afetando o léxico a longo prazo.
A distinção entre CS e Code-Mixing (CM), embora debatida, é frequentemente estabelecida em termos de limites estruturais.Alguns pesquisadores usam os termos de forma intercambiável, outros definem CS como alternância em fronteiras de sentença (intersentencial) e CM como fusão dentro da frase (intrasentencial). Alguns pesquisadores definem o CS como a alternância que ocorre em fronteiras de cláusula ou sentença (intersentencial), enquanto o CM envolve a fusão de elementos dentro de uma única frase ou sintagma (intrasentencial).
A validade estrutural dessas alternâncias é abordada por modelos como o Matrix Language Frame Model de Myers-Scotton MYERS-SCOTTON, Carol. Contact Linguistics: Bilingual Encounters and Grammatical Outcomes. Oxford University Press, 2002., que postula a existência de uma Língua Matriz que fornece a estrutura morfológica e sintática fundamental, regulando a inserção de elementos da Língua Embebedora, o que garante a coesão gramatical do enunciado misto.
III.2. Funções Sociais e Identitárias do Code-Switching
O CS é uma estratégia comunicativa sofisticada, utilizada por falantes para diversas funções pragmáticas e sociais. As funções primárias incluem a expressão de identidade (afirmando a dupla identidade cultural), a acomodação do interlocutor, o preenchimento de lacunas lexicais, ou o sinal de atitude, informalidade ou humor.Funções sociais do Code-switching, incluindo sinalização de atitude, informalidade ou humor.
Um exemplo elucidativo é a alternância de código na região fronteiriça Brasil-Bolívia, onde o CS é uma prática legítima e enriquecedora que contribui para a identidade linguística dos alunos bilíngues.LIRA, Fabiana da Silva; PARADA, Edina Flores. Code-Switching na região fronteiriça Brasil-Bolívia: implicações para a identidade cultural e o preconceito linguístico. Revista de Estudos Amazônicos de Linguagem e Cultura, 2021.
III.3. A Dimensão Atitudinal e o Conflito no Code-Switching
Embora o CS seja uma habilidade linguística complexa , ele está sujeito a intensa avaliação social. Estudos sobre a alternância entre português e espanhol no Brasil revelam que o fenômeno pode gerar conflito e insegurança, especialmente em falantes cuja competência na língua dominante está sendo adquirida.
Falantes não nativos de português (L2) relatam frustração quando um interlocutor brasileiro alterna para o espanhol (a L1 do falante). Eles interpretam essa alternância como uma invalidação de sua competência em português ("Acho que meu português é ruim") ou como um sinal de que o brasileiro está apenas buscando "praticar" o espanhol.SOUZA, Jurgen Alves de. Code-switching e a gestão do conhecimento no discurso de imigrantes hispano-falantes em São Paulo. Tese de Doutorado, USP, 2021. (Relato de frustração e invalidação de competência). Isso demonstra que o preconceito linguístico se estende para além da variação dialetal interna, atingindo o desempenho bilíngue e reforçando o ideal monolíngue da norma-padrão.
Ademais, a percepção de falantes que utilizam o CS pode ser negativa, com rótulos como "preguiçoso" aplicados por ouvintes.Estudo de percepção que aponta o rótulo "preguiçoso" aplicado a falantes que usam Code-switching. A análise do CS, portanto, deve integrar o aspecto estrutural (o que os falantes fazem) com o aspecto atitudinal (como os ouvintes avaliam), refletindo a importância dos estudos sobre atitudes e preconceitos na Sociolinguística (Calvet, Capítulo III).
IV. Macrofenômenos: Pidgins, Crioulos e Línguas Veiculares
O contato intenso e prolongado entre grupos linguísticos sem uma língua comum pode levar ao surgimento de novas variedades linguísticas, classificadas por Calvet como "línguas aproximativas" e "laboratórios crioulos".
IV.1. As Línguas Aproximativas: Os Pidgins
Pidgins (ou línguas aproximativas, na terminologia de Calvet, Seção 2) são línguas de contato altamente simplificadas que surgem em contextos de necessidade comunicativa intergrupal, geralmente de natureza utilitária (comércio, trabalho).Definição de pidgins como línguas de contato simplificadas surgidas em contextos utilitários. Sua característica definidora é a ausência de falantes nativos; são utilizados apenas como lingua franca secundária entre os grupos em contato.Característica definidora do pidgin como ausência de falantes nativos. Seu surgimento é um exemplo de gestão in vivo do plurilinguismo, uma criação espontânea da prática social e não de um decreto oficial.
IV.2. O Laboratório Crioulo: Crioulização e Teorias da Gênese
O Crioulo surge quando um pidgin é adquirido como língua materna (L1) pelas crianças da comunidade, em um processo conhecido como crioulização (Calvet, Seção 4).Crioulo surge quando um pidgin é adquirido como L1 (crioulização). A crioulização envolve a expansão funcional e a reestruturação gramatical da variedade, que adquire a complexidade de qualquer língua natural.Crioulização envolve reestruturação gramatical e expansão funcional.
Existem divergências teóricas sobre a gênese dos crioulos :
Teoria da Fala Estrangeira (Foreigner Talk): Sugere que a pidginização/crioulização resulta da cristalização de um modelo incompleto da língua dominante, adquirido por grupos dominados em condições adversas.Teoria da Fala Estrangeira: cristalização de modelo incompleto da língua dominante.
Teoria do Substrato: Postula que os elementos gramaticais da língua nativa (substrato) dos falantes adultos são transferidos para o código emergente. Nessa visão, a gênese do crioulo é determinada fundamentalmente pelos fatores sociais envolvidos na negociação de soluções gramaticais.
Teorias Contemporâneas: Pesquisadores como McWhorter (mencionado em ) argumentam que os processos diacrônicos que ligam um crioulo à sua língua-mãe não são inerentemente diferentes dos encontrados nas mudanças linguísticas naturais, refutando a ideia de que os crioulos são um tipo linguístico especial ou característico.Teorias Contemporâneas: processos diacrônicos de crioulos não são inerentemente diferentes de mudanças linguísticas naturais.
O Brasil possuiu e ainda possui variedades de contato, como os falares crioulos TARALLO, F. & ALKMIN, T. Falares crioulos. Línguas em contato. São Paulo: Editora Ática, 1987., e o estudo desses fenômenos é crucial para entender a evolução do Português Brasileiro como uma língua colonial e a diversidade etnolinguística do país.Evolução linguística e a emergência do português brasileiro como uma língua colonial.
IV.3. Línguas Veiculares e Línguas Francas
Línguas veiculares (ou línguas francas) (Calvet, Seção 5) são línguas utilizadas para comunicação intergrupal em uma região, onde os falantes não compartilham uma L1. Diferentemente dos pidgins, uma língua veicular pode ser uma língua natural não simplificada, adotada por prestígio ou alcance demográfico (como o inglês global ou o latim histórico).
No Brasil, o Nheengatu (Língua Geral Amazônica) serviu historicamente como uma língua veicular crucial. Seu reconhecimento atual, inclusive pela cooficialização em municípios, atesta a relevância dessas variedades, que, assim como os pidgins, são o produto típico de uma gestão in vivo do plurilinguismo.
Os fenômenos descritos acima podem ser didaticamente sintetizados conforme suas características essenciais:
| Fenômeno | Função Social (Calvet) | Características Estruturais | Status Nativista |
|---|---|---|---|
| Pidgin (Língua Aproximativa) | Comunicação elementar e utilitária (comércio, trabalho). Gestão in vivo. | Gramática e léxico altamente simplificados. | Nenhuma comunidade de falantes nativos. |
| Crioulo | Língua primária da comunidade (mother tongue). | Gramática complexa e expandida (resultado da Crioulização). | Possui falantes nativos (adquirido como L1). |
| Língua Veicular / Franca | Comunicação intergrupal ampla em uma região. | Pode ser uma língua natural (não simplificada) ou um crioulo/pidgin mais desenvolvido. | Variável. |
V. Macrofenômenos Políticos: Diglossia e Conflito Linguístico
O estudo de Calvet culmina na análise da diglossia e dos conflitos linguísticos (Calvet, Seção 6) , onde as relações de poder e as atitudes sociais se manifestam na hierarquia entre as variedades.
V.1. Diglossia: A Crítica de Calvet ao Modelo Harmonioso
O conceito clássico de diglossia (Ferguson, 1959) descreve uma coexistência relativamente estável de duas variedades (Alta – H, e Baixa – L) de uma mesma língua, com domínios de uso rigidamente separados (H para contextos formais/escritos; L para contextos informais/familiares).
Contudo, Calvet e a Sociolinguística do Conflito rejeitam essa visão harmoniosa.CALVET, Louis-Jean. As políticas linguísticas. São Paulo: Parábola, 2007. (Calvet e a Sociolinguística do Conflito). Para Calvet, a diglossia não é apenas uma distribuição funcional, mas uma situação de conflito linguístico e dominação social. A coexistência hierárquica reflete o domínio de uma variedade (H) sobre a outra (L), marginalizando e estigmatizando os falantes da variedade L. O falante da variedade menos prestigiada encontra-se numa posição de insegurança, sendo frequentemente objeto de preconceito.
V.2. Conflito Linguístico como Motor da Mudança
O conflito linguístico, inerente a situações de contato com desequilíbrio de poder, é um propulsor crucial para a mudança e a manifestação de identidade. A decisão de falantes em contato de não quererem falar a língua do vizinho, impulsionada pela vontade de marcar diferença ou identidade, tem efeitos diretos sobre a forma e a evolução das próprias línguas.A decisão de falantes em contato de não quererem falar a língua do vizinho impulsiona a mudança linguística e a manifestação de identidade.
No caso dos conflitos identitários (por exemplo, entre sérvios e croatas, citado em ), a negação da identidade linguística comum leva a práticas conscientes de diferenciação, como a busca por empréstimos em terceiras línguas ou o desenvolvimento de traços distintivos no vocabulário e na grafia. Assim, a Sociolinguística de Contato precisa analisar o conflito não apenas como uma atitude, mas como um mecanismo sociológico que molda ativamente a estrutura e o nome das línguas.
A maneira como as línguas são nomeadas também reflete o conflito. Para o falante, a língua é uma prática fluida; para o linguista, ela é frequentemente um item taxonômico que precisa ser nomeado de maneira unívoca. O ato de dar nome, como classificar uma variedade como "crioulo", carrega conotações sociais e históricas que não são as mesmas para o especialista e para o falante.
VI. Glotopolítica e o Reconhecimento do Brasil Plurilíngue
A gestão da diversidade linguística, seja ela natural (in vivo) ou planejada (in vitro), é o objeto da Política Linguística e da Glotopolítica.
VI.1. O Marco da Constituição de 1988
O Brasil possui uma profunda diversidade etnolinguística, historicamente reprimida e negada por ideologias autoritárias. A promulgação da Constituição Federal de 1988 marcou um ponto de inflexão, pois pela primeira vez na história do país, essa diversidade foi reconhecida.
Glotopolítica refere-se ao conjunto de ações e intervenções políticas (legais, educacionais, administrativas) que buscam gerir a diversidade e o status das línguas. A abertura política pós-1988 possibilitou a criação de ações glotopolíticas cruciais no final da década de 1990, como o Grupo de Trabalho sobre Políticas Linguísticas do Mercosul (GTPL) e a atuação do Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL).
VI.2. Cooficialização de Línguas e Combate ao Preconceito
As ações glotopolíticas resultantes dos estudos de SC têm enfatizado o reconhecimento do Brasil como país multi- e plurilíngue e o combate ao preconceito linguístico.
Um dos exemplos mais notáveis de ação glotopolítica é a cooficialização de línguas em municípios brasileiros. Em 2002, por meio da atuação do IPOL, as línguas Tukano, Baniwa e Nheengatu foram cooficializadas em São Gabriel da Cachoeira, sendo as primeiras línguas indígenas a receberem esse status no país. Essas ações institucionais e o debate acadêmico, impulsionado por obras como Preconceito linguístico, o que é, como se faz (Bagno) e As políticas linguísticas (Calvet) , fornecem o arcabouço para a atuação de pesquisadores e professores no campo da diversidade.
VII. Implicações Pedagógicas dos Estudos de Contato Linguístico na Educação Básica
Para o curso de graduação em Letras, a análise dos contatos linguísticos não é apenas um exercício teórico, mas uma ferramenta essencial para a Sociolinguística Educacional. O professor em formação deve ser capaz de realizar a transposição didática dos saberes científicos para o contexto da sala de aula.BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004.
VII.1. O Paradigma Sociolinguístico na Escola
A escola brasileira frequentemente opera sob o mito da língua homogênea, resultando em um ensino de Português calcado na gramática tradicional e na imposição da norma-padrão como única forma correta.Ensino de língua portuguesa calcado na gramática tradicional, sem reflexão linguística, reforçando atitudes negativas sobre variedades.BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999/2007. (Mito do triângulo escola-gramática-dicionário). Essa perspectiva purista e normativa tende a ignorar ou rejeitar usos que não estão de acordo com a norma.CALLOU, Dinah. O ensino de língua materna na perspectiva sociolingüística. In: ______ (Org.). O Português de todos os dias. São Paulo: Parábola, 2008. (Rejeição de usos que não estão de acordo com a norma-padrão).
A Sociolinguística Educacional (Bortoni-Ricardo, Faraco, Bagno) propõe a superação desse modelo. O objetivo da escola, sob a luz da Sociolinguística, não é ensinar o aluno a falar português (o que ele já faz), mas sim expandir sua competência comunicativa, capacitando-o a produzir enunciados adequados nas diversas situações de discurso e modalidades de uso.NEVES, I. S. A. Linguagem na escola: a produção de textos orais e escritos na aula de Português. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2014. (Capacitar o aluno a produzir enunciados adequados nas diversas situações de discurso).
A variedade-padrão deve ser tratada como uma das variedades da língua em uso, e não como um padrão imposto de forma violenta sobre a heterogeneidade natural da língua.Tratar a língua padrão na escola como uma das variedades da língua em uso. A língua, como prática social e estrutura simbólica, é atravessada por ideologias e desigualdades, e a educação deve reconhecer sua natureza socialmente constituída.Abordagem da Sociolinguística Educacional que reconhece a natureza socialmente constituída da linguagem e a centralidade da interação.
VII.2. O Combate ao Preconceito Linguístico Através do Conhecimento
O estudo do CL oferece subsídios diretos para o combate ao preconceito linguístico. Este preconceito, que é uma atitude negativa dirigida a variedades de baixo prestígio social, é reforçado na Educação Básica quando o ensino ignora a diversidade.
O professor de Língua Portuguesa tem o dever de desconstruir os mitos populares e conscientizar os alunos sobre as muitas variações da linguagem, mostrando que essas manifestações dependem de fatores sociais, históricos e geográficos.Dever do professor de conscientizar os alunos sobre as variações da linguagem e fatores sociais, históricos e geográficos. O conhecimento da diversidade e das dinâmicas de contato linguístico é a principal forma de dirimir a segregação linguística.
A análise de fenômenos de contato, como o Code-Switching nas regiões fronteiriças (e.g., Brasil-Bolívia), deve ser apresentada aos alunos não como um sinal de deficiência, mas como uma habilidade linguística complexa e contextualizada, parte essencial da identidade bilíngue e cultural. O professor atua como um agente de mediação crítica, apto a interpretar as práticas linguísticas dos alunos.
A tabela a seguir contrasta as duas posturas pedagógicas em relação aos contatos e à variação linguística:
| Postura | Concepção de Língua | Tratamento do Contato Linguístico (CL) | Resultado Pedagógico |
|---|---|---|---|
| Normativa/Purista | Homogênea, única, superior (o triângulo escola-gramática-dicionário). | CL (Code-Switching, Interferências) é visto como erro, deficiência, ou falta de cultura. | Reforça o preconceito linguístico e a exclusão social. |
| Sociolinguística/Funcional | Heterogênea, fato social (coexistência de variedades). | CL é visto como habilidade complexa e recurso identitário legítimo. | Expande o repertório comunicativo do aluno e promove cidadania crítica. |
VII.3. Sugestões Didáticas Específicas
Para um ensino engajado, os estudos de CL sugerem:
Análise Crítica do Empréstimo: Em vez de proibir anglicismos, a escola deve analisar o prestígio e o poder cultural/econômico que induzem a sua adoção. Essa abordagem transforma a palavra estrangeira em objeto de reflexão sobre as relações internacionais de poder.
Validação do Repertório Bilíngue: Utilizar o Code-Switching de alunos bilíngues (como os que vivem em zonas de fronteira) como material didático para discutir as funções pragmáticas da linguagem (identidade, humor, negociação social). A escola legitima a diversidade ao tratar essas práticas como manifestações de uma competência comunicativa avançada.
Estudo da Gênese Linguística: Abordar a formação de pidgins e crioulos para ilustrar que a língua portuguesa é, ela própria, resultado de múltiplos contatos (indígenas, africanos), desmistificando a ideia de uma língua "pura".Estudo do uso, da variação, do contato e da mudança linguística.
VIII. Conclusão: A Centralidade do Contato na Dinâmica Linguística
O Contato Linguístico é a regra universal da linguagem e, como defende Calvet, não pode ser marginalizado em favor de um modelo abstrato. Os fenômenos de contato—desde o micro (empréstimos, code-switching) até o macro (crioulização, diglossia)—são intrinsecamente ligados a fatores sociais, econômicos e políticos.
A Sociolinguística de Contato, ao adotar uma perspectiva crítica, revela que a diglossia é um conflito, que o empréstimo é um reflexo da dominação cultural, e que a alternância de código é uma habilidade complexa socialmente estigmatizada. Para o futuro professor de Letras, o domínio desses conceitos é vital para a atuação na Educação Básica. É na sala de aula que a transposição desses saberes científicos pode, de fato, combater o preconceito linguístico, transformar a diversidade em valor formativo e capacitar os alunos a navegarem criticamente pela complexa realidade plurilíngue do Brasil.
Referências Bibliográficas
CALVET, Louis-Jean. Sociolingüística: uma introdução crítica. Tradução Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2002. (Edição original 1993). SAVEDRA, Mônica Maria Guimarães; PEREIRA, Telma Cristina de Almeida Silva. Sociolinguística de Contato e Política Linguística: propostas de interseções teórico-metodológicas. Matraga, v. 31, n. 61, jan./abr. 2024. Embora o empréstimo 'off-road' seja citado, a referência genérica no texto original é sobre a dominação cultural/econômica. Análise de neologismos por empréstimos no português brasileiro e a implicação da economia e cultura tecnológica na adoção de estrangeirismos. Definição de Code-switching como fenômeno linguístico de alternar entre duas ou mais línguas dentro de uma única conversa ou enunciado. O Code-switching é comum em comunidades bilíngues e exige que o falante seja altamente proficiente em ambas as línguas. Distinção entre Code-switching e Empréstimo, sendo o primeiro um fenômeno em enunciados individuais, e o segundo afetando o léxico a longo prazo. Alguns pesquisadores usam os termos de forma intercambiável, outros definem CS como alternância em fronteiras de sentença (intersentencial) e CM como fusão dentro da frase (intrasentencial). MYERS-SCOTTON, Carol. Contact Linguistics: Bilingual Encounters and Grammatical Outcomes. Oxford University Press, 2002. Funções sociais do Code-switching, incluindo sinalização de atitude, informalidade ou humor. LIRA, Fabiana da Silva; PARADA, Edina Flores. Code-Switching na região fronteiriça Brasil-Bolívia: implicações para a identidade cultural e o preconceito linguístico. Revista de Estudos Amazônicos de Linguagem e Cultura, 2021. SOUZA, Jurgen Alves de. Code-switching e a gestão do conhecimento no discurso de imigrantes hispano-falantes em São Paulo. Tese de Doutorado, USP, 2021. (Relato de frustração e invalidação de competência). Estudo de percepção que aponta o rótulo "preguiçoso" aplicado a falantes que usam Code-switching. Definição de pidgins como línguas de contato simplificadas surgidas em contextos utilitários. Característica definidora do pidgin como ausência de falantes nativos. Crioulo surge quando um pidgin é adquirido como L1 (crioulização). Crioulização envolve reestruturação gramatical e expansão funcional. Teoria da Fala Estrangeira: cristalização de modelo incompleto da língua dominante. Teorias Contemporâneas: processos diacrônicos de crioulos não são inerentemente diferentes de mudanças linguísticas naturais. TARALLO, F. & ALKMIN, T. Falares crioulos. Línguas em contato. São Paulo: Editora Ática, 1987. Evolução linguística e a emergência do português brasileiro como uma língua colonial. CALVET, Louis-Jean. As políticas linguísticas. São Paulo: Parábola, 2007. (Calvet e a Sociolinguística do Conflito). A decisão de falantes em contato de não quererem falar a língua do vizinho impulsiona a mudança linguística e a manifestação de identidade. BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Educação em língua materna: a sociolinguística na sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2004. Ensino de língua portuguesa calcado na gramática tradicional, sem reflexão linguística, reforçando atitudes negativas sobre variedades. BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 1999/2007. (Mito do triângulo escola-gramática-dicionário). CALLOU, Dinah. O ensino de língua materna na perspectiva sociolingüística. In: ______ (Org.). O Português de todos os dias. São Paulo: Parábola, 2008. (Rejeição de usos que não estão de acordo com a norma-padrão). O objetivo da escola é expandir a competência comunicativa do aluno. NEVES, I. S. A. Linguagem na escola: a produção de textos orais e escritos na aula de Português. 2ª ed. São Paulo: Contexto, 2014. (Capacitar o aluno a produzir enunciados adequados nas diversas situações de discurso). Tratar a língua padrão na escola como uma das variedades da língua em uso. Abordagem da Sociolinguística Educacional que reconhece a natureza socialmente constituída da linguagem e a centralidade da interação. Dever do professor de conscientizar os alunos sobre as variações da linguagem e fatores sociais, históricos e geográficos. Estudo do uso, da variação, do contato e da mudança linguística.