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* SOARES BARBOSA, Jerónimo. ''Grammatica Philosophica da Língua Portugueza'' [1822]. Lisboa: Academia das Sciências, 1866. | * SOARES BARBOSA, Jerónimo. ''Grammatica Philosophica da Língua Portugueza'' [1822]. Lisboa: Academia das Sciências, 1866. | ||
* WILKINS, John. ''An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language'' [1668] | * WILKINS, John. ''An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language'' [1668]. Menston: Scolar Press, 1968. | ||
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Resumo[editar]
O período que se estende do Renascimento ao final do século XVIII representa uma das fases mais ricas e complexas da história dos estudos da linguagem. Trata-se de um momento em que a reflexão sobre a língua deixa de ser prerrogativa quase exclusiva dos gramáticos latinos e dos filósofos escolásticos e passa a envolver humanistas, religiosos, exploradores, filósofos naturais e cortesãos. Esse deslocamento não é acidental: ele resulta de uma série de transformações históricas profundas — a invenção da imprensa, a queda de Constantinopla, a Reforma Protestante, a formação dos Estados nacionais e os grandes descobrimentos — que juntas redesenham o mapa político, religioso e intelectual da Europa e colocam a questão da linguagem no centro dos debates da época.
Antecedentes[editar]
Para compreender o que se passa nesse período, é preciso ter em mente o pano de fundo legado pela Idade Média. A gramática medieval era dominada por duas grandes orientações. A primeira, a grammatica speculativa, desenvolvida pelos chamados Modistae (gramáticos especulativos dos séculos XIII e XIV, como Tomás de Erfurt e Boécio de Dácia), tratava a gramática como ciência universal, capaz de desvelar os modos de ser das coisas por meio dos modos de significar das palavras. Nessa perspectiva, as diferenças entre as línguas eram acidentais; o que importava era a estrutura subjacente, comum a toda linguagem humana. A segunda orientação, a grammatica positiva, voltava-se para a descrição particular das línguas — inicialmente o latim ensinado como língua estrangeira aos clérigos medievais — com fins práticos e pedagógicos. Essa tensão entre universal e particular, entre teoria e prática, entre ciência e técnica, perpassa toda a reflexão linguística do Renascimento e do século XVII.
Contexto histórico: os grandes eventos que transformaram os estudos da linguagem[editar]
A invenção da imprensa[editar]
Em 1452, Gutenberg conclui o desenvolvimento da prensa de tipos móveis, e o impacto desse evento sobre a história da língua e da linguística é dificilmente exagerado. A circulação maciça de textos impressos criou uma demanda inédita por padronização ortográfica: enquanto os manuscritos copiados nos scriptoria dos mosteiros toleravam variação considerável, o livro impresso exigia uniformidade tipográfica. Além disso, o mercado editorial — que migra dos mosteiros para as oficinas urbanas de impressão — amplia extraordinariamente o público leitor, alcançando camadas sociais antes privadas de acesso à escrita.
Dois nomes se destacam nesse processo. Aldo Manuzio (1449–1515), editor veneziano, introduz o formato in-oitavo (um livro menor, mais portátil e barato) e o tipo itálico, tornando o livro um objeto acessível a um público mais amplo. Robert Estienne (1503–1559), tipógrafo e lexicógrafo francês, é responsável pela divisão da Bíblia em capítulos e versículos numerados, criando um sistema de referência que persiste até hoje. Ambas as inovações ilustram como a tecnologia tipográfica impulsionou não apenas a difusão do texto, mas também sua organização e padronização.
A queda de Constantinopla[editar]
Em 1453, Constantinopla cai diante dos turcos otomanos, pondo fim ao Império Romano do Oriente. Uma das consequências mais significativas para a história intelectual europeia é a migração de eruditos bizantinos para o norte da Itália — especialmente para Florença, Veneza e Pádua — trazendo consigo manuscritos gregos até então pouco conhecidos no Ocidente latino. A redescoberta de Platão (em detrimento do Aristóteles que havia dominado a escolástica medieval), assim como de outros textos gregos clássicos e helenísticos, alimenta o movimento humanista e renova profundamente os estudos filológicos. A necessidade de traduzir esses textos para o latim — e posteriormente para os vernáculos — coloca o problema da tradução e da equivalência entre línguas no centro da reflexão intelectual.
A Reforma Protestante[editar]
Em 1517, Martinho Lutero afixa suas 95 teses em Wittenberg, dando início à Reforma que fragmentaria definitivamente a cristandade ocidental. Do ponto de vista da história da linguagem, o impacto da Reforma é enorme. Ao defender que cada cristão deve ter acesso direto às Escrituras na sua própria língua, o protestantismo impõe a tradução da Bíblia para os vernáculos como tarefa teológica urgente. A tradução de Lutero para o alemão (1522–1534) torna-se um marco não apenas religioso, mas linguístico: contribui decisivamente para a fixação de uma norma escrita do alemão moderno. O mesmo fenômeno se verifica em outras línguas. O incentivo à alfabetização — para que os fiéis possam ler as Escrituras por si mesmos — também é uma consequência direta da teologia reformada, com impacto direto sobre o ensino e sobre a reflexão pedagógica a respeito da língua.
A formação dos Estados nacionais[editar]
Portugal, Espanha, França e Inglaterra consolidam-se como Estados nacionais ao longo dos séculos XV e XVI, e a língua assume um papel explicitamente político nesse processo. A unificação territorial e administrativa exige uma língua comum capaz de funcionar como instrumento de coesão. É nesse contexto que se inserem tanto a produção das primeiras gramáticas das línguas vernáculas quanto as medidas legislativas que impõem o uso dessas línguas nos documentos oficiais. A língua passa a ser pensada não apenas como meio de comunicação ou objeto de reflexão gramatical, mas como símbolo de identidade nacional e instrumento de poder.
A valorização e a gramatização dos vernáculos[editar]
Antecedentes medievais[editar]
A valorização das línguas vernáculas não começa no Renascimento. Já em 813, o Concílio de Tours determina que, embora a liturgia continue em latim, os sermões e homilias devem ser pronunciados nas línguas que o povo entende — o rustica romana lingua e o germânico. Em 842, os Juramentos de Estrasburgo — acordo político entre os netos de Carlos Magno — são redigidos em proto-francês e proto-alemão, constituindo o primeiro documento oficial nessas línguas. A emergência das literaturas vernáculas medievais — do Beowulf ao anglo-saxão (século XI), passando pela poesia trovadoresca occitana, pelas chansons de geste francesas, pelo romance arturiano, pela poesia épica ibérica, pela grande literatura italiana do Trecento (Dante, Petrarca, Boccaccio) e pela prosa inglesa de Chaucer — demonstra que os vernáculos já possuíam, muito antes do Renascimento, uma tradição literária de peso considerável.
O tratado De vulgari eloquentia de Dante Alighieri (1302–1305) é particularmente significativo: escrito em latim (o que é em si eloquente), defende a dignidade e a capacidade expressiva do vernáculo italiano e discute critérios para a seleção de uma variedade ilustre dentre os múltiplos dialetos da Península. Dante estabelece assim, avant la lettre, um debate que o Renascimento retomará com muito mais intensidade: qual variedade vernacular deve servir de modelo literário e gramatical?
Na Itália do século XV, esse debate assume o nome de Questione della lingua. Pietro Bembo (1470–1547), humanista veneziano, propõe que o toscano do século XIV — especificamente a língua de Petrarca (para a poesia) e de Boccaccio (para a prosa) — deve servir de modelo para a língua literária italiana. Trata-se de uma posição marcadamente conservadora e aristocratizante, que privilegia uma variedade já distante da fala viva e impõe como padrão uma língua essencialmente literária e arcaizante. No sul da França, o occitano já havia recebido uma gramática, Las leys d'Amors, em 1356 — possivelmente a mais antiga gramática de uma língua românica.
As primeiras gramáticas vernáculas[editar]
O momento decisivo para a gramatização dos vernáculos ocorre no final do século XV, com a produção da primeira gramática de uma língua moderna europeia. Antonio de Nebrija (1441–1522), humanista espanhol formado em Bolonha, publica em 1492 a Gramática de la lengua castellana — o mesmo ano em que Colombo chega à América e Granada cai diante dos Reis Católicos. A coincidência de datas não é apenas curiosa: no prólogo da obra, Nebrija dirige-se à rainha Isabel e declara que "siempre la lengua fue compañera del imperio" — a língua sempre foi companheira do império. A gramática é assim explicitamente concebida como instrumento político de expansão e dominação. O mesmo Nebrija publica naquele ano um Dicionário Latim-Espanhol e, em 1495, um Dicionário Espanhol-Latim; em 1517, acrescenta as Reglas de ortografía española.
Na França, a oficialização do vernáculo avança por via legislativa: as Ordonnances de Villers-Cotterêts (1539), promulgadas por Francisco I, determinam que todos os documentos jurídicos sejam redigidos em francês — e não em latim ou nas línguas regionais. É uma medida de imperialismo linguístico interno, que subordina os falares regionais ao francês da corte. Em 1549, o poeta Joachim du Bellay publica a Défense et illustration de la langue française, manifesto do grupo poético da Plêiade que defende a dignidade do francês como língua literária e propõe enriquecê-la a partir do modelo das línguas clássicas — não por subordinação ao latim, mas por emulação criativa.
O caso do português[editar]
Em Portugal, o processo de gramatização e de afirmação da língua vernácula tem características próprias. O nome "português" só se consolida por volta de 1440, substituindo a designação "nossa lingoagem". A primeira gramática do português é a Grammatica da lingoagem portuguesa de Fernão de Oliveira (1507–1581), publicada em 1536. Trata-se, como a própria historiografia reconhece, de uma obra de caráter miscelâneo — mais um conjunto de observações curiosas sobre a língua do que uma descrição gramatical sistemática no modelo latino —, mas tem o mérito de ser pioneira e de tratar o português com olhar atento à sua especificidade.
Quatro anos depois, em 1540, João de Barros (1496–1570) publica uma Grammatica da Língua Portuguesa mais sistemática, modelada sobre as gramáticas latinas e sobre Nebrija. No mesmo ano, publica um Dialogo em louvor da nossa linguagem, texto que defende o valor e a riqueza do português. A ortografia de Barros já revela preocupações com a representação dos sons da língua; o trecho que descreve o comportamento da letra n ilustra a atenção ao detalhe fonético e à comparação com o latim e o castelhano: "Ésta lêtera N àçerca de nós sérve no prinçípio e fim da sílaba e nunca em fim de diçám, porque nam temos párte que se acábe nele, como, pelo contráiro, os Castelhanos em m, nô que somos máis confórmes aos Latinos."
Em 1572, Luís de Camões publica Os Lusíadas, que se tornará o principal monumento da língua portuguesa — o equivalente ibérico da Divina Comédia para o italiano. Dois anos depois, em 1574, Pero de Magalhães Gândavo publica as Regras que ensinam a maneira de escrever a orthographia da lingoa portuguesa, obra que inclui um curioso diálogo entre dois personagens — Petrônio (defensor do português) e Falencio (defensor do espanhol) — em que se confrontam as particularidades das duas línguas ibéricas. Duarte Nunes de Leão completa esse ciclo com a Orthographia da lingoa portuguesa (1576) e, três décadas depois, com a Origem da lingoa portuguesa (1606), obra de caráter histórico-comparativo que antecipa algumas preocupações que só se tornarão dominantes na linguística do século XIX.
Resultados do processo de gramatização[editar]
A gramatização dos vernáculos produz efeitos que vão muito além da mera descrição linguística. Em primeiro lugar, implica padronização: ao fixar uma norma escrita, a gramática simplifica a complexidade e a diversidade das variedades reais da língua, eliminando ou marginalizando variantes. Em segundo lugar, implica normatização: a variedade escolhida como modelo tende a ser a das classes dominantes — a variedade da corte, da nobreza, da literatura consagrada —, o que confere prestígio a certos usos e estigmatiza outros. Em terceiro lugar, implica artificialização: as gramáticas renascentistas frequentemente "enriquecem" os vernáculos por meio da relatinização, isto é, da introdução de empréstimos lexicais e sintáticos diretamente do latim, sob o argumento de que isso "enobrece" a língua vulgar. Finalmente, implica oficialização, com todas as implicações de competição e imperialismo linguístico que isso acarreta — tanto em relação ao latim quanto em relação a outras línguas vernáculas.
Retórica e Ensino[editar]
Petrus Ramus e a reforma do trivium[editar]
Uma das figuras intelectuais mais influentes do século XVI no que diz respeito à teoria da linguagem e ao ensino das disciplinas do trivium (gramática, retórica, dialética) é Pierre de la Ramée, conhecido pelo nome latinizado de Petrus Ramus (1515–1572). Protestante huguenote, Ramus é massacrado na Noite de São Bartolomeu, mas sua influência pedagógica perdurou por mais de um século, especialmente nas universidades protestantes da Europa e nas colônias americanas.
A reforma ramista parte de uma redistribuição das partes do trivium. Para Ramus, a lógica (ou dialética) é a disciplina do conteúdo do discurso: ela governa a invenção (a criação dos argumentos) e a disposição (sua organização). A retórica fica reduzida à dimensão da forma: ela cuida da elocução (a escolha das palavras e das figuras de linguagem, isto é, o estilo), da memória (a memorização do discurso) e da pronunciação (a entrega oral, com voz e gestos adequados). Essa redistribuição tem como efeito o esvaziamento da retórica como arte de argumentação e sua redução a uma disciplina de estilo ornamental — tendência que marcará profundamente a tradição retórica posterior.
No campo da gramática, o trabalho de Ramus também é inovador: ele é um dos primeiros gramáticos a atentar sistematicamente para a distinção entre a representação gráfica e os sons da língua. Sua análise da ortografia do latim e do francês o leva a observar que certas letras acumulam funções distintas: assim, a letra v servia tanto para representar a vogal [u] quanto a consoante [v], e a letra i tanto para a vogal [i] quanto para a semivogal/consoante [j]. Ramus propõe a distinção gráfica sistemática entre essas funções, introduzindo o uso moderno do j (para o som consonantal, como em jam em vez de iam) e do v (para a consoante, como em vinum em vez de uinum). Trata-se de uma contribuição duradoura à tradição gráfica das línguas europeias.
A reação católica: retórica barroca e a Companhia de Jesus[editar]
A Reforma Protestante provoca, no interior da Igreja Católica, uma profunda reação que ficou conhecida como Contrarreforma ou Reforma Católica, cujo marco institucional é o Concílio de Trento (1545–1563). Do ponto de vista dos estudos da linguagem e da retórica, a reação católica tem consequências notáveis.
A oratória sacra é reconfigurada segundo um modelo retórico distinto do humanismo clássico. Se os humanistas do início do Renascimento haviam privilegiado a clareza, a elegância e a imitação ciceroniana, a retórica barroca pós-tridentina combina o docere (instruir, convencer pela razão) com o movere (arrebatar, comover pela emoção). O pregador deixa de ser apenas um expositor da doutrina e torna-se um ator que teatraliza a fé, mobilizando a imaginação e os afetos do auditório. Ornamentação, emoção e dramaturgia tornam-se categorias centrais da elocução religiosa.
Esse espírito alimenta dois grandes movimentos estilísticos do Barroco. O conceptismo — representado por escritores como Francisco de Quevedo e Baltasar Gracián na Espanha — privilegia o jogo de ideias, os paradoxos, as antíteses e a densidade conceitual do discurso. O cultismo (ou gongorismo) — cujo nome deriva de Luis de Góngora — cultiva o rebuscamento verbal, o vocabulário latinizante, a sintaxe hiperbática e a imagem obscura. No Brasil colonial, Gregório de Matos representa a vertente mais agressiva dessa tradição.
A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola em 1540 e que se torna o principal braço intelectual da Contrarreforma, desenvolve um sistema pedagógico rigoroso codificado na Ratio Studiorum (publicada definitivamente em 1599). O ensino jesuítico coloca a retórica e o latim clássico no centro do currículo, formando gerações de intelectuais em toda a Europa e nas colônias americanas e asiáticas. No campo específico da retórica, destaca-se o manual De Arte Rhetorica (1562) do jesuíta português Cipriano Soares, obra amplamente adotada nos colégios da Companhia e que representa uma síntese da retórica clássica (Aristóteles, Cícero, Quintiliano) adaptada às necessidades pedagógicas e pastorais do século XVI.
Variação e mudança linguística[editar]
Diversidade linguística: Babel, Pentecostes e as línguas do mundo[editar]
O período renascentista é também o período das grandes navegações e das explorações geográficas, que colocam os europeus em contato com línguas radicalmente diferentes das que conheciam — línguas ameríndias, línguas africanas, línguas do Extremo Oriente. Esse contato com a diversidade linguística tem um impacto profundo sobre a reflexão teórica a respeito da natureza e da origem das línguas.
O problema da diversidade linguística é interpretado a partir de dois paradigmas bíblicos em tensão. O paradigma de Babel — a confusão das línguas como punição divina — alimenta a chamada "tradição da queixa": a multiplicidade das línguas é vista como um mal, uma imperfeição que impede a comunicação universal. Do ponto de vista institucional, essa visão fundamenta a posição da Igreja Católica de manter o latim como língua sagrada e universal e de proibir (ou ao menos desconfiar de) traduções da Bíblia para os vernáculos. O paradigma de Pentecostes — o dom das línguas concedido aos apóstolos para que pregassem a todos os povos — é, ao contrário, adotado pelo pensamento protestante como justificativa teológica para a aceitação da pluralidade linguística e para a tradução das Escrituras.
Uma das primeiras tentativas sistemáticas de descrever a diversidade linguística do mundo é o Mithridates de Conrad Gesner (1555), que reúne dados de diversas línguas organizados em torno de uma estrutura comum — o texto do Pai-Nosso em cada língua. Essa estratégia comparativa será retomada e ampliada em trabalhos posteriores e constitui um antecedente importante da linguística comparada do século XIX.
A questão da origem da linguagem[editar]
A questão da origem das línguas constitui um dos temas centrais da reflexão linguística entre o Renascimento e a primeira modernidade. A hipótese mais difundida nesse período é a da ancestralidade do hebraico: sendo o hebraico a língua em que Deus falou com Adão no Paraíso, seria ela a língua original da humanidade, da qual todas as demais derivariam. Essa hipótese monogenética é defendida por muitos humanistas e teólogos e leva a uma série de especulações etimológicas — algumas fantasiosas — sobre as relações entre as línguas europeias e o hebraico.
Mais interessante do ponto de vista científico é a proposta de Pier Francesco Giambullari (1495–1555), segundo a qual o italiano descende do etrusco, que por sua vez descende do grego, e este do hebraico — uma cadeia genealógica que, embora incorreta nos detalhes, antecipa a ideia de filiação linguística. Ainda mais significativa é a hipótese indocita de Cláudio Salmásio, formulada em 1643, que observa semelhanças estruturais entre o latim, o grego, o persa e as línguas germânicas, antecipando de forma rudimentar aquilo que o século XIX chamará de família indo-europeia.
O século XVIII recoloca com nova urgência a questão da origem da linguagem — problema que os pensadores anteriores haviam tratado sobretudo em chave teológica, concebendo a linguagem como dádiva divina e o hebraico como língua original da humanidade, mas que passa agora a ser enfrentado em termos filosóficos e naturalistas.
A posição teológica tradicional é representada, no século XVIII, pelo pastor alemão Johann Peter Süssmilch, que, em Versuch eines Beweises, daß die erste Sprache ihren Ursprung nicht vom Menschen, sondern allein vom Schöpfer erhalten habe (1754), argumenta que a complexidade e a regularidade da linguagem constituem provas de sua origem divina: nenhuma criatura humana seria capaz de inventá-la.
Curiosamente, Jean-Jacques Rousseau (1712–1778) compartilha, por razões opostas, a ideia de que os seres humanos não poderiam ter inventado a linguagem por si mesmos — não porque ela seja divina, mas porque ela pressupõe precisamente aquilo que pretende estabelecer: para combinar sons e significados de forma convencional, os homens já precisariam dispor de alguma forma de linguagem.
A resposta naturalista mais influente ao problema surge com Étienne Bonnot de Condillac (1715–1780), que, em Essai sur l'origine des connaissances humaines (1746), propõe uma genealogia da linguagem baseada na experiência sensível e na interação social. Partindo de uma “linguagem de ação” — composta de gestos, expressões faciais e gritos involuntários —, os seres humanos teriam desenvolvido progressivamente sons articulados associados a emoções específicas, chegando, por fim, à linguagem articulada propriamente dita. Trata-se de uma visão evolucionista avant la lettre, que desloca a explicação da linguagem do domínio da teologia e da razão pura para o da experiência e da sociabilidade.
A discussão alcança novo patamar com o prêmio da Academia Prussiana de 1769 sobre a origem da linguagem, vencido pela obra Abhandlung über den Ursprung der Sprache (1772), de Johann Gottfried Herder (1744–1803). Em oposição tanto a Süssmilch, defensor da origem divina, quanto a Condillac, cujo evolucionismo Herder considera excessivamente mecanicista, o filósofo sustenta que a linguagem é uma criação especificamente humana, produto da Besonnenheit — capacidade de reflexão, de distanciamento do imediato, de distinguir e nomear — que diferencia os homens dos animais. Para Herder, a comunicação animal é instintiva e biologicamente determinada, ao passo que a linguagem humana é histórica, cultural e criativa. Mais do que instrumento do pensamento, a linguagem constitui o próprio medium em que o pensamento se forma, ideia que exercerá forte influência sobre o Romantismo alemão e sobre os estudos linguísticos do século XIX, especialmente em Wilhelm von Humboldt.
A história das línguas e a etimologia moderna[editar]
Paralelamente ao debate sobre a origem da linguagem, o século XVIII assiste ao desenvolvimento de uma visão científica da mudança linguística — em contraste com o "pessimismo linguístico" que via na mudança inevitável das línguas apenas decadência e corrupção. O economista e enciclopedista francês Anne-Robert Jacques Turgot (1727–1781) faz contribuições importantes à etimologia em seus artigos para a Encyclopédie, introduzindo a distinção fundamental entre empréstimo (a palavra que entra numa língua por contato com outra) e herança (a palavra que continua, de forma mais ou menos transformada, na descendente de uma língua anterior). Essa distinção é fundamental para a linguística histórica: duas palavras que parecem semelhantes em duas línguas podem ser cognatas (herdadas de um ancestral comum), empréstimos (uma tomada da outra ou ambas tomadas de uma terceira) ou apenas semelhantes por coincidência.
Turgot introduz também o conceito de dobrete — dois vocábulos de uma mesma língua que remontam a uma única forma etimológica, mas por vias distintas: uma erudita (empréstimo direto do latim) e uma popular (evolução espontânea ao longo dos séculos). Os pares dedo/dígito (< latim digitum), macho/másculo (< masculum), mascar/mastigar (< mastigare) e mancha/mácula (< macula) ilustram de forma transparente esse fenômeno no português: as formas populares sofreram reduções e transformações fonéticas que as tornaram irreconhecíveis como descendentes da forma latina, enquanto as formas eruditas foram reintroduzidas mais tarde, praticamente sem alteração.
Inovações gramaticais: hebraico, árabe e a estrutura das línguas semíticas[editar]
O contato com o hebraico e com o árabe — línguas de tradições intelectuais riquíssimas e estruturalmente muito diferentes das línguas indo-europeias — produz inovações importantes na descrição gramatical. Em 1506, o humanista alemão Johannes Reuchlin publica o De rudimentis hebraicis, primeira gramática do hebraico para leitores cristãos, obra fundamental para o desenvolvimento dos estudos bíblicos e para a consolidação do hebraico como disciplina universitária.
A gramática do hebraico (e a do árabe, que começa a ser estudada no mesmo período) introduz conceitos que enriquecerão a reflexão gramatical geral. O mais importante é a noção de raiz: nas línguas semíticas, as palavras são construídas a partir de raízes consonantais (geralmente triconsonantais) às quais se acrescentam afixos e padrões vocálicos. O árabe k-t-b, por exemplo, é a raiz do campo semântico da escrita: kataba (escrever), iktataba (copiar), kitab (livro), maktaba (biblioteca). A analogia com o português é instrutiva: a raiz escr- está presente em escrever, descrevi, escrita, escritório. Essa análise morfológica em termos de raiz mais afixos (prefixo, infixo, sufixo) representa uma contribuição duradoura à teoria morfológica, que os gramáticos das línguas indo-europeias aprenderão a utilizar a partir do contato com as línguas semíticas.
Reuchlin também descreve com precisão a fonética articulatória do hebraico, classificando os sons segundo o ponto de articulação: guturais, palatais, linguais, dentais e labiais. Essa taxonomia fonética, inspirada em parte na tradição árabe, é um antecedente importante da fonética articulatória moderna.
Universal e particular: a tensão entre grammatica speculativa e grammatica positiva[editar]
Uma das grandes tensões que percorre toda a história dos estudos da linguagem — e que o período renascentista herda da Idade Média e transmite ao século XVII — é a tensão entre uma abordagem universal e uma abordagem particular da gramática.
A grammatica speculativa medieval, como mencionado na introdução, busca os princípios subjacentes e universais da linguagem — aquilo que seria comum a todas as línguas. Ela privilegia os aspectos semânticos ("a alma da gramática"), concebe-se como ciência (que busca a verdade e produz teoria) e dirige-se preferencialmente a falantes nativos que já conhecem a língua e querem compreender sua estrutura profunda.
A grammatica positiva, ao contrário, volta-se para as diferenças entre as línguas — seus aspectos físicos, concretos, variáveis ("o corpo da gramática"). Ela se concebe como técnica (que busca a eficácia e produz prática) e dirige-se a estrangeiros que precisam aprender a língua como instrumento de comunicação.
No Renascimento, essa tensão se renova sob novas formas. De um lado, o humanismo gramatical privilegia a grammatica positiva: interessa descrever o latim clássico com precisão filológica e, em seguida, descrever os vernáculos por analogia com ele. De outro lado, a tradição filosófica — que culminará, no século XVII, na gramática racionalista de Port-Royal — busca retomar o projeto especulativo medieval sob novas bases filosóficas, substituindo o aristotelismo escolástico pelo racionalismo cartesiano.
As gramáticas universais: Port-Royal e a tradição racionalista[editar]
O ponto de chegada do projeto especulativo medieval, renovado pelo racionalismo do século XVII, é a Grammaire générale et raisonnée de Antoine Arnauld e Claude Lancelot, publicada em Port-Royal em 1660. Conhecida simplesmente como a Gramática de Port-Royal, a obra parte do princípio cartesiano de que a razão é universal e de que, por isso, as operações fundamentais do pensamento se refletem nas estruturas gramaticais de todas as línguas. A gramática não descreve os acidentes particulares de uma língua, mas as formas universais pelas quais o pensamento humano se articula na linguagem.
A estrutura da proposição lógica — sujeito, cópula, predicado — é transposta para a análise gramatical: toda oração se reduz, em última instância, a essa forma tripartite. Os autores distinguem entre as palavras que expressam os objetos do pensamento (nomes, artigos, pronomes, particípios, preposições, advérbios) e as que expressam a forma e o modo do pensamento (verbos, conjunções, interjeições). A cópula verbal — o verbo ser — assume uma posição central: é ela que exprime a operação do julgamento, o ato pelo qual o espírito afirma ou nega algo de algo. Nesse sentido, toda proposição tem subjacente a estrutura sujeito + ser + predicado, mesmo quando a superfície linguística a obscurece.
No mesmo ano de 1660, Arnauld publica a Logique, ou l'art de penser com Pierre Nicole, obra que aprofunda a relação entre lógica e gramática e fornece o fundamento filosófico do projeto gramatical. O sucesso de Port-Royal é imenso: a Gramática inspira dezenas de gramáticas gerais e filosóficas durante o século XVIII e serve de modelo para a reflexão sobre a universalidade da linguagem até o século XX, quando Noam Chomsky a reivindicará como antecedente de sua gramática gerativa.
A tradição das gramáticas universais tem um importante desdobramento britânico em James Harris (1709–1780), que em seu Hermes, or a Philosophical Inquiry Concerning Universal Grammar (1751) retoma a distinção aristotélica entre frase (unidade semanticamente divisível) e palavra (unidade semanticamente indivisível) e propõe uma classificação bipartite das classes de palavras: as palavras principais (que têm significação autônoma), subdivididas em substâncias (nomes e pronomes, correspondentes ao onoma grego) e atributos (verbos, adjetivos, particípios, advérbios, correspondentes ao rhema); e as palavras acessórias (sem significação autônoma), que funcionam como definidoras e conectoras (os syndesmoi). Trata-se de uma simplificação radical do sistema de classes de palavras herdado da tradição greco-latina, mas que tem a virtude de distinguir com nitidez a dimensão semântica (o que as palavras significam) da dimensão sintática (como elas se combinam).
No quadro da tradição lusófona, o impacto de Port-Royal e das gramáticas filosóficas se faz sentir em Jerónimo Soares Barbosa, cuja Grammatica Philosophica da Língua Portugueza (1822) aplica ao português os princípios da gramática racional. Entre suas contribuições está a distinção clara entre substantivo e adjetivo — categorias que a tradição anterior tendia a confundir sob o rótulo genérico de "nome" — e a incorporação do particípio à classe do verbo, em vez de tratá-lo como uma classe independente. Francisco Freire da Silva, em sua Grammatica Philosophica da Língua Portugueza (1856), avança na mesma direção ao sistematizar a análise sintática como procedimento descritivo fundamental.
A reforma da língua: línguas artificiais e a busca da linguagem perfeita[editar]
A "tradição da queixa" a respeito da imperfeição das línguas naturais — que são ambíguas, irregulares, mutáveis e múltiplas — alimenta, ao longo do século XVII, um movimento que busca criar ou recuperar uma linguagem perfeita. Esse movimento tem raízes tanto teológicas quanto filosóficas.
Do ponto de vista teológico, há o que se pode chamar de movimento palingenético: o desejo de retornar à língua original anterior à queda do Paraíso — a língua que Adão teria falado com Deus, na qual os nomes das coisas correspondiam perfeitamente à sua natureza. Jakob Böhme (1575–1624), místico alemão, busca essa linguagem original (Uhrsprache) em sua obra De signatura rerum (1635), na ideia de que as coisas carregam em si mesmas um signo de sua natureza que a linguagem adâmica seria capaz de expressar.
Do ponto de vista filosófico e científico, o projeto é mais pragmático: trata-se de criar uma linguagem artificial que, como a matemática, a química ou a notação musical, seja universal, não ambígua e capaz de expressar o conhecimento com precisão. Em 1668, o bispo anglicano John Wilkins publica An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language, obra em que propõe um sistema de notação (pasigrafia) inspirado, entre outras coisas, pelos caracteres chineses — que, por não representarem sons, mas diretamente significados, poderiam em teoria ser lidos por falantes de qualquer língua. O projeto de Wilkins influenciará, décadas depois, a organização temática do vocabulário que Peter Mark Roget sistematizará em seu Thesaurus of English Words and Phrases (1852).
Gottfried Wilhelm Leibniz (1646–1716) vai mais longe: em seus Nouveaux essais sur l'entendement humain (escritos por volta de 1704, publicados postumamente em 1765) e em vários escritos lógicos, ele propõe a characteristica universalis — um alfabeto do pensamento (alphabetus cogitationum) que permitiria não apenas expressar, mas calcular o pensamento, resolvendo disputas filosóficas pela simples aplicação de um algoritmo. O projeto leibniziano antecipa, de maneira notável, a lógica simbólica do século XIX e a noção moderna de linguagem formal.
Um resultado concreto e duradouro dessa busca por classificação universal é a nomenclatura binomial proposta por Carl von Linné (Carolus Linnaeus, 1707–1778) em seu Systema Naturae (1735), que organiza os seres vivos em categorias hierárquicas e atribui a cada espécie um nome em latim composto de gênero e espécie — como Panthera leo para o leão. Trata-se de uma linguagem artificial construída sobre o latim, universal por convenção científica e imune às ambiguidades das línguas naturais.
Estenografia: a escrita da fala em tempo real[editar]
Um desenvolvimento paralelo, menos frequentemente discutido na historiografia linguística mas relevante para a história das tecnologias da escrita, é a estenografia — sistema de escrita abreviada destinado a registrar a fala em tempo real. As chamadas notas tironianas, sistema de sinais abreviados atribuído a Marcus Tullius Tiro, secretário de Cícero no século I a.C., são consideradas o antecedente remoto desse gênero. Em 1602, John Willis publica The Art of Stenographie, sistematizando um método de escrita breve que poderia ser usado tanto para o registro fiel da fala quanto — como o próprio Willis admite — para fins secretos. Em 1786, Samuel Taylor publica um sistema aperfeiçoado que exercerá grande influência sobre a estenografia inglesa posterior. O interesse por sistemas de escrita abreviada reflete a mesma preocupação com a relação entre fala e escrita que anima outros desenvolvimentos do período: como capturar a língua oral na escrita, e como fazer isso com eficiência?
Políticas linguísticas: o Diretório dos Índios e a Revolução Francesa[editar]
Os séculos XVII e XVIII são também um período de intensificação das políticas linguísticas de Estado, entendidas aqui como intervenções deliberadas sobre o uso e o status das línguas numa comunidade. Dois episódios merecem destaque especial.
Em 17 de agosto de 1758, o Diretório dos Índios, promulgado pelo Marquês de Pombal na colônia brasileira, proíbe o uso das chamadas "línguas gerais" — variedades baseadas no tupi que haviam se tornado línguas de comunicação intercultural em vastas regiões do Brasil colonial, em grande parte graças ao trabalho missionário jesuítico. A medida é ao mesmo tempo um ato de política colonial (a imposição do português como única língua legítima no Brasil) e um ataque ao poder dos jesuítas, que seriam expulsos do Império Português no ano seguinte (1759). O Diretório representa um dos primeiros casos modernos de glotofagia institucionalizada — a supressão deliberada de línguas por meio de instrumento legal —, com consequências devastadoras para as línguas indígenas brasileiras.
Em 1789, a Revolução Francesa produz um efeito paradoxal: ao mesmo tempo em que proclama os direitos universais do homem, implementa uma política de homogeneização linguística que condena as variedades regionais da França — occitano, bretão, alsaciano, basco, flamengo — como "patois" (falar rústico) e resquícios do Ancien Régime, incompatíveis com os valores republicanos. O relatório do abade Grégoire Sur la nécessité et les moyens d'anéantir les patois (1794) é o documento mais explícito dessa política, que levará historiadores modernos a cunhar o termo "glotocídio" para descrevê-la. Neste caso, como nos Villers-Cotterêts dois séculos antes, a língua é usada como instrumento de unificação política — mas agora sob a bandeira da igualdade revolucionária, e não do poder monárquico.
Conclusão[editar]
O período que vai do Renascimento ao final do século XVIII é, portanto, um período de extraordinária efervescência nos estudos da linguagem. Ele vê nascer as primeiras gramáticas das línguas vernáculas modernas, o debate sobre a origem e a diversidade das línguas, a incorporação de línguas não europeias (hebraico, árabe, línguas ameríndias) no horizonte da reflexão linguística, a reforma da retórica e do trivium por Ramus, a reconfiguração da relação entre gramática universal e gramática particular, o projeto filosófico de uma linguagem perfeita e universal, a reflexão racionalista de Port-Royal, a questão filosófica da origem da linguagem (Condillac, Herder), os primeiros rudimentos da etimologia científica (Turgot) e as políticas linguísticas de Estados modernos (Pombal, Revolução Francesa).
Muitos dos temas e tensões que emergem nesse período — entre universal e particular, entre norma e variação, entre língua e poder, entre linguagem natural e linguagem artificial, entre origem divina e origem humana da linguagem — continuarão a organizar o debate linguístico no século XIX. A gramática comparativa, fundada por Rask, Bopp e Grimm a partir de 1816, dará resposta científica às questões sobre o parentesco e a história das línguas que o período aqui tratado havia colocado, mas que não pôde ainda resolver com os instrumentos disponíveis.
Referências bibliográficas[editar]
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