Funcionalismo
O Funcionalismo representa uma das viradas paradigmáticas mais importantes nas Ciências da Linguagem no século XX. Enquanto o estruturalismo clássico (especialmente a glossemática de Hjelmslev e o distribucionalismo americano de Bloomfield) concentrou-se estritamente na descrição da forma, da autonomia e da organização interna do sistema imanente, o funcionalismo propõe uma abordagem externa e integrada.
A Pergunta Funcionalista[editar]
A grande clivagem entre o formalismo estrutural e o funcionalismo reside na natureza de sua interrogação fundamental. Em vez de perguntar "como a língua se estrutura internamente como um sistema de puras oposições?", o funcionalismo parte de uma indagação essencialmente teleológica e pragmática: para que serve a linguagem?
Para os linguistas dessa corrente, a língua não é um artefato geométrico abstrato que existe em um vácuo social; ela é, antes de tudo, um instrumento de interação verbal e comunicação humana. Consequentemente, as estruturas gramaticais, as regras sintáticas e as escolhas fonológicas não são arbitrárias ou puramente imotivadas: elas se explicam, moldam-se e motivam-se (ao menos em parte) em decorrência das pressões e necessidades cognitivas, sociais e comunicativas que os falantes enfrentam no uso real da língua. A forma, portanto, submete-se à função.
Karl Bühler e as Três Funções da Linguagem (1934)[editar]
A primeira grande sistematização dos objetivos comunicativos da linguagem ocorreu fora da linguística estrita, partindo da psicologia da forma (Gestalt). O psicólogo e linguista alemão Karl Bühler (1879-1963), em sua obra fundamental Sprachtheorie (Teoria da Linguagem, publicada em 1934), postulou que qualquer ato de fala envolve um modelo de coordenadas axiomáticas organizado a partir de três polos constitutivos: o mundo (os objetos), o Eu (o emissor) e o Tu (o receptor).
A partir deste modelo sêmico e triangular, Bühler deduziu as três funções fundamentais da linguagem:
| Função | Orientação (Polo) | Definição Teórica | Exemplo Prático |
|---|---|---|---|
| Representativa (ou Descritiva) |
Os Objetos e Eventos (O Mundo) |
Voltada para a representação lógica, transmissão de dados e descrição objetiva de estados de coisas da realidade. | "No nível do mar, a água ferve a 100°C." |
| Expressiva (ou Sintomática) |
O Emissor (O Eu) |
Externaliza o estado interno do falante, suas atitudes afetivas, subjetividades, desejos e emoções em relação ao que diz. | "Não quero que a água ferva a 100°C!" |
| Apelativa (ou Conativa) |
O Destinatário (O Tu) |
Dirige-se diretamente ao interlocutor com o objetivo de mover sua vontade, provocar uma reação ou condicionar seu comportamento. | "Ferve, água, ferve!" |
A Metáfora do Sintoma[editar]
É de vital importância para o estudante de Letras compreender o rigor por trás do termo "sintomático" empregado por Bühler para classificar a função expressiva. Tomando de empréstimo a semiótica médica clássica, Bühler explica que, assim como um sintoma físico (por exemplo, a febre alta ou uma erupção cutânea) é um indício natural e involuntário de uma alteração biológica interna do organismo, a função expressiva da linguagem atua como um índice do estado anímico e psíquico do falante. Ela manifesta e expõe uma realidade interior de forma direta, diferentemente da função representativa, que descreve as realidades exteriores de maneira mediada e conceitual.
Roman Jakobson e as Seis Funções da Linguagem (1960)[editar]
Em 1960, no encerramento de um simpósio interdisciplinar na Universidade de Indiana, Roman Jakobson proferiu sua célebre conferência intitulada "Linguística e Poética" (posteriormente publicada no Brasil na coletânea Linguística e Comunicação). Jakobson identificou que o modelo tripartite de Bühler, embora elegante, era insuficiente para explicar a totalidade dos fatores que intervêm na transmissão de uma mensagem verbal.
Jakobson expandiu a equação comunicativa, mapeando seis fatores constitutivos invariáveis de todo ato de fala. A cada um desses fatores, ele fez corresponder uma função de linguagem específica, gerando um modelo hexagonal:
CONTEXTO
(Função Referencial)
|
EMISSOR ------------------ MENSAGEM ----------------- DESTINATÁRIO
(Função Emotiva) (Função Poética) (Função Conativa)
|
CONTATO
(Função Fática)
|
CÓDIGO
(Função Metalinguística)
As três funções herdadas de Bühler ganharam novos nomes e maior precisão técnica (a representativa tornou-se referencial, a expressiva tornou-se emotiva e a apelativa tornou-se conativa). Paralelamente, Jakobson introduziu três novas funções que iluminaram zonas até então negligenciadas pela sintaxe pura:
- Função Poética (Foco na Mensagem): Ocorre quando o enunciado se volta sobre sua própria materialidade estrutural, isto é, sobre a forma, a seleção lexical, a sonoridade, o ritmo, as rimas e a organização retórica das palavras. Jakobson a define formalmente como a projeção do princípio da equivalência do eixo da seleção (paradigma) sobre o eixo da combinação (sintagma). Ela não é exclusiva da literatura; manifesta-se em slogans publicitários, trocadilhos e chistes cotidianos.
- Exemplo: "Ferver ou não ferver: eis a questão." O valor informacional aqui é secundário; o que se destaca é o jogo estético e a paródia intertextual direta com o monólogo de Hamlet, de William Shakespeare ("To be, or not to be, that is the question").
- Função Fática (Foco no Contato): Tem por finalidade testar, estabelecer, prolongar, interromper ou simplesmente confirmar a operacionalidade do canal físico de comunicação e a manutenção da atenção entre os interlocutores. É uma função essencialmente relacional e vazia de conteúdo informacional denso.
- Exemplo: "Fervendo aí também?" Utilizada em uma conversa casual ao telefone ou por aplicativos de mensagem, esse enunciado serve primordialmente para atestar a conexão do canal interativo entre os falantes, agindo de maneira similar a expressões como "Alô?", "Entendeu?", "Pois é".
- Função Metalinguística (Foco no Código): Manifesta-se quando a linguagem se dobra sobre si mesma, ou seja, quando o emissor e o destinatário utilizam o próprio código linguístico para falar, conceituar, analisar ou retificar as regras e sentidos do próprio código. É a língua explicando a língua.
- Exemplo: "Ferver é um verbo." Este enunciado não transmite nenhuma informação sobre a fervura empírica da água no mundo físico; ele enuncia uma propriedade gramatical e morfológica da palavra enquanto unidade linguística. Ocorre metalinguagem em todos os verbetes de dicionários, aulas de gramática e checagens semânticas cotidianas (como em "o que você quer dizer com a palavra X?").
O Princípio da Simultaneidade e a Dominância[editar]
Jakobson adverte enfaticamente que seria um erro metodológico primário tentar classificar os enunciados reais como se contivessem uma única e exclusiva função de linguagem. Virtualmente, todo enunciado verbal concreto acumula e combina várias dessas seis funções concorrentemente.
O critério de diferenciação textual reside na noção de função dominante. Um texto poético possui função referencial (informa dados) e função emotiva, mas a sua estrutura é hierarquicamente comandada e subordinada à função poética. Mapear a comunicação funcional envolve identificar qual dessas forças direcionais exerce a hegemonia sobre o enunciado, o que vincula as teses de Jakobson diretamente aos estudos de Pragmática e de Gêneros Discursivos.
A Dupla Articulação da Linguagem[editar]
O conceito de Dupla Articulação da Linguagem é um dos pilares fundamentais da linguística funcional de matriz europeia. Formulado e amadurecido pelo linguista francês André Martinet (1908-1999) a partir de 1949, e plenamente sistematizado em sua obra-prima Éléments de linguistique générale (Elementos de Linguística Geral, publicada em 1960), este princípio define a especificidade estrutural das línguas humanas em relação a qualquer outro sistema de comunicação animal ou artificial.
A teoria de Martinet dialoga diretamente com as dicotomias saussurianas e, de modo muito estreito, com a engenharia conceitual de Louis Hjelmslev (Glossemática), que cindia a linguagem entre os planos da expressão e do conteúdo. A originalidade de Martinet consistiu em transpor essa divisão para uma chave estritamente funcionalista, demonstrando que a anatomia da língua responde a uma necessidade intrínseca de otimização de esforço e eficiência comunicativa. Para o funcionalismo europeu, a linguagem humana organiza-se em dois níveis ou camadas de articulação hierarquicamente sobrepostos e interdependentes.
A engenharia combinatória que caracteriza a dupla articulação estrutura-se de maneira ascendente e descendente, partindo do signo complexo até atingir os átomos mínimos do som.
Primeira Articulação: O Nível dos Monemas (Morfemas)[editar]
A primeira articulação situa-se no nível do conteúdo e da significação. Ao produzirmos um enunciado, a cadeia falada ou escrita é segmentável em unidades linguísticas mínimas que são obrigatoriamente dotadas, de forma simultânea, de um significante (forma fônica/gráfica) e de um significado (sentido).
Martinet denominou essas unidades mínimas de significação como monemas. Na tradição gramatical brasileira e nos estudos contemporâneos de morfologia, utiliza-se amplamente o termo morfemas (convencionalmente representados entre chaves na análise estrutural: {morfema}). O morfema é o menor fragmento gramatical ou lexical que ainda carrega uma carga de sentido irredutível dentro da língua.
Os morfemas subdividem-se tipicamente em:
- Lexemas (morfemas lexicais): Carregam o núcleo semântico do mundo exterior (ex: a raiz das palavras).
- Gramemas (morfemas gramaticais): Carregam as noções gramaticais de gênero, número, tempo, modo ou derivação.
Segunda Articulação: O Nível dos Fonemas[editar]
A segunda articulação desce para o plano da expressão pura. Cada morfema isolado na primeira articulação é, por sua vez, passível de ser segmentado e decomposto em unidades menores e sucessivas: os fonemas (convencionalmente representados entre barras na análise fonológica: /fonema/).
Os fonemas são unidades materiais e abstratas **completamente desprovidas de significado próprio**. Eles não significam nada isoladamente; a sua única propriedade linguística é possuir uma função puramente distintiva. O fonema serve unicamente para opor e diferenciar um morfema de outro dentro do sistema da língua (como a oposição fonológica entre /p/ e /b/ que distingue {pato} de {bato}).
O Princípio da Economia Linguística[editar]
A importância capital da descoberta de Martinet para a ciência da linguagem reside na explicação do Princípio da Economia Linguística. Se as línguas humanas operassem apenas com a primeira articulação — isto é, se cada situação, objeto, ação ou ideia do universo exigisse um som único, indivisível e exclusivo para ser comunicado —, a memória e a capacidade cognitiva da espécie humana entrariam em colapso biológico imediato. Seriam necessários milhões de sons vocais distintos para dar conta da experiência humana.
Graças à existência da segunda articulação, ocorre um milagre econômico na evolução da linguagem: com um inventário extremamente reduzido, finito e fechado de fonemas (no caso do português brasileiro, um sistema composto por aproximadamente 27 fonemas, variando ligeiramente conforme a descrição dialetal), o cérebro humano consegue combiná-los para edificar milhares de morfemas e palavras (primeira articulação).
Ao combinar esses milhares de morfemas por meio das regras sintagmáticas e sintáticas, a língua ganha uma produtividade infinita, tornando-se capaz de gerar um número potencialmente infinito de enunciados, discursos e textos. A dupla articulação é, portanto, a engrenagem que concilia a finitude dos recursos biológicos humanos com a infinitude da expressão do pensamento.
Exemplos Práticos de Análise Estrutural[editar]
Para demonstrar a operacionalidade metodológica da teoria de Martinet, a tabela abaixo expõe a dissecação de diferentes vocábulos da língua portuguesa em suas respectivas primeira e segunda articulações. Esta segmentação evidencia a independência e a correlação entre o nível do sentido e o nível do som puro:
| Palavra | Primeira Articulação (Unidades com Significado: Morfemas) |
Segunda Articulação (Unidades Distintivas: Fonemas) |
|---|---|---|
| Tratado | {trat} (radical) + {a} (vogal temática) + {d} (sufixo de particípio) + {o} (morfema de gênero masculino) + {Ø} (morfema zero de número) | /t/ /r/ /a/ /t/ /a/ /d/ /o/ |
| grandezas | {grand} (radical lexical) + {eza} (sufixo derivacional nominalizador) + {s} (morfema flexional de número plural) | /g/ /r/ /ã/ /d/ /e/ /z/ /a/ /s/ |
| insignificâncias | {in} (prefixo de negação) + {sign} (raiz) + {ific} (sufixo) + {â} (vogal) + {c} (sufixo) + {ia} (sufixo de qualidade) + {s} (plural) | /ĩ/ /s/ /i/ /g/ /i/ /n/ /i/ /f/ /i/ /k/ /ã/ /s/ /i/ /a/ /s/ |
| nada | {nada} (morfema único, irredutível e monomorfemático) | /n/ /a/ /d/ /a/ |
| conexões | {conex} (radical lexical) + {ões} (morfema complexo de flexão plural) | /k/ /o/ /n/ /e/ /k/ /s/ /õ/ /j/ /s/ |
Notas Técnicas sobre a Análise Morfofonológica[editar]
- O Morfema Zero ({Ø}): Na dissecação da palavra "Tratado", o analista depara-se com o símbolo {Ø} no final da sequência morfológica. Este artifício técnico é chamado de morfema zero (ou marcação nula). Trata-se de um procedimento clássico herdado do estruturalismo distribucionalista. O morfema zero assinala que a *ausência* de uma marca fonética visível em uma determinada posição da palavra possui, na verdade, um valor funcional ativo no sistema. No português, a ausência de um desinência de plural ativa semanticamente a categoria de "singular" por oposição ao morfema {s}. O silêncio, estruturalmente posicionado, também significa.
- O Isomorfismo Desfeito: A comparação minuciosa da tabela revela que não existe nenhuma correspondência matemática direta ou de espelho ("um para um") entre o número de morfemas e o número de fonemas. A palavra "nada" apresenta-se como um único e indivisível bloco significativo na primeira articulação ({nada}), mas desdobra-se em quatro unidades fonológicas distintas na segunda articulação (/n/ /a/ /d/ /a/). Na palavra "conexões", a sequência de letras esconde o fato de que a consoante gráfica x se realiza fonologicamente na segunda articulação como o encontro de dois fonemas consonantais sucessivos: /k/ e /s/. Isso prova de maneira definitiva a autonomia formal e o estatuto independente de cada um dos dois planos de articulação.
A Escola de Praga e a Perspectiva Funcional da Frase (PFF)[editar]
A contribuição da Escola de Praga ao funcionalismo estendeu-se muito além da fonologia funcional de Trubetzkoy. Os linguistas checos foram pioneiros na criação de uma metodologia funcionalista voltada para a sintaxe e para a organização informacional do discurso. Essa abordagem foi inaugurada por Vilém Mathesius (1882-1945) e posteriormente refinada e desdobrada por Jan Firbas (1921-2000) sob o conceito de Dinamismo Comunicativo.
A grande tese da chamada Perspectiva Funcional da Frase (Functional Sentence Perspective — PFF) postula que a ordenação e o arranjo das palavras dentro de uma frase não respondem apenas a regras mecânicas e abstratas de concordância ou regência sintática (como sujeito + verbo + objeto). A arquitetura da frase é governada pela distribuição do peso da informação que o falante deseja transmitir, dividindo-se o enunciado em duas porções funcionais nítidas:
- Tema (Informação Dada): É o ponto de partida do enunciado; a base informacional que já é de conhecimento prévio do interlocutor ou que já foi introduzida anteriormente no contexto do discurso. É o tópico sobre o qual se vai tecer um comentário.
- Rema (Informação Nova): É o núcleo da mensagem; aquilo que se afirma, comenta, acrescenta ou descobre de inédito a respeito do Tema. É a porção que faz avançar o dinamismo comunicativo do texto.
Análise Estrutural e a Topicalização[editar]
Tomemos o seguinte enunciado em língua portuguesa:
"Maria, ela saiu de casa mais cedo."
Ao aplicarmos os parâmetros da Perspectiva Funcional da Frase, a segmentação se desata da seguinte forma:
- "Maria" (juntamente com o pronome reiterativo "ela") encarna o Tema. Assume-se que a identidade de Maria já faz parte do universo de conhecimento compartilhado entre os falantes na linha do discurso.
- "saiu de casa mais cedo" constitui o Rema. Trata-se da carga informativa inédita, o dado novo que se acopla ao tema.
Esse fenômeno sintático é conhecido nos estudos contemporâneos de gramática discursiva como topicalização ou, em vertentes formais, "deslocamento à esquerda". O falante, movido por uma necessidade pragmática de sinalizar com clareza o foco de sua atenção, retira o sujeito de sua posição canônica na frase e o projeta para a periferia extrema à esquerda, isolando-o por uma pausa (vírgula) e reativando-o em seguida por meio de um pronome anafórico ("ela"). A estrutura sintática se altera visando cumprir uma prioridade de ordem puramente comunicativa.
Desenvolvimentos Posteriores: As Gramáticas Funcionais[editar]
A semente funcionalista plantada pelas matrizes europeias de Praga, Copenhague e Indiana frutificou na segunda metade do século XX, desaguando em modelos teóricos integrados de análise sintática e discursiva. Duas grandes escolas universais destacam-se nesse cenário:
- A Gramática Funcional de Simon C. Dik (1940-1995): Proposta pelo linguista neerlandês em 1978, essa teoria concebe a gramática como um complexo de regras interativas que capacita os seres humanos a codificarem suas intenções comunicativas. Dik rejeita a visão de que a sintaxe seja autônoma (como faz Noam Chomsky). Para a vertente holandesa, as funções puramente sintáticas (como Sujeito e Objeto) são inteiramente subordinadas e determinadas pelo cruzamento das funções semânticas (Agente, Paciente, Meta) e das funções pragmáticas (Tema, Rema, Foco, Tópico).
- A Linguística Sistêmico-Funcional de Michael A. K. Halliday (1925-2018): Formulada pelo linguista britânico a partir de sua obra seminal An Introduction to Functional Grammar (1985), essa escola encara a língua como uma "semiótica social". Halliday mapeia a engrenagem gramatical a partir de três grandes metafunções simultâneas que respondem às necessidades vitais da espécie humana:
- Metafunção Ideacional: A linguagem servindo para mapear, organizar e interpretar a nossa experiência do mundo interior e exterior.
- Metafunção Interpessoal: A linguagem servindo para estabelecer, negociar e manter as nossas relações sociais, papéis discursivos e atos de fala com o outro.
- Metafunção Textual: A linguagem servindo para criar laços de coesão e coerência internos, garantindo que o enunciado se estruture constitutivamente como um texto inteligível.
Em suma, para o aluno de Letras, o Funcionalismo Linguístico deve ser compreendido como o grande contraponto científico à imanência do estruturalismo radical e ao inatismo formalista. Ao trazer o contexto, a cognição, o falante e a sociedade para o centro da descrição linguística, o funcionalismo reconecta a forma da língua à sua vitalidade social diária.
Bibliografia comentada — Funcionalismo Linguístico[editar]
- BÜHLER, Karl. Teoría del Lenguaje. Madri: Revista de Occidente, [1934] 1967. (Ou edições mais recentes em espanhol/inglês).
- Comentário: Um dos textos fundacionais da virada funcional clássica. Embora exija familiaridade com os debates da psicologia e da fenomenologia europeia dos anos 1930, sua leitura é crucial para compreender de onde nascem as matrizes das funções expressiva, apelativa e representativa.
- JAKOBSON, Roman. "Linguística e Poética". In: Linguística e Comunicação. Tradução de Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, [1960] 2010.
- Comentário: É o artigo mais lido, citado e obrigatório dos cursos de Letras e Comunicação do país. A clareza de Jakobson ao articular os seis componentes da comunicação às seis funções da linguagem torna este ensaio uma ferramenta de aplicação analítica imediata para textos poéticos, publicitários e midiáticos.
- HALLIDAY, Michael A. K. An Introduction to Functional Grammar. Londres: Edward Arnold, [1985] 2004. (Ou edições revisadas por Christian Matthiessen).
- Comentário: O manual definitivo da Linguística Sistêmico-Funcional. Trata-se de uma obra monumental e densa onde Halliday disseca a gramática inglesa através das lentes das metafunções textual, interpessoal e ideacional, servindo de fundação teórica para os estudos contemporâneos de Análise Crítica do Discurso (ACD).
- DIK, Simon C. The Theory of Functional Grammar. Berlim: Mouton de Gruyter, 1997. (2 volumes).
- Comentário: Publicação póstuma que reúne a sistematização final do modelo funcional holandês. É uma leitura de fôlego voltada para pesquisadores de sintaxe que desejam compreender os mecanismos abstratos que geram as sentenças a partir de restrições pragmáticas.
- MARTINET, André. Elementos de Linguística Geral. Tradução de Jorge Morais Barbosa. Lisboa: Sá da Costa, [1960] 1991.
- Comentário: Conforme referenciado na fonologia, este clássico francês atua como uma ponte magnífica entre as escolas europeias, sendo fundamental para entender como o princípio funcional da comunicação age de forma motora nas mudanças estruturais internas de uma língua ao longo do tempo.