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	<title>Letropédia - Contribuições do usuário [pt-br]</title>
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	<subtitle>Contribuições do usuário</subtitle>
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		<title>Gerativismo</title>
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		<updated>2026-08-05T17:47:50Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;201.54.52.52: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;O &#039;&#039;&#039;gerativismo&#039;&#039;&#039;, também denominado &#039;&#039;&#039;linguística gerativa&#039;&#039;&#039;, é um programa de investigação científica da linguagem iniciado na década de 1950 e associado principalmente à obra de [[Noam Chomsky]]. Seu objetivo central é explicar o conhecimento linguístico que permite aos seres humanos adquirir, produzir e compreender expressões de uma língua, inclusive expressões que nunca encontraram anteriormente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em sentido amplo, o gerativismo compreende um conjunto heterogêneo de teorias sobre a estrutura das línguas, a aquisição da linguagem, a natureza da [[faculdade da linguagem]] e sua inserção na arquitetura cognitiva humana. Ao longo de aproximadamente sete décadas, o programa passou por reformulações profundas. Entre suas principais fases encontram-se a gramática transformacional inicial, a Teoria Padrão, a Teoria Padrão Estendida, o modelo de Regência e Ligação, a Teoria de Princípios e Parâmetros e o [[Programa Minimalista]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A palavra &#039;&#039;&#039;gerativa&#039;&#039;&#039; não significa que a gramática ensine alguém a produzir frases, nem que descreva os processos conscientes utilizados durante a fala. Em seu sentido técnico original, uma gramática é gerativa quando fornece uma caracterização explícita das expressões estruturalmente possíveis de uma língua. Idealmente, ela associa a cada expressão uma representação de suas propriedades sonoras, sintáticas e semânticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística gerativa deslocou o centro da investigação de corpora de enunciados observados para o sistema de conhecimento que torna esses enunciados possíveis. Em vez de identificar uma língua com um conjunto finito de frases registradas, os gerativistas procuram explicar como um falante é capaz de produzir e compreender uma quantidade potencialmente ilimitada de expressões a partir de recursos finitos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse deslocamento contribuiu para a constituição das ciências cognitivas na segunda metade do século XX. A linguagem passou a ser tratada não apenas como instituição social ou conjunto de comportamentos, mas também como capacidade mental e biológica da espécie humana. O gerativismo influenciou a sintaxe, a fonologia, a morfologia, a semântica formal, a psicolinguística, a neurolinguística, a filosofia da linguagem, a ciência da computação e os estudos sobre aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O programa, entretanto, nunca foi inteiramente homogêneo. Existem diferentes teorias gerativas, divergências internas sobre a arquitetura da gramática e interpretações distintas de conceitos como [[Gramática Universal]], parâmetro, traço, operação, interface e explicação. Também não se deve confundir toda teoria formal da linguagem com o gerativismo chomskiano: gramáticas categoriais, gramáticas de adjunção de árvores, gramáticas léxico-funcionais, gramáticas sintagmáticas nucleadas e outros modelos podem ser gerativos em sentido formal sem adotar o conjunto das hipóteses biológicas e epistemológicas associadas a Chomsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Definição e delimitação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo pode ser compreendido em pelo menos três sentidos relacionados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em primeiro lugar, &#039;&#039;&#039;gramática gerativa&#039;&#039;&#039; designa formalmente um sistema capaz de definir um conjunto de expressões e atribuir-lhes descrições estruturais. Nesse sentido, diferentes modelos matemáticos podem ser gerativos sem assumir uma teoria específica da mente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em segundo lugar, &#039;&#039;&#039;linguística gerativa&#039;&#039;&#039; designa uma tradição teórica que investiga as representações e operações responsáveis pelo conhecimento linguístico. Essa tradição inclui a gramática transformacional, a fonologia gerativa, a semântica gerativa, a Teoria de Regência e Ligação, a Teoria de Princípios e Parâmetros e o Programa Minimalista, entre outros desenvolvimentos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em terceiro lugar, &#039;&#039;&#039;programa gerativista&#039;&#039;&#039; pode referir-se a um projeto mais amplo sobre a natureza da linguagem humana. Nesse projeto, a capacidade linguística é tratada como parte da dotação biológica da espécie, cujo estado inicial restringe as gramáticas que podem ser adquiridas e cujo desenvolvimento resulta da interação entre fatores internos e experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses sentidos não devem ser confundidos. É possível estudar formalmente gramáticas gerativas sem aceitar uma Gramática Universal rica; é possível defender representações mentais da sintaxe sem adotar todas as propostas minimalistas; e é possível pesquisar a base biológica da linguagem fora da tradição chomskiana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Gramática gerativa}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Origem do termo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O verbo &#039;&#039;gerar&#039;&#039; é utilizado na matemática e na lógica para indicar que um sistema formal define ou enumera objetos por meio de regras. Uma gramática gera uma sentença quando a sentença pertence ao conjunto de expressões caracterizado pelo sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerar não equivale, nesse contexto, a descrever uma sequência temporal de eventos psicológicos. Uma derivação gramatical pode representar relações formais entre estruturas sem pretender reproduzir passo a passo a atividade cerebral de um falante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre &#039;&#039;&#039;geração fraca&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;geração forte&#039;&#039;&#039; tornou-se importante. Uma gramática gera fracamente um conjunto quando identifica quais sequências pertencem à língua. Gera fortemente quando, além disso, atribui estruturas específicas a essas sequências.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Duas gramáticas podem gerar as mesmas cadeias de palavras, mas atribuir-lhes organizações hierárquicas diferentes. Para a linguística, a geração forte é fundamental, porque sentenças superficialmente idênticas podem ter interpretações distintas e sentenças linearmente diferentes podem compartilhar relações estruturais relevantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contexto histórico ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O estruturalismo americano ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na primeira metade do século XX, grande parte da linguística acadêmica dos Estados Unidos era influenciada pelo [[estruturalismo americano]]. A tradição reunia a linguística antropológica de [[Franz Boas]] e [[Edward Sapir]], a linguística descritiva de [[Leonard Bloomfield]], a fonêmica, a morfêmica, a análise de constituintes imediatos e o [[distribucionalismo]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estruturalistas haviam desenvolvido procedimentos rigorosos para documentar línguas, identificar fonemas, segmentar morfemas e classificar unidades segundo suas distribuições. Esse trabalho foi decisivo para a constituição da linguística como disciplina autônoma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não é historicamente adequado, contudo, reduzir todo o estruturalismo americano a uma teoria behaviorista baseada apenas em corpora. Sapir atribuía importância à realidade psicológica dos padrões; Bloomfield possuía formação histórico-comparativa e não eliminou inteiramente o significado; Harris desenvolveu transformações, análise do discurso e modelos matemáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo nasceu dentro desse ambiente institucional e herdou parte de seus problemas e instrumentos. Chomsky estudou com [[Zellig Harris]], trabalhou inicialmente com morfofonêmica e conhecia profundamente os métodos formais da linguística estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Estruturalismo americano}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Zellig Harris e as transformações ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris teve importância direta na formação de Chomsky. Sua linguística procurava caracterizar as relações distribucionais existentes entre os elementos de uma língua e, posteriormente, as correspondências sistemáticas entre conjuntos de sentenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma frase ativa e uma passiva, por exemplo, podiam ser relacionadas por uma transformação. Para Harris, as transformações eram inicialmente relações formais entre tipos de sentença, e não necessariamente operações mentais aplicadas a estruturas internas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky aproveitou problemas e conceitos provenientes desse quadro, mas os reorganizou. Em seus primeiros modelos, uma gramática deveria gerar estruturas e aplicar transformações formalmente especificadas. Posteriormente, a teoria passou a interpretar a gramática como representação de um sistema cognitivo individual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre Harris e Chomsky combina, portanto, continuidade e ruptura. A noção de transformação, a preocupação com a explicitude e o interesse pela formalização possuem antecedentes harrisianos. A concepção internalista, a teoria da aquisição e o estatuto atribuído à gramática como conhecimento mental representam mudanças fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Behaviorismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia behaviorista exercia grande influência nas ciências humanas norte-americanas durante a primeira metade do século XX. Suas diferentes vertentes procuravam explicar o comportamento por relações entre estímulos, respostas, reforço e história de aprendizagem, evitando recorrer a entidades mentais não observáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield aproximou-se especialmente do behaviorismo de John B. Watson. [[B. F. Skinner]], por sua vez, desenvolveu uma análise própria do comportamento verbal, publicada de maneira sistemática em &#039;&#039;Verbal Behavior&#039;&#039;, em 1957.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1959, Chomsky publicou uma extensa resenha crítica da obra de Skinner. Argumentou que conceitos elaborados em condições experimentais controladas perdiam precisão quando estendidos a comportamentos linguísticos complexos. Também sustentou que imitação, associação e reforço não explicavam adequadamente a produtividade, a estrutura e a aquisição da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A resenha tornou-se símbolo da chamada revolução cognitiva. Sua importância histórica não significa que tenha refutado experimentalmente todas as teorias comportamentais nem que o behaviorismo tenha desaparecido imediatamente. A relação entre a crítica chomskiana, a psicologia cognitiva e o declínio do behaviorismo foi gradual e institucionalmente complexa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A revolução cognitiva ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas décadas de 1950 e 1960, diferentes áreas passaram a investigar representações e processos mentais. A teoria da informação, a cibernética, a inteligência artificial, a psicologia da memória, a filosofia da mente e a linguística contribuíram para a formação das ciências cognitivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo integrou esse movimento ao defender que o comportamento linguístico não pode ser explicado sem postular um sistema interno de conhecimento. A produção de uma frase seria um efeito observável de capacidades e representações que não se reduzem à sequência de estímulos recebidos pelo indivíduo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;revolução cognitiva&#039;&#039;&#039; descreve uma mudança efetiva de orientação, mas pode sugerir uma ruptura mais súbita e uniforme do que aquela documentada historicamente. Abordagens mentalistas existiam antes de Chomsky; pesquisadores estruturalistas discutiam representação e criatividade; e diferentes formas de behaviorismo continuaram ativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Lógica, matemática e teoria da computação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formação do gerativismo também dependeu do desenvolvimento da lógica matemática e da teoria da computação. A possibilidade de representar formalmente regras, derivações e classes de linguagens ofereceu instrumentos para definir com precisão diferentes tipos de gramática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky distinguiu classes de sistemas formais segundo seu poder gerativo. A chamada &#039;&#039;&#039;hierarquia de Chomsky&#039;&#039;&#039; inclui gramáticas regulares, livres de contexto, sensíveis ao contexto e irrestritas. Essa classificação tornou-se importante na teoria das linguagens formais e na ciência da computação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As línguas naturais não são simplesmente identificadas com uma dessas classes. A hierarquia mostra que mecanismos formais distintos possuem capacidades diferentes e que uma teoria da linguagem precisa especificar quais recursos são necessários para representar as estruturas humanas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A chamada revolução gerativista ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A publicação de &#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039;, em 1957, é frequentemente tomada como marco inicial da linguística gerativa. O livro apresentou uma versão condensada de trabalhos anteriores de Chomsky, especialmente a extensa pesquisa conhecida como &#039;&#039;The Logical Structure of Linguistic Theory&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mudança gerativista pode ser resumida por alguns deslocamentos:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* do corpus para o conhecimento que permite produzir e compreender expressões;&lt;br /&gt;
* da classificação de unidades para a formulação de sistemas explícitos de regras;&lt;br /&gt;
* da descrição de sequências atestadas para a caracterização de possibilidades estruturais;&lt;br /&gt;
* da rejeição metodológica do mentalismo para a investigação de representações internas;&lt;br /&gt;
* da aprendizagem como formação de hábitos para a aquisição como desenvolvimento de um sistema;&lt;br /&gt;
* da diversidade observável para a busca das propriedades comuns da faculdade humana da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas oposições são úteis, mas não absolutas. Os gerativistas também utilizam corpora; os estruturalistas formulavam generalizações; e uma descrição distribucional não precisava constituir teoria behaviorista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;revolução gerativista&#039;&#039;&#039; foi difundida tanto por participantes do movimento quanto por historiadores. Estudos posteriores mostraram que a consolidação do gerativismo envolveu debates internos, redes universitárias, financiamento científico, formação de estudantes e mudanças nas instituições acadêmicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Pressupostos epistemológicos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Naturalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo pretende estudar a linguagem como fenômeno do mundo natural. A faculdade da linguagem é tratada como propriedade de organismos humanos, comparável, em termos gerais, a outros sistemas biológicos e cognitivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa posição não implica que a linguagem possa ser reduzida imediatamente à biologia celular ou à neuroanatomia. A investigação pode operar em diferentes níveis: propriedades formais da gramática, mecanismos de aquisição, processamento, desenvolvimento neural e evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O naturalismo gerativista opõe-se a concepções segundo as quais a língua seria apenas convenção externa ou instituição social. Convenções e comunidades são relevantes, mas pressupõem indivíduos dotados de capacidade para adquirir e utilizar sistemas linguísticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Internalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística gerativa é caracteristicamente &#039;&#039;&#039;internalista&#039;&#039;&#039;. Seu objeto principal é o sistema de conhecimento linguístico de um indivíduo, e não uma entidade coletiva definida apenas por práticas sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky introduziu a distinção entre &#039;&#039;&#039;língua-I&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;língua-E&#039;&#039;&#039;. A língua-I é interna, individual e intensional: corresponde ao sistema incorporado na mente do falante. A língua-E é externa e extensional: pode designar um conjunto de frases, uma prática comunitária ou uma língua identificada por critérios sociais e políticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo privilegia a língua-I porque procura explicar como o indivíduo conhece sua língua. Isso não significa negar a existência de comunidades linguísticas ou da variação social, mas delimitar um objeto específico de investigação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Críticos argumentam que a competência individual é constituída por interação, práticas e convenções sociais e não pode ser isolada inteiramente. O debate entre internalismo e externalismo permanece central na filosofia da linguagem e nas teorias linguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mentalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma gramática é interpretada como representação do conhecimento linguístico. As regras e princípios propostos pela teoria não são apenas resumos dos dados; pretendem caracterizar propriedades do sistema cognitivo que torna os dados possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo &#039;&#039;&#039;mentalismo&#039;&#039;&#039; não implica que todas as entidades teóricas sejam conscientes. Falantes normalmente não conseguem explicar as regras que dominam, assim como não possuem conhecimento consciente dos mecanismos visuais utilizados para reconhecer objetos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A realidade psicológica de uma representação não é garantida apenas por sua elegância formal. Hipóteses gramaticais precisam ser relacionadas a dados de aquisição, processamento, variação, patologia e neurociência, ainda que a conexão entre níveis seja complexa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Racionalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo é frequentemente associado ao racionalismo. A experiência linguística seria necessária para determinar qual língua se desenvolve, mas não conteria informação suficiente para explicar, sem restrições internas, o sistema adquirido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mente não seria uma superfície passiva sobre a qual os dados escrevem associações. A criança interpreta a experiência a partir de capacidades e expectativas que delimitam as hipóteses possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky relacionou esse problema à tradição filosófica racionalista, especialmente a questões discutidas por Descartes, Leibniz e Humboldt. A expressão &#039;&#039;&#039;linguística cartesiana&#039;&#039;&#039;, entretanto, recebeu críticas historiográficas por reunir autores muito diferentes sob uma narrativa orientada por problemas contemporâneos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Explicação e adequação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky distinguiu diferentes níveis de adequação de uma teoria linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma gramática alcança &#039;&#039;&#039;adequação observacional&#039;&#039;&#039; quando representa corretamente os dados considerados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alcança &#039;&#039;&#039;adequação descritiva&#039;&#039;&#039; quando caracteriza o conhecimento linguístico do falante, incluindo as estruturas e generalizações relevantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma teoria alcança &#039;&#039;&#039;adequação explicativa&#039;&#039;&#039; quando explica como uma criança, diante da experiência disponível, pode adquirir uma gramática desse tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente, o Programa Minimalista passou a discutir a possibilidade de ir &#039;&#039;&#039;além da adequação explicativa&#039;&#039;&#039;, investigando por que a faculdade da linguagem apresenta determinadas propriedades e em que medida elas resultam de princípios gerais de eficiência, arquitetura e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Objeto da linguística gerativa ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objeto central não é uma coleção de frases, mas a capacidade que permite aos falantes julgar, construir e interpretar expressões.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um falante de português reconhece que:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A pesquisadora examinou os documentos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
é uma sentença possível. Também percebe relações entre:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A pesquisadora examinou os documentos.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Os documentos foram examinados pela pesquisadora.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
Quais documentos a pesquisadora examinou?&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse conhecimento inclui ordem, concordância, dependências, ambiguidades, possibilidades de referência e restrições que o falante normalmente não aprendeu por instrução explícita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática gerativa procura representar esse conhecimento por meio de categorias, traços, operações, princípios e níveis de interface. A forma exata desses mecanismos mudou em cada fase da teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conceitos fundamentais ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Faculdade da linguagem ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;faculdade da linguagem&#039;&#039;&#039; é a capacidade humana responsável pela aquisição e utilização de línguas. Ela inclui mecanismos que permitem construir, interpretar e externalizar expressões estruturadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em formulações clássicas, a faculdade da linguagem era concebida como componente relativamente específico da mente. Em trabalhos biolinguísticos posteriores, distingue-se frequentemente entre a faculdade da linguagem em sentido amplo e em sentido estrito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;faculdade da linguagem em sentido amplo&#039;&#039;&#039; inclui o sistema computacional linguístico e os sistemas cognitivos e sensório-motores com que ele interage.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;faculdade da linguagem em sentido estrito&#039;&#039;&#039; refere-se ao componente especificamente linguístico. Houve propostas de que sua propriedade central seria uma capacidade recursiva de combinação; essa hipótese foi amplamente debatida e não representa consenso geral nem mesmo entre pesquisadores próximos ao programa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A delimitação do que é exclusivo da linguagem, compartilhado com outras capacidades humanas ou encontrado em outras espécies permanece questão empírica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Faculdade da linguagem}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Competência e desempenho ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;Aspects of the Theory of Syntax&#039;&#039;, Chomsky distinguiu &#039;&#039;&#039;competência&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;desempenho&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A competência é o conhecimento que o falante-ouvinte possui de sua língua. O desempenho é o uso desse conhecimento em situações concretas, sujeito a limitações de memória, atenção, planejamento, percepção e interação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa pode interromper uma frase, esquecer um termo ou interpretar inicialmente uma estrutura de modo inadequado sem que isso demonstre ausência da regra gramatical correspondente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção permitiu delimitar um objeto para a teoria gramatical, mas recebeu críticas. O uso linguístico não é simples reflexo imperfeito de um sistema isolado: frequência, processamento, contexto e interação podem participar da própria organização do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos posteriores distinguem diferentes componentes — competência gramatical, conhecimento pragmático, processamento, memória e habilidades comunicativas — sem necessariamente adotar a idealização original.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Programa Minimalista, a expressão língua-I tornou-se frequentemente mais importante do que a oposição clássica entre competência e desempenho.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Competência e desempenho}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Criatividade linguística ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;criatividade linguística&#039;&#039;&#039; é a capacidade de produzir e compreender expressões novas. O termo não se refere apenas à criatividade artística, mas ao uso normal da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Falantes combinam recursos finitos de modo aberto. Mesmo uma sentença que nunca apareceu anteriormente pode ser imediatamente compreendida se estiver de acordo com as propriedades da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criatividade possui duas dimensões. A primeira é a produtividade estrutural: regras e operações podem ser aplicadas a novos itens e configurações. A segunda é a adequação às situações: os falantes utilizam expressões de maneira não completamente determinada pelos estímulos imediatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A produtividade não prova, por si só, uma versão específica da Gramática Universal. Diferentes teorias procuram explicá-la por regras simbólicas, construções, analogias, esquemas, mecanismos estatísticos ou combinações desses fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Infinitude discreta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguagem apresenta aquilo que Chomsky denominou &#039;&#039;&#039;infinitude discreta&#039;&#039;&#039;. Um conjunto finito de unidades pode ser combinado para formar expressões de extensão potencialmente ilimitada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma oração pode ser inserida em outra:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A professora afirmou que o aluno descobriu que o texto mostrava que...&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não há, em princípio, um maior tamanho gramatical determinado pelo sistema. Na prática, memória, atenção e condições de uso limitam a extensão das expressões.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A infinitude é uma propriedade idealizada do sistema, não uma afirmação de que seres humanos realmente produzam frases infinitas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Recursividade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;recursividade&#039;&#039;&#039; ocorre quando uma operação ou regra pode aplicar-se a uma estrutura que contém uma unidade do mesmo tipo, permitindo encaixes sucessivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Orações podem conter orações; grupos nominais podem conter modificadores que incluem outros grupos nominais. A recursividade contribui para a produtividade, mas não é sinônimo de toda combinação hierárquica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Minimalismo, a operação Merge é frequentemente apresentada como recursivamente aplicável: combina objetos sintáticos e pode utilizar como entrada resultados de aplicações anteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A afirmação de que a recursividade é exclusiva da linguagem humana, universalmente manifestada em todas as línguas ou suficiente para caracterizar a faculdade da linguagem é objeto de debates empíricos e conceituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Recursividade}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura hierárquica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para a linguística gerativa, as sentenças não são apenas sequências de palavras. Seus elementos formam constituintes hierarquicamente organizados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na frase:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A pesquisadora examinou os documentos antigos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;os documentos antigos&#039;&#039; forma um constituinte; dentro dele, &#039;&#039;documentos antigos&#039;&#039; constitui outro agrupamento. Essas relações influenciam interpretação, concordância, deslocamento e substituição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A dependência da estrutura significa que as regras gramaticais normalmente se referem a configurações hierárquicas, não apenas à posição linear.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para formar uma interrogativa em inglês, por exemplo, a criança não aprende simplesmente a mover o primeiro auxiliar encontrado da esquerda para a direita; a operação é sensível à estrutura da oração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dependência estrutural ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;dependência estrutural&#039;&#039;&#039; é o princípio segundo o qual operações gramaticais fazem referência a relações hierárquicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considere-se, de maneira simplificada, a formação de uma pergunta a partir de:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
The boy is happy.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pergunta é:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Is the boy happy?&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma regra puramente linear poderia ser formulada como “mova o primeiro &#039;&#039;is&#039;&#039; para o início”. Mas em uma sentença como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
The boy who is smiling is happy.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a pergunta adequada é:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Is the boy who is smiling happy?&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
e não:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
*Is the boy who smiling is happy?&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A regra precisa identificar o auxiliar da oração principal, o que exige estrutura hierárquica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exemplos desse tipo foram utilizados no debate sobre pobreza do estímulo. Críticos discutem quais dados estão efetivamente disponíveis, que mecanismos de aprendizagem poderiam extrair as regularidades e se a formulação depende de pressupostos específicos sobre representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Gramaticalidade e aceitabilidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Gramaticalidade&#039;&#039;&#039; é a conformidade de uma expressão com o sistema linguístico. &#039;&#039;&#039;Aceitabilidade&#039;&#039;&#039; é o grau em que uma expressão é julgada natural ou processável em determinadas condições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma sentença pode ser gramatical, mas difícil de compreender por excesso de encaixamentos. Outra pode ser facilmente interpretável, apesar de se afastar de padrões normativos ou da variedade tomada como objeto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção é analítica. Na prática, julgamentos de gramaticalidade são obtidos por respostas de falantes e podem ser influenciados por frequência, contexto, escolarização, prescrição, tarefa experimental e variação dialetal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa contemporânea utiliza escalas, comparações controladas, medidas de tempo de leitura e corpora para complementar julgamentos categóricos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Autonomia relativa da sintaxe ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039; defendeu que a gramaticalidade não pode ser reduzida à probabilidade estatística nem à coerência semântica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O exemplo clássico:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Colorless green ideas sleep furiously.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
é semanticamente estranho, mas apresenta uma estrutura sintática reconhecível. Uma sequência com as mesmas palavras em ordem inadequada é percebida de maneira diferente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O argumento não afirma que sintaxe e semântica nunca interajam. Sustenta que há generalizações estruturais que não podem ser derivadas apenas do significado ou da frequência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As teorias gerativas posteriores investigaram extensamente as interfaces entre sintaxe, semântica e discurso. A autonomia é, portanto, relativa, não isolamento absoluto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pobreza do estímulo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O argumento da &#039;&#039;&#039;pobreza do estímulo&#039;&#039;&#039; afirma que determinados conhecimentos linguísticos não parecem poder ser derivados apenas dos dados disponíveis à criança por mecanismos gerais irrestritos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criança recebe amostras finitas, variáveis e dependentes de contexto. Ainda assim, desenvolve conhecimentos sobre estruturas que raramente aparecem e evita generalizações logicamente possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O argumento costuma envolver três componentes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# caracterização do conhecimento adquirido;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# descrição da experiência disponível;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# demonstração de que determinados mecanismos de aprendizagem não bastariam para ligar experiência e conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pobreza do estímulo não é um único argumento, mas uma família de argumentos relativos a fenômenos específicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Críticos contestam a caracterização dos dados como insuficientes, apontam regularidades estatísticas, interação social e aprendizagem indireta. Gerativistas respondem que a presença de informação não explica automaticamente como ela é identificada e generalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Pobreza do estímulo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Problema de Platão ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky denominou &#039;&#039;&#039;Problema de Platão&#039;&#039;&#039; a questão de como os seres humanos conhecem tanto a partir de experiência aparentemente limitada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na linguagem, o problema corresponde à distância entre o caráter parcial dos dados e a riqueza do conhecimento adquirido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formulação não implica que a experiência seja irrelevante. Uma criança criada em ambiente lusófono adquire português, não japonês. A questão é que a experiência atua sobre um organismo dotado de estrutura e mecanismos de desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Problema de Orwell ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em textos políticos e filosóficos, Chomsky empregou a expressão &#039;&#039;&#039;Problema de Orwell&#039;&#039;&#039; para perguntar como as pessoas podem conhecer tão pouco apesar da abundância de informações disponíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse problema não integra a teoria gramatical propriamente dita. Sua presença na obra geral de Chomsky não deve ser confundida com os conceitos técnicos da linguística gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gramática Universal ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Gramática Universal&#039;&#039;&#039; — frequentemente abreviada como &#039;&#039;&#039;GU&#039;&#039;&#039; — é uma hipótese sobre o estado inicial da faculdade da linguagem. Ela procura caracterizar as propriedades que tornam possível a aquisição de línguas humanas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A concepção de GU mudou significativamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas primeiras teorias, a Gramática Universal podia ser entendida como teoria do formato das gramáticas possíveis, incluindo tipos de regras, categorias e condições formais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No modelo de Princípios e Parâmetros, passou a ser apresentada como conjunto de princípios compartilhados e pontos limitados de variação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Programa Minimalista, busca-se reduzir seu conteúdo específico, atribuindo parte das propriedades linguísticas a princípios gerais de eficiência computacional, às interfaces e às condições de desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A GU não é uma gramática completa presente ao nascimento. Também não é uma lista das regras do português, do inglês ou de outra língua. É uma hipótese sobre capacidades e restrições que possibilitam o desenvolvimento de gramáticas particulares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;inata&#039;&#039;&#039; pode causar confusão. Uma propriedade inata não precisa estar plenamente formada ao nascer, ser controlada por um único gene ou desenvolver-se sem experiência. Significa que sua emergência depende de características internas do organismo, em interação com ambiente e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência, o conteúdo e a especificidade linguística da Gramática Universal são amplamente debatidos. Abordagens baseadas no uso, conexionistas, emergentistas e cultural-evolutivas procuram explicar as regularidades das línguas com mecanismos mais gerais e processos históricos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Gramática Universal}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Aquisição da linguagem ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A aquisição ocupa posição central no gerativismo porque permite relacionar a diversidade das línguas ao estado inicial da faculdade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O problema lógico da aquisição ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;problema lógico da aquisição&#039;&#039;&#039; pergunta como a criança passa da experiência linguística a um sistema de conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação não se limita à ordem cronológica em que palavras e construções aparecem. Procura identificar:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* qual é a natureza do conhecimento final;&lt;br /&gt;
* que dados estão disponíveis;&lt;br /&gt;
* quais hipóteses a criança considera;&lt;br /&gt;
* que mecanismos permitem selecionar uma gramática;&lt;br /&gt;
* por que certas generalizações não ocorrem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dispositivo de aquisição da linguagem ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em exposições antigas e manuais introdutórios, aparece a expressão &#039;&#039;&#039;dispositivo de aquisição da linguagem&#039;&#039;&#039;. Ela representa abstratamente o mecanismo que recebe dados da experiência e produz uma gramática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não se trata de órgão anatômico isolado nem de uma caixa localizada em área específica do cérebro. É uma idealização funcional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo tornou-se menos frequente em fases posteriores, que passaram a discutir estado inicial, faculdade da linguagem, princípios, parâmetros e fatores de desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Evidência positiva e negativa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Evidência positiva&#039;&#039;&#039; corresponde às expressões que a criança encontra. &#039;&#039;&#039;Evidência negativa&#039;&#039;&#039; informa que determinada expressão ou hipótese não pertence à língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As crianças não recebem correção explícita sistemática de todas as estruturas impossíveis. Mesmo quando adultos corrigem conteúdo ou pronúncia, a criança pode não interpretar a correção como informação gramatical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas argumentaram que a relativa escassez de evidência negativa limita as hipóteses que poderiam ser aprendidas por simples tentativa e erro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pesquisas posteriores investigaram formas indiretas de evidência negativa, como ausência estatisticamente significativa, reformulações dos adultos, expectativas distribucionais e falhas comunicativas. O alcance dessas fontes permanece debatido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aprendizagem e desenvolvimento ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguagem não é adquirida instantaneamente. O desenvolvimento envolve maturação, crescimento lexical, processamento, memória, interação e exposição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Teorias gerativas contemporâneas procuram distinguir propriedades da representação adulta de mecanismos de desenvolvimento. Nem toda diferença entre criança e adulto precisa corresponder a uma gramática completamente diferente; pode resultar de limitações de processamento ou do desenvolvimento de outros sistemas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Parâmetros ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na Teoria de Princípios e Parâmetros, a aquisição foi frequentemente descrita como fixação de parâmetros a partir dos dados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um parâmetro seria um ponto limitado de variação oferecido pela Gramática Universal. A experiência indicaria à criança qual valor corresponde à língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exemplos clássicos incluíam a possibilidade de sujeito nulo e a direção do núcleo em relação aos complementos. Pesquisas posteriores mostraram que essas generalizações envolvem conjuntos complexos de propriedades e não se deixam reduzir facilmente a interruptores binários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Minimalismo, muitos autores reinterpretaram parâmetros como propriedades de itens funcionais ou traços lexicais. Outros questionaram a necessidade de parâmetros globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Teoria de Princípios e Parâmetros}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Metodologia de investigação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Julgamentos de aceitabilidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística gerativa utiliza julgamentos de falantes para investigar contrastes que podem ser raros em corpora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exemplos são apresentados com marcas convencionais:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* ausência de marca: expressão considerada aceitável;&lt;br /&gt;
* asterisco (*): expressão considerada agramatical no sentido relevante;&lt;br /&gt;
* ponto de interrogação (?): aceitabilidade duvidosa ou marginal;&lt;br /&gt;
* sustenido (#): inadequação semântica ou pragmática, apesar de possível estrutura gramatical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses símbolos não representam medições universais. Correspondem a análises que precisam especificar variedade, contexto e interpretação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Introspecção ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O linguista pode utilizar sua própria competência como fonte inicial de dados. A introspecção permite formular hipóteses rapidamente, mas não deve ser confundida com prova suficiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há riscos de influência teórica, variação individual, prescrição escolar e falta de contexto. Por isso, pesquisas contemporâneas recorrem a grupos de participantes, escalas graduais, randomização e análise estatística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Contrastes mínimos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método dos contrastes mínimos compara sentenças que diferem em um número restrito de propriedades:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A professora disse que os alunos chegaram.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
*A professora perguntou que os alunos chegaram.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A comparação ajuda a localizar a origem de uma restrição, embora a análise precise excluir explicações lexicais, semânticas ou discursivas alternativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Evidência negativa construída ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sentenças agramaticais são construídas pelo pesquisador para testar os limites do sistema. Elas não aparecem normalmente em corpora justamente porque são evitadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse método foi uma inovação importante em relação a programas concentrados apenas em ocorrências registradas. Contudo, a ausência em corpus e o julgamento negativo são tipos diferentes de evidência e precisam ser combinados cuidadosamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Corpora ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo não exclui o uso de corpora. Corpora permitem investigar frequência, variação, mudança, distribuição lexical e construções espontâneas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O desacordo histórico refere-se à suficiência do corpus como definição da língua. Para os gerativistas, um corpus é evidência produzida por um sistema, não o próprio sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Psicolinguística e sintaxe experimental utilizam:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* escalas de aceitabilidade;&lt;br /&gt;
* leitura automonitorada;&lt;br /&gt;
* rastreamento ocular;&lt;br /&gt;
* potenciais elétricos cerebrais;&lt;br /&gt;
* tarefas de decisão;&lt;br /&gt;
* produção induzida;&lt;br /&gt;
* priming sintático;&lt;br /&gt;
* estudos de aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos podem testar consequências de análises gramaticais, mas a relação entre medidas de processamento e representação linguística nem sempre é direta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Comparação entre línguas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A comparação tipológica tornou-se central especialmente a partir de Princípios e Parâmetros. Diferenças superficiais podem revelar opções estruturais e propriedades comuns.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa gerativa trabalha tanto com línguas amplamente descritas quanto com línguas indígenas, de sinais, crioulas e tipologicamente diversas. Críticas apontam, entretanto, persistente concentração em um conjunto limitado de línguas e categorias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Evolução histórica da teoria ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As fases do gerativismo não constituem teorias totalmente independentes. Cada etapa preserva problemas anteriores, abandona mecanismos e introduz novas formas de representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A periodização varia entre historiadores e linguistas. As datas indicam tendências, não fronteiras absolutas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gramática transformacional inicial ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;The Logical Structure of Linguistic Theory&#039;&#039; ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre 1951 e 1955, Chomsky elaborou &#039;&#039;The Logical Structure of Linguistic Theory&#039;&#039;, texto extenso que circulou antes de sua publicação parcial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A obra examinava a forma das gramáticas, os critérios de avaliação e os procedimentos necessários para construir descrições formais. Seu objetivo era desenvolver uma teoria capaz de comparar gramáticas e selecionar aquelas que captassem generalizações de maneira mais simples.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A preocupação com transformação, níveis de representação e formalização já estava presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039; ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Publicado em 1957, &#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039; apresentou de maneira concisa uma teoria transformacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro comparou três tipos gerais de mecanismo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* modelos de estados finitos;&lt;br /&gt;
* gramáticas de estrutura sintagmática;&lt;br /&gt;
* gramáticas transformacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky argumentou que modelos de estados finitos não representavam adequadamente dependências estruturais das línguas naturais. Gramáticas sintagmáticas captavam constituintes, mas transformações seriam necessárias para relacionar diferentes tipos de sentença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Regras sintagmáticas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Regras de estrutura sintagmática expandiam categorias:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
O → SN SV&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
SV → V SN&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas regras construíam estruturas básicas. A notação varia, mas a ideia central é que uma categoria se desenvolve em constituintes organizados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Transformações ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Transformações operavam sobre estruturas produzidas pelo componente sintagmático. Podiam relacionar declarativas, interrogativas, negativas e passivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As transformações desse período não devem ser automaticamente identificadas com o movimento de constituintes das teorias posteriores. Algumas envolviam combinações, inserções, apagamentos e reorganizações extensas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sentenças nucleares ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modelo inicial distinguia sentenças nucleares, produzidas por regras obrigatórias simples, de sentenças derivadas por transformações opcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção de núcleo foi posteriormente abandonada. Ela não deve ser tratada como componente permanente da linguística gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sintaxe e semântica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039; enfatizava a autonomia da sintaxe e não apresentava uma teoria semântica desenvolvida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A afirmação de que a sintaxe é independente do significado não significava que frases não tenham interpretação, mas que a estrutura gramatical não pode ser definida simplesmente pela plausibilidade semântica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Gramática transformacional}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Teoria Padrão ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Teoria Padrão&#039;&#039;&#039; é associada principalmente a &#039;&#039;Aspects of the Theory of Syntax&#039;&#039;, publicado em 1965.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura geral ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática possuía três componentes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* sintático;&lt;br /&gt;
* semântico;&lt;br /&gt;
* fonológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O componente sintático gerava estruturas e ocupava posição central. O componente semântico interpretava determinadas representações; o componente fonológico atribuía forma sonora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Base ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base incluía regras de estrutura sintagmática e léxico. Ela gerava estruturas subjacentes que recebiam inserção lexical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre estrutura categorial, propriedades lexicais e transformações tornou-se mais explícita do que no modelo de 1957.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura profunda ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;estrutura profunda&#039;&#039;&#039; representava relações sintáticas relevantes à interpretação semântica e servia de entrada para transformações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É incorreto defini-la simplesmente como “sentido mental” ou “configuração conceitual”. Tratava-se de um nível sintático formal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também não se deve supor que toda ambiguidade superficial correspondia necessariamente a duas estruturas profundas ou que frases aproximadamente sinônimas possuíam a mesma estrutura profunda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura superficial ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;estrutura superficial&#039;&#039;&#039; era o resultado da aplicação de transformações. Fornecia informação relevante ao componente fonológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo “superficial” não significava irrelevante ou meramente aparente. A estrutura superficial também continha organização hierárquica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Competência e desempenho ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre competência e desempenho foi apresentada de maneira sistemática em &#039;&#039;Aspects&#039;&#039;. A teoria gramatical concentrava-se inicialmente em um falante-ouvinte ideal de uma comunidade homogênea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa idealização permitia isolar propriedades gramaticais, mas recebeu críticas de sociolinguistas e pesquisadores da interação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Falante-ouvinte ideal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O falante-ouvinte ideal não era apresentado como descrição sociológica de uma pessoa real, mas como abstração metodológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda assim, a escolha da homogeneidade como ponto de partida pode ocultar o fato de que todo falante domina repertórios variáveis e participa de comunidades heterogêneas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aquisição ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Teoria Padrão ampliou a importância da aquisição. Uma teoria da Gramática Universal deveria definir o espaço de gramáticas possíveis e explicar como os dados conduzem a criança a uma gramática particular.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Teoria Padrão Estendida ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o final da década de 1960 e a década de 1970, a Teoria Padrão foi modificada. Essas mudanças são agrupadas sob a denominação &#039;&#039;&#039;Teoria Padrão Estendida&#039;&#039;&#039;, embora não correspondam a um único modelo estável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Interpretação semântica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A hipótese de que toda interpretação semântica relevante fosse determinada apenas na estrutura profunda encontrou dificuldades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Propriedades como escopo, foco, pressuposição e anáfora dependiam também de estruturas transformadas. A Teoria Padrão Estendida permitiu que a estrutura superficial contribuísse para a interpretação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Teoria-X-barra ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Teoria-X-barra&#039;&#039;&#039; procurou generalizar a estrutura interna dos sintagmas. Em vez de regras independentes para cada categoria, propunha esquemas comuns a nomes, verbos, adjetivos e preposições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um núcleo X projeta níveis estruturais, combina-se com complementos e pode relacionar-se a especificadores e adjuntos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria passou por diferentes formulações. Sua importância está na tentativa de reduzir regras particulares e capturar propriedades gerais das categorias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Restrições às transformações ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As transformações iniciais eram poderosas e variadas. Pesquisas posteriores buscaram restringi-las por condições gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os temas investigados estavam:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* ilhas sintáticas;&lt;br /&gt;
* subjacência;&lt;br /&gt;
* condições sobre extração;&lt;br /&gt;
* preservação estrutural;&lt;br /&gt;
* ciclos transformacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mudança preparou a substituição de muitas regras específicas por uma operação geral de movimento submetida a princípios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Semântica interpretativa e semântica gerativa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante as décadas de 1960 e 1970, ocorreu uma controvérsia entre a &#039;&#039;&#039;semântica interpretativa&#039;&#039;&#039;, associada a Chomsky e colaboradores, e a &#039;&#039;&#039;semântica gerativa&#039;&#039;&#039;, desenvolvida por autores como George Lakoff, James McCawley, Paul Postal e John Robert Ross.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os semanticistas gerativos propunham representações subjacentes próximas a estruturas lógico-semânticas e derivações sintáticas mais extensas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O debate envolvia a relação entre sintaxe e significado, o poder das transformações e o estatuto das estruturas profundas. Parte dos pesquisadores da semântica gerativa contribuiu posteriormente para a linguística cognitiva e outras abordagens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Teoria de Regência e Ligação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Teoria de Regência e Ligação&#039;&#039;&#039;, conhecida internacionalmente pela sigla &#039;&#039;&#039;GB&#039;&#039;&#039;, de &#039;&#039;Government and Binding&#039;&#039;, consolidou-se no início da década de 1980, especialmente com &#039;&#039;Lectures on Government and Binding&#039;&#039;, de 1981.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modelo substituiu grandes conjuntos de regras de construção por princípios e módulos inter-relacionados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Modelo modular ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática incluía subsistemas como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Teoria-X-barra;&lt;br /&gt;
* teoria temática;&lt;br /&gt;
* teoria do Caso;&lt;br /&gt;
* teoria da ligação;&lt;br /&gt;
* teoria da regência;&lt;br /&gt;
* teoria do controle;&lt;br /&gt;
* teoria dos limites;&lt;br /&gt;
* teoria do movimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada módulo impunha restrições próprias. Uma sentença seria gramatical quando satisfizesse simultaneamente essas condições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura-D e Estrutura-S ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos &#039;&#039;&#039;estrutura profunda&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;estrutura superficial&#039;&#039;&#039; foram substituídos ou reinterpretados como &#039;&#039;&#039;Estrutura-D&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Estrutura-S&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Estrutura-D representava relações de base e atribuição temática. A Estrutura-S resultava do movimento e alimentava componentes posteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar da semelhança terminológica, não é inteiramente correto identificar Estrutura-D com a estrutura profunda da Teoria Padrão ou Estrutura-S com uma simples sequência pronunciada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Forma Fonética e Forma Lógica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A arquitetura incluía dois níveis de interface:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Forma Fonética&#039;&#039;&#039; — PF, de &#039;&#039;Phonetic Form&#039;&#039;;&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Forma Lógica&#039;&#039;&#039; — LF, de &#039;&#039;Logical Form&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PF representava propriedades relevantes à pronúncia. LF representava propriedades relevantes à interpretação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algumas operações podiam ocorrer de maneira encoberta entre Estrutura-S e LF, explicando diferenças de escopo não acompanhadas por movimento audível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Teoria temática ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria temática investigava a relação entre predicados e participantes. Verbos e outros núcleos atribuem papéis como agente, tema, experienciador ou alvo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;Critério-Theta&#039;&#039;&#039; estabelecia, em formulações clássicas, uma correspondência entre argumentos e papéis temáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os papéis temáticos são instrumentos de análise e não categorias universalmente definidas de modo consensual. Teorias posteriores substituíram listas por estruturas de evento, relações configuracionais ou propriedades lexicais mais abstratas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Teoria do Caso ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria do Caso distinguia caso morfológico e Caso abstrato. Mesmo grupos nominais sem marca visível precisariam receber licenciamento estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição de sujeitos, objetos e elementos foneticamente nulos era relacionada à atribuição de Caso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Teoria da ligação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria da ligação procurava explicar a distribuição de anáforas, pronomes e expressões referenciais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em sua formulação clássica:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* anáforas precisam estar ligadas em determinado domínio;&lt;br /&gt;
* pronomes precisam estar livres nesse domínio;&lt;br /&gt;
* expressões referenciais precisam estar livres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os domínios e a definição de ligação foram reformulados em trabalhos posteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== PRO e controle ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A categoria vazia &#039;&#039;&#039;PRO&#039;&#039;&#039; era postulada como sujeito não pronunciado de determinadas orações infinitivas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Maria tentou [PRO sair].&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A interpretação de PRO é controlada por um argumento da oração superior ou determinada genericamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Vestígios ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O movimento deixava um vestígio na posição de origem. A cadeia formada pelo elemento movido e seu vestígio permitia representar relações entre posição pronunciada e posição interpretativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Minimalismo, vestígios foram frequentemente reinterpretados como cópias não pronunciadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mova α ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em vez de numerosas transformações específicas, o sistema utilizava uma regra geral: &#039;&#039;&#039;Mova α&#039;&#039;&#039;, aproximadamente “mova qualquer categoria”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A liberdade aparente era restringida por princípios independentes de Caso, ligação, localidade e preservação estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Teoria de Regência e Ligação}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Princípios e Parâmetros ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;Princípios e Parâmetros&#039;&#039;&#039; designa uma concepção de Gramática Universal segundo a qual as línguas compartilham princípios gerais e diferem em opções limitadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Teoria de Regência e Ligação é frequentemente tratada como uma realização da abordagem de Princípios e Parâmetros, mas os termos não são estritamente equivalentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Princípios ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Princípios seriam condições gerais válidas para as línguas humanas, como restrições sobre estrutura, ligação, Caso e movimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em vez de aprender regras inteiramente independentes para cada língua, a criança partiria de uma arquitetura comum.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Parâmetros ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Parâmetros representariam pontos de variação. A experiência linguística permitiria estabelecer seus valores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;parâmetro do sujeito nulo&#039;&#039;&#039; foi associado à possibilidade de línguas como português, italiano e espanhol omitirem pronomes sujeitos em determinados contextos:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Cheguei cedo.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O inglês geralmente exige pronome expresso:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
I arrived early.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Propostas iniciais relacionavam o parâmetro a um conjunto de propriedades. A variação real mostrou-se mais complexa, especialmente quando se comparam diferentes variedades e tipos de sujeito nulo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Parâmetro do núcleo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O parâmetro da direção do núcleo procurava explicar por que algumas línguas colocam núcleos antes de complementos e outras favorecem a ordem inversa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A variação dentro de uma mesma língua e entre categorias enfraqueceu versões muito gerais do parâmetro. Teorias posteriores localizaram diferenças em propriedades lexicais e funcionais mais específicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aquisição por fixação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A metáfora do painel de interruptores tornou-se popular: a Gramática Universal forneceria parâmetros e a experiência estabeleceria seus valores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa imagem tem valor didático, mas simplifica o desenvolvimento. A criança precisa identificar pistas, lidar com ambiguidade e construir léxico e morfologia. Parâmetros podem interagir, e os dados nem sempre determinam imediatamente uma opção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Microparâmetros ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa passou de macroparâmetros, que afetariam grandes conjuntos de propriedades, para microparâmetros localizados em classes reduzidas de itens ou traços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa mudança aproximou a teoria paramétrica do estudo detalhado da variação entre línguas próximas, dialetos e etapas históricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Teoria de Princípios e Parâmetros}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Programa Minimalista ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;Programa Minimalista&#039;&#039;&#039; foi apresentado por Chomsky no início da década de 1990 e sistematizado no livro &#039;&#039;The Minimalist Program&#039;&#039;, de 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo &#039;&#039;&#039;programa&#039;&#039;&#039; indica que não se trata de uma teoria concluída, mas de uma orientação de pesquisa. Seu objetivo é perguntar quanto da arquitetura gramatical é realmente necessário e por que a faculdade da linguagem possui as propriedades observadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Motivação minimalista ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As teorias anteriores haviam acumulado níveis, módulos, índices, filtros e condições. O Minimalismo procura eliminar mecanismos que não sejam exigidos pelas interfaces ou por necessidades conceituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão deixa de ser apenas “quais regras descrevem as línguas?” e passa a incluir “por que a linguagem apresenta esse desenho?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Condições de interface ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma expressão linguística precisa relacionar-se a sistemas externos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na interface sensório-motora, a estrutura é externalizada por fala, sinais ou escrita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na interface conceitual-intencional, a expressão é interpretada e relacionada a pensamento, inferência e intenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sistema computacional deve produzir objetos legíveis por essas interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Níveis mantidos e eliminados ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Minimalismo eliminou Estrutura-D e Estrutura-S como níveis obrigatórios. PF e LF deixaram de ser necessariamente níveis construídos do mesmo modo que na teoria anterior e passaram a representar lados ou interfaces da derivação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A eliminação de estrutura profunda é importante: não se deve apresentar o gerativismo contemporâneo como teoria que sempre deriva uma estrutura superficial de uma estrutura profunda.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Merge ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Merge&#039;&#039;&#039; é a operação central de construção estrutural. Ela combina dois objetos sintáticos e forma uma nova unidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De maneira abstrata:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
Merge(α, β) = {α, β}&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A operação pode combinar itens lexicais ou estruturas anteriormente formadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por aplicações sucessivas, constrói-se uma organização hierárquica. A ordem linear não precisa ser determinada imediatamente; pode surgir no processo de externalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Merge externo e interno ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Merge externo&#039;&#039;&#039; combina objetos que ainda não pertencem à mesma estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Merge interno&#039;&#039;&#039; combina uma estrutura com um elemento contido nela, produzindo o efeito tradicionalmente chamado movimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma interrogativa pode conter uma cópia de um constituinte em posição superior e outra em sua posição interpretativa original. Normalmente apenas uma cópia é pronunciada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unificação de construção e movimento como variantes de Merge busca reduzir a variedade de operações primitivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Cópias ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria de cópias substituiu a ideia de vestígio vazio. O elemento movido é representado em mais de uma posição estrutural, embora apenas uma ocorrência seja normalmente externalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência de cópias ajuda a explicar casos em que propriedades de uma posição inferior afetam a interpretação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Agree ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Agree&#039;&#039;&#039; é uma relação entre uma sonda portadora de traços não valorados e um alvo capaz de fornecer valores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A operação é utilizada para analisar concordância, Caso e outras dependências. Sua formulação mudou ao longo do desenvolvimento minimalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todas as abordagens minimalistas atribuem a Agree o mesmo estatuto, e há teorias que derivam concordância de relações de estrutura ou de mecanismos diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Traços formais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Itens lexicais entram na derivação com traços:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* categoriais;&lt;br /&gt;
* semânticos;&lt;br /&gt;
* fonológicos;&lt;br /&gt;
* de pessoa, número e gênero;&lt;br /&gt;
* de Caso;&lt;br /&gt;
* relacionados a movimento ou concordância.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre traços interpretáveis e não interpretáveis foi utilizada para explicar por que determinados elementos precisam estabelecer relações antes de alcançar as interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Numeração e seleção lexical ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Versões iniciais do Minimalismo utilizavam uma &#039;&#039;&#039;numeração&#039;&#039;&#039;: conjunto de itens escolhidos do léxico para uma derivação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desenvolvimentos posteriores reformularam o modo como itens são selecionados, organizados em espaços de trabalho e combinados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Spell-Out ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Spell-Out&#039;&#039;&#039; envia parte da estrutura para a interface fonológica. Em teorias de fases, domínios são transferidos ciclicamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois da transferência, certas partes podem tornar-se inacessíveis a operações posteriores, produzindo efeitos de localidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fases ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Fases&#039;&#039;&#039; são domínios estruturais relativamente completos, frequentemente associados a CP e a determinadas projeções verbais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Condição de Impenetrabilidade de Fase restringe o acesso ao interior de uma fase depois de sua transferência. Elementos que precisam continuar participando da derivação deslocam-se para sua periferia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A definição das fases e de seus limites varia entre autores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Economia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Minimalismo investigou princípios de economia, como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* derivações mais curtas;&lt;br /&gt;
* movimento apenas quando necessário;&lt;br /&gt;
* aplicação local de operações;&lt;br /&gt;
* ausência de símbolos supérfluos;&lt;br /&gt;
* redução de níveis de representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Algumas condições de economia foram posteriormente abandonadas ou reformuladas. “Minimalista” não significa simplesmente que a frase mais curta seja preferível, mas que a teoria procura minimizar mecanismos específicos e derivar propriedades de princípios gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inclusividade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Condição de Inclusividade determina que a derivação não introduza objetos arbitrários ausentes dos itens iniciais, exceto estruturas produzidas pelas operações permitidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa condição contribuiu para eliminar índices e símbolos acrescentados apenas para controlar regras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Movimento por último recurso ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O movimento foi tratado como operação que ocorre apenas quando necessário para satisfazer condições formais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Versões posteriores discutem se traços específicos desencadeiam movimento, se a externalização determina sua posição ou se determinadas operações são livres e filtradas pelas interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura sintagmática nua ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;estrutura sintagmática nua&#039;&#039;&#039; procura eliminar níveis e rótulos estipulados da Teoria-X-barra. As categorias de uma estrutura derivariam dos próprios itens combinados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema de como uma estrutura recebe rótulo tornou-se importante. Propostas posteriores atribuem o rótulo a procedimentos de busca ou a propriedades compartilhadas pelos elementos combinados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Linearização ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Merge produz hierarquia, não necessariamente ordem. A linearização relaciona a estrutura hierárquica a uma sequência pronunciável ou sinalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa separação sustenta a hipótese de que a linguagem é fundamentalmente um sistema de construção hierárquica e que a ordem linear pertence principalmente à externalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A proposta é debatida por teorias que atribuem papel mais central à sequência, ao processamento e à experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Minimalismo forte ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Tese Minimalista Forte&#039;&#039;&#039; propõe, em formulações gerais, que a linguagem seja uma solução ótima ou próxima do ótimo para condições impostas pelas interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trata-se de hipótese orientadora, não de conclusão demonstrada. O significado de “ótimo” depende das métricas e das propriedades consideradas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Programa Minimalista}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Biolinguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;biolinguística&#039;&#039;&#039; investiga a linguagem como propriedade biológica humana. Embora o termo tenha história anterior, ganhou nova centralidade com o Programa Minimalista e os debates sobre evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A abordagem procura articular:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* estrutura formal;&lt;br /&gt;
* desenvolvimento;&lt;br /&gt;
* genética;&lt;br /&gt;
* neurobiologia;&lt;br /&gt;
* evolução;&lt;br /&gt;
* comparação entre espécies;&lt;br /&gt;
* princípios gerais de organização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os três fatores ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky propôs distinguir três fatores no desenvolvimento da linguagem:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# dotação genética;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# experiência;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# princípios não específicos da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro inclui propriedades biológicas que tornam a aquisição possível. O segundo determina qual língua se desenvolve. O terceiro inclui eficiência computacional, restrições de desenvolvimento e leis gerais de organização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Minimalismo procura reduzir a carga atribuída ao primeiro fator especificamente linguístico e ampliar o papel explicativo do terceiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Faculdade ampla e restrita ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em um artigo de 2002, Marc Hauser, Noam Chomsky e W. Tecumseh Fitch distinguiram faculdade da linguagem em sentido amplo e restrito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A faculdade ampla inclui mecanismos perceptivos, motores e conceituais relacionados à linguagem, muitos dos quais podem ter antecedentes em outras espécies.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A faculdade restrita corresponderia ao componente computacional central. Os autores discutiram a hipótese de que a recursividade fosse sua propriedade especificamente humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A interpretação dessa proposta gerou controvérsias. Trabalhos posteriores esclareceram que a identificação entre recursividade, Merge e exclusividade humana envolve diferentes hipóteses, que precisam ser testadas separadamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Evolução da linguagem ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo tradicional foi por vezes acusado de desinteresse pela evolução. A biolinguística contemporânea discute como uma capacidade computacional poderia ter surgido e integrado sistemas mais antigos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns autores propõem uma inovação evolutiva relativamente recente, talvez relacionada a Merge. Outros defendem evolução gradual por mudanças em cognição, comunicação, controle motor e cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há pouco consenso sobre datas, mecanismos genéticos ou etapas. Evidências fósseis não registram diretamente gramáticas, e comparações com outras espécies precisam distinguir percepção de sequências, comunicação, aprendizagem vocal e construção hierárquica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Linguagem e pensamento ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formulações minimalistas recentes atribuem ao sistema computacional papel central na organização do pensamento. A externalização sonora ou gestual seria secundária em relação à combinação de conceitos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa hipótese contrasta com teorias que tratam comunicação e interação como forças centrais na origem e na estrutura das línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Biolinguística}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fonologia gerativa ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;fonologia gerativa&#039;&#039;&#039; foi estabelecida especialmente por Morris Halle e Noam Chomsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;The Sound Pattern of English&#039;&#039;, de 1968, a representação fonológica era composta por traços distintivos, e regras transformavam formas subjacentes em representações fonéticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Representações subjacentes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma mesma unidade morfológica pode apresentar pronúncias diferentes em contextos distintos. A fonologia gerativa procura representar uma forma subjacente comum e derivar as variantes por regras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Traços distintivos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os segmentos são analisados como conjuntos de traços, como voz, nasalidade, continuidade e posição articulatória.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria dos traços possuía antecedentes na Escola de Praga e em trabalhos de Jakobson, Fant e Halle, mas foi integrada a um sistema gerativo de regras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Regras ordenadas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As regras fonológicas aplicavam-se em determinada ordem. Alterar a ordem podia produzir resultados diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ordenação permitia representar interações entre processos, mas também gerava debates sobre abstração e poder descritivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Desenvolvimentos posteriores ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fonologia gerativa originou ou influenciou:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* fonologia natural;&lt;br /&gt;
* fonologia autossegmental;&lt;br /&gt;
* fonologia métrica;&lt;br /&gt;
* fonologia lexical;&lt;br /&gt;
* geometria de traços;&lt;br /&gt;
* teoria da subespecificação;&lt;br /&gt;
* Teoria da Otimidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todas essas correntes permanecem vinculadas ao gerativismo chomskiano da sintaxe, embora compartilhem representações formais e interesse por competência fonológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Morfologia gerativa ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação entre morfologia e sintaxe variou ao longo da tradição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Hipótese Lexicalista procurou impedir que transformações sintáticas operassem livremente dentro das palavras. Processos de derivação e composição seriam regulados pelo léxico ou por componente morfológico próprio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outras abordagens, como a Morfologia Distribuída, propõem que estruturas de palavras são construídas por mecanismos sintáticos e recebem material fonológico posteriormente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;morfologia distribuída&#039;&#039;&#039; não deve ser confundida com distribucionalismo. Trata-se de modelo desenvolvido a partir da década de 1990 no qual raízes, traços funcionais e inserção vocabular participam de uma arquitetura derivacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Semântica e Forma Lógica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo inicial enfatizava a sintaxe, mas a integração com a semântica tornou-se progressivamente central.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A semântica formal, desenvolvida por Richard Montague e outros autores, mostrou como expressões sintáticas podem receber interpretações composicionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na tradição gerativa, a Forma Lógica representa propriedades como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* escopo de quantificadores;&lt;br /&gt;
* ligação;&lt;br /&gt;
* interpretação de pronomes;&lt;br /&gt;
* relações entre operadores e variáveis;&lt;br /&gt;
* elipse;&lt;br /&gt;
* foco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A existência de um nível autônomo denominado LF e a natureza das operações interpretativas mudaram no Minimalismo. Algumas análises tratam LF como interface, outras derivam interpretações diretamente ao longo da construção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Principais autores e correntes internas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora Chomsky seja a figura central, o gerativismo foi desenvolvido por uma comunidade extensa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morris Halle ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Morris Halle]] teve papel decisivo na fonologia gerativa, na teoria dos traços e na formação do departamento de linguística do MIT.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua colaboração com Chomsky em &#039;&#039;The Sound Pattern of English&#039;&#039; influenciou várias gerações de fonólogos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Robert Lees ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Robert Lees contribuiu para a divulgação inicial de &#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039; e para a aplicação da gramática transformacional à nominalização e à morfologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jerrold Katz e Jerry Fodor ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Katz e Fodor desenvolveram uma teoria semântica destinada a integrar o significado à arquitetura gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas propostas foram posteriormente criticadas e reformuladas, mas ajudaram a estabelecer a semântica como componente explícito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paul Postal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Postal participou do desenvolvimento inicial da teoria transformacional e posteriormente se aproximou da semântica gerativa e de modelos alternativos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== George Lakoff ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lakoff foi importante na semântica gerativa. Posteriormente, tornou-se um dos principais representantes da [[linguística cognitiva]], crítica ao modularismo e ao formalismo gerativista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== John Robert Ross ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ross identificou numerosas restrições sobre movimento e introduziu o estudo sistemático das ilhas sintáticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Ray Jackendoff ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jackendoff contribuiu para a Teoria Padrão Estendida, a semântica conceitual e modelos de arquitetura paralela. Embora mantenha vínculos com questões gerativas, critica a centralidade exclusiva da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Joseph Emonds ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Emonds investigou restrições sobre transformações, preservação estrutural e diferenças entre operações principais e locais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean-Roger Vergnaud ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vergnaud foi fundamental para a teoria do Caso abstrato e para o desenvolvimento de Regência e Ligação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Howard Lasnik ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Lasnik contribuiu para a teoria da ligação, movimento, elipse, minimalismo e historiografia técnica da gramática gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Luigi Rizzi ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Rizzi desenvolveu estudos sobre localidade, sujeitos nulos, sintaxe comparativa e cartografia da periferia esquerda da oração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Richard Kayne ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kayne contribuiu para a sintaxe comparativa, movimento, estrutura antissimétrica e teoria da linearização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Guglielmo Cinque ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cinque desenvolveu a cartografia sintática de advérbios e projeções funcionais, propondo hierarquias universais detalhadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mark Baker ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Baker investigou incorporação, polissemia estrutural, parâmetros e tipologia sintática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== David Pesetsky ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pesetsky contribuiu para seleção, movimento interrogativo, Caso, estrutura argumental e interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Norbert Hornstein ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hornstein trabalhou com controle, movimento, Minimalismo e interpretação da teoria gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Cedric Boeckx ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boeckx desenvolveu trabalhos sobre sintaxe minimalista, biolinguística e evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Andrea Moro ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moro investiga sintaxe, simetria, movimento e relações entre gramática e neurociência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Charles Yang ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Yang propôs modelos de aquisição que combinam restrições gramaticais e aprendizagem probabilística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Nina Hyams ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hyams contribuiu para aquisição gerativa, especialmente no estudo de sujeitos nulos e parâmetros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Maria Luisa Zubizarreta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Zubizarreta desenvolveu pesquisas sobre estrutura informacional, prosódia, sintaxe comparativa e espanhol.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esther Torrego ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Torrego contribuiu para a análise de interrogativas, Caso, concordância e sintaxe das línguas românicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lista não é exaustiva. A tradição inclui diferentes escolas, como sintaxe cartográfica, Minimalismo derivacional, nanosintaxe, Morfologia Distribuída e abordagens paramétricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gerativismo e psicolinguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria gramatical e a psicolinguística possuem objetos relacionados, mas não idênticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática descreve o conhecimento estrutural. A psicolinguística investiga como esse conhecimento é utilizado em tempo real.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Competência e processamento ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma derivação gramatical não é necessariamente modelo de processamento. O fato de uma análise representar movimento de um constituinte não implica que o cérebro primeiro construa uma frase completa e depois a transforme conscientemente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos de processamento podem utilizar incrementalmente informações sintáticas, semânticas e probabilísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Parsing ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;parsing&#039;&#039;&#039; é a construção de uma análise durante a compreensão. O ouvinte precisa segmentar, identificar constituintes e resolver ambiguidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Teorias psicolinguísticas investigam se o processamento privilegia estruturas mais simples, quais informações são utilizadas inicialmente e como revisões ocorrem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Efeitos de ilha ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Restrições gramaticais sobre extração podem produzir efeitos em tarefas de processamento. Pesquisas procuram distinguir impossibilidade gramatical de dificuldade, frequência ou plausibilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Priming sintático ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O priming ocorre quando o uso ou compreensão de uma estrutura aumenta a probabilidade de reutilização de estrutura semelhante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fenômeno é empregado para investigar representação, aprendizagem e relações entre construções. Sua interpretação não favorece automaticamente uma teoria única.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aquisição experimental ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Experimentos com crianças testam compreensão de pronomes, passivas, perguntas, quantificadores e sujeitos nulos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resultados precisam considerar desenvolvimento lexical, memória, pragmática e desenho das tarefas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gerativismo e neurolinguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A neurolinguística investiga a relação entre linguagem e cérebro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo contribui ao formular hipóteses precisas sobre estruturas e dependências. A neurociência pode investigar como essas propriedades se relacionam a redes e processos neurais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Localização e redes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos antigos associavam linguagem principalmente às áreas de Broca e Wernicke. Pesquisas contemporâneas descrevem redes distribuídas e conexões entre regiões frontais, temporais e parietais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Não existe correspondência simples entre um princípio gramatical e um ponto isolado do cérebro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Afasia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Afasias fornecem evidências sobre dissociações entre produção, compreensão, léxico, morfologia e sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Análises gerativas foram aplicadas a dificuldades com movimento, flexão, ligação e estruturas funcionais. A interpretação dos dados precisa distinguir perda de representação de limitações de processamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Neuroimagem ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ressonância magnética funcional, eletroencefalografia e magnetoencefalografia investigam respostas a violações, dependências e complexidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Marcadores neurais não constituem tradução direta de categorias gramaticais. Resultados dependem de tarefa, estímulo, comparação e modelo estatístico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Merge no cérebro ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns estudos procuram identificar correlatos de combinação hierárquica e de Merge. Até o momento, não há consenso sobre uma assinatura neural exclusiva ou uma região que realize isoladamente a operação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formulação de pontes entre níveis formal e neural permanece desafio da biolinguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Línguas de sinais ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estudo das línguas de sinais teve grande importância para o gerativismo e para a linguística geral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Línguas de sinais apresentam estrutura fonológica, morfológica e sintática e são adquiridas naturalmente por crianças expostas a elas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso demonstra que a faculdade da linguagem não é especificamente oral-auditiva. A externalização pode utilizar modalidade visual-gestual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pesquisas gerativas analisam concordância espacial, classificadores, movimento interrogativo, referenciação e ordem nas línguas de sinais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As diferenças de modalidade também desafiam teorias formuladas inicialmente com base apenas na fala e contribuem para distinguir propriedades centrais do sistema computacional de propriedades da externalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Variação e mudança ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora versões iniciais trabalhassem com comunidades idealizadas, a variação tornou-se importante na abordagem paramétrica e na sintaxe comparativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Variação entre línguas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferenças de ordem, sujeito nulo, movimento, concordância e expressão do Caso são analisadas como consequências de propriedades formais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Variação dialetal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dialetos podem diferir em aspectos sintáticos sistemáticos. A microvariação compara variedades próximas para identificar diferenças mínimas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mudança sintática ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A mudança pode ser interpretada como alteração na gramática adquirida por novas gerações. Reanálises ocorrem quando dados ambíguos permitem uma nova representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos paramétricos relacionam mudança à aquisição, mas precisam incorporar frequência, contato, competição de formas e dinâmica social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sociolinguística paramétrica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns pesquisadores procuram combinar variação probabilística e gramáticas internas, distinguindo coexistência de sistemas, opções variáveis e condicionamentos sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A integração entre gerativismo e sociolinguística permanece campo de investigação, especialmente no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas ao gerativismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As críticas são diversas e não devem ser tratadas como uma única oposição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas do funcionalismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O [[funcionalismo linguístico]] argumenta que a estrutura gramatical deve ser relacionada às funções comunicativas, ao discurso e ao uso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Funcionalistas criticam a autonomia forte da sintaxe e a idealização de sentenças isoladas. Ordem, apagamento, referenciação e estrutura informacional seriam moldados por necessidades comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas respondem que explicações funcionais precisam especificar mecanismos capazes de produzir as restrições precisas observadas e que função comunicativa não elimina representações estruturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitos trabalhos atuais combinam generalizações formais com propriedades de discurso e interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas da linguística cognitiva ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[linguística cognitiva]] rejeita uma separação rígida entre linguagem e cognição geral. Gramática e léxico formariam um contínuo de unidades simbólicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Categorias seriam graduais, baseadas em protótipos, esquemas e processos de conceptualização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Autores cognitivistas criticam categorias abstratas sem conteúdo semântico e a prioridade da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas argumentam que generalizações estruturais e restrições de dependência não podem ser explicadas apenas por semelhança conceptual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas das abordagens baseadas no uso ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[linguística baseada no uso]] enfatiza frequência, analogia, construções e aprendizagem a partir da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Crianças aprenderiam padrões de diferentes graus de abstração, começando por expressões e construções particulares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estudos mostram sensibilidade infantil a probabilidades distribucionais e efeitos duradouros de frequência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas reconhecem que a experiência e a frequência influenciam aquisição e processamento, mas sustentam que esses fatores precisam operar sobre representações e restrições que expliquem generalizações ausentes ou raras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas conexionistas e emergentistas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos conexionistas aprendem padrões por redes de unidades e ajustes de pesos, sem regras simbólicas explicitamente codificadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses modelos reproduziram aspectos de flexão, categorização e previsão sequencial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Críticos do conexionismo apontam dificuldades com generalização sistemática, produtividade e interpretação das representações internas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos neurais contemporâneos reacenderam o debate. Seu desempenho demonstra que grandes quantidades de dados permitem aprender regularidades complexas, mas não resolve automaticamente questões sobre aquisição infantil, estrutura hierárquica ou explicação científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas da sociolinguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[sociolinguística]] criticou o falante-ouvinte ideal de uma comunidade homogênea. Comunidades reais são heterogêneas, e a variação possui estrutura própria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A escolha de uma variedade como “a língua” pode refletir normas sociais e apagar repertórios multilíngues.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas podem responder que a idealização delimita um componente do conhecimento, assim como outras ciências isolam sistemas. O problema surge quando a abstração é tratada como descrição completa da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística gerativa procura integrar gramáticas internas e padrões variáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas da pragmática e da análise do discurso ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sentenças recebem interpretação em contextos de interação. Inferência, intenção, pressuposição, relevância e conhecimento compartilhado não são determinados inteiramente pela sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática gerativa reconhece interfaces e componentes pragmáticos, mas tradicionalmente atribui à sintaxe um objeto autônomo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Críticos argumentam que algumas distinções gramaticais surgem do discurso e não podem ser compreendidas fora dele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas tipológicas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tipologistas questionam universais formulados a partir de poucas línguas e categorias construídas na tradição europeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A diversidade linguística desafia parâmetros simples e análises que pressupõem a universalidade de categorias funcionais específicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas respondem que universais podem ser abstratos e não corresponder a palavras ou morfemas visíveis. A ausência de marca externa não prova ausência de estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O debate exige descrições detalhadas, comparação cuidadosa e participação de especialistas em diferentes línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas à pobreza do estímulo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Críticos sustentam que os dados infantis são mais ricos do que descrições clássicas admitiam. Frequência, prosódia, semântica, contexto e interação fornecem pistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos computacionais mostram que determinadas generalizações podem ser aprendidas a partir de corpora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gerativistas respondem que o sucesso em uma tarefa depende das representações previamente fornecidas ao modelo e que cada argumento deve ser avaliado em relação ao fenômeno específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A questão atual não é simplesmente “inato ou aprendido”, mas que restrições, vieses e mecanismos participam do desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas à Gramática Universal ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns autores argumentam que universais linguísticos resultam de:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* cognição geral;&lt;br /&gt;
* limitações de processamento;&lt;br /&gt;
* comunicação;&lt;br /&gt;
* estrutura do corpo;&lt;br /&gt;
* aprendizagem;&lt;br /&gt;
* transmissão cultural;&lt;br /&gt;
* história das línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A diversidade tipológica e a dificuldade de identificar parâmetros simples são usadas contra versões ricas da GU.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Minimalismo responde, em parte, reduzindo o conteúdo específico atribuído à Gramática Universal. Essa redução, porém, levanta a questão de quanto resta da hipótese original.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas ao Minimalismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Programa Minimalista é criticado por:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* alto grau de abstração;&lt;br /&gt;
* mudanças frequentes de mecanismos;&lt;br /&gt;
* dificuldade de falsificação;&lt;br /&gt;
* distância entre formalização e evidência;&lt;br /&gt;
* uso metafórico de termos como “ótimo” e “perfeito”;&lt;br /&gt;
* ausência de métricas independentes de simplicidade;&lt;br /&gt;
* concentração em dados selecionados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Defensores argumentam que programas de pesquisa podem evoluir e que a redução de mecanismos produziu hipóteses testáveis sobre localidade, fases, movimento e interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também distinguem o Minimalismo teórico de formalizações matemáticas específicas, como as gramáticas minimalistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas historiográficas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A narrativa de que Chomsky destruiu um behaviorismo estruturalista homogêneo foi revista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo americano possuía correntes diversas; Harris já trabalhava com transformações; e a psicologia cognitiva tinha múltiplas origens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A resenha de Skinner teve grande importância simbólica, mas sua influência imediata e sua adequação à teoria behaviorista são discutidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia contemporânea busca compreender o gerativismo como mudança intelectual e institucional, evitando tanto narrativas heroicas quanto reduções sociológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Respostas e desenvolvimentos internos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo modificou-se em resposta a problemas empíricos e críticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Teoria Padrão Estendida ampliou o papel da interpretação superficial. Regência e Ligação substituiu regras específicas por módulos. Princípios e Parâmetros incorporou sistematicamente a variação. O Minimalismo eliminou níveis e reduziu operações. A biolinguística ampliou o diálogo com evolução e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas mudanças podem ser interpretadas como progresso, instabilidade ou ambas as coisas. Uma teoria científica precisa ser reformulada diante de dificuldades; ao mesmo tempo, mudanças constantes tornam necessário distinguir resultados duradouros de mecanismos transitórios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influência na linguística contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo fora da tradição chomskiana, várias ideias gerativistas tornaram-se parte do vocabulário geral da linguística:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* estrutura hierárquica;&lt;br /&gt;
* constituência;&lt;br /&gt;
* produtividade;&lt;br /&gt;
* dependências de longa distância;&lt;br /&gt;
* distinção entre representação e uso;&lt;br /&gt;
* formalização explícita;&lt;br /&gt;
* importância da aquisição;&lt;br /&gt;
* relação entre linguagem e cognição;&lt;br /&gt;
* necessidade de explicar restrições sobre expressões ausentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática gerativa também impulsionou:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* sintaxe comparativa;&lt;br /&gt;
* semântica formal;&lt;br /&gt;
* psicolinguística experimental;&lt;br /&gt;
* aquisição da linguagem;&lt;br /&gt;
* linguística computacional;&lt;br /&gt;
* estudos de línguas de sinais;&lt;br /&gt;
* neurolinguística;&lt;br /&gt;
* filosofia da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitos pesquisadores utilizam conceitos gerativos sem aceitar todas as hipóteses sobre Gramática Universal ou Minimalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gerativismo e ciência da computação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A hierarquia de gramáticas formais influenciou a teoria dos autômatos, compiladores e processamento de linguagens.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gramáticas livres de contexto tornaram-se instrumentos fundamentais para análise sintática computacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos gerativos de língua natural, contudo, frequentemente exigem mecanismos mais ricos para concordância, dependências e semântica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;gramáticas minimalistas&#039;&#039;&#039; de Edward Stabler formalizam aspectos de Merge e Move e permitem investigar propriedades computacionais das derivações minimalistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão “modelo generativo” na aprendizagem de máquina possui sentido mais amplo: um modelo que representa uma distribuição e pode produzir amostras. Nem todo modelo generativo computacional pertence à linguística gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Grandes modelos de linguagem e gerativismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O desenvolvimento de grandes modelos neurais reacendeu debates sobre aprendizagem, produtividade e representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses sistemas adquirem regularidades linguísticas a partir de enormes corpora e produzem textos novos. Seu desempenho desafia afirmações simples de que estatística não pode capturar estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, diferenças entre modelos e crianças são substanciais:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* quantidade de dados;&lt;br /&gt;
* modalidade de experiência;&lt;br /&gt;
* interação física e social;&lt;br /&gt;
* objetivos de treinamento;&lt;br /&gt;
* arquitetura;&lt;br /&gt;
* consumo energético;&lt;br /&gt;
* tipo de supervisão;&lt;br /&gt;
* desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sucesso de um modelo não demonstra que seres humanos aprendem pelo mesmo mecanismo. Também não prova que suas representações sejam desprovidas de estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pesquisas atuais utilizam modelos neurais para testar quais padrões podem ser aprendidos, comparar representações e formular novos argumentos sobre indução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gerativismo no Brasil ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo teve impacto significativo na linguística brasileira a partir da década de 1960 e consolidou-se em programas universitários durante as décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua recepção ocorreu em diálogo com o estruturalismo, a gramática tradicional, a filologia, a sociolinguística e o funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeira recepção ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As obras de Chomsky circularam inicialmente por traduções, cursos e pesquisadores formados no exterior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A institucionalização da pós-graduação e a criação de associações científicas favoreceram a formação de grupos dedicados à sintaxe, fonologia e aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Universidades e grupos de pesquisa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo desenvolveu-se em instituições como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Universidade Estadual de Campinas;&lt;br /&gt;
* Universidade de São Paulo;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal do Rio de Janeiro;&lt;br /&gt;
* Pontifícia Universidade Católica de São Paulo;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal de Minas Gerais;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal do Paraná;&lt;br /&gt;
* Universidade de Brasília;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal da Bahia;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal de Santa Catarina;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal de Pernambuco;&lt;br /&gt;
* Universidade Federal do Rio Grande do Sul.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lista é apenas indicativa. Grupos gerativistas existem em diferentes regiões do país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Português brasileiro ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O português brasileiro tornou-se objeto importante para debates sobre:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* sujeito nulo;&lt;br /&gt;
* ordem de constituintes;&lt;br /&gt;
* concordância;&lt;br /&gt;
* pronomes;&lt;br /&gt;
* clíticos;&lt;br /&gt;
* objeto nulo;&lt;br /&gt;
* tópico;&lt;br /&gt;
* interrogativas;&lt;br /&gt;
* infinitivo flexionado;&lt;br /&gt;
* estrutura argumental;&lt;br /&gt;
* mudança linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A comparação entre português brasileiro e europeu teve papel especial na teoria paramétrica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sujeito nulo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O português brasileiro apresenta mudanças na expressão do sujeito. Pronomes são frequentemente realizados em contextos nos quais o português europeu admite omissão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, o português brasileiro permite sujeitos nulos em condições específicas. Essa combinação levou à revisão da classificação simples entre línguas de sujeito nulo e não nulo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Objeto nulo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A omissão de objetos em português brasileiro foi analisada por diferentes mecanismos, como variável, pronome nulo, elipse e tópico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dados mostram interação entre animacidade, especificidade, estrutura discursiva e sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clíticos e pronomes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição de &#039;&#039;me&#039;&#039;, &#039;&#039;te&#039;&#039;, &#039;&#039;se&#039;&#039;, &#039;&#039;lhe&#039;&#039;, &#039;&#039;o&#039;&#039; e outras formas difere entre variedades e registros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A colocação pronominal do português brasileiro falado desafia descrições baseadas exclusivamente na norma escrita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aquisição no Brasil ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pesquisadores brasileiros investigam aquisição de sujeito, objeto, concordância, movimento interrogativo, relativas e interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também trabalhos sobre aquisição atípica, bilinguismo, línguas de sinais e transtornos do desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Língua Brasileira de Sinais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[Língua Brasileira de Sinais]] — Libras — é objeto de análises gerativas sobre ordem, concordância, classificadores, referência, foco e interrogativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas pesquisas contribuem tanto para a teoria quanto para a descrição e o reconhecimento linguístico da Libras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Línguas indígenas brasileiras ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sintaxe gerativa foi aplicada a línguas indígenas brasileiras, especialmente em estudos sobre ordem, Caso, concordância, incorporação, ergatividade, classificadores e estrutura informacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O trabalho precisa ser articulado a práticas éticas de documentação e colaboração com comunidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Principais pesquisadores ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre pesquisadores brasileiros associados, em diferentes momentos e graus, à tradição gerativa encontram-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Mary Aizawa Kato;&lt;br /&gt;
* Charlotte Galves;&lt;br /&gt;
* Jairo Nunes;&lt;br /&gt;
* Esmeralda Negrão;&lt;br /&gt;
* Maria Cristina Figueiredo Silva;&lt;br /&gt;
* Ana Maria Britto;&lt;br /&gt;
* Maria Aparecida Torres Morais;&lt;br /&gt;
* Sonia Cyrino;&lt;br /&gt;
* Ruth Lopes;&lt;br /&gt;
* Elaine Grolla;&lt;br /&gt;
* Maria Filomena Spatti Sandalo;&lt;br /&gt;
* Luciana Storto;&lt;br /&gt;
* Evani Viotti;&lt;br /&gt;
* Cilene Rodrigues;&lt;br /&gt;
* Marcus Maia;&lt;br /&gt;
* Miriam Lemle;&lt;br /&gt;
* Yonne Leite.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lista não é exaustiva, e alguns desses pesquisadores desenvolveram trabalhos que dialogam com mais de uma orientação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Projeto da Gramática do Português Falado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estudo do português falado reuniu pesquisadores de diferentes correntes. A participação gerativista contribuiu para análises sintáticas baseadas em dados reais, mostrando que gerativismo e corpus não são incompatíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Gerativismo e sociolinguística no Brasil ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história do português brasileiro favoreceu o diálogo entre sintaxe gerativa, teoria da mudança e sociolinguística variacionista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A competição entre gramáticas, a aquisição em situações de contato e a variação parametrizada são temas centrais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Linguística gerativa no Brasil}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fortuna crítica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeira recepção ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas décadas de 1950 e 1960, o gerativismo foi recebido como alternativa poderosa à linguística descritiva. Sua capacidade de representar relações entre sentenças e formular hipóteses explícitas sobre sintaxe atraiu numerosos pesquisadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O prestígio de Chomsky, a expansão do MIT e a formação de estudantes contribuíram para sua rápida difusão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== As “guerras linguísticas” ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conflito entre semântica interpretativa e semântica gerativa durante as décadas de 1960 e 1970 ficou conhecido como &#039;&#039;&#039;guerras linguísticas&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O debate envolvia divergências técnicas, disputas institucionais e estilos de argumentação. Muitos participantes afastaram-se do programa chomskiano e contribuíram para novas correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão populariza o conflito, mas pode simplificar a variedade das posições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Consolidação de Regência e Ligação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na década de 1980, Regência e Ligação tornou-se uma das arquiteturas mais influentes da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua modularidade e seu vocabulário permitiram comparar línguas e organizar grande quantidade de fenômenos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, a complexidade do sistema motivou a busca minimalista por redução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Recepção do Minimalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Minimalismo foi recebido tanto como renovação quanto como programa excessivamente abstrato.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unificação de movimento e construção por Merge e a eliminação de níveis tiveram grande impacto. Contudo, diferentes pesquisadores adotaram versões distintas, e muitos mecanismos permanecem em disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Diversificação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística contemporânea não possui paradigma único. Gerativismo, funcionalismo, tipologia, linguística cognitiva, abordagens baseadas no uso, sociolinguística e modelos computacionais coexistem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo continua influente, especialmente em sintaxe formal e aquisição, mas não ocupa de maneira uniforme a posição institucional alcançada em certos departamentos durante o final do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resultados duradouros ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo críticos reconhecem contribuições como:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* centralidade da produtividade;&lt;br /&gt;
* necessidade de representar hierarquia;&lt;br /&gt;
* importância das dependências não locais;&lt;br /&gt;
* formulação explícita de hipóteses;&lt;br /&gt;
* investigação da aquisição;&lt;br /&gt;
* integração da linguagem às ciências cognitivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Questões em aberto ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Permanecem abertas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* quanto da estrutura linguística é especificamente inato;&lt;br /&gt;
* como a linguagem é implementada no cérebro;&lt;br /&gt;
* como representações simbólicas e probabilísticas se relacionam;&lt;br /&gt;
* como a diversidade emerge;&lt;br /&gt;
* qual é o papel da comunicação;&lt;br /&gt;
* como Merge deve ser formalizado;&lt;br /&gt;
* se parâmetros são necessários;&lt;br /&gt;
* como a linguagem evoluiu;&lt;br /&gt;
* como integrar gramática, processamento e uso;&lt;br /&gt;
* que evidências distinguem teorias concorrentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Avaliação geral ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O gerativismo transformou o modo como a linguística formula seu objeto. A pergunta deixou de ser apenas quais formas aparecem em uma língua e passou a incluir que sistema permite ao falante produzir, compreender e julgar essas formas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu desenvolvimento não foi linear. A teoria inicial de regras sintagmáticas e transformações deu lugar à Teoria Padrão; estruturas profundas e superficiais foram reformuladas como Estrutura-D e Estrutura-S; Regência e Ligação substituiu regras por módulos; Princípios e Parâmetros procurou explicar unidade e diversidade; o Minimalismo eliminou níveis e reduziu operações a mecanismos como Merge.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por isso, conceitos de uma fase não devem ser apresentados como propriedades permanentes. Estrutura profunda não é componente do Minimalismo; sentenças passivas não são hoje simplesmente transformações opcionais de ativas; parâmetros não pertencem à formulação de 1957; e Merge não é apenas novo nome para antigas regras transformacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Gramática Universal também mudou. De uma teoria relativamente rica sobre o formato das gramáticas, passou a um sistema de princípios e parâmetros e, depois, a um objeto que o Minimalismo procura reduzir.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As críticas mostraram a necessidade de integrar variação, uso, frequência, interação, tipologia e processamento. O gerativismo respondeu parcialmente por meio da sintaxe comparativa, das interfaces, da experimentação e da biolinguística, mas tensões permanecem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu legado não depende de todas as hipóteses se confirmarem. A tradição estabeleceu problemas que qualquer teoria abrangente precisa enfrentar: produtividade, aquisição, estrutura hierárquica, dependência estrutural, relação entre experiência e conhecimento e inserção da linguagem na cognição humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Organização dos artigos relacionados ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para evitar que este verbete se torne uma exposição técnica excessivamente extensa, os seguintes temas devem possuir artigos próprios:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* [[Gramática gerativa]] — conceito formal de geração, tipos de regra, geração forte e fraca e arquitetura gramatical;&lt;br /&gt;
* [[Gramática transformacional]] — modelos de 1957 a 1965, regras sintagmáticas, transformações e sentenças nucleares;&lt;br /&gt;
* [[Teoria de Regência e Ligação]] — módulos, Estrutura-D, Estrutura-S, Caso, ligação e categorias vazias;&lt;br /&gt;
* [[Teoria de Princípios e Parâmetros]] — princípios, parâmetros, aquisição e variação;&lt;br /&gt;
* [[Programa Minimalista]] — Merge, Agree, fases, cópias, interfaces e economia;&lt;br /&gt;
* [[Gramática Universal]] — história da hipótese e debates;&lt;br /&gt;
* [[Faculdade da linguagem]] — arquitetura cognitiva e biológica;&lt;br /&gt;
* [[Competência e desempenho]] — conhecimento, uso e processamento;&lt;br /&gt;
* [[Recursividade]] — definições formais, manifestações e controvérsias;&lt;br /&gt;
* [[Pobreza do estímulo]] — argumentos, evidências e críticas;&lt;br /&gt;
* [[Biolinguística]] — desenvolvimento, evolução, genética e neurobiologia;&lt;br /&gt;
* [[Linguística gerativa no Brasil]] — recepção, pesquisadores e estudos do português e de outras línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ver também ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* [[Aquisição da linguagem]]&lt;br /&gt;
* [[Behaviorismo]]&lt;br /&gt;
* [[Biolinguística]]&lt;br /&gt;
* [[Competência e desempenho]]&lt;br /&gt;
* [[Distribucionalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Estrutura sintagmática]]&lt;br /&gt;
* [[Estruturalismo americano]]&lt;br /&gt;
* [[Faculdade da linguagem]]&lt;br /&gt;
* [[Fonologia gerativa]]&lt;br /&gt;
* [[Gramática gerativa]]&lt;br /&gt;
* [[Gramática transformacional]]&lt;br /&gt;
* [[Gramática Universal]]&lt;br /&gt;
* [[Hierarquia de Chomsky]]&lt;br /&gt;
* [[Internalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Língua-I e língua-E]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística cognitiva]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística gerativa no Brasil]]&lt;br /&gt;
* [[Merge]]&lt;br /&gt;
* [[Noam Chomsky]]&lt;br /&gt;
* [[Pobreza do estímulo]]&lt;br /&gt;
* [[Programa Minimalista]]&lt;br /&gt;
* [[Recursividade]]&lt;br /&gt;
* [[Semântica gerativa]]&lt;br /&gt;
* [[Teoria de Princípios e Parâmetros]]&lt;br /&gt;
* [[Teoria de Regência e Ligação]]&lt;br /&gt;
* [[Zellig Harris]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;references /&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia comentada ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Obras fundamentais de Noam Chomsky ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Syntactic Structures&#039;&#039;. The Hague: Mouton, 1957.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Obra de apresentação do primeiro modelo transformacional. Discute gramáticas de estados finitos, estrutura sintagmática, transformações, autonomia da sintaxe e critérios de avaliação. Não contém a arquitetura da Teoria Padrão nem os conceitos minimalistas posteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Review of B. F. Skinner, &#039;&#039;Verbal Behavior&#039;&#039;. &#039;&#039;Language&#039;&#039;, v. 35, n. 1, p. 26–58, 1959.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Crítica à tentativa de Skinner de estender categorias da análise experimental do comportamento à linguagem. Tornou-se documento emblemático da revolução cognitiva, embora sua relação com o declínio do behaviorismo seja objeto de debate histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Aspects of the Theory of Syntax&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1965.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formula a Teoria Padrão, desenvolve a distinção entre competência e desempenho e apresenta a arquitetura com base, transformações, estrutura profunda e estrutura superficial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Cartesian Linguistics: A Chapter in the History of Rationalist Thought&#039;&#039;. New York: Harper &amp;amp; Row, 1966.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relaciona problemas da linguística gerativa a tradições racionalistas. Sua reconstrução histórica foi influente, mas recebeu críticas de historiadores da filosofia e da linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam; HALLE, Morris. &#039;&#039;The Sound Pattern of English&#039;&#039;. New York: Harper &amp;amp; Row, 1968.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Marco da fonologia gerativa. Desenvolve representações por traços distintivos e regras ordenadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Language and Mind&#039;&#039;. New York: Harcourt, Brace &amp;amp; World, 1968.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresenta para público mais amplo a concepção mentalista e racionalista da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Remarks on nominalization. In: JACOBS, Roderick A.; ROSENBAUM, Peter S. (orgs.). &#039;&#039;Readings in English Transformational Grammar&#039;&#039;. Waltham: Ginn, 1970. p. 184–221.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto central para o lexicalismo e para a restrição do poder das transformações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Studies on Semantics in Generative Grammar&#039;&#039;. The Hague: Mouton, 1972.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reúne trabalhos importantes da transição para a Teoria Padrão Estendida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Conditions on transformations. In: ANDERSON, Stephen R.; KIPARSKY, Paul (orgs.). &#039;&#039;A Festschrift for Morris Halle&#039;&#039;. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1973. p. 232–286.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Representa o movimento de substituição de transformações específicas por restrições gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Reflections on Language&#039;&#039;. New York: Pantheon, 1975.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discussão dos fundamentos epistemológicos, da aquisição e da natureza do conhecimento linguístico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Rules and Representations&#039;&#039;. New York: Columbia University Press, 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desenvolve a concepção modular da mente e a distinção entre sistemas de representação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Lectures on Government and Binding&#039;&#039;. Dordrecht: Foris, 1981.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Obra central do modelo de Regência e Ligação e da abordagem de Princípios e Parâmetros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Knowledge of Language: Its Nature, Origin, and Use&#039;&#039;. New York: Praeger, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formula a distinção entre língua-I e língua-E e desenvolve o internalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Barriers&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discute localidade, barreiras ao movimento e estrutura sintagmática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam; LASNIK, Howard. The theory of Principles and Parameters. In: JACOBS, Joachim et al. (orgs.). &#039;&#039;Syntax: An International Handbook of Contemporary Research&#039;&#039;. Berlin: De Gruyter, 1993. p. 506–569.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Síntese extensa do modelo anterior ao Minimalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. A minimalist program for linguistic theory. In: HALE, Kenneth; KEYSER, Samuel Jay (orgs.). &#039;&#039;The View from Building 20&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1993. p. 1–52.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Primeira exposição sistemática da orientação minimalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;The Minimalist Program&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reúne textos fundamentais sobre economia, estrutura sintagmática nua, interfaces e arquitetura minimalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Minimalist inquiries: The framework. In: MARTIN, Roger; MICHAELS, David; URIAGEREKA, Juan (orgs.). &#039;&#039;Step by Step: Essays on Minimalist Syntax in Honor of Howard Lasnik&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2000. p. 89–155.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desenvolve Agree, fases e uma arquitetura derivacional mais recente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Derivation by phase. In: KENSTOWICZ, Michael (org.). &#039;&#039;Ken Hale: A Life in Language&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2001. p. 1–52.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto central para a teoria de fases.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Beyond explanatory adequacy. In: BELLETTI, Adriana (org.). &#039;&#039;Structures and Beyond&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2004. p. 104–131.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discute a tentativa minimalista de explicar o desenho da faculdade da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. Three factors in language design. &#039;&#039;Linguistic Inquiry&#039;&#039;, v. 36, n. 1, p. 1–22, 2005.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formula a distinção entre dotação genética, experiência e princípios gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. On phases. In: FREIDIN, Robert; OTERO, Carlos P.; ZUBIZARRETA, Maria Luisa (orgs.). &#039;&#039;Foundational Issues in Linguistic Theory&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2008. p. 133–166.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Desenvolve a teoria de fases e a relação entre Merge, transferência e interfaces.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;The Minimalist Program: 20th Anniversary Edition&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2015.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Edição comemorativa com reflexão retrospectiva sobre o programa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da gramática gerativa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* FREIDIN, Robert. &#039;&#039;Foundations of Generative Syntax&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1992.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reconstrói a evolução da teoria transformacional até Princípios e Parâmetros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HARRIS, Randy Allen. &#039;&#039;The Linguistics Wars&#039;&#039;. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2021.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
História das controvérsias entre semântica interpretativa, semântica gerativa e correntes posteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HUCK, Geoffrey J.; GOLDSMITH, John A. &#039;&#039;Ideology and Linguistic Theory: Noam Chomsky and the Deep Structure Debates&#039;&#039;. London: Routledge, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Analisa os debates teóricos e institucionais em torno da estrutura profunda e da semântica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* KOERNER, E. F. K. Toward a historiography of linguistics. Amsterdam: John Benjamins, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conjunto de trabalhos fundamentais para uma historiografia crítica da linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* MATTHEWS, Peter H. &#039;&#039;Grammatical Theory in the United States from Bloomfield to Chomsky&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 1993.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresenta continuidades e rupturas entre estruturalismo americano e gerativismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* NEWMEYER, Frederick J. &#039;&#039;Linguistic Theory in America&#039;&#039;. 2. ed. Orlando: Academic Press, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
História interna do desenvolvimento da teoria gerativa e de suas controvérsias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* TOMALIN, Marcus. &#039;&#039;Linguistics and the Formal Sciences: The Origins of Generative Grammar&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2006.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Examina as relações entre gramática gerativa, lógica, matemática e teoria da computação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Introduções à sintaxe gerativa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* ADGER, David. &#039;&#039;Core Syntax: A Minimalist Approach&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2003.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução ao Minimalismo, com atenção a traços, Merge, movimento e concordância.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CARNIE, Andrew. &#039;&#039;Syntax: A Generative Introduction&#039;&#039;. 4. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2021.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Manual amplo e acessível de sintaxe gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HAEGEMAN, Liliane. &#039;&#039;Introduction to Government and Binding Theory&#039;&#039;. 2. ed. Oxford: Blackwell, 1994.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exposição detalhada da Teoria de Regência e Ligação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HORNSTEIN, Norbert; NUNES, Jairo; GROHMANN, Kleanthes K. &#039;&#039;Understanding Minimalism&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2005.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução aos fundamentos e às operações do Programa Minimalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* LASNIK, Howard; URIAGEREKA, Juan. &#039;&#039;A Course in GB Syntax&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 1988.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresentação técnica do modelo de Regência e Ligação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* RADFORD, Andrew. &#039;&#039;Minimalist Syntax: Exploring the Structure of English&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução didática à sintaxe minimalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* ROBERTS, Ian. &#039;&#039;The Oxford Handbook of Universal Grammar&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2017.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Coletânea sobre Gramática Universal, variação, aquisição e arquitetura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aquisição e Gramática Universal ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BERWICK, Robert C.; CHOMSKY, Noam. &#039;&#039;Why Only Us: Language and Evolution&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2016.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresenta uma hipótese minimalista sobre evolução, Merge e externalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CRAIN, Stephen; LILLO-MARTIN, Diane. &#039;&#039;An Introduction to Linguistic Theory and Language Acquisition&#039;&#039;. Oxford: Blackwell, 1999.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relaciona teoria gramatical e evidências de aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* GUASTI, Maria Teresa. &#039;&#039;Language Acquisition: The Growth of Grammar&#039;&#039;. 2. ed. Cambridge, MA: MIT Press, 2017.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Manual abrangente de aquisição em perspectiva gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HYAMS, Nina. &#039;&#039;Language Acquisition and the Theory of Parameters&#039;&#039;. Dordrecht: Reidel, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Obra clássica sobre aquisição e parâmetros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* LEGATE, Julie Anne; YANG, Charles. Empirical re-assessment of stimulus poverty arguments. &#039;&#039;The Linguistic Review&#039;&#039;, v. 19, p. 151–162, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discute modos de formular e testar argumentos de pobreza do estímulo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* PULLUM, Geoffrey K.; SCHOLZ, Barbara C. Empirical assessment of stimulus poverty arguments. &#039;&#039;The Linguistic Review&#039;&#039;, v. 19, p. 9–50, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Crítica influente à formulação de diferentes argumentos de pobreza do estímulo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* YANG, Charles. &#039;&#039;Knowledge and Learning in Natural Language&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Combina gramática, parâmetros e aprendizagem probabilística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Minimalismo e biolinguística ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BOECKX, Cedric. &#039;&#039;Linguistic Minimalism: Origins, Concepts, Methods, and Aims&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2006.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresentação conceitual dos objetivos minimalistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BOECKX, Cedric; GROHMANN, Kleanthes K. The Biolinguistics Manifesto. &#039;&#039;Biolinguistics&#039;&#039;, v. 1, p. 1–8, 2007.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Documento programático sobre biolinguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* FITCH, W. Tecumseh. &#039;&#039;The Evolution of Language&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discussão interdisciplinar da evolução da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* HAUSER, Marc D.; CHOMSKY, Noam; FITCH, W. Tecumseh. The faculty of language: What is it, who has it, and how did it evolve? &#039;&#039;Science&#039;&#039;, v. 298, p. 1569–1579, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formula a distinção entre faculdade ampla e restrita e discute a hipótese da recursividade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* PIATTELLI-PALMARINI, Massimo et al. (orgs.). &#039;&#039;Of Minds and Language: A Dialogue with Noam Chomsky in the Basque Country&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2009.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Debates entre linguística, biologia, cognição e evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Críticas e alternativas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BYBEE, Joan. &#039;&#039;Language, Usage and Cognition&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresenta uma abordagem baseada no uso, na frequência e na emergência de padrões.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CHRISTIANSEN, Morten H.; CHATER, Nick. &#039;&#039;Creating Language: Integrating Evolution, Acquisition, and Processing&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2016.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Defende uma explicação baseada em evolução cultural e mecanismos gerais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CROFT, William. &#039;&#039;Radical Construction Grammar&#039;&#039;. Oxford: Oxford University Press, 2001.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Propõe uma abordagem tipológica e construcional crítica a categorias universais pré-estabelecidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* GOLDBERG, Adele E. &#039;&#039;Constructions: A Construction Grammar Approach to Argument Structure&#039;&#039;. Chicago: University of Chicago Press, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Obra central da Gramática de Construções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* LANGACKER, Ronald W. &#039;&#039;Foundations of Cognitive Grammar&#039;&#039;. Stanford: Stanford University Press, 1987–1991. 2 v.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresenta a gramática cognitiva e rejeita a autonomia da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* TOMASELLO, Michael. &#039;&#039;Constructing a Language: A Usage-Based Theory of Language Acquisition&#039;&#039;. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2003.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Crítica à aquisição paramétrica e defesa da aprendizagem de construções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Gerativismo e língua portuguesa ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* CYRINO, Sonia Maria Lazzarini. &#039;&#039;O objeto nulo no português do Brasil: um estudo sintático-diacrônico&#039;&#039;. Londrina: Editora da UEL, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estudo do objeto nulo e da mudança sintática no português brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* FIGUEIREDO SILVA, Maria Cristina. &#039;&#039;A posição sujeito no português brasileiro&#039;&#039;. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Análise da posição de sujeito no quadro gerativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* GALVES, Charlotte. &#039;&#039;Ensaios sobre as gramáticas do português&#039;&#039;. Campinas: Editora da Unicamp, 2001.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reúne estudos sobre gramática, mudança e português brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* KATO, Mary Aizawa. &#039;&#039;A gramática do letrado: questões para a teoria gramatical&#039;&#039;. In: MARQUES, Maria Aldina et al. (orgs.). &#039;&#039;Ciências da linguagem: trinta anos de investigação e ensino&#039;&#039;. Braga: Universidade do Minho, 2005.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Discute diferenças entre gramática adquirida e escrita letrada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* KATO, Mary Aizawa; ROBERTS, Ian (orgs.). &#039;&#039;Português brasileiro: uma viagem diacrônica&#039;&#039;. Campinas: Editora da Unicamp, 1993.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Coletânea central sobre mudança e parâmetros no português brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* LEMLE, Miriam. &#039;&#039;Análise sintática: teoria geral e descrição do português&#039;&#039;. São Paulo: Ática, 1984.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução brasileira à sintaxe gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* MIOTO, Carlos; SILVA, Maria Cristina Figueiredo; LOPES, Ruth. &#039;&#039;Novo manual de sintaxe&#039;&#039;. São Paulo: Contexto, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Manual de sintaxe gerativa amplamente utilizado no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* NUNES, Jairo. &#039;&#039;Linearization of Chains and Sideward Movement&#039;&#039;. Cambridge, MA: MIT Press, 2004.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contribuição brasileira ao Minimalismo, à teoria de cópias e ao movimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* RAMOS, Jânia; ALKMIM, Mônica (orgs.). &#039;&#039;Para a história do português brasileiro&#039;&#039;. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, vários volumes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reúne estudos históricos de diferentes orientações, incluindo análises gerativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* TARALLO, Fernando; KATO, Mary Aizawa. Harmonia trans-sistêmica: variação intra- e interlinguística. &#039;&#039;Diadorim&#039;&#039;, trabalhos originalmente publicados em 1989.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto importante para o diálogo entre teoria paramétrica e sociolinguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Introduções em português ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* KENEDY, Eduardo. Gerativismo. In: MARTELOTTA, Mário Eduardo (org.). &#039;&#039;Manual de Linguística&#039;&#039;. São Paulo: Contexto, 2008.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução acessível aos fundamentos do gerativismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* KENEDY, Eduardo. &#039;&#039;Curso básico de linguística gerativa&#039;&#039;. São Paulo: Contexto, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apresentação didática dos conceitos centrais e da análise sintática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* LOBATO, Lúcia Maria Pinheiro. &#039;&#039;Sintaxe gerativa do português: da teoria padrão à teoria da regência e ligação&#039;&#039;. Belo Horizonte: Vigília, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
História e exposição das primeiras fases da teoria aplicadas ao português.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (orgs.). &#039;&#039;Introdução à linguística: domínios e fronteiras&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, vários volumes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inclui capítulos introdutórios sobre gerativismo, sintaxe e aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* NEGRÃO, Esmeralda Vailati; SCHER, Ana Paula; VIOTTI, Evani. Sintaxe: explorando a estrutura da sentença. In: FIORIN, José Luiz (org.). &#039;&#039;Introdução à Linguística II: princípios de análise&#039;&#039;. São Paulo: Contexto, 2003.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Introdução à análise sintática e à constituição hierárquica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{DEFAULTSORT:Gerativismo}}&lt;br /&gt;
[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Recentes]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>201.54.52.52</name></author>
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		<title>Sociolinguística</title>
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		<updated>2026-08-05T17:36:59Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;201.54.52.52: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;A sociolinguística, frequentemente referida como sociologia da linguagem, é uma disciplina central no campo da linguística, dedicada ao estudo aprofundado da relação intrínseca entre a língua e a sociedade. Seu principal foco reside na investigação da variabilidade social da língua, examinando como diversos fatores sociais, como classe, gênero, idade, raça, região e contexto histórico, influenciam a comunicação humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Objeto da Sociolinguística ==&lt;br /&gt;
Em contraste com outras áreas da linguística que se concentram nas estruturas internas da língua – como a fonética, a sintaxe e a morfologia – a sociolinguística direciona sua atenção para a diversidade dos usos de linguagem. Ela explora como diferentes grupos sociais interagem e se influenciam mutuamente por meio da língua. Uma premissa fundamental desta disciplina é a não-homogeneidade da língua; ela é continuamente moldada pela cultura, pelas relações de poder, pelas tradições e pelos padrões de comportamento social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O campo da sociolinguística abrange a identificação e o estudo de dialetos regionais, socioletos (variedades linguísticas de grupos sociais específicos), etnoletos e outras subvariedades e estilos dentro de uma língua. Além de fenômenos como a variação étnica e etária, a sociolinguística também se dedica a explicar a formação de &amp;quot;variantes de prestígio&amp;quot; e a dinâmica do &amp;quot;preconceito linguístico&amp;quot;, que estigmatiza certas formas de falar em detrimento de outras. Para realizar suas investigações, a sociolinguística emprega uma variedade de métodos de pesquisa, incluindo etnografia, observação participante, análise de gravações de fala e entrevistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística representou uma ruptura significativa com o formalismo teórico predominante na linguística do século XX. Ao introduzir o conceito de variável linguística, ela desafiou a visão de língua como um sistema abstrato e homogêneo que caracterizava abordagens anteriores. Essa mudança de perspectiva não apenas preencheu uma lacuna nos estudos linguísticos, mas também redefiniu o objeto e a metodologia da disciplina, abrindo caminho para uma compreensão mais realista e socialmente contextualizada da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de sua natureza descritiva, a sociolinguística possui uma dimensão intrinsecamente social e política. Ao desvendar como as dinâmicas sociais refletem, reforçam e até mesmo desafiam a linguagem, e como a língua é utilizada para construir identidades e manter ou desafiar hierarquias sociais, a disciplina se posiciona como uma ferramenta para a justiça social. A análise do preconceito linguístico, por exemplo, que discrimina pessoas com base em suas formas de falar, ilustra o compromisso da sociolinguística em promover a valorização de todas as variedades linguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Antecedentes == &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da sociolinguística na segunda metade do século XX não foi um evento isolado, mas o culminar de diversas correntes intelectuais e críticas aos paradigmas linguísticos dominantes da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Críticas ao formalismo linguístico (Saussure e Chomsky) ===&lt;br /&gt;
Antes do advento da sociolinguística, o cenário linguístico do século XX era amplamente dominado por duas correntes principais: o Estruturalismo Saussuriano e o Gerativismo Chomskyano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Estruturalismo Saussuriano, iniciado com a obra póstuma de Ferdinand de Saussure, &amp;quot;Curso de Linguística Geral&amp;quot; (1916), definiu a &amp;quot;língua&amp;quot; (o sistema abstrato e homogêneo) como seu objeto de estudo, em oposição à &amp;quot;fala&amp;quot; (o uso heterogêneo e individual da língua). Fenômenos variáveis, considerados parte da &amp;quot;fala&amp;quot;, eram excluídos da análise linguística formal, que se concentrava nos aspectos internos do sistema. Embora Saussure reconhecesse o aspecto social da língua, sua abordagem priorizava o formalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente, o Gerativismo Chomskyano, surgido na década de 1960, focou na &amp;quot;competência&amp;quot; (o conhecimento interno do falante sobre a língua), negligenciando a &amp;quot;performance&amp;quot; (o uso real da língua em contexto, influenciado por fatores externos). A idealização de um &amp;quot;falante-ouvinte ideal&amp;quot; em uma comunidade homogênea levou à exclusão das condições socialmente relevantes do escopo de estudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ambas as correntes, ao idealizarem a língua como um sistema homogêneo e abstrato, desconsideraram as influências sociais em seus objetos de estudo. Essa postura é referida como o &amp;quot;axioma da categoricidade&amp;quot;, que buscava regularizar os dados linguísticos para eliminar a variabilidade inerente à linguagem real, aproximando a linguística da matemática e excluindo campos como a dialetologia e a estilística. A exclusão deliberada da dimensão social e da variação da língua pelos formalistas criou um vácuo para pesquisadores interessados na língua em seu uso real. A sociolinguística, portanto, surgiu como uma resposta necessária a uma limitação percebida nos paradigmas dominantes. A &amp;quot;homogeneidade&amp;quot; postulada pelas teorias formalistas era incompatível com a realidade observada da linguagem, pavimentando o caminho para uma disciplina que abraçaria a &amp;quot;heterogeneidade sistemática&amp;quot; como seu foco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Influências da Sociologia e Antropologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística é um campo intrinsecamente interdisciplinar, estabelecendo estreitas relações com a antropologia, a sociologia e a geografia linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A associação com a antropologia, por vezes chamada de etnolinguística ou antropologia linguística, deve-se à extensão da descrição e análise da língua para incluir aspectos da cultura em que é utilizada. Figuras como Franz Boas, Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, com a Hipótese Sapir-Whorf (ou relatividade linguística), exploraram a ideia de que as características específicas de uma língua influenciam o pensamento e a cultura de seus falantes. Essa perspectiva desafiou as suposições universalistas sobre o pensamento humano, sugerindo que as diferenças linguísticas podem afetar a percepção e a construção da realidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência da sociologia é evidente em trabalhos precursores. Marcel Cohen, por exemplo, demonstrou um interesse precoce em situações multilíngues e na complexidade da prática da linguagem, desenvolvendo um método baseado em trabalho de campo e observação desde o início do século XX. Seus estudos sobre o jargão de engenheiros (1908) e o árabe falado por judeus em Argel (1912), bem como suas &amp;quot;Instructions pour les voyageurs&amp;quot; (1928), anteciparam o projeto sociolinguístico que culminaria em sua obra &amp;quot;Pour une sociologie du langage&amp;quot; (1956).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Escola de Praga, fundada em 1926, é uma representante notável do funcionalismo e exerceu grande influência na linguística europeia. Seus membros opuseram-se ao historicismo e ao intelectualismo que viam a linguagem como mera exteriorização do pensamento. Os funcionalistas enfatizaram a multifuncionalidade da linguagem, destacando suas funções expressiva, social e conotativa, além da descritiva. Eles defendiam que a estrutura dos enunciados é determinada pelo uso no contexto comunicativo, tratando a linguagem por seu caráter instrumental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base interdisciplinar da sociolinguística, que incorpora conhecimentos da antropologia, sociologia e geografia linguística, constitui uma de suas maiores forças. Essa confluência de saberes permite abordar a complexidade da linguagem a partir de múltiplas perspectivas, enriquecendo a análise. Contudo, essa mesma diversidade pode gerar debates metodológicos e teóricos internos, à medida que diferentes abordagens buscam sua própria sistematicidade e relevância.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeiras menções e estudos precursores ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo &amp;quot;sociolinguística&amp;quot; foi atestado pela primeira vez em 1939, no artigo &amp;quot;Sociolinguistics in India&amp;quot;, de Thomas Callan Hodson. Embora a formalização do campo como disciplina autônoma tenha ocorrido mais tarde, na década de 1960, a base para o estudo da motivação social da mudança linguística já estava presente no modelo de ondas do final do século XIX. Além disso, William Stewart e Heinz Kloss, na década de 1960, introduziram conceitos básicos para a teoria sociolinguística das línguas pluricêntricas, descrevendo como as variedades padrão de uma língua diferem entre nações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da sociolinguística, portanto, não é a de uma invenção súbita, mas de uma maturação gradual de ideias que desafiavam as concepções linguísticas da época. Trabalhos com uma &amp;quot;visão sociológica&amp;quot; da linguagem, como os de Marcel Cohen, datam de 1908, décadas antes da formalização do campo por William Labov. Reconhecer esses precursores enriquece a compreensão da profundidade intelectual e da continuidade histórica do campo, mostrando que a preocupação com a dimensão social da linguagem já existia antes de ser institucionalizada como uma disciplina específica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Principais autores e obras ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formalização da sociolinguística como um campo autônomo e interdisciplinar ocorreu em meados do século XX, impulsionada pelas contribuições de pesquisadores que se tornaram figuras seminais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== William Labov e a Sociolinguística Variacionista ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
William Labov é amplamente reconhecido como o &amp;quot;pai&amp;quot; da Sociolinguística Variacionista. Sua obra representou uma ruptura com o formalismo linguístico ao introduzir o conceito de variável linguística e demonstrar a heterogeneidade ordenada da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto considerado fundador da Sociolinguística Variacionista é &amp;quot;Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística&amp;quot; (2006, originalmente 1968), de Weinreich, Labov e Herzog. Contudo, foi com a publicação de &amp;quot;Padrões Sociolinguísticos&amp;quot; (1972) que o nascimento da Sociolinguística Variacionista se oficializou, solidificando a contribuição de Labov para sistematizar a variação linguística, antes vista como &amp;quot;caos&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Labov demonstrou que a variação linguística não é aleatória, mas sistemática, correlacionando padrões linguísticos com estruturas sociais. Seus estudos empíricos, como a pesquisa sobre a variação do /r/ em Nova York (documentada em &amp;quot;The Social Stratification of English in New York City&amp;quot;, 1966) e a centralização dos ditongos em Martha&#039;s Vineyard (1968), são exemplos clássicos de como fatores sociais (classe, gênero, idade, ocupação, atitudes) influenciam a língua. Ele também abordou o &amp;quot;paradoxo do observador&amp;quot;, um desafio metodológico na coleta de dados vernaculares, propondo estratégias para minimizá-lo. Labov defendeu uma abordagem bidialetal para crianças de grupos minoritários, refutando a &amp;quot;hipótese do déficit cultural&amp;quot;, que atribuía a dificuldades de aprendizado a supostas deficiências linguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A seguir, a Tabela 1 apresenta as obras seminais de William Labov, destacando suas principais contribuições para o campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
! Título da Obra (Ano de Publicação)&lt;br /&gt;
! Contribuição/Foco Principal&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| &#039;&#039;The Social Stratification of English in New York City&#039;&#039; (1966)&lt;br /&gt;
| Estudo pioneiro da variação fonológica correlacionada a fatores sociais (classe, estilo).&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| &#039;&#039;Empirical Foundations for a Theory of Linguistic Change&#039;&#039; (1968, com Weinreich &amp;amp; Herzog)&lt;br /&gt;
| Texto fundador da Sociolinguística Variacionista, postulando a variabilidade inerente e a heterogeneidade ordenada da língua.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| &#039;&#039;Sociolinguistic Patterns&#039;&#039; (1972)&lt;br /&gt;
| Formalização da Sociolinguística Variacionista, apresentando metodologias para o estudo sistemático da variação linguística.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| &#039;&#039;Language in the Inner City: Studies in the Black English Vernacular&#039;&#039; (1972)&lt;br /&gt;
| Análise aprofundada do inglês vernáculo negro, com implicações para a educação e o preconceito linguístico.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| &#039;&#039;Principles of Linguistic Change&#039;&#039;  &lt;br /&gt;
Vol. 1: &#039;&#039;Internal Factors&#039;&#039; (1994);  &lt;br /&gt;
Vol. 2: &#039;&#039;Social Factors&#039;&#039; (2001);  &lt;br /&gt;
Vol. 3: &#039;&#039;Cognitive and Cultural Factors&#039;&#039; (2010)&lt;br /&gt;
| Obra abrangente sobre os mecanismos e motivações da mudança linguística, integrando fatores internos e externos.&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dell Hymes e a Etnografia da Comunicação ===&lt;br /&gt;
Dell Hymes, linguista, sociolinguista, antropólogo e folclorista, foi um pioneiro da sociolinguística interacional. Ele estabeleceu as bases disciplinares para o estudo comparativo e etnográfico do uso da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hymes desenvolveu o conceito de &amp;quot;competência comunicativa&amp;quot; como uma crítica e extensão da &amp;quot;competência linguística&amp;quot; de Chomsky. Enquanto Chomsky focava no conhecimento gramatical inato, Hymes argumentou que a competência comunicativa engloba o conhecimento do que é apropriado dizer em um determinado contexto social, incluindo padrões de atividade de fala dentro de uma comunidade. Sua obra seminal, &amp;quot;Foundations in Sociolinguistics: An Ethnographic Approach&amp;quot; (1974), propôs a etnografia da comunicação como um campo que estende a descrição e análise da língua para incluir aspectos da cultura em que é usada. Hymes enfatizou a necessidade de investigar diretamente o uso da linguagem em contextos situacionais para discernir padrões próprios da atividade da fala, que escapam a estudos puramente gramaticais. Para isso, ele desenvolveu o modelo SPEAKING (Setting, Participants, Ends, Act Sequence, Key, Instrumentalties, Norms, Genres) para analisar os componentes da interação linguística de forma sistemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Joshua Fishman e a Sociologia da Linguagem ===&lt;br /&gt;
Joshua A. Fishman foi uma figura proeminente na sociologia da linguagem, contribuindo significativamente para o estudo do multilinguismo, educação bilíngue e minoritária, planejamento linguístico, reversão da mudança de idioma e a relação entre língua e nacionalismo, religião e etnia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre suas obras mais influentes estão &amp;quot;Language Loyalty in the United States&amp;quot; (1966), que investigou os esforços de manutenção de línguas não-inglesas por grupos étnicos e religiosos nos EUA , e &amp;quot;Sociolinguistics: A Brief Introduction&amp;quot; (1970). Ele também desenvolveu a Escala de Disrupção Intergeracional Graduada (GIDS) em &amp;quot;Reversing Language Shift&amp;quot; , utilizada para determinar o grau de ameaça de extinção de idiomas. Fishman fundou e editou o &amp;quot;International Journal of the Sociology of Language&amp;quot;, criando uma plataforma intelectual crucial para a introdução e disseminação de novos modelos e teorias revolucionárias no campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Basil Bernstein e a Teoria dos Códigos Linguísticos ===&lt;br /&gt;
Basil Bernstein é conhecido por sua teoria sociolinguística dos códigos de linguagem, que buscou explicar as desigualdades baseadas na classe social no uso da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bernstein postulou a existência de códigos elaborados e códigos restritos. O código elaborado é mais explícito e completo, não assumindo conhecimento prévio do ouvinte, sendo comum em contextos formais e entre classes médias. O código restrito, por sua vez, é mais conciso e depende de conhecimento compartilhado e contexto, sendo mais prevalente em grupos intimamente ligados e entre a classe trabalhadora. Como educador, Bernstein estava interessado em explicar o desempenho inferior de estudantes da classe trabalhadora em disciplinas baseadas na linguagem, argumentando que a linguagem usada na conversação diária reflete e molda as suposições de um grupo social, influenciando a forma como as pessoas atribuem significado. Sua obra fundamental é &amp;quot;Class, Codes and Control&amp;quot; (1971).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outros pesquisadores notáveis ===&lt;br /&gt;
Além dos pilares Labov, Hymes, Fishman e Bernstein, outros pesquisadores contribuíram para a diversificação do campo. J.Y. Gumperz, por exemplo, é destacado pelos trabalhos pioneiros em sociolinguística interacional. Stella Maris Bortoni-Ricardo é reconhecida na sociolinguística educacional , e William Stewart e Heinz Kloss pelas línguas pluricêntricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A força da sociolinguística reside na sua capacidade de integrar diferentes níveis de análise – do micro (interacional) ao macro (políticas linguísticas) – e de combinar metodologias quantitativas e qualitativas. Labov focou na quantificação da variação, Hymes na etnografia da comunicação e competência comunicativa, Fishman na sociologia da linguagem e planejamento linguístico, e Bernstein nas relações entre classe social e uso da linguagem. Embora distintos, esses focos não são mutuamente exclusivos, mas sim complementares, permitindo uma compreensão mais completa e multifacetada da complexa interação entre língua e sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O trabalho desses precursores, em conjunto, desviou o foco da linguística de sistemas abstratos para a &amp;quot;língua em uso&amp;quot; e a &amp;quot;prática social&amp;quot;. Labov buscou sistematizar o que parecia ser o &amp;quot;caos&amp;quot; da variação, Hymes priorizou o contexto social do uso da linguagem, Fishman estudou as dinâmicas de línguas em comunidades reais, e Bernstein analisou a linguagem como reflexo e construtor de hierarquias sociais. Essa contribuição coletiva foi fundamental para solidificar a ideia de que a língua é um fenômeno social dinâmico e heterogêneo, intrinsecamente ligado à identidade e às estruturas de poder. Essa redefinição é a base para as linhas de pesquisa e as aplicações da sociolinguística na contemporaneidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Gênese e evolução dos conceitos fundamentais ==&lt;br /&gt;
A sociolinguística desenvolveu um conjunto de conceitos centrais para analisar a complexa relação entre língua e sociedade, que evoluíram ao longo do tempo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== [[Variação linguística]] ===&lt;br /&gt;
A variação linguística é um dos conceitos mais fundamentais da sociolinguística, que postula que a língua não é homogênea, mas sim um sistema dinâmico e heterogêneo. As variações são inerentes a todas as línguas e ocorrem em diferentes níveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os principais tipos de variação incluem:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
*&#039;&#039;&#039;Variação Diacrônica (ou Temporal)&#039;&#039;&#039;: Resulta da passagem do tempo, refletindo as mudanças na língua ao longo da história, como a adoção de estrangeirismos.&lt;br /&gt;
*&#039;&#039;&#039;Variação Diatópica (ou Regional)&#039;&#039;&#039;: Caracteriza as diferenças geográficas na língua, manifestadas em sotaques e vocabulário entre diferentes regiões, como os estados brasileiros.&lt;br /&gt;
*&#039;&#039;&#039;Variação Diastrática (ou Social)&#039;&#039;&#039;: Refere-se às diferenças reconhecidas na linguagem de diversos grupos sociais, influenciadas por fatores como classe social, gênero, idade, escolaridade e profissão. Exemplos incluem o uso de gírias por homens versus mulheres, ou por adolescentes versus avós.&lt;br /&gt;
*&#039;&#039;&#039;Variação Diafásica (ou Estilística)&#039;&#039;&#039;: Ocorre conforme o contexto comunicativo ou o grau de formalidade da situação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Comunidade de fala e rede social ===&lt;br /&gt;
A &amp;quot;comunidade de fala&amp;quot; é uma unidade central de estudo na sociolinguística. Labov (1972/2008) definiu-a não pela concordância no uso de elementos linguísticos, mas pela &amp;quot;participação num conjunto de normas compartilhadas&amp;quot;, incluindo atitudes avaliativas em relação aos usos linguísticos. No entanto, essa visão homogênea da comunidade de fala foi criticada por ser muito ampla e não capturar a complexidade da interação individual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resposta a essas críticas, surgiram conceitos de &amp;quot;microníveis&amp;quot; de análise, como a &amp;quot;rede social&amp;quot;. O conceito de rede social, com raízes na sociologia (Georg Simmel, Jacob Moreno, J. A. Barnes na década de 1950), foi expandido para a sociolinguística. Milroy (2004) e Britain e Matsumoto (2008) definiram a rede social como a totalidade de relações em que um indivíduo está envolvido, baseada em laços sociais (família, amizade, vizinhança). Redes sociais mais fortes tendem a reforçar normas linguísticas locais, enquanto laços mais fracos podem levar a mais variação e mudança linguística. A utilização de redes sociais permite o estudo de pequenos grupos sociais e a identificação de dinâmicas que motivam a mudança linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transição de macro para microanálises na compreensão da influência social, através da evolução do conceito de &amp;quot;comunidade de fala&amp;quot; para &amp;quot;redes sociais&amp;quot; e &amp;quot;comunidades de prática&amp;quot;, reflete uma busca por maior precisão na captura das dinâmicas sociais que impulsionam a variação e a mudança. Essa evolução metodológica demonstra a maturidade da sociolinguística em reconhecer que os fenômenos linguísticos não são apenas reflexos de grandes categorias sociais, mas também produtos de interações sociais complexas e localizadas. O foco em microníveis permite uma compreensão mais detalhada de como as normas linguísticas são formadas, mantidas e transformadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Competência comunicativa ===&lt;br /&gt;
O conceito de &amp;quot;competência comunicativa&amp;quot; foi desenvolvido por Dell Hymes como uma resposta à &amp;quot;competência linguística&amp;quot; de Noam Chomsky. Hymes argumentou que, para falar uma língua corretamente, não basta aprender seu vocabulário e gramática; é preciso também dominar o contexto em que as palavras são usadas. A competência comunicativa inclui o conhecimento das regras para a conduta e interpretação da fala, ou seja, a capacidade de usar a linguagem de forma eficaz e apropriada em diversas situações sociais. Hymes propôs o modelo SPEAKING para detalhar os componentes dos eventos comunicativos (Setting, Participants, Ends, Act Sequence, Key, Instrumentalties, Norms, Genres), fornecendo uma estrutura para a análise etnográfica da comunicação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atitudes linguísticas ===&lt;br /&gt;
Os estudos sobre &amp;quot;atitudes linguísticas&amp;quot; investigam as crenças e avaliações que os falantes têm sobre sua própria variedade linguística e a de outros. Embora os estudos iniciais pertençam à Psicologia Social, a sociolinguística, a sociologia da linguagem e a linguística aplicada também contribuem para essa área. As atitudes linguísticas são cruciais porque influenciam a variação e a mudança da língua, a escolha de um idioma sobre outro e o ensino de línguas. William Labov enfatizou que as atitudes linguísticas desempenham um papel central na perpetuação das desigualdades sociais, pois a estigmatização de variedades não-padrão pode levar à exclusão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bilinguismo e diglossia ===&lt;br /&gt;
Esses conceitos são fundamentais para entender situações de contato entre línguas e variedades linguísticas. Charles Ferguson, em 1959, descreveu a diglossia como uma situação sociolinguística onde duas variedades de uma língua (ou línguas geneticamente aparentadas) coexistem em distribuição complementar dentro de uma comunidade. Uma variedade é considerada &amp;quot;elevada&amp;quot; (culta, formal) e a outra &amp;quot;baixa&amp;quot; (informal, coloquial), com usos sociais distintos. O bilinguismo refere-se à capacidade de um indivíduo de usar duas ou mais línguas. O conceito de diglossia serve para relativizar o bilinguismo, especialmente quando este é apresentado sob uma ideologia de equilíbrio histórico-social, mostrando que as relações entre as línguas podem ser de dominante-dominado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A interdependência entre forma linguística e significado social é um aspecto crucial revelado por esses conceitos. A &amp;quot;competência comunicativa&amp;quot; de Hymes explicitamente liga o conhecimento gramatical à adequação social, enquanto as &amp;quot;atitudes linguísticas&amp;quot; demonstram como as avaliações sociais (prestígio, estigma) afetam diretamente o uso e a percepção das variantes. A própria sociolinguística entende que a &amp;quot;escolha&amp;quot; de uma variante, mesmo que semanticamente equivalente, é carregada de valor social. Essa perspectiva é vital para entender como a linguagem funciona como um mecanismo de inclusão ou exclusão social, demonstrando que a língua não é apenas um sistema de regras, mas um campo de práticas sociais e simbólicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Sociolinguística no Brasil: história e desenvolvimento ==&lt;br /&gt;
A sociolinguística no Brasil possui uma trajetória rica e produtiva, marcada pela adoção e adaptação das teorias internacionais às particularidades do português brasileiro e da sociedade nacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Início das pesquisas e figuras-chave ===&lt;br /&gt;
As pesquisas na área da sociolinguística laboviana no Brasil tiveram início na década de 1970, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sob a orientação do professor Anthony Naro. Desde então, as linhas de pesquisa dedicadas à descrição de fenômenos variáveis no português do Brasil (PB) se expandiram e se disseminaram por diversas regiões do país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma visão geral da história sociolinguística do Brasil revela um processo histórico de homogeneização linguística, no qual o português se impôs como língua hegemônica sobre um amplo mosaico linguístico original. No entanto, essa homogeneização não eliminou a rica diversidade interna do português falado no país, que continua a ser um objeto central de estudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A forte influência da metodologia laboviana e sua adaptação ao contexto brasileiro são evidentes no início da sociolinguística no país. A chegada dos estudos labovianos na década de 1970, sob a liderança de Anthony Naro, e a subsequente adoção de &amp;quot;métodos sociolinguísticos labovianos&amp;quot; por grandes projetos como o VARSUL, indicam uma significativa assimilação de uma abordagem quantitativa e variacionista. Essa influência moldou as questões de pesquisa e as metodologias preferenciais por um longo período, embora o campo continue a se diversificar e a integrar outras perspectivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Principais projetos e bancos de dados ===&lt;br /&gt;
O desenvolvimento da sociolinguística brasileira é fortemente caracterizado pela criação de grandes projetos de coleta e análise de dados, que formaram importantes bancos de dados de fala e escrita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Projeto VARSUL (Variação Linguística na Região Sul do Brasil) é um dos projetos mais notáveis, sediado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e interinstitucional (envolvendo UFPR, UFRGS e PUC-RS). O VARSUL mantém um banco de dados de fala de informantes da Região Sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul), com 288 entrevistas orais coletadas na década de 1990, seguindo os métodos sociolinguísticos labovianos. A distribuição dos informantes por célula social, controlando variáveis como faixa etária, permite testar hipóteses de mudança linguística em tempo aparente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Projeto NURC (Norma Urbana Culta) é outro grande projeto da área, fundamental para o resgate do desenvolvimento da sociolinguística no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O projeto nacional Para uma História do Português Brasileiro (PHPB), coordenado pelo professor Ataliba Castilho, coleta amostras de escrita diacrônicas em diversas capitais do Brasil. Em Santa Catarina, por exemplo, o grupo do PHPB, coordenado pela professora Izete Lehmkuhl Coelho, coleta peças de teatro e cartas dos séculos XIX e XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
! Projeto&lt;br /&gt;
! Localização/Escopo&lt;br /&gt;
! Foco/Variáveis Controladas&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| VARSUL&lt;br /&gt;
| Região Sul (PR, SC, RS)&lt;br /&gt;
| Variação linguística (Laboviana), sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| NURC&lt;br /&gt;
| Diversas capitais (ex: Rio de Janeiro)&lt;br /&gt;
| Norma Urbana Culta, variação e mudança linguística.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| PHPB&lt;br /&gt;
| Nacional (diversas capitais)&lt;br /&gt;
| História do Português Brasileiro, amostras de escrita diacrônicas.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| PEUL&lt;br /&gt;
| Rio de Janeiro&lt;br /&gt;
| Usos da língua, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| VALPB&lt;br /&gt;
| Paraíba&lt;br /&gt;
| Variação linguística, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| Dialetos Sociais Cearenses&lt;br /&gt;
| Fortaleza (Ceará)&lt;br /&gt;
| Dialetos sociais, sexo/gênero, faixa etária, bairro, classe social.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| LUAL&lt;br /&gt;
| Maceió (Alagoas)&lt;br /&gt;
| Língua usada em Alagoas, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| D&amp;amp;G&lt;br /&gt;
| Rio de Janeiro, Natal, Juiz de Fora, Rio Grande&lt;br /&gt;
| Discurso e gramática, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| ALIP&lt;br /&gt;
| Noroeste de São Paulo&lt;br /&gt;
| Amostra linguística, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade, renda familiar.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| BDS Pampa&lt;br /&gt;
| Região de fronteira e campanha sul-rio-grandense&lt;br /&gt;
| Variação linguística, sexo/gênero, faixa etária, escolaridade.&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
| VarX&lt;br /&gt;
| Pelotas (RS)&lt;br /&gt;
| Variação por classe social, sexo/gênero, faixa etária, classe social.&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa sociolinguística no Brasil funciona como um espelho da complexidade sociocultural brasileira. Apesar do processo histórico de homogeneização linguística, o país carece de homogeneidade linguística e possui uma rica diversidade de dialetos e sotaques. A multiplicidade de projetos e bancos de dados, cobrindo diferentes regiões e variáveis sociais, demonstra uma resposta ativa a essa heterogeneidade interna. A sociolinguística brasileira não se limita a replicar estudos internacionais, mas se engaja ativamente com as realidades linguísticas e sociais do país. A pesquisa sobre variação, contato linguístico e preconceito linguístico é crucial para entender a formação da identidade brasileira e as dinâmicas de poder que se manifestam através da língua em um país de dimensões continentais e grande diversidade cultural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Problemas e desafios da sociolinguística ==&lt;br /&gt;
A trajetória da sociolinguística, embora marcada por avanços significativos, também foi pontuada por debates teóricos e desafios metodológicos que impulsionaram sua evolução.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Debates metodológicos (quantitativo vs. qualitativo) ===&lt;br /&gt;
Um dos principais debates na sociolinguística tem sido a tensão entre abordagens quantitativas e qualitativas, especialmente no que tange à aplicação de modelos formais à complexidade da linguagem em uso. As teorias formalistas do início do século XX, como o Estruturalismo e o Gerativismo, postulavam um &amp;quot;axioma da categoricidade&amp;quot;, idealizando a língua como um objeto homogêneo e imutável, excluindo a variabilidade presente na fala real. A sociolinguística, especialmente a vertente laboviana, representou uma ruptura significativa com essa visão, introduzindo o conceito de variável linguística para demonstrar que a heterogeneidade da língua é sistemática e ordenada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Labov (1969) introduziu o conceito de &amp;quot;regra variável&amp;quot; para incorporar restrições linguísticas e sociais às regras opcionais da linguística gerativa, buscando reduzir a informação qualitativa do comportamento linguístico a dados quantitativos ordenados. No entanto, a extensão das regras variáveis para fenômenos sintáticos na década de 1970 gerou uma crise metodológica. Pesquisadoras como Lavandera (1978) questionaram a real equivalência semântica entre variantes sintáticas, propondo a &amp;quot;comparabilidade funcional&amp;quot; em vez da equivalência semântica estrita. Garcia (1985) criticou a concepção de variação sintática como &amp;quot;diferentes maneiras de dizer a mesma coisa&amp;quot;, argumentando que isso ignorava o valor comunicativo das alternativas e a agência do falante. A incompatibilidade entre os modelos gerativista (competência) e variacionista (performance) também foi apontada por Kay &amp;amp; McDaniel (1979). Embora a regra variável formal tenha tido vida curta, a sociolinguística não abandonou completamente o formalismo, e Labov continuou a priorizar motivações formais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tensão inerente entre a busca por sistematicidade e a fluidez da linguagem é um desafio constante. A sociolinguística nasceu para provar que a variação linguística é sistemática e ordenada, não caótica. No entanto, a aplicação de modelos quantitativos como a &amp;quot;regra variável&amp;quot; a fenômenos sintáticos gerou críticas sobre a equivalência semântica e a agência do falante. Isso revela uma dificuldade fundamental em conciliar a necessidade de rigor analítico com a natureza dinâmica e multifacetada da linguagem em uso. Essa tensão impulsiona a sociolinguística a uma constante autocrítica e refinamento de suas teorias e metodologias, levando a abordagens mais complexas e integradas, como o &amp;quot;terceiro ciclo&amp;quot; de Eckert.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O paradoxo do observador ===&lt;br /&gt;
Um desafio metodológico persistente na sociolinguística, particularmente na coleta de dados de fala, é o &amp;quot;paradoxo do observador&amp;quot;. Este fenômeno ocorre quando a presença do pesquisador influencia a naturalidade da fala do informante, tornando difícil obter dados vernaculares genuínos. Labov propôs estratégias para minimizar esse paradoxo, como evitar mencionar a universidade ou o fenômeno específico em estudo aos informantes e incentivar narrativas de experiência pessoal para estimular a fala espontânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outros desafios ===&lt;br /&gt;
Outros problemas incluem a dificuldade de delimitar um objeto de estudo específico para a linguagem, uma questão que já era admitida por Saussure. Além disso, a pesquisa com textos escritos pode enfrentar desafios como a ausência de informações sobre os perfis sociais dos remetentes, a inviabilidade de controlar variáveis por informante e os diferentes graus de formalidade das cartas. A própria definição e abrangência da disciplina têm sido objeto de debate desde seu início.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os desafios metodológicos são, na verdade, um reflexo da complexidade do objeto de estudo. O paradoxo do observador e as dificuldades na análise de textos escritos são exemplos concretos dos obstáculos práticos na coleta de dados autênticos. A crítica à &amp;quot;regra variável&amp;quot; aponta para os desafios teóricos de modelar a influência social na estrutura linguística sem simplificar demais a realidade. Esses desafios não são falhas da disciplina, mas sim indicadores de sua seriedade em lidar com um objeto de estudo complexo. Eles sublinham a necessidade contínua de inovação metodológica e de um diálogo constante entre a teoria e a prática empírica, garantindo que a sociolinguística permaneça relevante e rigorosa em suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Perspectivas e linhas atuais de atuação ==&lt;br /&gt;
A sociolinguística continua a evoluir, expandindo suas fronteiras e abordando questões contemporâneas, o que demonstra sua vitalidade e relevância.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sociolinguística Crítica e Justiça Social ===&lt;br /&gt;
Uma das tendências mais marcantes é o engajamento da sociolinguística com a busca pela justiça social. A disciplina reconhece que a linguagem desempenha um papel fundamental na estruturação e reprodução das desigualdades sociais, exigindo uma investigação crítica e engajada dessas questões. William Labov, em seu trabalho seminal &amp;quot;Justice as linguistic matter&amp;quot; (1992), argumenta que a variação linguística reflete e perpetua as desigualdades sociais, destacando a importância do estudo sociolinguístico na promoção da igualdade linguística e da justiça social. Ele enfatiza o papel central das atitudes linguísticas na perpetuação dessas desigualdades, pois a estigmatização de variedades não-padrão pode levar à exclusão social e limitar oportunidades de educação e emprego.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística dedica-se ao estudo das políticas linguísticas e às questões de poder relacionadas à linguagem. A distribuição desigual do poder linguístico reflete estruturas sociais e pode resultar em discriminação e opressão. A análise das políticas linguísticas busca criar espaços para o reconhecimento e a valorização das línguas minoritárias, promovendo a igualdade de direitos linguísticos. Acadêmicos como Pierre Bourdieu, com sua visão da linguagem como campo de luta simbólica, e Nancy Fraser, que defende a justiça linguística como componente essencial da justiça social, também contribuem para essa vertente crítica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística, como disciplina engajada e transformadora, evoluiu de uma ciência puramente descritiva para uma com um forte imperativo ético e social. O foco explícito na &amp;quot;justiça social&amp;quot;, o papel de Labov em &amp;quot;Justice as linguistic matter&amp;quot;, e a discussão sobre o combate ao &amp;quot;preconceito linguístico&amp;quot; indicam que a disciplina não apenas observa, mas busca intervir ativamente nas desigualdades. Isso a posiciona como uma área de pesquisa com relevância direta para a sociedade, capaz de informar políticas públicas e práticas educacionais para promover a inclusão e o respeito à diversidade linguística, contribuindo para a desconstrução de estereótipos e preconceitos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sociolinguística e Identidade (Gênero, Etnia, Migração) ===&lt;br /&gt;
A relação entre linguagem e construção de identidades sociais ocupa um lugar de destaque nos estudos sociolinguísticos contemporâneos. A sociolinguística investiga como a linguagem é utilizada para marcar e negociar identidades sociais, como gênero, etnia, classe social e grupo social. O estudo da variação, centrado nas &amp;quot;comunidades de prática&amp;quot; (Eckert, 2000), revela como as variantes linguísticas assumem significado social e como os estilos individuais marcam identidades sociais. O gênero, por exemplo, é visto não apenas como categoria biológica, mas como construção social, cultural e histórica, manifestada através das práticas linguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociolinguística também aborda a língua de acolhimento ao imigrante e a assimilação sociolinguística, investigando como as etnias são acolhidas pelo português e a relação entre identidade e aquisição de língua em contextos de migração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sociolinguística Digital e Novas Abordagens ===&lt;br /&gt;
A era digital abriu novas fronteiras para a pesquisa sociolinguística. Estudos analisam a variação linguística presente em redes sociais como Facebook e X, investigando a linguagem utilizada em chats e mensagens, e as inferências da escrita no ambiente virtual e sua repercussão no real. Isso inclui a identificação de novos tipos de gêneros textuais e a análise de como as interações digitais moldam o uso da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário sociolinguístico brasileiro atual acena com entusiasmo para os estudos de &amp;quot;terceira onda&amp;quot; (Eckert, 2005, 2012), que veem a variação não como um reflexo da posição social, mas como um recurso para a construção de significado social e identidade. Esses estudos buscam conectar categorias sociais abstratas a &amp;quot;comunidades imaginadas&amp;quot; através do conceito de &amp;quot;comunidade de prática&amp;quot;, explorando a agência dos falantes na moldagem da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Aplicações na Educação e Políticas Linguísticas ===&lt;br /&gt;
A sociolinguística tem um papel crucial na educação e na formulação de políticas linguísticas. A Sociolinguística Educacional discute o uso das variedades linguísticas em sala de aula, promovendo uma reflexão crítica sobre a aplicação da sociolinguística ao ensino. O objetivo é compreender como os professores de Língua Portuguesa utilizam a sociolinguística para discutir a diversidade linguística e combater o preconceito linguístico, valorizando todas as formas de falar. No ensino de português como segunda língua (L2), a sociolinguística interacional, por exemplo, é relevante para analisar a língua em uso dentro da sociedade e considerar a cultura do aprendiz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A disciplina contribui para a formulação de políticas que visam ao reconhecimento e à valorização de línguas minoritárias, promovendo a igualdade de direitos linguísticos e combatendo a discriminação. A adaptabilidade da sociolinguística a novos contextos e tecnologias garante sua contínua relevância em um mundo em constante mudança. Ao expandir suas áreas de atuação para incluir fenômenos digitais e questões identitárias complexas, a disciplina reafirma seu papel central na compreensão da linguagem como um espelho e um motor das transformações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da sociolinguística é a narrativa de uma disciplina que emergiu como uma resposta fundamental às limitações dos paradigmas linguísticos formalistas, que negligenciavam a dimensão social da linguagem. Desde seus antecedentes intelectuais na sociologia e antropologia, passando pela formalização de seus métodos e conceitos por figuras como William Labov, Dell Hymes, Joshua Fishman e Basil Bernstein, a sociolinguística consolidou-se como um campo de estudo essencial para compreender a língua em sua complexa interação com a sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a disciplina floresceu a partir da década de 1970, adaptando as abordagens variacionistas e etnográficas às particularidades do português brasileiro e à rica diversidade sociocultural do país, com a criação de importantes projetos e bancos de dados. Embora tenha enfrentado e continue a enfrentar desafios metodológicos e debates teóricos, essa autocrítica constante impulsiona seu refinamento e a busca por abordagens cada vez mais integradas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As perspectivas atuais da sociolinguística apontam para um campo dinâmico e engajado. A sociolinguística crítica, com seu compromisso com a justiça social, atua na desconstrução do preconceito linguístico e na promoção da igualdade de direitos. A investigação da linguagem na construção da identidade e em contextos de migração, bem como a exploração da sociolinguística digital, demonstram a capacidade da disciplina de se adaptar a novas realidades sociais e tecnológicas. Suas aplicações na educação e nas políticas linguísticas reforçam seu papel transformador, capacitando professores e formuladores de políticas a valorizar a diversidade e a combater a discriminação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, a sociolinguística não é apenas o estudo da língua e da sociedade, mas a compreensão de como a linguagem é um ato social, um campo de poder e um espelho da cultura e da identidade humanas, contribuindo ativamente para a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Manual de sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CALVET, Louis-Jean. Sociolinguística: uma introdução crítica. Tradução de Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CORBARI, Ana Paula. Crenças e atitudes linguísticas. Linguasagem - Revista de Estudos de Linguagem, São Carlos, v. 1, n. 1, p. 1-13, 2012. Disponível em: https://www.linguasagem.ufscar.br/index.php/linguasagem/article/download/154/127. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FERGUSON, Charles A. Diglossia. Word, v. 15, n. 2, p. 325-340, 1959.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FISHMAN, Joshua A. Language loyalty in the United States; the maintenance and perpetuation of non-English mother tongues by American ethnic and religious groups. The Hague: Mouton, 1966.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FISHMAN, Joshua A. Sociolinguistics: a brief introduction. Rowley, Mass.: Newbury House, 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
HYMES, Dell. Foundations in Sociolinguistics: An Ethnographic Approach. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1974.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
INFOPÉDIA. Sociolinguística (linguística). Porto: Porto Editora, 2003-2024. Disponível em: https://www.infopedia.pt/artigos/$sociolinguistica-(linguistica. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Oxford: Basil Blackwell, 1972.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LABOV, William. The social stratification of English in New York city. Cambridge University Press, 2006.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
METTZER. Sociolinguística: O que é e sua relação com a fala e a sociedade. Blog da Mettzer, 24 jan. 2025. Disponível em: https://blog.mettzer.com/sociolinguistica/. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MUSSALIM, Fernanda; BENTES, Anna Christina (Orgs.). Introdução à linguística. São Paulo: Cortez, 2001.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Thiago Soares de. A sociolinguística e a questão da variação: um panorama geral. R. Letras, Curitiba, v. 19, n. 25, p. 01-18, jan./jun. 2017. Disponível em: https://periodicos.utfpr.edu.br/rl/article/viewFile/3168/4551. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, Rubens César Ferreira; BARROS, Adriana Lúcia de Escobar Chaves de. Discorrendo sobre a sociolinguística variacionista e o preconceito linguístico. Sinefil, v. 1, n. 1, p. 1-15, 2013. Disponível em: http://www.filologia.org.br/vi_sinefil/textos_completos/Discorrendo%20sobre%20a%20sociolingu%C3%ADstica%20variacionista%20-%20RUBENS.pdf. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ROSA, Eliane da. Sociolinguística Histórica. ResearchGate, 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/303293646_SOCIOLINGUISTICA_HISTORICA. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SAVEDRA, Mônica; PEREIRA, Telma. Língua e cultura na feminização das migrações. In: FREITAG, R. M. K. et al. Sociolinguística e Política linguística: olhares contemporâneos. São Paulo: Blucher, 2016, p. 161-18.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
TONACO, Lucas. Sociolinguística e Justiça Social – Justice as linguistic matter. FNUCUT, 28 maio 2024. Disponível em: https://www.fnucut.org.br/45313/sociolinguistica-e-justica-social-justice-as-linguistic-matter/. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO. Sociolinguística. Disponível em: https://porto.unicap.br/pergamumweb/vinculos/0000c5/0000c5f7.pdf. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA. Sociolinguística. Disponível em: https://ppglin.posgrad.ufsc.br/files/2013/04/Sociolingu%C3%ADstica_UFSC.pdf. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
WEINREICH, Uriel; LABOV, William; HERZOG, Marvin I. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística. São Paulo: Contexto, 2006.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
WIKIPÉDIA. Rede social. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Rede_social. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
WIKIPÉDIA. Sociolinguística. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sociolingu%C3%ADstica. Acesso em: 20 maio 2024.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Apêndice: Glossário de Termos-Chave ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Alternância de Código (Code-Switching):&#039;&#039;&#039; Prática de alternar entre duas ou mais línguas dentro de uma mesma interação comunicativa ou enunciado. Demonstra competência bilíngue avançada e serve a funções pragmáticas e identitárias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Atitude Linguística:&#039;&#039;&#039; Conjunto de crenças, sentimentos e predisposições comportamentais em relação a uma língua, variedade ou fenômeno linguístico. Pode ser positiva (valorização) ou negativa (estigmatização).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Bilinguismo:&#039;&#039;&#039; Capacidade de usar duas línguas com graus variados de proficiência. Pode ser equilibrado (proficiência similar em ambas) ou dominante (maior proficiência em uma). O bilinguismo é a norma em grande parte do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Calque (Decalque):&#039;&#039;&#039; Tipo de empréstimo em que a estrutura ou expressão da língua-fonte é traduzida literalmente para a língua-receptora. Ex: &amp;quot;fim de semana&amp;quot; do francês &#039;&#039;fin de semaine&#039;&#039;, &amp;quot;arranha-céu&amp;quot; do inglês &#039;&#039;skyscraper&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Code-Mixing:&#039;&#039;&#039; Mistura de elementos de duas línguas dentro de uma mesma frase ou sintagma (alternância intrasentencial). Alguns pesquisadores não distinguem claramente de code-switching.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Coiné:&#039;&#039;&#039; Variedade linguística surgida da mistura e nivelamento de dialetos regionais diferentes, geralmente em contextos urbanos ou de intensa mobilidade populacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Competência Comunicativa:&#039;&#039;&#039; Capacidade de usar a língua de forma adequada aos diferentes contextos sociais, incluindo conhecimento não apenas gramatical, mas também pragmático, sociolinguístico e discursivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Crioulo:&#039;&#039;&#039; Língua natural plena que se originou de um pidgin quando este passou a ser adquirido como língua materna por uma geração de crianças, resultando em expansão funcional e complexificação gramatical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Crioulização:&#039;&#039;&#039; Processo pelo qual um pidgin se transforma em crioulo através da aquisição como língua materna e consequente expansão e complexificação estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Diglossia:&#039;&#039;&#039; Situação sociolinguística em que duas variedades de uma língua (ou duas línguas relacionadas) coexistem em uma comunidade com funções claramente diferenciadas: variedade Alta (H) para contextos formais, variedade Baixa (L) para contextos informais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Empréstimo Linguístico:&#039;&#039;&#039; Incorporação de elementos (geralmente lexicais) de uma língua-fonte em uma língua-receptora, com adaptação aos padrões fonológicos e morfológicos desta última.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Estrangeirismo:&#039;&#039;&#039; Palavra ou expressão emprestada de língua estrangeira que mantém características fonológicas ou ortográficas da língua de origem (ex: &#039;&#039;marketing&#039;&#039;, &#039;&#039;shopping&#039;&#039;, &#039;&#039;design&#039;&#039;).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Glotônimo:&#039;&#039;&#039; Nome dado a uma língua ou variedade linguística. A escolha de glotônimos não é neutra, refletindo relações de poder e ideologias (ex: &amp;quot;dialeto&amp;quot; vs. &amp;quot;língua&amp;quot;, &amp;quot;crioulo&amp;quot; vs. nome próprio).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Glotopolítica:&#039;&#039;&#039; Conjunto de decisões e ações políticas, legislativas e administrativas que visam gerir o status e o uso de línguas em determinado território ou instituição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Insegurança Linguística:&#039;&#039;&#039; Sentimento de inadequação ou inferioridade que falantes experimentam em relação à sua própria variedade linguística, geralmente resultado de estigmatização social e educacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Interferência:&#039;&#039;&#039; Influência de uma língua sobre outra na produção linguística de falantes bilíngues, geralmente percebida como &amp;quot;erro&amp;quot; ou &amp;quot;sotaque&amp;quot;. Pode ocorrer em níveis fonológico, morfossintático ou lexical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Língua Franca / Língua Veicular:&#039;&#039;&#039; Língua utilizada para comunicação entre grupos que não compartilham língua materna comum. Pode ser uma língua natural (inglês global) ou uma variedade de contato (pidgin expandido).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Língua Matriz (Matrix Language):&#039;&#039;&#039; No modelo de Myers-Scotton, a língua que fornece a estrutura morfossintática básica em enunciados de code-switching, regulando a inserção de elementos da língua embebedora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Manutenção Linguística:&#039;&#039;&#039; Preservação de uma língua minoritária através de seu uso contínuo e transmissão geracional, frequentemente apoiada por políticas de valorização e reconhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Minorização Linguística:&#039;&#039;&#039; Processo social e político pelo qual uma língua é relegada a posição subordinada e desvalorizada, independentemente do número de falantes (diferente de &amp;quot;minoritária&amp;quot;, que se refere apenas a quantidade).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Mudança Linguística Induzida por Contato:&#039;&#039;&#039; Alterações nas estruturas fonológicas, morfossintáticas ou lexicais de uma língua resultantes de interação prolongada com outra língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Multilinguismo:&#039;&#039;&#039; Coexistência de três ou mais línguas em um indivíduo (multilinguismo individual) ou em uma comunidade/região (multilinguismo social). É a norma global, não exceção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Neologismo:&#039;&#039;&#039; Palavra ou expressão recentemente criada ou incorporada ao léxico de uma língua. Pode surgir por derivação, composição, empréstimo ou criação ex nihilo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Norma-Padrão:&#039;&#039;&#039; Variedade linguística socialmente prestigiada, codificada em gramáticas e dicionários, exigida em contextos formais e escritos. É uma entre várias variedades existentes, não superior linguisticamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Pidgin:&#039;&#039;&#039; Língua de contato simplificada, com gramática reduzida e léxico limitado, surgida para comunicação utilitária entre grupos sem língua comum. Não possui falantes nativos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Pidginização:&#039;&#039;&#039; Processo de simplificação e redução estrutural que ocorre quando grupos linguisticamente distintos criam um sistema comunicativo emergencial para interação básica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Plurilinguismo:&#039;&#039;&#039; Termo equivalente a multilinguismo, enfatizando a coexistência e uso de múltiplas línguas. Frequentemente usado em contextos de política linguística europeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Política Linguística:&#039;&#039;&#039; Conjunto de decisões, leis e ações governamentais ou institucionais relativas ao status, uso, ensino e difusão de línguas. Inclui planejamento de status e planejamento de corpus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Preconceito Linguístico:&#039;&#039;&#039; Atitude discriminatória dirigida a variedades linguísticas não-padrão e a seus falantes, tratando variação legítima como &amp;quot;erro&amp;quot; ou &amp;quot;deficiência&amp;quot; e servindo para naturalizar desigualdades sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Repertório Linguístico:&#039;&#039;&#039; Conjunto de recursos linguísticos (línguas, variedades, registros, estilos) que um falante domina e pode mobilizar em diferentes situações comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Revitalização Linguística:&#039;&#039;&#039; Esforços sistemáticos para reverter o processo de perda de uma língua ameaçada, incentivando seu uso, documentação e transmissão às novas gerações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Sociolinguística:&#039;&#039;&#039; Campo de estudo que investiga as relações entre língua e sociedade, analisando variação, mudança, atitudes linguísticas e o papel social da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Sociolinguística de Contato:&#039;&#039;&#039; Subárea que estuda especificamente os fenômenos resultantes do contato entre línguas e variedades: empréstimos, code-switching, pidginização, crioulização, manutenção e perda linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Sociolinguística Educacional:&#039;&#039;&#039; Aplicação dos conhecimentos sociolinguísticos à educação linguística, visando combater preconceito, expandir competência comunicativa e valorizar a diversidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Substrato:&#039;&#039;&#039; Influência de uma língua nativa sobre uma segunda língua adquirida ou sobre uma língua emergente (pidgin/crioulo). Geralmente se manifesta em estruturas gramaticais profundas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Superstrato:&#039;&#039;&#039; Influência de uma língua dominante (geralmente colonizadora) sobre uma língua subordinada. Em crioulos, refere-se à língua lexificadora (que fornece a maior parte do vocabulário).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Variação Linguística:&#039;&#039;&#039; Diversidade de formas linguísticas (fonológicas, morfossintáticas, lexicais, discursivas) condicionada por fatores sociais, geográficos, situacionais e estilísticos. É universal e inerente a todas as línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Variedade Linguística:&#039;&#039;&#039; Cada uma das formas que uma língua assume em diferentes contextos: dialetos regionais, socioletos (variedades de classe), registros (formal/informal), etc. Termo preferível a &amp;quot;dialeto&amp;quot; por não carregar conotação pejorativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Apêndice: Recursos Online e Instituições ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Instituições de Pesquisa e Advocacy:&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Instituto de Investigação e Desenvolvimento em Política Linguística (IPOL):&#039;&#039;&#039; www.ipol.org.br&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Museu da Língua Portuguesa (São Paulo):&#039;&#039;&#039; www.museudalinguaportuguesa.org.br&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Observatório da Educação Escolar Indígena (OEEI):&#039;&#039;&#039; Informações sobre educação bilíngue indígena&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;UNESCO - Atlas de Línguas em Perigo:&#039;&#039;&#039; www.unesco.org/languages-atlas/&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Bases de Dados e Documentação:&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Inventário Nacional da Diversidade Linguística (INDL):&#039;&#039;&#039; Registro oficial de línguas faladas no Brasil&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Ethnologue - Languages of the World:&#039;&#039;&#039; www.ethnologue.com (dados sobre todas as línguas do mundo)&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Glottolog:&#039;&#039;&#039; glottolog.org (banco de dados linguístico com informações genéticas e geográficas)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Organizações Internacionais:&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Endangered Languages Project:&#039;&#039;&#039; www.endangeredlanguages.com&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Foundation for Endangered Languages:&#039;&#039;&#039; www.ogmios.org&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Association Internationale de Linguistique Appliquée (AILA):&#039;&#039;&#039; www.aila.info&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Leitura Complementar Online:&#039;&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Blog &amp;quot;Língua do Brasil&amp;quot; (Museu da Língua Portuguesa):&#039;&#039;&#039; Artigos de divulgação sobre diversidade linguística&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Parábola Editorial:&#039;&#039;&#039; www.parabolaeditorial.com.br (catálogo de obras de Sociolinguística e Linguística Aplicada)&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;Revista Linguística (UFRJ):&#039;&#039;&#039; revistas.ufrj.br/index.php/rl (periódico científico com artigos sobre Sociolinguística)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Sociolinguística]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>201.54.52.52</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>https://letrasmais.net.br/letropedia/index.php?title=Estruturalismo_americano&amp;diff=618</id>
		<title>Estruturalismo americano</title>
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		<updated>2026-08-05T17:30:45Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;201.54.52.52: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;O &#039;&#039;&#039;estruturalismo americano&#039;&#039;&#039;, também denominado &#039;&#039;&#039;estruturalismo norte-americano&#039;&#039;&#039; ou &#039;&#039;&#039;linguística estrutural americana&#039;&#039;&#039;, foi um conjunto heterogêneo de orientações teóricas e metodológicas desenvolvido sobretudo nos Estados Unidos entre o final do século XIX e a segunda metade do século XX. A tradição reuniu a linguística antropológica de [[Franz Boas]] e [[Edward Sapir]], a linguística descritiva de [[Leonard Bloomfield]], a fonêmica norte-americana, o [[distribucionalismo]], a análise de constituintes imediatos, a tagmêmica de [[Kenneth Pike]] e as primeiras propostas transformacionais de [[Zellig Harris]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão não designa uma doutrina única. Boas, Sapir, Bloomfield, Harris e Pike compartilhavam o interesse pela descrição sistemática das línguas, mas divergiam quanto à natureza do sistema linguístico, ao papel do significado, à realidade psicológica das categorias, às relações entre língua e cultura e aos objetivos da teoria linguística. A unidade histórica do estruturalismo americano resulta menos da adesão a um conjunto fixo de princípios do que de problemas comuns: como registrar línguas pouco documentadas; como identificar suas unidades sem impor categorias provenientes do latim ou das línguas europeias; como estabelecer procedimentos explícitos de análise; e como constituir a linguística como disciplina científica autônoma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formação dessa tradição esteve estreitamente ligada à antropologia e ao estudo das línguas indígenas das Américas. O trabalho de campo exigia que os pesquisadores transcrevessem sons, recolhessem narrativas, identificassem padrões morfológicos e sintáticos e elaborassem gramáticas e dicionários de línguas frequentemente desprovidas de tradição escrita padronizada. A diversidade encontrada favoreceu a rejeição de modelos gramaticais considerados universais apenas porque haviam sido construídos a partir das línguas clássicas e europeias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante as décadas de 1930 a 1950, a orientação associada a Bloomfield e aos chamados pós-bloomfieldianos tornou-se dominante em grande parte da linguística acadêmica dos Estados Unidos. A partir do final da década de 1950, a ascensão da [[gramática gerativa]] modificou profundamente o campo. Apesar da oposição frequentemente estabelecida entre estruturalismo e gerativismo, houve também continuidades: a gramática gerativa herdou da tradição norte-americana o interesse pela formalização, pela estrutura hierárquica dos constituintes e pelas relações transformacionais entre sentenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Definição e delimitação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo americano integra o movimento mais amplo de renovação da linguística ocorrido na primeira metade do século XX. Seu princípio geral é que uma língua não deve ser tratada como simples lista de palavras acompanhada de regras normativas, mas como uma organização de unidades relacionadas entre si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, entretanto, recebeu sentidos diferentes. Para Sapir, a estrutura linguística constituía um padrão formal dotado de realidade psicológica e cultural. Para Bloomfield e muitos de seus continuadores, a descrição deveria concentrar-se nas formas observáveis e nas regularidades de sua combinação. Para Harris, a estrutura podia ser investigada por meio das restrições distribucionais existentes entre os elementos de uma língua. Para Pike, a análise precisava combinar forma, função e contexto comportamental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também é necessário distinguir o estruturalismo americano do [[distribucionalismo]]. O distribucionalismo foi uma orientação metodológica particularmente importante dentro da tradição, mas não abrange toda a produção estrutural norte-americana. Boas e Sapir, por exemplo, contribuíram decisivamente para a formação da linguística descritiva nos Estados Unidos, embora não tenham desenvolvido o método distribucional em sua formulação posterior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Distribucionalismo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição norte-americana tampouco deve ser identificada integralmente com o [[behaviorismo]]. Bloomfield adotou uma posição mecanicista influenciada pelo behaviorismo de John B. Watson, e alguns pós-bloomfieldianos evitaram explicações mentalistas. Sapir, porém, atribuía importância à realidade psicológica dos padrões; Pike incorporou significado e contexto a suas análises; e Harris apresentou seu trabalho sobretudo como investigação formal das relações existentes nos dados linguísticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contexto histórico ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A linguística norte-americana no final do século XIX ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, grande parte da linguística acadêmica ocidental concentrava-se na história das línguas indo-europeias. O método histórico-comparativo permitia estabelecer correspondências fonéticas, reconstruir formas antigas e investigar o parentesco entre línguas. Nos Estados Unidos, essa tradição também esteve presente, especialmente nos estudos de línguas germânicas, clássicas e indo-europeias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, a expansão territorial do Estado norte-americano, as políticas de remoção e assimilação dos povos indígenas e a formação de museus e instituições antropológicas estimularam o registro de línguas e culturas indígenas. A pesquisa linguística desenvolveu-se, assim, em circunstâncias diferentes das que predominavam em muitos centros europeus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O trabalho com línguas indígenas não começou com os estruturalistas. Missionários, administradores, viajantes e estudiosos haviam produzido vocabulários, traduções e gramáticas desde o período colonial. A contribuição da linguística antropológica do final do século XIX e do início do século XX consistiu em tornar esse trabalho mais sistemático e em defender que cada língua fosse descrita segundo sua própria organização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse empreendimento científico ocorreu em um contexto colonial. Muitas comunidades pesquisadas enfrentavam perda territorial, deslocamento, internatos compulsórios, proibição de suas línguas e ruptura de formas tradicionais de transmissão cultural. A documentação linguística preservou materiais de grande importância, mas também foi marcada por relações desiguais entre instituições acadêmicas e povos indígenas. A historiografia contemporânea procura reconhecer o papel de falantes, tradutores e colaboradores comunitários que muitas vezes não receberam crédito adequado nas publicações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A relação com a antropologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos Estados Unidos, a linguística desenvolveu-se inicialmente em estreita relação com a antropologia. O conhecimento da língua era considerado necessário para registrar narrativas, mitos, sistemas de parentesco, práticas cerimoniais e classificações culturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguagem constituía, ao mesmo tempo, objeto de investigação própria e instrumento de acesso à vida social. Essa dupla condição explica por que muitos dos principais linguistas norte-americanos da primeira metade do século XX também foram antropólogos ou trabalharam em departamentos de antropologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A associação entre língua e cultura não produziu uma teoria única. Boas insistiu na necessidade de estudar as categorias próprias de cada língua; Sapir investigou a relação entre formas linguísticas, personalidade e padrões culturais; Whorf desenvolveu propostas sobre os efeitos habituais da gramática sobre a interpretação da experiência. Bloomfield, embora tivesse realizado trabalho de campo com línguas indígenas, procurou delimitar a linguística por meio de procedimentos descritivos mais autônomos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A institucionalização da disciplina ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística norte-americana adquiriu maior autonomia institucional durante as primeiras décadas do século XX. A [[Linguistic Society of America]] foi fundada em 1924, e o primeiro volume de sua revista, &#039;&#039;Language&#039;&#039;, foi publicado em 1925.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sociedade e a revista ofereceram espaços permanentes para a circulação de pesquisas, resenhas, descrições e debates teóricos. A institucionalização não eliminou a relação com a filologia e a antropologia, mas favoreceu a formação de uma comunidade profissional identificada especificamente com a linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield participou da fundação da Linguistic Society of America e exerceu forte influência sobre seus primeiros anos. Posteriormente, linguistas como Bernard Bloch, George Trager, Charles Hockett e Zellig Harris ocuparam posições importantes em universidades, associações e periódicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Segunda Guerra Mundial ampliou a demanda por ensino intensivo de idiomas, tradução e produção de materiais pedagógicos. Linguistas participaram de programas de formação destinados a militares e agentes governamentais. Essa experiência reforçou o prestígio das técnicas descritivas e contribuiu para a expansão acadêmica da disciplina no pós-guerra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Franz Boas e os fundamentos da linguística antropológica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Franz Boas]] (1858–1942) foi uma das figuras centrais da antropologia e da linguística norte-americanas. Nascido na Alemanha e formado inicialmente em física e geografia, desenvolveu pesquisas entre comunidades indígenas da costa noroeste da América do Norte e tornou-se professor da Universidade Columbia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas combateu as teorias evolucionistas que organizavam povos e culturas em uma escala única, na qual sociedades europeias modernas representariam o estágio mais avançado. Em oposição a esse modelo, defendeu o estudo histórico e particularizado de cada cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na linguística, essa posição conduziu à rejeição de hierarquias entre línguas. Sistemas indígenas não deveriam ser classificados como primitivos ou deficientes por não apresentarem categorias familiares aos estudiosos europeus. Toda língua possui recursos suficientes para atender às necessidades comunicativas de seus falantes, embora distribua e organize esses recursos de maneiras diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O &#039;&#039;Handbook of American Indian Languages&#039;&#039; ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A introdução de Boas ao primeiro volume do &#039;&#039;Handbook of American Indian Languages&#039;&#039;, publicado em 1911, tornou-se um documento fundamental da linguística antropológica. O volume reunia descrições extensas de línguas indígenas norte-americanas e procurava estabelecer critérios para seu estudo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas argumentava que as categorias de uma língua não deveriam ser determinadas antecipadamente. Ao analisar um novo sistema, o pesquisador precisava identificar quais distinções eram formalmente expressas e como se relacionavam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma gramática elaborada a partir do modelo latino poderia procurar, por exemplo, casos, gêneros ou tempos verbais que não constituíam categorias relevantes na língua investigada. Ao mesmo tempo, poderia deixar de reconhecer distinções obrigatórias para seus falantes, mas ausentes nas línguas europeias mais conhecidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa posição não significava que as línguas fossem incomparáveis. A comparação continuava possível, desde que não se confundisse a terminologia construída para uma tradição gramatical com a estrutura universal da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Som, categoria e experiência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas dedicou atenção à percepção dos sons. Pesquisadores não treinados podiam registrar de maneiras diferentes uma mesma palavra indígena porque interpretavam os sons desconhecidos segundo as categorias fonéticas de sua própria língua. O problema demonstrava que a transcrição não era uma reprodução passiva do estímulo acústico: dependia de hábitos perceptivos e analíticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também observou que as línguas selecionam diferentes aspectos da experiência para expressão obrigatória. Uma forma verbal pode exigir informações sobre a fonte do conhecimento, o formato do objeto, a localização ou outras propriedades que permanecem facultativas em outra língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas observações contribuíram para debates posteriores sobre relatividade linguística, mas Boas não sustentava que os falantes fossem incapazes de conceber uma ideia apenas porque sua língua não a codificava gramaticalmente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formação de pesquisadores ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas formou uma geração decisiva de antropólogos e linguistas, entre os quais Edward Sapir, Ruth Benedict, Margaret Mead, Alfred Kroeber, Paul Radin e Melville Herskovits.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu programa combinava trabalho de campo, documentação textual e descrição gramatical. A influência boasiana ultrapassou as propostas específicas de seus alunos e ajudou a estabelecer o princípio de que a diversidade linguística constitui objeto central da ciência da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Edward Sapir e a tradição sapiriana ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Edward Sapir]] (1884–1939), aluno de Boas, foi linguista, antropólogo, crítico literário e estudioso da cultura. Realizou pesquisas sobre numerosas línguas indígenas, entre elas takelma, yana, paiute meridional, nootka e línguas atabascanas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua produção combinava descrição, linguística histórica, tipologia, antropologia, psicologia e literatura. Essa amplitude distingue Sapir do formalismo metodológico mais restritivo que seria associado a parte do pós-bloomfieldianismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;Language&#039;&#039; de 1921 ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;Language: An Introduction to the Study of Speech&#039;&#039;, publicado em 1921, Sapir apresentou uma visão geral da linguagem como fenômeno humano, social e formal. O livro trata da estrutura gramatical, da mudança, das relações entre língua, raça e cultura, da literatura e da classificação tipológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sapir definia a linguagem como método exclusivamente humano e não instintivo de comunicar ideias, emoções e desejos por meio de símbolos voluntariamente produzidos. Essa formulação precisa ser situada no vocabulário psicológico de sua época: não implica que a capacidade humana para adquirir linguagem fosse considerada independente de bases biológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A língua era concebida como sistema formal. Os falantes não se limitariam a acumular expressões aprendidas; dominariam padrões que lhes permitem produzir e compreender novas formas. Sapir atribuía a esses padrões uma realidade psicológica, ainda que eles nem sempre fossem acessíveis à consciência reflexiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Padrão e intuição do falante ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sapir interessava-se pela maneira como os falantes percebem a organização de sua língua. Em seus estudos fonológicos, observou que as representações relevantes para os membros de uma comunidade não coincidiam necessariamente com todos os detalhes fonéticos registrados pelo pesquisador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa atenção à intuição e à organização psicológica afastou a tradição sapiriana das versões mais rigorosamente operacionalistas da linguística pós-bloomfieldiana. Para Sapir, uma análise formal adequada deveria corresponder, em alguma medida, aos padrões interiorizados pelos falantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tipologia linguística ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sapir propôs uma tipologia multidimensional das línguas. Criticou classificações baseadas apenas em rótulos como isolante, aglutinante e flexional, pois línguas concretas podem combinar diferentes tendências.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua classificação considerava os tipos de conceitos expressos, as técnicas de combinação de morfemas e o grau de síntese. Uma língua poderia, por exemplo, empregar afixação, composição, modificação interna ou alteração da ordem para representar relações gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tipologia não estabelecia uma hierarquia evolutiva. Diferentes estruturas representavam soluções distintas para a organização formal da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Língua, cultura e personalidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sapir recusava tanto a identificação completa entre língua e cultura quanto a ideia de que não houvesse relação entre elas. Uma mesma língua pode ser compartilhada por comunidades culturalmente diferentes; uma cultura pode circular por meio de línguas diversas. Ainda assim, os hábitos linguísticos participam da experiência social e influenciam formas habituais de atenção e expressão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seus trabalhos posteriores aproximaram linguagem, personalidade e padrões culturais. Sapir interessou-se pela criatividade individual, pelos estilos de fala e pela maneira como os sujeitos se posicionam dentro das convenções coletivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A tradição sapiriana ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os pesquisadores associados à tradição de Sapir encontram-se [[Benjamin Lee Whorf]], Mary Haas, Morris Swadesh, Harry Hoijer e Stanley Newman. O grupo não constituiu uma escola perfeitamente unificada, mas preservou interesses por linguística histórica, antropologia, significado e realidade psicológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sapir e Bloomfield são frequentemente apresentados como representantes de correntes antagônicas. A oposição deve ser relativizada. Ambos valorizavam a descrição rigorosa, o trabalho com línguas indígenas e a identificação de padrões estruturais. Divergiam, entretanto, quanto à legitimidade de explicações psicológicas e ao grau de autonomia atribuído à análise formal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Benjamin Lee Whorf e a relatividade linguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Benjamin Lee Whorf]] (1897–1941) estudou línguas mesoamericanas e indígenas norte-americanas e tornou-se conhecido por seus trabalhos sobre as relações entre linguagem, pensamento e cultura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Whorf não ocupou uma posição institucional comparável à de Boas, Sapir ou Bloomfield. Formado em engenharia química, trabalhou profissionalmente no setor de seguros e desenvolveu paralelamente sua produção linguística. Estudou com Sapir em Yale e publicou análises de línguas como o hopi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua obra sustenta que as línguas favorecem modos habituais de analisar situações. Categorias de número, tempo, espaço, evidencialidade ou classificação podem orientar a atenção para diferentes aspectos da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;hipótese Sapir–Whorf&#039;&#039;&#039; foi difundida depois da morte dos dois autores. Nenhum deles formulou conjuntamente uma hipótese experimental única, dividida em versões “forte” e “fraca”. O chamado determinismo linguístico — segundo o qual a língua impediria seus falantes de conceber realidades não codificadas por ela — constitui sobretudo uma interpretação radical posteriormente atribuída à tradição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O relativismo linguístico deve ser tratado como tema próprio. No estruturalismo americano, sua importância decorre de sua ligação com a tradição antropológica e com o reconhecimento da diversidade das categorias gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Relativismo linguístico}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Leonard Bloomfield e a linguística descritiva ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Leonard Bloomfield]] (1887–1949) foi o principal responsável pela consolidação da linguística descritiva como programa dominante nos Estados Unidos durante as décadas de 1930 e 1940.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua formação inicial ocorreu na linguística germânica e indo-europeia. Bloomfield conhecia a tradição neogramática, a linguística histórica e a gramática sânscrita. Também realizou trabalhos descritivos sobre tagalo e sobre línguas algonquinas, como menomini, cree e fox.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Da psicologia mentalista ao mecanicismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;An Introduction to the Study of Language&#039;&#039;, publicado em 1914, Bloomfield utilizou conceitos influenciados pela psicologia de Wilhelm Wundt. Nas décadas seguintes, afastou-se do mentalismo e aproximou-se de uma orientação mecanicista influenciada especialmente pelo behaviorismo de John B. Watson.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield considerava problemáticas as explicações que recorriam a ideias, imagens, intenções ou outros estados interiores sem procedimentos independentes de observação. A linguística deveria descrever formas de fala e as circunstâncias observáveis em que eram produzidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa posição não significava que Bloomfield negasse a existência de processos mentais. Seu argumento era metodológico: a ciência ainda não disporia de meios suficientemente rigorosos para utilizá-los como fundamento da descrição linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield não foi influenciado pela teoria madura de B. F. Skinner sobre comportamento verbal. &#039;&#039;Verbal Behavior&#039;&#039; foi publicado somente em 1957, depois da morte do linguista. A associação entre os dois autores decorre de sua vinculação geral ao behaviorismo, mas suas formulações pertencem a momentos e programas diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;Language&#039;&#039; de 1933 ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A publicação de &#039;&#039;Language&#039;&#039;, em 1933, tornou-se um marco da linguística norte-americana. A obra apresenta uma síntese abrangente de fonética, gramática, semântica, mudança linguística, dialetologia, aquisição da linguagem, escrita e história da linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro não é um manual de distribucionalismo em sentido estrito. Seus conceitos e sua orientação metodológica, contudo, forneceram o ponto de partida para a geração pós-bloomfieldiana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield concebia a comunidade linguística como grupo de pessoas que interagem por meio da fala. As regularidades dos enunciados constituem os hábitos linguísticos da comunidade. O pesquisador procura identificar formas recorrentes e descrever suas possibilidades de combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Forma e significado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É frequente afirmar que Bloomfield excluiu o significado da linguística. A afirmação é imprecisa. Bloomfield definia a forma linguística pela associação entre configuração vocal e significado. A diferença de significado também era utilizada para reconhecer contrastes entre formas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua restrição dizia respeito à possibilidade de desenvolver uma semântica cientificamente exata. O significado de uma expressão dependeria das situações em que é empregada e dos conhecimentos sobre o mundo a que se refere. Como a descrição completa dessas situações exigiria o desenvolvimento das demais ciências, a análise semântica não alcançaria, naquele momento, a precisão da fonologia e de setores da gramática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa dificuldade levou os pós-bloomfieldianos a concentrar-se nas propriedades formais e distribucionais. O significado continuou presente, mas seu emprego como critério analítico foi reduzido ou controlado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Forma livre, forma presa e constituinte ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield chamou de &#039;&#039;&#039;forma livre&#039;&#039;&#039; a forma linguística capaz de ocorrer isoladamente como enunciado. Uma &#039;&#039;&#039;forma presa&#039;&#039;&#039; não ocorre sozinha e aparece ligada a outras formas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;livros&#039;&#039;, por exemplo, &#039;&#039;livro&#039;&#039; pode ocorrer como palavra independente, enquanto a marca de plural &#039;&#039;-s&#039;&#039; é uma forma presa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma forma complexa é constituída por formas menores. A análise das relações entre esses componentes contribuiu para o desenvolvimento da morfologia estrutural e da análise de constituintes imediatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Influência institucional ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência de Bloomfield não decorreu apenas de seus conceitos. Sua atuação na Linguistic Society of America, sua produção descritiva e o prestígio de &#039;&#039;Language&#039;&#039; contribuíram para estabelecer padrões de formação e pesquisa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Depois de sua morte, diferentes linguistas apresentaram-se como continuadores, revisores ou críticos de seu programa. O chamado bloomfieldianismo foi, portanto, construção coletiva e parcialmente posterior à própria obra de Bloomfield.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O pós-bloomfieldianismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;pós-bloomfieldianismo&#039;&#039;&#039; designa as orientações desenvolvidas por linguistas que, nas décadas de 1940 e 1950, sistematizaram ou reformularam aspectos da linguística descritiva associada a Bloomfield.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre seus principais representantes encontram-se Bernard Bloch, George L. Trager, Charles F. Hockett, Rulon S. Wells, Eugene Nida, Charles C. Fries, Archibald A. Hill, Henry Lee Smith e Zellig Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo não possuía posição única sobre todos os problemas. Havia divergências quanto ao estatuto do fonema, à relação entre fonologia e gramática, à análise do morfema, ao papel do significado e à organização da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em comum, muitos desses pesquisadores procuravam formular critérios explícitos para:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* segmentar enunciados;&lt;br /&gt;
* identificar contrastes;&lt;br /&gt;
* agrupar variantes;&lt;br /&gt;
* reconhecer morfemas;&lt;br /&gt;
* construir classes de formas;&lt;br /&gt;
* representar a organização hierárquica das construções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fonologia e a morfologia receberam inicialmente mais atenção porque pareciam permitir segmentação e classificação relativamente controladas. A sintaxe ganhou centralidade com a análise de constituintes imediatos e com os trabalhos de Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fonêmica norte-americana ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;fonêmica norte-americana&#039;&#039;&#039; foi um dos setores mais desenvolvidos do estruturalismo americano. Seu objetivo era identificar as unidades sonoras funcionalmente distintas de cada língua e estabelecer as relações entre fonemas e suas realizações fonéticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonema e alofone ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fonema era geralmente descrito como uma classe de sons foneticamente semelhantes e distribucionalmente relacionados. As realizações pertencentes à classe eram denominadas &#039;&#039;&#039;alofones&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se dois sons podiam ocorrer no mesmo ambiente e distinguiam formas, eram interpretados como fonemas diferentes. Se apareciam em contextos mutuamente exclusivos, de maneira previsível, podiam ser analisados como alofones de um mesmo fonema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição complementar, entretanto, não constituía critério suficiente. Sons sem qualquer semelhança também podem aparecer em ambientes distintos. Os analistas consideravam ainda a semelhança fonética, o paralelismo do sistema e a economia da descrição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pares mínimos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A identificação de pares mínimos tornou-se procedimento importante. Duas formas constituem um par mínimo quando diferem em apenas um segmento na mesma posição e apresentam significados diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em português, &#039;&#039;pato&#039;&#039; e &#039;&#039;bato&#039;&#039; oferecem evidência de contraste entre /p/ e /b/. O método ajuda a demonstrar que a substituição de um som por outro pode diferenciar unidades lexicais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todos os contrastes aparecem em pares mínimos perfeitos. Os linguistas também empregavam pares análogos, distribuições gerais e informações morfofonêmicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bloch, Trager e Hockett ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bernard Bloch e George Trager publicaram, em 1942, &#039;&#039;Outline of Linguistic Analysis&#039;&#039;, exposição influente de procedimentos fonêmicos e gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Charles Hockett desenvolveu diferentes modelos de descrição e examinou problemas como estrutura fonológica, morfologia, constituintes e comunicação. Sua obra mostra que o pós-bloomfieldianismo não se limitava a uma aplicação mecânica de regras de segmentação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Controvérsias fonêmicas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os fonemicistas divergiam sobre a natureza da unidade. Para alguns, o fonema correspondia a uma realidade psicológica; para outros, deveria ser definido apenas por relações formais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também havia controvérsias sobre:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* a representação da entoação;&lt;br /&gt;
* a análise de acento e duração;&lt;br /&gt;
* o tratamento de fronteiras;&lt;br /&gt;
* a admissibilidade de fonemas abstratos;&lt;br /&gt;
* a relação entre estrutura fonêmica e morfologia;&lt;br /&gt;
* a utilização de informações gramaticais na análise sonora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O princípio de separação dos níveis pretendia impedir que a fonêmica dependesse de uma morfologia ainda não estabelecida. A separação rígida, entretanto, mostrou-se difícil quando alternâncias fonológicas eram condicionadas por fronteiras ou categorias gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Morfêmica e morfofonêmica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;morfêmica&#039;&#039;&#039; estruturalista procurava identificar as menores unidades significativas de uma língua, determinar suas variantes e descrever suas combinações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;morfema&#039;&#039;&#039; era normalmente definido como a menor forma dotada de significado lexical ou função gramatical. Em &#039;&#039;livros&#039;&#039;, seria possível reconhecer o morfema lexical &#039;&#039;livro&#039;&#039; e o morfema de plural &#039;&#039;-s&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alomorfia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um morfema pode apresentar diferentes formas, denominadas &#039;&#039;&#039;alomorfes&#039;&#039;&#039;. As variantes podem ser condicionadas pelos sons vizinhos, pela estrutura gramatical ou pela identidade lexical da palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise precisava demonstrar que as formas possuíam função relacionada e que suas distribuições eram previsíveis ou estruturalmente justificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfema zero ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns linguistas admitiram morfemas sem realização fonética, chamados &#039;&#039;&#039;morfemas zero&#039;&#039;&#039;. O recurso permitia representar posições de um paradigma nas quais determinada categoria se opunha a formas expressamente marcadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise por zero foi criticada quando utilizada indiscriminadamente. A ausência de som não constitui, por si só, um morfema; é necessário demonstrar sua participação em uma oposição gramatical sistemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfofonêmica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A morfofonêmica investigava as alternâncias sonoras associadas aos morfemas. O campo procurava explicar por que uma unidade gramatical assume formas fonológicas diferentes em contextos distintos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses estudos prepararam problemas posteriormente retomados pela fonologia gerativa, embora os modelos de representação tenham mudado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Análise de constituintes imediatos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;análise de constituintes imediatos&#039;&#039;&#039; descreve uma construção por meio de divisões hierárquicas sucessivas. Uma frase não é tratada apenas como sequência linear de palavras, mas como estrutura formada por grupos intermediários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção possui antecedentes em Bloomfield e foi desenvolvida especialmente por Rulon S. Wells, Charles Hockett e outros pós-bloomfieldianos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considere-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A pesquisadora examinou os documentos antigos.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma primeira divisão pode separar:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ A pesquisadora ] [ examinou os documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O segundo grupo pode ser subdividido em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ examinou ] [ os documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
e o grupo nominal em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ os ] [ documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise mostra que &#039;&#039;antigos&#039;&#039; se relaciona diretamente com &#039;&#039;documentos&#039;&#039; e que o conjunto &#039;&#039;os documentos antigos&#039;&#039; forma uma unidade em relação ao verbo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Critérios de constituência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os indícios utilizados para reconhecer constituintes estavam:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* substituição por formas simples;&lt;br /&gt;
* ocorrência do grupo em outras posições;&lt;br /&gt;
* possibilidade de coordenação;&lt;br /&gt;
* padrões de expansão;&lt;br /&gt;
* paralelismo com outras construções;&lt;br /&gt;
* entoação e pausas;&lt;br /&gt;
* capacidade de ocorrer como resposta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum teste é inteiramente seguro. Diferentes critérios podem produzir resultados divergentes, especialmente em casos de descontinuidade ou ambiguidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Endocentrismo e exocentrismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield distinguia construções &#039;&#039;&#039;endocêntricas&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;exocêntricas&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma construção é endocêntrica quando o conjunto possui distribuição semelhante à de um de seus constituintes. Em &#039;&#039;documentos antigos&#039;&#039;, o grupo completo pode aparecer em muitos ambientes nos quais ocorre &#039;&#039;documentos&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma construção é exocêntrica quando o conjunto não pertence à mesma classe distribucional de nenhum de seus componentes. Algumas análises bloomfieldianas tratavam a combinação entre sujeito e predicado como exocêntrica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Importância e limites ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes estabeleceu que a sintaxe precisa representar hierarquia. Essa contribuição foi incorporada por teorias posteriores, inclusive pela gramática gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A técnica apresentava dificuldades diante de:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* dependências de longa distância;&lt;br /&gt;
* constituintes descontínuos;&lt;br /&gt;
* relações entre voz ativa e passiva;&lt;br /&gt;
* interrogativas;&lt;br /&gt;
* orações relativas;&lt;br /&gt;
* elipse;&lt;br /&gt;
* correspondências entre construções diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses problemas contribuíram para o desenvolvimento de análises transformacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Análise de constituintes imediatos}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Distribucionalismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O [[distribucionalismo]] procurava identificar unidades e classes linguísticas com base nos ambientes em que as formas ocorrem. A distribuição de uma unidade corresponde ao conjunto de posições e construções em que ela pode aparecer.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Formas capazes de ocupar os mesmos ambientes podem ser agrupadas em uma classe distribucional. Formas que ocorrem em ambientes mutuamente exclusivos podem ser interpretadas como variantes, desde que outros critérios também sustentem a análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora seus antecedentes estejam presentes em Bloomfield e em outros pesquisadores, a formulação mais sistemática do método foi realizada por Zellig Harris em &#039;&#039;Methods in Structural Linguistics&#039;&#039;, publicado em 1951.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo foi uma vertente central do estruturalismo americano, mas não seu equivalente. A linguística antropológica de Boas e Sapir, a tagmêmica e outros programas não podem ser reduzidos aos procedimentos distribucionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Distribucionalismo}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Zellig Harris ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Zellig Harris]] (1909–1992) levou a análise formal e distribucional a um elevado grau de sistematização. Sua produção abrangeu fonologia, morfologia, sintaxe, transformações, discurso, sublinguagens, linguagem científica e métodos matemáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;Methods in Structural Linguistics&#039;&#039; ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Publicado em 1951, &#039;&#039;Methods in Structural Linguistics&#039;&#039; apresenta procedimentos para organizar os elementos de um corpus segundo relações de ocorrência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro descreve operações de:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* segmentação;&lt;br /&gt;
* identificação de recorrências;&lt;br /&gt;
* comparação de ambientes;&lt;br /&gt;
* agrupamento de variantes;&lt;br /&gt;
* construção de classes;&lt;br /&gt;
* análise de sequências;&lt;br /&gt;
* expansão de formas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A obra foi frequentemente interpretada como tentativa de criar um algoritmo automático de descoberta. Essa leitura precisa ser qualificada. Harris afirmava que os procedimentos também serviam para verificar e apresentar análises, e não necessariamente como cronograma rígido que todo pesquisador deveria seguir desde a coleta inicial dos dados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Distribuição e equivalência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Harris, a investigação linguística concentra-se nas relações entre os elementos presentes nos enunciados. Duas formas podem ser consideradas equivalentes relativamente a determinado conjunto de ambientes quando ocupam posições comparáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A equivalência não precisa ser absoluta. Elementos podem compartilhar parte de sua distribuição e diferir em contextos específicos. A descrição procura estabelecer classes úteis para representar essas regularidades e restrições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Expansões ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris examinou como construções maiores podem ser relacionadas a sequências menores por meio de expansões.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A criança dormiu.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A criança cansada dormiu.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
A criança muito cansada dormiu.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
as sequências adicionais ampliam um constituinte sem alterar completamente sua posição na construção. O conceito permite relacionar sentenças de diferentes extensões e identificar padrões de composição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Transformações ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1950, Harris desenvolveu a noção de transformação para descrever correspondências sistemáticas entre conjuntos de sentenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Frases ativas e passivas, por exemplo, podem conter itens lexicais relacionados e apresentar regularidades de ordem e morfologia:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
A pesquisadora examinou o documento.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
O documento foi examinado pela pesquisadora.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As transformações harrisianas foram inicialmente formuladas como relações entre classes de sentenças, não como operações mentais que convertessem uma representação profunda em uma frase superficial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A proposta exerceu influência sobre Noam Chomsky, aluno de Harris. Chomsky reinterpretou as transformações no interior de uma gramática gerativa destinada a caracterizar o conhecimento linguístico do falante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Análise do discurso ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No artigo “Discourse Analysis”, publicado em 1952, Harris procurou estender a análise formal para além da frase. Investigou a distribuição de formas em sequências textuais e sua relação com situações recorrentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua análise do discurso difere das abordagens sociopolíticas, enunciativas e interacionais posteriormente associadas à mesma expressão. O objetivo de Harris era identificar regularidades formais em unidades textuais mais extensas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sublinguagens ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos trabalhos posteriores, Harris investigou sublinguagens empregadas em domínios científicos e técnicos. Uma sublinguagem apresenta vocabulário especializado e restrições combinatórias próprias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estudo de textos científicos buscava mostrar como determinadas estruturas linguísticas correspondem à organização da informação de um campo. Esse programa influenciou pesquisas em linguística computacional e extração de informação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Charles C. Fries e a descrição do inglês ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Charles C. Fries]] (1887–1967) aplicou critérios estruturais ao estudo do inglês e ao ensino de línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;The Structure of English&#039;&#039;, publicado em 1952, procurou estabelecer classes de palavras por meio das posições que elas ocupavam em molduras sintáticas. Em vez de partir de definições nocionais como “substantivo é a palavra que nomeia um ser”, Fries examinava quais formas podiam ocorrer depois de determinados artigos, antes de verbos ou em posições predicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método revelava que as classes tradicionais reuniam elementos com comportamentos diferentes e que formas semanticamente distintas podiam compartilhar propriedades gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fries também contribuiu para a linguística aplicada e para o desenvolvimento de métodos de ensino de línguas estrangeiras. A comparação entre a língua materna e a língua-alvo foi utilizada para identificar áreas prováveis de dificuldade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise contrastiva posterior ampliou essa proposta, embora versões rígidas segundo as quais todos os erros seriam previsíveis pelas diferenças entre línguas tenham sido criticadas pela pesquisa sobre aquisição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Kenneth Pike e a tagmêmica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Kenneth Lee Pike]] (1912–2000) desenvolveu uma orientação própria dentro da linguística norte-americana. Sua trajetória esteve ligada ao trabalho de campo, à fonética, à análise de línguas pouco documentadas e ao Summer Institute of Linguistics.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonêmica e fonética ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pike distinguiu perspectivas &#039;&#039;&#039;éticas&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;êmicas&#039;&#039;&#039;. A perspectiva ética utiliza categorias comparativas formuladas pelo observador; a perspectiva êmica investiga unidades funcionalmente relevantes dentro de um sistema particular.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os termos foram construídos por analogia com &#039;&#039;phonetics&#039;&#039; e &#039;&#039;phonemics&#039;&#039;. Posteriormente, a oposição foi adotada pela antropologia e por outras ciências humanas, embora nem sempre com o sentido técnico original.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tagmema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tagmêmica foi desenvolvida como modelo de análise gramatical no qual uma unidade é definida pela relação entre uma posição estrutural e a classe de elementos capazes de preenchê-la.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em uma oração, por exemplo, a posição de sujeito pode ser ocupada por diferentes tipos de grupos nominais. O tagmema relaciona essa função ao conjunto de formas que podem realizá-la.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A abordagem procurava integrar:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* posição;&lt;br /&gt;
* função;&lt;br /&gt;
* classe de preenchimento;&lt;br /&gt;
* nível hierárquico;&lt;br /&gt;
* contexto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferentemente de versões mais formalistas do distribucionalismo, Pike atribuía importância explícita ao significado, à função e ao comportamento comunicativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Linguagem e comportamento humano ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pike concebia a linguagem como parte de uma teoria mais ampla do comportamento humano. Sua análise incluía unidades, variantes e distribuições, mas também hierarquias e contextos culturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tagmêmica alcançou influência especialmente na descrição de línguas e no treinamento de pesquisadores de campo. Perdeu espaço institucional com a expansão da gramática gerativa, mas continuou presente em trabalhos descritivos e missionários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Tagmêmica}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Trabalho de campo e descrição linguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo americano estabeleceu procedimentos de trabalho de campo que influenciaram gerações de linguistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa geralmente envolvia:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* identificação de falantes e colaboradores;&lt;br /&gt;
* registro de palavras e enunciados;&lt;br /&gt;
* transcrição fonética;&lt;br /&gt;
* repetição e comparação de formas;&lt;br /&gt;
* coleta de paradigmas;&lt;br /&gt;
* tradução;&lt;br /&gt;
* elicitação de construções;&lt;br /&gt;
* registro de narrativas;&lt;br /&gt;
* elaboração de gramáticas e dicionários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O termo &#039;&#039;&#039;informante&#039;&#039;&#039; foi amplamente usado para designar o falante que fornecia dados linguísticos. Na pesquisa contemporânea, expressões como &#039;&#039;&#039;consultor linguístico&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;colaborador&#039;&#039;&#039; ou &#039;&#039;&#039;especialista da comunidade&#039;&#039;&#039; são frequentemente preferidas, pois reconhecem a participação intelectual do falante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Elicitação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A elicitação consiste na produção orientada de dados. O pesquisador pode solicitar traduções, perguntar como determinada situação seria expressa, testar substituições ou verificar se duas formas possuem interpretações diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os dados elicitados permitem investigar construções raras ou ausentes de um corpus espontâneo. Ao mesmo tempo, podem sofrer influência da língua utilizada na entrevista, das expectativas do pesquisador e da artificialidade da situação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por isso, descrições abrangentes combinam elicitação, observação, gravação de interações e análise de textos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Textos e narrativas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas, Sapir e outros pesquisadores atribuíram grande importância à coleta de narrativas. Os textos permitiam registrar vocabulário, morfologia, sintaxe e práticas culturais em contextos mais amplos do que listas de palavras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitas coleções, contudo, foram publicadas sem reconhecimento suficiente dos narradores, tradutores e intérpretes. A pesquisa atual procura recuperar sua autoria e devolver materiais às comunidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Salvaguarda e revitalização ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O antigo ideal de “salvar” uma língua por meio de sua documentação é hoje criticado quando sugere que o pesquisador externo é o único agente capaz de preservá-la. Uma língua continua viva por meio de seus falantes e das condições sociais que permitem sua transmissão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Registros estruturalistas podem ser utilizados em programas de ensino e revitalização, mas sua utilidade depende da qualidade dos materiais, da acessibilidade e da colaboração com as comunidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estruturalismo americano e estruturalismo europeu ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo norte-americano desenvolveu-se quase contemporaneamente a correntes europeias, mas não foi simples aplicação das ideias de [[Ferdinand de Saussure]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Saussure ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield conhecia a obra de Saussure e publicou uma resenha favorável do &#039;&#039;Curso de Linguística Geral&#039;&#039;. Ambas as tradições compartilhavam o interesse pela língua como organização de relações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As diferenças, entretanto, são importantes. O estruturalismo norte-americano foi profundamente marcado pelo trabalho de campo, pela antropologia, pela tradição neogramática e pela busca de procedimentos descritivos. A oposição saussuriana entre &#039;&#039;langue&#039;&#039; e &#039;&#039;parole&#039;&#039; não organizou de maneira uniforme os programas americanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Escola de Praga ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O [[Círculo Linguístico de Praga]] desenvolveu uma concepção estrutural e funcional. Seus pesquisadores investigaram oposições fonológicas, funções comunicativas, língua literária, sintaxe, poética e estética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os fonólogos de Praga, especialmente Nikolai Trubetzkoy e Roman Jakobson, concebiam o fonema por sua posição em um sistema de oposições. Os fonemicistas norte-americanos concentravam-se frequentemente nos procedimentos de identificação de contrastes e variantes em corpora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A diferença não deve ser exagerada. Houve circulação de conceitos, contatos pessoais e problemas comuns. Jakobson estabeleceu-se nos Estados Unidos e influenciou a fonologia e a teoria dos traços distintivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Glossemática ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[glossemática]] de Louis Hjelmslev procurava construir uma teoria altamente abstrata da linguagem. Seu formalismo partia de distinções entre expressão e conteúdo e buscava definir relações internas com grande generalidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estruturalistas norte-americanos também valorizavam a forma, mas seu programa típico era mais diretamente vinculado à descrição de línguas particulares e aos dados de campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Escola de Londres ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição britânica associada a J. R. Firth compartilhava o interesse por distribuição e contexto, mas atribuía maior importância à situação comunicativa, à colocação lexical e à análise prosódica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Firth e Harris são frequentemente mencionados como antecedentes da semântica distribucional contemporânea, embora suas teorias do contexto e do significado fossem diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Relativismo linguístico dentro da tradição americana ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O relativismo linguístico foi um desenvolvimento importante da tradição boasiana e sapiriana, mas não constitui o princípio definidor de todo o estruturalismo americano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield e muitos pós-bloomfieldianos não organizaram seus programas em torno da relação entre língua e pensamento. Harris procurou descrever as relações formais entre elementos. Pike desenvolveu uma teoria do comportamento comunicativo, mas não adotou necessariamente as formulações atribuídas a Whorf.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O tema deve, portanto, aparecer como uma vertente entre outras. Questões como terminologia de cores, vocabulário relacionado à neve, orientação espacial, gênero gramatical e representação do tempo pertencem a um artigo específico sobre relatividade linguística e não precisam dominar a história do estruturalismo norte-americano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
{{Artigo principal|Relativismo linguístico}}&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A transição para a gramática gerativa ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A [[gramática gerativa]] surgiu no interior do ambiente acadêmico formado pelo estruturalismo americano, mas modificou seus objetivos teóricos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Noam Chomsky]] estudou com Zellig Harris na Universidade da Pensilvânia. Seus primeiros trabalhos relacionavam-se à morfofonêmica, à análise formal e às transformações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Continuidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as continuidades encontram-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* interesse pela descrição explícita;&lt;br /&gt;
* representação formal;&lt;br /&gt;
* análise de constituintes;&lt;br /&gt;
* investigação das relações entre sentenças;&lt;br /&gt;
* busca de generalizações;&lt;br /&gt;
* autonomia relativa da sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A própria noção de transformação possuía antecedentes diretos em Harris. A gramática gerativa, entretanto, atribuiu-lhe nova função dentro de um sistema destinado a gerar as sentenças de uma língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mudança de objeto ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para parte da tradição pós-bloomfieldiana, o objetivo principal era construir uma descrição controlável dos dados linguísticos. A gramática gerativa passou a definir como objeto central o conhecimento que permite aos falantes produzir e compreender sentenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma língua não seria simplesmente o corpus de enunciados registrados. O corpus fornece evidências parciais de uma capacidade que permite criar um número potencialmente ilimitado de expressões.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky distinguiu &#039;&#039;&#039;competência&#039;&#039;&#039;, o conhecimento linguístico do falante-ouvinte idealizado, e &#039;&#039;&#039;desempenho&#039;&#039;&#039;, o uso efetivo sujeito a limitações de memória, atenção e contexto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Crítica aos procedimentos de descoberta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky argumentou que uma teoria científica não precisa fornecer um algoritmo mecânico para descobrir a gramática diretamente dos dados. O pesquisador formula hipóteses e compara análises possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em lugar de procedimentos de descoberta, a teoria deveria estabelecer:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* o formato das gramáticas;&lt;br /&gt;
* os tipos de regras permitidos;&lt;br /&gt;
* os critérios de avaliação;&lt;br /&gt;
* as representações estruturais possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica foi frequentemente dirigida ao estruturalismo americano como um todo. A historiografia posterior observou, contudo, que nem Harris nem todos os pós-bloomfieldianos afirmavam possuir um algoritmo automático e completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Gramaticalidade e corpus ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma sentença pode ser gramatical sem ocorrer no corpus disponível. A ausência pode resultar de raridade, tamanho da amostra ou circunstâncias discursivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inversamente, corpora de fala contêm hesitações, interrupções e construções incompletas. A simples ocorrência não determina que uma sequência pertença à gramática idealizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica gerativista ressaltou a diferença entre frequência e gramaticalidade, embora estudos contemporâneos mostrem que frequência, probabilidade e gradação também desempenham papel importante no conhecimento e no processamento linguísticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Criatividade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os falantes compreendem e produzem expressões nunca ouvidas. Para o gerativismo, essa criatividade exige um sistema finito de princípios e regras capaz de gerar conjuntos potencialmente ilimitados de estruturas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo poderia descrever regularidades e restrições dos dados, mas, segundo a crítica gerativista, não explicaria por si só a produtividade da competência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A força dessa objeção depende dos objetivos atribuídos às teorias. Uma descrição distribucional pode ser útil sem pretender constituir modelo psicológico da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Estruturalismo americano e ensino de línguas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo influenciou profundamente o ensino de línguas estrangeiras durante meados do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A descrição sistemática dos sons e das construções fornecia materiais para a elaboração de cursos. A aproximação com teorias behavioristas da aprendizagem favoreceu métodos baseados em repetição, imitação, memorização de padrões e correção imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Método audiolingual ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;método audiolingual&#039;&#039;&#039; enfatizava a língua falada e a formação de hábitos. Os estudantes ouviam diálogos, repetiam estruturas e realizavam exercícios de substituição e transformação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática era frequentemente apresentada por meio de padrões, e não de explicações metalinguísticas extensas. A pronúncia recebia atenção desde os níveis iniciais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método não deriva exclusivamente da linguística estrutural. Sua formação envolveu programas militares, psicologia behaviorista, tecnologias de gravação e necessidades institucionais de ensino rápido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Análise contrastiva ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise contrastiva comparava a estrutura da língua materna com a da língua-alvo. Diferenças entre os sistemas eram consideradas fontes prováveis de dificuldade e interferência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Versões fortes, segundo as quais seria possível prever todos os erros por comparação estrutural, não se confirmaram. Aprendizes também produzem erros de desenvolvimento que não derivam diretamente da primeira língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar disso, a comparação continua útil para identificar contrastes fonológicos, morfológicos e sintáticos relevantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influência sobre a linguística brasileira ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo americano teve repercussão importante no desenvolvimento da linguística no Brasil, especialmente entre as décadas de 1940 e 1970.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Joaquim Mattoso Câmara Júnior]] manteve contato com diferentes tradições estruturais, entre elas a Escola de Praga e a linguística norte-americana. Sua obra sobre a fonologia e a morfologia do português brasileiro combinou conceitos de diferentes origens e foi decisiva para a institucionalização da linguística no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição descritiva norte-americana também influenciou pesquisas sobre línguas indígenas brasileiras, programas de documentação e formação de linguistas de campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A presença do Summer Institute of Linguistics no Brasil teve impacto na produção de descrições, traduções e materiais sobre línguas indígenas. Essa atuação é objeto de avaliações divergentes, devido à associação entre pesquisa linguística, missão religiosa e políticas indigenistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a expansão dos programas de pós-graduação, a partir da segunda metade do século XX, a gramática gerativa, a sociolinguística, o funcionalismo e outras correntes passaram a disputar espaço com os modelos estruturais. Técnicas de segmentação, análise fonêmica e descrição morfológica, entretanto, permaneceram incorporadas à formação linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições permanentes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A importância do estruturalismo americano não se limita ao período em que constituiu orientação dominante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Descrição de línguas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição produziu gramáticas, dicionários e coleções textuais de numerosas línguas. Embora alguns materiais precisem ser revistos, eles continuam fundamentais para pesquisa histórica, comparação e revitalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Autonomia das categorias ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas e seus continuadores consolidaram a ideia de que uma língua deve ser descrita a partir das distinções que efetivamente apresenta. Categorias herdadas da gramática clássica precisam ser tratadas como hipóteses, não como moldes universais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonologia e morfologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre fonemas e alofones, o emprego de pares mínimos, a análise de distribuição complementar, a identificação de morfemas e alomorfes e o estudo de alternâncias tornaram-se partes da prática linguística geral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hierarquia sintática ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes demonstrou que sentenças não são simples cadeias de palavras. Seus elementos formam grupos e níveis hierárquicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Explicitação metodológica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estruturalistas procuraram justificar suas análises por critérios observáveis. Mesmo quando suas soluções são rejeitadas, a exigência de explicitude permanece fundamental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Trabalho de campo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As técnicas de elicitação, transcrição e construção de corpora tiveram grande impacto sobre a linguística descritiva contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formalização ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de Harris contribuíram para aproximar linguística, matemática e computação. As relações entre distribuição, transformação, discurso e sublinguagens anteciparam problemas retomados por outras áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Limitações e críticas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Restrição da semântica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tentativa de reduzir o uso do significado permitiu tornar certos procedimentos mais controláveis, mas dificultou a análise de fenômenos em que forma, interpretação e contexto são inseparáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Homonímia, polissemia, sinonímia e relações argumentais não podem ser plenamente descritas apenas pela distribuição superficial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Corpus finito ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um corpus contém amostra limitada dos usos possíveis. A ausência de uma construção não demonstra impossibilidade, e sua ocorrência não determina automaticamente seu estatuto estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Separação rígida dos níveis ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise sucessiva da fonêmica, morfêmica e sintaxe pretendia evitar circularidade, mas muitos fenômenos atravessam os níveis. Processos fonológicos podem depender da morfologia, e a segmentação morfológica pode exigir informações sintáticas e semânticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Homogeneidade do sistema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitas descrições privilegiavam uma variedade relativamente homogênea. A [[sociolinguística]] demonstrou que a variação é sistemática e pode depender de fatores sociais, estilísticos, regionais e interacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia da linguagem ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O antimentalismo restringiu a possibilidade de investigar representação, aquisição e processamento. A revolução cognitiva recolocou os processos mentais no centro das ciências humanas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Isso não significa que toda descrição linguística precise ser teoria psicológica. A crítica mostra, porém, que uma ciência abrangente da linguagem não pode limitar-se às relações entre formas observadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Relações coloniais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A documentação de línguas indígenas ocorreu frequentemente sem participação igualitária das comunidades. Pesquisadores podiam controlar os registros, retirar materiais de seus contextos e apresentar como produção individual conhecimentos obtidos de numerosos colaboradores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica contemporânea enfatiza:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* autoria comunitária;&lt;br /&gt;
* consentimento;&lt;br /&gt;
* acesso aos arquivos;&lt;br /&gt;
* soberania sobre os dados;&lt;br /&gt;
* formação de pesquisadores indígenas;&lt;br /&gt;
* objetivos definidos pelas comunidades;&lt;br /&gt;
* relação entre documentação e revitalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fortuna crítica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A narrativa da superação gerativista ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante muito tempo, a história da linguística norte-americana foi narrada como passagem de um estruturalismo empirista e taxonômico para uma gramática gerativa explicativa e mentalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa narrativa contém elementos verdadeiros: o gerativismo modificou o objeto da teoria, criticou o corpus como limite da análise e desenvolveu novos modelos de sintaxe. Entretanto, a representação do estruturalismo como programa inteiramente mecânico e sem teoria simplifica sua diversidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== “Estruturalismo taxonômico” ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;estruturalismo taxonômico&#039;&#039;&#039; foi utilizada para sugerir que os pós-bloomfieldianos apenas segmentavam e classificavam dados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica se aplica a certas tendências descritivas, mas não descreve toda a produção da época. Harris desenvolveu transformações e análise do discurso; Hockett discutiu modelos gramaticais e propriedades da comunicação; Pike integrou função e contexto; Sapir tratou de psicologia, cultura e mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Continuidade entre Harris e Chomsky ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia contemporânea destacou a relação entre os projetos de Harris e Chomsky. O gerativismo não surgiu fora da linguística estrutural norte-americana; desenvolveu-se em contato direto com seus problemas e instrumentos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, não se deve reduzir Chomsky a continuador de Harris. A interpretação mentalista da gramática, a centralidade da competência e a busca de princípios universais alteraram profundamente o programa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Reavaliação de Bloomfield ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield também foi reavaliado. A afirmação de que teria eliminado o significado ignora a presença da semântica em suas definições e a cautela metodológica que orientava sua posição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu mecanicismo precisa ser distinguido de todas as formas posteriores de behaviorismo. Além disso, sua formação histórico-comparativa e seu trabalho descritivo mostram uma obra mais ampla do que a caricatura de um analista exclusivamente taxonômico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Retorno dos dados distribucionais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística de corpus, a semântica distribucional e a aprendizagem de máquina renovaram o interesse pelas regularidades de ocorrência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos contemporâneos diferem dos procedimentos pós-bloomfieldianos em escala, aparato estatístico e finalidade. Ainda assim, preservam a ideia de que a distribuição fornece informações importantes sobre categorias e relações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse retorno demonstra que a crítica ao distribucionalismo como teoria completa não elimina o valor da distribuição como evidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Reavaliação da linguística antropológica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Boas e Sapir continuam reconhecidos por sua defesa da diversidade e pela rejeição das hierarquias evolucionistas. Ao mesmo tempo, a história da linguística antropológica passou a incluir as condições coloniais do trabalho de campo e o papel dos colaboradores indígenas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fortuna crítica atual procura evitar dois extremos: celebrar a documentação sem examinar suas relações de poder ou rejeitar integralmente materiais que podem possuir grande valor histórico e comunitário.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Avaliação geral ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O estruturalismo americano foi decisivo para transformar a linguística dos Estados Unidos em disciplina autônoma, empiricamente orientada e metodologicamente explícita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua história não pode ser reduzida a uma sequência simples que conduziria de Boas a Sapir, de Sapir a Bloomfield e de Bloomfield a Chomsky. Diferentes programas coexistiram, disputaram objetivos e produziram legados próprios.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tradição antropológica enfatizou a diversidade das categorias e a relação entre linguagem e cultura. A orientação bloomfieldiana procurou construir uma ciência descritiva rigorosa. A fonêmica e a morfêmica desenvolveram técnicas de análise. A análise de constituintes introduziu representações hierárquicas. Harris ampliou a formalização para transformações e discurso. Pike propôs uma abordagem em que forma, função e comportamento se articulavam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Muitas limitações posteriormente identificadas — restrição da semântica, corpus finito, separação dos níveis, pouca atenção à variação e antimentalismo — resultam tanto de escolhas teóricas quanto dos problemas históricos que os pesquisadores procuravam resolver.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu legado permanece na descrição de línguas, na fonologia, na morfologia, na sintaxe de constituintes, no trabalho de campo, na linguística de corpus e na computação linguística. Mesmo teorias que rejeitam seus pressupostos continuam utilizando contrastes, distribuições, segmentações e critérios de substituição desenvolvidos ou sistematizados por essa tradição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ver também ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* [[Análise de constituintes imediatos]]&lt;br /&gt;
* [[Antropologia linguística]]&lt;br /&gt;
* [[Behaviorismo]]&lt;br /&gt;
* [[Benjamin Lee Whorf]]&lt;br /&gt;
* [[Distribucionalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Edward Sapir]]&lt;br /&gt;
* [[Estruturalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Fonema]]&lt;br /&gt;
* [[Fonologia]]&lt;br /&gt;
* [[Franz Boas]]&lt;br /&gt;
* [[Gramática gerativa]]&lt;br /&gt;
* [[Hipótese Sapir–Whorf]]&lt;br /&gt;
* [[Joaquim Mattoso Câmara Júnior]]&lt;br /&gt;
* [[Kenneth Pike]]&lt;br /&gt;
* [[Leonard Bloomfield]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística de corpus]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística descritiva]]&lt;br /&gt;
* [[Morfema]]&lt;br /&gt;
* [[Relativismo linguístico]]&lt;br /&gt;
* [[Tagmêmica]]&lt;br /&gt;
* [[Zellig Harris]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;references /&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fontes primárias ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BLOCH, Bernard. A set of postulates for phonemic analysis. &#039;&#039;Language&#039;&#039;, v. 24, n. 1, p. 3–46, 1948.&lt;br /&gt;
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* BLOCH, Bernard; TRAGER, George L. &#039;&#039;Outline of Linguistic Analysis&#039;&#039;. Baltimore: Linguistic Society of America, 1942.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BLOOMFIELD, Leonard. &#039;&#039;An Introduction to the Study of Language&#039;&#039;. New York: Henry Holt, 1914.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
* BLOOMFIELD, Leonard. &#039;&#039;Language&#039;&#039;. New York: Henry Holt, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* BLOOMFIELD, Leonard. &#039;&#039;Menomini Morphophonemics&#039;&#039;. Baltimore: Linguistic Society of America, 1939.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DEFAULTSORT:Estruturalismo americano}}&lt;br /&gt;
[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Estruturalismo]]&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Edward Sapir]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Leonard Bloomfield]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Zellig Harris]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Recentes]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>201.54.52.52</name></author>
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		<title>Distribucionalismo</title>
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		<updated>2026-08-05T17:29:24Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;201.54.52.52: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&#039;&#039;&#039;Distribucionalismo&#039;&#039;&#039; é a denominação atribuída a um conjunto de orientações teóricas e metodológicas desenvolvidas principalmente na linguística dos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1950. Essas orientações procuravam descrever as línguas por meio da identificação das unidades que aparecem nos enunciados e do levantamento sistemático dos contextos em que cada unidade pode ocorrer. A &#039;&#039;&#039;distribuição&#039;&#039;&#039; de um elemento linguístico corresponde, nesse sentido, ao conjunto das posições, construções ou ambientes em que ele aparece em um corpus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo constituiu uma das vertentes do chamado &#039;&#039;&#039;estruturalismo linguístico norte-americano&#039;&#039;&#039;. As duas expressões, entretanto, não são inteiramente equivalentes. O estruturalismo norte-americano compreende uma tradição mais ampla, formada pela linguística antropológica de [[Franz Boas]], [[Edward Sapir]] e seus continuadores, pela linguística descritiva de [[Leonard Bloomfield]] e dos chamados pós-bloomfieldianos, pela fonêmica norte-americana, pela análise de constituintes imediatos e por diferentes propostas de descrição morfológica e sintática. O distribucionalismo, em sentido mais estrito, designa a tentativa de estabelecer unidades e classes linguísticas com base em suas relações de ocorrência, substituição e combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formulação mais sistemática do método distribucional encontra-se na obra de [[Zellig Harris]], especialmente em &#039;&#039;Methods in Structural Linguistics&#039;&#039;, publicada em 1951 e posteriormente reeditada com o título &#039;&#039;Structural Linguistics&#039;&#039;. Harris definiu a distribuição como a disposição dos elementos linguísticos uns em relação aos outros no fluxo da fala e procurou desenvolver procedimentos explícitos para segmentar enunciados, identificar unidades recorrentes e agrupá-las em classes distribucionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo não constituiu uma doutrina perfeitamente homogênea nem um sistema teórico único. Leonard Bloomfield, Bernard Bloch, George L. Trager, Charles F. Hockett, Rulon S. Wells, Zellig Harris, Charles C. Fries, Eugene Nida e outros linguistas compartilhavam o interesse pela descrição formal e pela análise de dados observáveis, mas divergiam quanto à definição do fonema e do morfema, ao papel do significado, ao estatuto das intuições do falante, à natureza dos procedimentos analíticos e aos limites da análise sintática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora tenha perdido sua posição dominante depois da ascensão da [[gramática gerativa]], o distribucionalismo exerceu influência duradoura sobre a fonologia, a morfologia, a sintaxe de constituintes, a linguística de corpus, o processamento de linguagem natural e os modelos contemporâneos de semântica distribucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Delimitação do termo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A palavra &#039;&#039;&#039;distribucionalismo&#039;&#039;&#039; é usada em diferentes sentidos na história da linguística. Em sentido amplo, pode designar praticamente toda a linguística descritiva norte-americana do período posterior à publicação de &#039;&#039;Language&#039;&#039;, de Bloomfield, em 1933. Em sentido mais preciso, refere-se aos métodos que definem uma unidade linguística ou uma classe de unidades pelo conjunto dos ambientes em que ela ocorre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nem todos os estudiosos tradicionalmente incluídos no estruturalismo norte-americano foram distribucionalistas no mesmo grau. Edward Sapir atribuía grande importância aos padrões formais das línguas, mas também se interessava por processos psicológicos, culturais e simbólicos que não podiam ser reduzidos a distribuições observáveis. Kenneth L. Pike desenvolveu conceitos relacionados à análise estrutural, mas formulou posteriormente a tagmêmica e defendeu uma abordagem na qual forma, função e significado mantinham relações mais estreitas. Charles C. Fries empregou critérios distribucionais na descrição das classes de palavras, mas não propôs um sistema geral equivalente ao de Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também é necessário distinguir o distribucionalismo clássico da chamada &#039;&#039;&#039;hipótese distribucional&#039;&#039;&#039; empregada atualmente na linguística computacional e na semântica lexical. A tradição contemporânea segundo a qual palavras que aparecem em contextos semelhantes tendem a apresentar propriedades semânticas semelhantes possui antecedentes no estruturalismo norte-americano, sobretudo em Harris, mas foi desenvolvida com objetivos, métodos estatísticos e modelos matemáticos diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Leonard Bloomfield ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formação intelectual ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Leonard Bloomfield]] (1887–1949) foi o principal responsável pela consolidação da linguística estrutural norte-americana como programa científico. Sua formação inicial ocorreu no campo da linguística germânica e indo-europeia. Bloomfield conhecia profundamente a tradição histórico-comparativa, a gramática sânscrita e a linguística dos neogramáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua primeira introdução geral à linguística, &#039;&#039;An Introduction to the Study of Language&#039;&#039;, foi publicada em 1914. A obra ainda apresentava forte influência da psicologia mentalista de Wilhelm Wundt. Nas décadas seguintes, Bloomfield afastou-se dessa orientação e aproximou-se de uma concepção mecanicista da ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield participou também da descrição de línguas austronésias e indígenas norte-americanas, entre elas o tagalo, o menomini, o cree e o fox. Essa experiência relacionava a reflexão teórica às exigências da análise de línguas pouco descritas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== &#039;&#039;Language&#039;&#039; ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A publicação de &#039;&#039;Language&#039;&#039;, em 1933, tornou-se um marco da linguística norte-americana. A obra tratava de fonética, fonologia, gramática, significado, mudança linguística, dialetologia, aquisição da linguagem, escrita e história da linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;Language&#039;&#039; não apresenta um manual completo de análise distribucional nos moldes posteriormente desenvolvidos por Harris. A obra estabelece, porém, os fundamentos do programa descritivo que orientaria grande parte da linguística norte-americana nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield definia a língua como um conjunto de hábitos de fala compartilhados por uma comunidade. O trabalho do linguista consistiria em observar enunciados, identificar formas recorrentes e descrever as regularidades de sua combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A importância da obra deve ser compreendida também institucionalmente. Bloomfield foi um dos fundadores da Linguistic Society of America, criada em 1924, e exerceu forte influência sobre a formação de linguistas, a publicação da revista &#039;&#039;Language&#039;&#039; e a definição de padrões de rigor descritivo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Mecanicismo e antimentalismo ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield distinguia duas concepções gerais da explicação científica: a mentalista e a mecanicista. A explicação mentalista recorria a ideias, intenções, imagens ou estados interiores cuja investigação objetiva considerava problemática. A explicação mecanicista procurava relacionar os acontecimentos a condições materiais e comportamentos observáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa posição foi influenciada principalmente pelo behaviorismo de [[John B. Watson]], e não pela teoria de B. F. Skinner em sua forma madura. Skinner publicou &#039;&#039;Verbal Behavior&#039;&#039; somente em 1957, oito anos depois da morte de Bloomfield. Embora os dois autores pertençam ao campo mais amplo do behaviorismo, não se deve apresentar Bloomfield como discípulo da análise skinneriana do comportamento verbal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield ilustrou o comportamento linguístico por meio de situações de estímulo e resposta. Em seu exemplo mais conhecido, uma pessoa percebe um objeto desejado e produz um enunciado; outra pessoa, ao ouvir a fala, realiza uma ação. A linguagem permite que uma resposta seja desencadeada por um estímulo linguístico em lugar de uma ação direta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O esquema não pretende fornecer uma teoria experimental completa do comportamento, mas estabelecer um enquadramento materialista para a comunicação. O linguista poderia observar a situação, o enunciado e as respostas externas, ainda que não dispusesse de acesso direto aos acontecimentos internos dos participantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O problema do significado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É frequente afirmar que Bloomfield excluiu completamente o significado da linguística. Essa formulação é excessiva. Bloomfield considerava o significado indispensável para definir formas linguísticas. Uma forma correspondia a uma combinação de sons dotada de significado, e formas foneticamente idênticas poderiam ser tratadas como unidades diferentes quando possuíssem significados distintos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O problema era metodológico. Para Bloomfield, uma descrição cientificamente precisa dos significados exigiria conhecimento detalhado de todas as situações em que as formas fossem empregadas e de todos os aspectos relevantes do mundo a que se referiam. Como esse conhecimento dependia do desenvolvimento das demais ciências, a semântica não poderia alcançar naquele momento o mesmo rigor da fonologia e de determinados setores da gramática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O resultado foi uma assimetria: o significado continuava necessário para reconhecer unidades, mas a análise formal procurava reduzir ao mínimo sua utilização. Os pós-bloomfieldianos levaram essa restrição mais longe e tentaram construir procedimentos que dependessem predominantemente da distribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Forma livre, forma presa e construção ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield chamou de &#039;&#039;&#039;forma linguística&#039;&#039;&#039; toda configuração fonética dotada de significado. Uma forma que pudesse ocorrer isoladamente como enunciado era classificada como &#039;&#039;&#039;forma livre&#039;&#039;&#039;. Uma forma que não pudesse ocorrer sozinha era denominada &#039;&#039;&#039;forma presa&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em uma palavra como &#039;&#039;livros&#039;&#039;, por exemplo, &#039;&#039;livro&#039;&#039; pode ser tratado como forma livre em determinados contextos, enquanto o segmento de plural &#039;&#039;-s&#039;&#039; é uma forma presa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As formas complexas são constituídas por outras formas. Bloomfield empregou o conceito de &#039;&#039;&#039;constituinte&#039;&#039;&#039; para designar as unidades que participam de uma construção. Essa concepção forneceu uma das bases para o desenvolvimento posterior da análise de constituintes imediatos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O pós-bloomfieldianismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão &#039;&#039;&#039;pós-bloomfieldianos&#039;&#039;&#039; designa um conjunto de linguistas que desenvolveram, sistematizaram ou modificaram o programa descritivo de Bloomfield nas décadas de 1940 e 1950. O termo não significa que todos adotassem integralmente suas posições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os principais nomes encontram-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Bernard Bloch;&lt;br /&gt;
* George L. Trager;&lt;br /&gt;
* Charles F. Hockett;&lt;br /&gt;
* Rulon S. Wells;&lt;br /&gt;
* Zellig Harris;&lt;br /&gt;
* Eugene Nida;&lt;br /&gt;
* Charles C. Fries;&lt;br /&gt;
* Archibald A. Hill;&lt;br /&gt;
* Henry Lee Smith;&lt;br /&gt;
* Robert A. Hall Jr.;&lt;br /&gt;
* Martin Joos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fonologia e a morfologia receberam inicialmente maior atenção porque pareciam oferecer unidades mais facilmente segmentáveis. A sintaxe tornou-se progressivamente mais importante, especialmente com o desenvolvimento da análise de constituintes imediatos e das técnicas distribucionais de Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O período pós-bloomfieldiano foi também marcado pela produção de manuais, descrições de línguas, materiais para o ensino de idiomas e trabalhos aplicados durante e depois da Segunda Guerra Mundial. A necessidade de formar rapidamente falantes e analistas de línguas consideradas estratégicas estimulou a institucionalização da linguística nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O conceito de distribuição ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;distribuição&#039;&#039;&#039; de uma unidade é o conjunto de ambientes em que ela pode ocorrer. Um ambiente pode ser definido pelos elementos que aparecem antes ou depois da unidade, pela posição no enunciado, pelo tipo de construção ou por outros condicionamentos formalmente identificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considere-se o seguinte conjunto simplificado:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
O menino chegou.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
O professor chegou.&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
O estudante chegou.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As expressões &#039;&#039;o menino&#039;&#039;, &#039;&#039;o professor&#039;&#039; e &#039;&#039;o estudante&#039;&#039; aparecem no mesmo ambiente, imediatamente antes de &#039;&#039;chegou&#039;&#039;. Elas podem ser agrupadas em uma mesma classe distribucional relativamente a esse contexto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outro nível, as palavras &#039;&#039;menino&#039;&#039;, &#039;&#039;professor&#039;&#039; e &#039;&#039;estudante&#039;&#039; aparecem depois do artigo &#039;&#039;o&#039;&#039; e antes do verbo. A possibilidade de substituição em ambientes equivalentes constitui uma evidência de que compartilham determinadas propriedades gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição não é necessariamente determinada por um único contexto. Uma análise adequada precisa considerar o maior número possível de ocorrências e verificar se a equivalência se mantém em diferentes construções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tipos de relação distribucional ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os linguistas empregaram diferentes classificações das relações entre distribuições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Distribuição contrastiva ====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Duas unidades encontram-se em distribuição contrastiva quando podem ocorrer no mesmo ambiente e sua substituição produz formas diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na fonologia, /p/ e /b/ contrastam em português em contextos como &#039;&#039;pato&#039;&#039; e &#039;&#039;bato&#039;&#039;. O ambiente fonológico é semelhante, mas a substituição modifica a forma lexical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na morfologia, as terminações &#039;&#039;-o&#039;&#039; e &#039;&#039;-a&#039;&#039; podem contrastar em certos pares como &#039;&#039;menino&#039;&#039; e &#039;&#039;menina&#039;&#039;, embora a análise completa dependa das propriedades morfológicas e lexicais de cada item.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Distribuição complementar ====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Duas formas encontram-se em distribuição complementar quando aparecem em ambientes mutuamente exclusivos. Onde uma ocorre, a outra não ocorre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição complementar foi especialmente importante para a análise dos alofones. Se duas realizações fonéticas semelhantes aparecem em contextos previsíveis e nunca contrastam no mesmo ambiente, podem ser interpretadas como variantes de um mesmo fonema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A complementaridade, entretanto, não é suficiente por si só. Duas formas inteiramente diferentes também podem ocorrer em ambientes exclusivos sem constituírem variantes de uma mesma unidade. Os analistas recorriam, por isso, a critérios de semelhança fonética, paralelismo estrutural e economia descritiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Distribuição equivalente ====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Duas unidades possuem distribuição equivalente quando podem ocorrer nos mesmos ambientes. A equivalência pode ser total ou parcial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A equivalência total é rara em línguas naturais. Mesmo formas consideradas sinônimas ou membros da mesma classe gramatical costumam apresentar restrições particulares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Distribuição sobreposta ====&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há sobreposição quando duas unidades compartilham alguns ambientes, mas cada uma também ocorre em contextos dos quais a outra está excluída. Grande parte das relações gramaticais reais apresenta esse caráter parcial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Classes distribucionais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma &#039;&#039;&#039;classe distribucional&#039;&#039;&#039; reúne elementos que possuem distribuições idênticas ou suficientemente semelhantes para os objetivos da descrição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As classes não precisam corresponder exatamente às categorias da gramática tradicional. Em vez de partir de definições como “substantivo é a palavra que nomeia seres”, o analista observa quais formas aparecem depois de determinados artigos, recebem marcas de número, ocupam certas posições e podem ser substituídas umas pelas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O resultado pode coincidir parcialmente com as classes tradicionais, mas também pode revelar subdivisões. Verbos transitivos e intransitivos, por exemplo, apresentam distribuições distintas; alguns adjetivos aceitam determinadas posições ou modificadores que outros rejeitam; certos substantivos possuem restrições de número ou de combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Corpus e dados linguísticos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise distribucional parte de um &#039;&#039;&#039;corpus&#039;&#039;&#039;, isto é, de um conjunto delimitado de enunciados registrados. O corpus pode ser constituído por textos escritos, gravações, transcrições de fala ou dados obtidos em trabalho de campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O ideal de exaustividade referia-se à descrição completa das relações presentes no corpus, e não à enumeração de todas as frases possíveis de uma língua. O analista procurava formular generalizações que abrangessem os dados disponíveis sem recorrer a categorias não justificadas pela amostra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa orientação oferecia uma defesa contra análises impressionistas, mas criava dificuldades. Nenhum corpus finito contém todas as construções possíveis. Uma sequência ausente pode ser impossível, rara ou simplesmente não ter aparecido na amostra. A interpretação da ausência exige, portanto, algum conhecimento adicional da língua ou a consulta a falantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na prática, os distribucionalistas não trabalhavam sem qualquer intervenção de falantes ou analistas. Utilizavam repetição, elicitação, substituição, tradução, julgamentos sobre diferenças de forma e significado e ampliação planejada dos dados. A imagem de um procedimento puramente automático aplicado a um corpus fechado corresponde mais a um ideal metodológico do que à totalidade das práticas efetivas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Segmentação e classificação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método distribucional costuma ser caracterizado por duas operações fundamentais:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# &#039;&#039;&#039;segmentação&#039;&#039;&#039;: divisão dos enunciados em partes recorrentes;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# &#039;&#039;&#039;classificação&#039;&#039;&#039;: agrupamento das partes segundo sua distribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As duas operações são interdependentes. Para segmentar uma sequência, é necessário reconhecer recorrências; para reconhecer recorrências, é necessário propor segmentos comparáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considere-se o conjunto:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;menino&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;meninos&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;livro&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;livros&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A recorrência de &#039;&#039;menino&#039;&#039; e &#039;&#039;livro&#039;&#039; em contraste com &#039;&#039;-s&#039;&#039; permite propor uma segmentação:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;menino + s&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;livro + s&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O segmento &#039;&#039;-s&#039;&#039; pode ser agrupado como uma unidade recorrente. Seu valor de plural é confirmado pela relação entre forma e significado, mas sua identificação formal depende também do paralelismo distribucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise torna-se mais complexa quando há alomorfia, fusão, formas descontínuas, morfemas sem realização fonética ou irregularidade. Os distribucionalistas desenvolveram diferentes técnicas para lidar com esses casos, nem sempre de maneira consensual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fonêmica norte-americana ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fonêmica foi um dos campos mais desenvolvidos do estruturalismo norte-americano. Seu objetivo era identificar o sistema de contrastes sonoros de uma língua e organizar as realizações fonéticas em fonemas e alofones.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonema e alofone ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;fonema&#039;&#039;&#039; era geralmente entendido como uma classe de sons foneticamente semelhantes e distribucionalmente relacionados. Os membros dessa classe eram chamados &#039;&#039;&#039;alofones&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois sons podiam ser atribuídos ao mesmo fonema quando:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* não contrastavam no mesmo ambiente;&lt;br /&gt;
* apareciam em distribuição complementar ou variação livre;&lt;br /&gt;
* apresentavam semelhança fonética considerada suficiente;&lt;br /&gt;
* sua reunião produzia uma análise coerente com os padrões gerais da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A identificação de pares mínimos tornou-se uma técnica importante, mas não era o único procedimento. Os linguistas examinavam também pares análogos, distribuições defectivas, alternâncias morfofonêmicas e padrões fonotáticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Procedimentos fonêmicos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bernard Bloch, George Trager, Charles Hockett e outros autores procuraram tornar os procedimentos fonêmicos explícitos. Entre as operações estavam:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* coleta e transcrição fonética;&lt;br /&gt;
* identificação de segmentos recorrentes;&lt;br /&gt;
* comparação de sons em ambientes semelhantes;&lt;br /&gt;
* estabelecimento de contrastes;&lt;br /&gt;
* agrupamento de variantes;&lt;br /&gt;
* formulação da distribuição de cada fonema;&lt;br /&gt;
* descrição das sequências permitidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;Outline of Linguistic Analysis&#039;&#039;, de Bloch e Trager, publicado em 1942, tornou-se uma exposição influente desse tipo de análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonêmica sistemática e controvérsias ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fonêmica norte-americana não era teoricamente uniforme. Alguns autores concebiam os fonemas como unidades psicológicas; outros procuravam defini-los exclusivamente por critérios formais. Havia divergências sobre a representação de junções, acento, entoação, segmentos longos e fenômenos morfofonêmicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também se discutia se a análise deveria produzir uma representação próxima das realizações fonéticas ou uma representação mais abstrata e economicamente organizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O princípio de &#039;&#039;&#039;separação de níveis&#039;&#039;&#039; procurava impedir que informações gramaticais fossem usadas prematuramente na análise fonêmica. Essa restrição pretendia evitar circularidade, mas podia produzir descrições pouco naturais quando a distribuição dos sons dependia claramente da estrutura morfológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Morfêmica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;morfêmica&#039;&#039;&#039; estruturalista tinha como objetivo identificar os morfemas de uma língua, determinar seus alomorfes e descrever suas possibilidades de combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;morfema&#039;&#039;&#039; era geralmente definido como a menor forma linguística dotada de significado ou função gramatical. Uma palavra podia ser composta por um único morfema ou por vários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Exemplos:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;casa&#039;&#039; — um morfema lexical;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;casas&#039;&#039; — &#039;&#039;casa + -s&#039;&#039;;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;infeliz&#039;&#039; — &#039;&#039;in- + feliz&#039;&#039;;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;cantávamos&#039;&#039; — sequência analisável em radical e marcas gramaticais.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção de “menor unidade significativa” criava problemas quando uma forma não podia ser segmentada sem perda do paralelismo gramatical ou quando uma mesma propriedade era expressa por modificações internas, ausência de marca ou fusão de categorias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alomorfia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os &#039;&#039;&#039;alomorfes&#039;&#039;&#039; são variantes de um mesmo morfema. Sua identificação dependia da combinação de critérios formais, distribucionais e semânticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O plural do inglês, por exemplo, apresenta realizações fonológicas diferentes condicionadas pelo segmento precedente. Essas variantes podem ser agrupadas porque possuem função semelhante e distribuição previsível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Há também alomorfia lexicalmente condicionada, como nas formas irregulares. Nesses casos, a distribuição não pode ser formulada apenas em termos fonológicos, pois depende da identidade do item lexical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfema zero ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns estruturalistas admitiram o &#039;&#039;&#039;morfema zero&#039;&#039;&#039; para representar uma oposição gramatical sem expressão fonológica manifesta. Se uma categoria possui formas marcadas em parte de um paradigma, a ausência de segmento em outra posição pode receber interpretação estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A utilização de zeros permitia preservar paralelismos, mas foi criticada quando aplicada sem restrições. A simples ausência de material não pode ser transformada automaticamente em morfema; é necessário demonstrar que ocupa uma posição definida em uma oposição ou paradigma.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfemas descontínuos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma unidade gramatical pode apresentar partes separadas por outros elementos. Alguns analistas admitiram morfemas descontínuos para descrever construções em que os componentes funcionam conjuntamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse recurso mostrava que a segmentação estruturalista não se limitava necessariamente a partes contínuas da cadeia, embora a continuidade fosse preferida sempre que possível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfofonêmica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;morfofonêmica&#039;&#039;&#039; estudava as alternâncias entre formas fonêmicas associadas aos morfemas. Ela ocupava uma posição intermediária entre fonologia e morfologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A descrição podia postular unidades morfofonêmicas abstratas ou apresentar listas de alternantes e condições de ocorrência. As soluções variavam conforme o modelo adotado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Classes de palavras e substituição ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A classificação das palavras segundo suas distribuições foi uma das aplicações mais conhecidas do método.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;The Structure of English&#039;&#039;, publicado em 1952, [[Charles C. Fries]] procurou identificar classes de palavras por meio dos lugares que elas ocupavam em determinados padrões de frase. Em vez de empregar inicialmente os rótulos substantivo, verbo, adjetivo e advérbio, Fries construiu molduras nas quais diferentes palavras podiam ser inseridas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma moldura simplificada poderia apresentar a forma:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
The ______ is good.&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Palavras capazes de preencher a lacuna em condições equivalentes poderiam ser incluídas em uma classe. Outras molduras permitiriam distinguir palavras que aparecem depois de determinantes, antes de determinados sufixos ou em posição predicativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O procedimento possuía a vantagem de tornar explícitos os critérios formais. Entretanto, a seleção das molduras, a avaliação da aceitabilidade e a decisão sobre quais diferenças deveriam ser consideradas relevantes dependiam da competência linguística do pesquisador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As classes resultantes não eram necessariamente homogêneas. Palavras tradicionalmente classificadas como substantivos podem apresentar distribuições diferentes em relação a número, determinação, modificação e complementação. A análise distribucional tende, por isso, a produzir classes e subclasses graduais ou sobrepostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Análise de constituintes imediatos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;análise de constituintes imediatos&#039;&#039;&#039;, frequentemente abreviada como ACI, descreve uma construção por meio de divisões sucessivas em unidades menores. Cada construção é inicialmente separada em seus constituintes diretamente subordinados; esses constituintes são, por sua vez, segmentados até que se alcancem unidades mínimas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção possui antecedentes em Bloomfield, mas foi sistematizada por diferentes autores, especialmente Rulon S. Wells, Charles Hockett e Zellig Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura hierárquica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma frase não é analisada apenas como sequência linear de palavras. Ela possui agrupamentos intermediários.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Considere-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;A pesquisadora analisou os documentos antigos.&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma divisão inicial possível é:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ A pesquisadora ] [ analisou os documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O segundo constituinte pode ser dividido em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ analisou ] [ os documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo nominal pode ser dividido em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ os ] [ documentos antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
e, em seguida:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ documentos ] [ antigos ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma representação parentética seria:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
[[A pesquisadora] [analisou [os [documentos antigos]]]]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise indica que &#039;&#039;antigos&#039;&#039; se relaciona diretamente com &#039;&#039;documentos&#039;&#039;, enquanto &#039;&#039;os documentos antigos&#039;&#039; forma uma unidade em relação ao verbo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Critérios de constituência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estruturalistas empregaram diferentes indícios para identificar constituintes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* possibilidade de substituição por uma forma simples;&lt;br /&gt;
* ocorrência do grupo em diferentes posições;&lt;br /&gt;
* coordenação com grupos semelhantes;&lt;br /&gt;
* relações de expansão;&lt;br /&gt;
* padrões de entoação;&lt;br /&gt;
* paralelismo com outras construções;&lt;br /&gt;
* capacidade de ocorrer como resposta ou enunciado relativamente independente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum teste funciona de maneira absoluta. Os resultados podem divergir, e algumas sequências possuem mais de uma análise possível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Construções endocêntricas e exocêntricas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield distinguiu construções &#039;&#039;&#039;endocêntricas&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;exocêntricas&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma construção é endocêntrica quando o grupo completo pertence à mesma classe distribucional de um de seus constituintes ou de todos eles. Em &#039;&#039;livros antigos&#039;&#039;, o conjunto pode aparecer em muitos ambientes nos quais ocorre &#039;&#039;livros&#039;&#039;. O grupo possui, portanto, um núcleo que determina parte de sua distribuição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma construção é exocêntrica quando o conjunto não pertence à mesma classe de nenhum de seus componentes. Na análise bloomfieldiana do inglês, determinadas combinações de sujeito e predicado eram consideradas exocêntricas porque a frase completa não possuía a distribuição isolada do sujeito nem a do predicado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa classificação foi influente, mas sua aplicação depende da maneira como as classes e os ambientes são definidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Ambiguidade estrutural ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes permite representar alguns casos de ambiguidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;homens e mulheres jovens&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
pode receber, conforme o contexto, as estruturas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ homens ] e [ mulheres jovens ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ou:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
[ homens e mulheres ] [ jovens ]&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sequência linear é a mesma, mas os agrupamentos são diferentes. A ACI demonstrou que a descrição sintática precisa representar relações hierárquicas, e não apenas a ordem das palavras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Limitações da ACI ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes imediatos descreve de maneira eficiente muitas relações locais, mas enfrenta dificuldades com:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* dependências entre elementos distantes;&lt;br /&gt;
* construções descontínuas;&lt;br /&gt;
* relações entre frases ativas e passivas;&lt;br /&gt;
* interrogativas e relativas;&lt;br /&gt;
* elipses;&lt;br /&gt;
* ambiguidades que não resultam apenas de agrupamentos;&lt;br /&gt;
* generalizações entre construções formalmente distintas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas limitações estimularam o desenvolvimento de análises transformacionais, inclusive no interior da obra de Zellig Harris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Zellig Harris ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Trajetória intelectual ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Zellig Harris]] (1909–1992) foi o autor que levou mais longe a formalização do método distribucional. Sua obra não se limita, porém, ao distribucionalismo taxonômico frequentemente atribuído à linguística norte-americana. Harris desenvolveu sucessivamente análises fonológicas, morfológicas, sintáticas, transformacionais, discursivas e matemáticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em &#039;&#039;Methods in Structural Linguistics&#039;&#039;, de 1951, apresentou um conjunto sistemático de operações para a descrição linguística. O livro não pretendia oferecer uma teoria psicológica da linguagem nem explicar como os falantes produzem enunciados. Seu objetivo era mostrar como organizar os elementos de um corpus em uma descrição estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris distinguia os dados linguísticos de informações externas sobre significado, situação social ou processos mentais. A distribuição dos elementos no fluxo da fala constituía a relação central da análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Procedimentos de descoberta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os &#039;&#039;&#039;procedimentos de descoberta&#039;&#039;&#039; seriam operações explícitas por meio das quais o analista poderia passar de dados registrados a unidades e classes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre essas operações encontram-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* segmentar os enunciados;&lt;br /&gt;
* comparar partes recorrentes;&lt;br /&gt;
* estabelecer equivalências de ambiente;&lt;br /&gt;
* agrupar variantes;&lt;br /&gt;
* identificar morfemas;&lt;br /&gt;
* construir classes de morfemas;&lt;br /&gt;
* descrever sequências;&lt;br /&gt;
* reduzir construções a padrões;&lt;br /&gt;
* examinar relações entre tipos de frase.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses procedimentos não correspondiam necessariamente a etapas psicológicas realizadas pelo falante. Eram instrumentos para a construção de uma descrição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão “procedimentos mecânicos” pode ser enganosa. Harris buscava explicitude e controlabilidade, mas a análise dependia de decisões sobre a seleção dos dados, o grau de semelhança relevante, a delimitação dos segmentos e a formulação das classes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Equivalência de ambientes ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois elementos são distribucionalmente equivalentes quando aparecem em ambientes equivalentes. A noção permite substituir elementos em determinadas posições e construir classes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se as formas A, B e C podem aparecer entre X e Y, elas pertencem a uma classe relativamente ao ambiente X — Y:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
X A Y&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
X B Y&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
X C Y&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de uma língua inteira exige combinar grande número de ambientes e estabelecer diferentes graus de equivalência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Expansão ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma sequência pode ser considerada &#039;&#039;&#039;expansão&#039;&#039;&#039; de outra quando ocupa a mesma posição geral e preserva determinadas relações estruturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;A criança dormiu.&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;A criança cansada dormiu.&#039;&#039;&amp;lt;br&amp;gt;&lt;br /&gt;
&#039;&#039;A criança muito cansada dormiu.&#039;&#039;&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
as sequências mais longas podem ser analisadas como expansões de constituintes menores. A noção permite relacionar construções de diferentes extensões sem tratá-las como padrões inteiramente independentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Do morfema ao enunciado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris procurou descrever como classes de morfemas se combinam em sequências progressivamente maiores. As restrições de ocorrência permitem distinguir combinações possíveis, frequentes ou excluídas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise não partia necessariamente das categorias da gramática tradicional. Classes como N, V ou A poderiam surgir como abreviações para conjuntos de elementos com distribuições semelhantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Transformações em Harris ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1950, Harris desenvolveu a noção de &#039;&#039;&#039;transformação&#039;&#039;&#039; para relacionar conjuntos de frases que apresentavam correspondências sistemáticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma frase ativa e uma passiva, por exemplo, compartilham elementos e determinadas relações, embora exibam diferenças de ordem, morfologia e distribuição. Uma transformação descreve a correspondência entre os dois conjuntos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As transformações de Harris não eram inicialmente concebidas como operações mentais que gerassem uma frase a partir de outra. Eram relações formais estabelecidas entre classes de sentenças observadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa concepção exerceu influência sobre a primeira gramática gerativa de [[Noam Chomsky]], que foi aluno de Harris. Chomsky, entretanto, reinterpretou as transformações no interior de uma teoria formal da competência linguística e de um sistema gerativo capaz de enumerar as frases de uma língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Análise do discurso ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No artigo “Discourse Analysis”, de 1952, Harris estendeu procedimentos distribucionais para além da frase. Seu objetivo era investigar regularidades na distribuição de formas em sequências textuais e relacioná-las a situações recorrentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise agrupava elementos equivalentes e observava sua ocorrência em diferentes partes de um texto. Embora bastante diferente das correntes atuais de análise do discurso, o trabalho é frequentemente citado como uma das primeiras tentativas de formular um método linguístico explícito para unidades superiores à sentença.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sublinguagens e informação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas fases posteriores de sua obra, Harris estudou &#039;&#039;&#039;sublinguagens&#039;&#039;&#039;, isto é, variedades empregadas em domínios especializados, como a imunologia e outras ciências. Essas variedades apresentam vocabulário, construções e restrições distribucionais próprias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris procurou mostrar que a estrutura linguística poderia ser relacionada à organização da informação em áreas científicas. Esses trabalhos anteciparam problemas de extração de informação, linguística computacional e processamento de textos especializados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Níveis de análise ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os estruturalistas norte-americanos frequentemente organizavam a descrição em níveis:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# fonética;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# fonêmica;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# morfofonêmica;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# morfêmica;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
# sintaxe.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa ordenação expressava o princípio de que as unidades de um nível seriam construídas a partir das unidades do nível anterior. Os morfemas seriam compostos por fonemas; as construções sintáticas, por morfemas ou palavras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Separação de níveis ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;separação de níveis&#039;&#039;&#039; procurava garantir que uma análise não recorresse indevidamente a informações pertencentes a níveis posteriores. A fonologia, por exemplo, deveria ser estabelecida antes da morfologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O objetivo era impedir raciocínios circulares. Se o analista empregasse a estrutura morfológica para definir os fonemas e depois utilizasse os fonemas para definir os morfemas, a descrição poderia tornar-se logicamente inconsistente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na prática, a separação rígida mostrou-se difícil. Fenômenos fonológicos podem depender de fronteiras morfológicas; a identificação de morfemas pode exigir conhecimento sintático; diferenças de significado podem orientar a segmentação. Muitos linguistas posteriores passaram a admitir relações bidirecionais entre níveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Análise ascendente ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método distribucional costuma ser descrito como &#039;&#039;&#039;ascendente&#039;&#039;&#039;, pois parte de unidades menores e avança para unidades maiores:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
sons → fonemas → morfemas → palavras → constituintes → frases&lt;br /&gt;
&amp;lt;/blockquote&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa caracterização é válida como ideal de exposição, mas não reproduz inteiramente a prática da análise. O reconhecimento de segmentos menores depende frequentemente de recorrências observadas em unidades maiores. A análise real envolve movimentos em ambas as direções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O lugar da semântica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação do distribucionalismo com o significado é uma das questões mais debatidas de sua história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Restrição metodológica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os distribucionalistas procuravam evitar que interpretações semânticas intuitivas servissem como único fundamento para estabelecer unidades. Duas formas consideradas “semelhantes em significado” não pertencem necessariamente à mesma classe gramatical; duas construções formalmente equivalentes podem apresentar interpretações diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição oferecia critérios verificáveis e reproduzíveis. Em lugar de definir um substantivo como “nome de pessoa, lugar ou coisa”, podia-se caracterizá-lo pelos ambientes em que ocorre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Uso inevitável do significado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar desse ideal, o significado não desaparecia. Era utilizado para:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* distinguir formas homônimas;&lt;br /&gt;
* reconhecer que uma mudança sonora correspondia a uma diferença lexical;&lt;br /&gt;
* identificar morfemas;&lt;br /&gt;
* selecionar traduções;&lt;br /&gt;
* obter dados de informantes;&lt;br /&gt;
* decidir se dois enunciados eram diferentes;&lt;br /&gt;
* interpretar alternâncias e paradigmas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O próprio Harris admitia que informações semânticas podiam oferecer pistas para a segmentação, embora procurasse substituí-las por investigações distribucionais mais extensas sempre que possível.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Forma e significado em Harris ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Harris não sustentava necessariamente que o significado fosse inexistente ou irrelevante. Seu argumento metodológico era que uma parte substancial da estrutura linguística poderia ser descrita a partir das restrições de combinação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus trabalhos posteriores, as relações entre estrutura linguística e informação tornaram-se mais explícitas. A distribuição não era concebida apenas como técnica classificatória, mas como meio de revelar regularidades associadas ao conteúdo de domínios especializados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Behaviorismo e distribucionalismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A associação entre distribucionalismo e behaviorismo precisa ser tratada com cautela.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bloomfield adotou uma orientação mecanicista e foi influenciado por Watson. Alguns pós-bloomfieldianos compartilhavam a desconfiança em relação a explicações mentalistas. Entretanto, o método distribucional não decorre logicamente do behaviorismo e pode ser utilizado sem adesão a uma teoria comportamental da mente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Zellig Harris apresentou seus métodos principalmente como procedimentos formais de análise. Sua teoria não se reduz a um modelo de estímulo e resposta. A equivalência de ambientes, a segmentação e as transformações são relações entre formas linguísticas, não categorias da psicologia behaviorista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também não se deve identificar automaticamente Bloomfield com Skinner. A resenha crítica de Chomsky a &#039;&#039;Verbal Behavior&#039;&#039;, de Skinner, publicada em 1959, dirigia-se a uma teoria específica do comportamento verbal. Ela não constitui, por si só, uma refutação direta de toda a linguística bloomfieldiana ou de todos os métodos distribucionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Procedimentos de descoberta, apresentação e avaliação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A discussão sobre os procedimentos metodológicos tornou-se importante na transição para a gramática gerativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Procedimentos de descoberta ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um procedimento de descoberta deveria indicar como chegar dos dados à gramática. Parte da linguística pós-bloomfieldiana buscou tornar essa passagem explícita.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Procedimentos de apresentação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um procedimento de apresentação especifica como organizar e expor uma descrição depois que ela foi construída. Uma gramática pode ser rigorosa e explícita sem pretender reproduzir o caminho pelo qual o linguista a descobriu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Procedimentos de avaliação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um procedimento de avaliação permite comparar diferentes gramáticas compatíveis com os dados e selecionar a mais adequada segundo critérios de simplicidade, generalidade ou poder explicativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky argumentou que não seria realista esperar um algoritmo puramente mecânico de descoberta. O trabalho científico envolve formulação de hipóteses. A teoria linguística deveria, portanto, definir o formato das gramáticas possíveis e fornecer critérios para avaliá-las.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa crítica foi dirigida a certas interpretações do método estruturalista, mas a historiografia posterior observa que os próprios distribucionalistas nem sempre afirmavam possuir um algoritmo integral e automático.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Distribucionalismo e gramática gerativa ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Continuidade histórica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática gerativa surgiu no ambiente intelectual formado pela linguística estrutural norte-americana. Noam Chomsky estudou com Zellig Harris na Universidade da Pensilvânia e trabalhou inicialmente com métodos morfofonêmicos e transformacionais relacionados à tradição harrisiana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conceitos como constituência, transformação, representação formal, classe de equivalência e análise de sequências forneceram parte do vocabulário técnico a partir do qual a gramática gerativa se desenvolveu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Ruptura teórica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessa continuidade, Chomsky alterou o objeto e os objetivos da teoria linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para o distribucionalismo clássico, a descrição concentrava-se na organização de um corpus de enunciados. Para a gramática gerativa, o objeto central tornou-se o conhecimento linguístico que permite ao falante produzir e compreender um número potencialmente ilimitado de frases.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma gramática gerativa não deveria apenas classificar enunciados observados. Deveria especificar formalmente todas as frases bem formadas da língua e excluir as sequências malformadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Criatividade linguística ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A principal crítica gerativista dizia respeito à &#039;&#039;&#039;criatividade&#039;&#039;&#039; ou produtividade da linguagem. Os falantes produzem e compreendem frases que nunca ouviram anteriormente. Um corpus finito não pode conter todas as frases possíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A descrição de distribuições observadas seria, portanto, insuficiente para explicar o conhecimento que permite construir novas sentenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os distribucionalistas poderiam responder que seu objetivo era descritivo, e não psicológico. A força da crítica depende, assim, daquilo que se espera de uma teoria linguística: organizar dados, modelar a competência do falante ou explicar a aquisição e o processamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Gramaticalidade e frequência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma sequência pode ser gramatical mesmo que não apareça em determinado corpus. Inversamente, um corpus pode conter hesitações, erros, interrupções e construções marginais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chomsky argumentou que gramaticalidade não se confunde com frequência estatística. Frases improváveis ou semanticamente estranhas podem ser sintaticamente bem formadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica mostrou os limites de uma análise baseada exclusivamente na ocorrência. Entretanto, métodos distribucionais não precisam identificar possibilidade gramatical com frequência bruta. Restrições estruturais podem ser inferidas a partir de padrões, e modelos posteriores incorporaram diferentes graus de aceitabilidade e probabilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dependências de longa distância ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relações entre elementos distantes desafiam análises baseadas apenas em ambientes locais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em interrogativas, relativas e construções com concordância, uma unidade pode depender de outra separada por vários constituintes. A representação dessas relações exige mecanismos que ultrapassem a simples adjacência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática transformacional procurou representar essas correspondências por meio de estruturas abstratas e operações formais. As transformações de Chomsky diferiam das relações transformacionais inicialmente propostas por Harris, embora possuíssem ligação histórica com elas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura profunda e significado ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras versões da gramática gerativa procuraram relacionar estruturas sintáticas abstratas à interpretação e à forma fonética. Isso contrastava com o cuidado distribucionalista em não utilizar a semântica como fundamento da análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As teorias gerativas posteriores modificaram repetidamente a arquitetura dessas relações, mas mantiveram o objetivo de explicar o conhecimento estrutural do falante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas metodológicas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Circularidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para definir a distribuição de um elemento, é necessário ter identificado previamente o elemento e seu ambiente. Mas a identificação do elemento depende das distribuições observadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa interdependência pode produzir circularidade. Harris e outros autores procuraram controlá-la por meio de aproximações sucessivas, comparações de recorrências e reformulações da análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A crítica continua relevante: a segmentação não é uma operação neutra anterior à teoria, mas parte da construção teórica do objeto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dependência do analista ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A seleção dos dados, a escolha dos ambientes e a avaliação de semelhanças dependem do analista. Mesmo um método explícito não elimina inteiramente o julgamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tentativa de objetividade deve ser entendida como busca de decisões justificáveis e verificáveis, e não como remoção completa da interpretação científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Corpus finito ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nenhum corpus finito representa integralmente uma língua. Construções raras podem não aparecer, e a ausência não prova impossibilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse problema tornou-se central na crítica gerativista, mas também é reconhecido pela linguística de corpus contemporânea, que distingue ausência no corpus, baixa frequência e agramaticalidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sinonímia distribucional imperfeita ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Duas unidades semanticamente próximas raramente possuem distribuições idênticas. A substituição pode ser bloqueada por registro, colocação, prosódia, gênero textual ou preferência lexical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As classes distribucionais são, portanto, abstrações construídas segundo determinados critérios. Sua utilidade não depende de equivalência absoluta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Homonímia e polissemia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma mesma forma pode apresentar distribuições distintas em seus diferentes usos. O analista precisa decidir se há uma unidade polissêmica, vários itens homônimos ou subclasses relacionadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição pode oferecer evidências para a distinção, mas não resolve sozinha todos os problemas semânticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Descontinuidade ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Morfemas e construções podem ser descontínuos. Relações sintáticas podem atravessar constituintes, e uma mesma função pode ser expressa por combinações separadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A preferência inicial por segmentos lineares e contínuos dificultava a representação desses fenômenos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Variação linguística ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As primeiras descrições estruturalistas frequentemente buscavam um sistema relativamente homogêneo. A sociolinguística posterior mostrou que a variação se organiza segundo fatores sociais, estilísticos e interacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição de uma forma não depende apenas do ambiente fonológico ou sintático, mas também da comunidade, da situação, do gênero discursivo e da identidade dos participantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa crítica não torna o conceito de distribuição inútil; amplia os tipos de contexto que precisam ser considerados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Distribucionalismo e linguística de corpus ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A linguística de corpus compartilha com o distribucionalismo a valorização de dados atestados, recorrências e padrões de coocorrência. Há, contudo, diferenças importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os distribucionalistas clássicos trabalhavam geralmente com corpora muito menores e procuravam construir descrições categóricas. A linguística de corpus contemporânea emprega grandes bases digitais e métodos estatísticos para investigar frequência, associação, variação e probabilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conceitos como colocação, coligação e preferência semântica dependem da distribuição de formas em contextos. Uma palavra pode ser caracterizada pelas unidades com que tende a ocorrer, pelas construções que integra e pelos gêneros em que é frequente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A disponibilidade de corpora extensos mostrou que as distribuições linguísticas são frequentemente graduais. Duas palavras podem compartilhar parte de seus contextos, mas apresentar probabilidades muito diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Semântica distribucional ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;semântica distribucional&#039;&#039;&#039; contemporânea representa palavras e outras unidades por meio dos contextos em que aparecem. Seu princípio geral é frequentemente resumido pela ideia de que unidades empregadas em contextos semelhantes tendem a ter significados relacionados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formulação moderna possui antecedentes em Harris e em [[John Rupert Firth]]. Harris escreveu que a diferença de significado se relaciona à diferença de distribuição e investigou sublinguagens nas quais determinadas combinações formais correspondiam a regularidades informacionais. Firth, por sua vez, destacou a importância das companhias habituais de uma palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Matrizes de coocorrência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em um modelo distribucional, pode-se construir uma matriz na qual:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* as linhas representam palavras;&lt;br /&gt;
* as colunas representam contextos;&lt;br /&gt;
* os valores indicam frequência ou associação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Palavras com vetores semelhantes são consideradas próximas no espaço distribucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Espaços vetoriais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os modelos vetoriais permitem representar graus de semelhança. &#039;&#039;Cão&#039;&#039; pode aparecer próximo de &#039;&#039;gato&#039;&#039; por compartilhar contextos relativos a animais domésticos, alimentação, cuidados e comportamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A proximidade não equivale necessariamente a sinonímia. Antônimos também podem ocorrer em contextos semelhantes, e palavras relacionadas tematicamente podem aparecer próximas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Representações neurais ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Modelos neurais de linguagem e sistemas de aprendizado de máquina constroem representações a partir de grandes quantidades de dados. Essas representações preservam um princípio distribucional: propriedades das unidades são inferidas de seus padrões de ocorrência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os modelos contemporâneos diferem radicalmente dos métodos manuais dos anos 1940 e 1950 em escala, formalização matemática, objetivos e arquitetura. Ainda assim, demonstram a permanência da ideia de que a distribuição contém informações relevantes sobre a estrutura e o uso da língua.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Limites semânticos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A semântica distribucional enfrenta o problema de explicar aspectos do significado que não se encontram explicitamente nos padrões textuais, como referência, percepção, conhecimento enciclopédico, intenção e experiência corporal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distribuição oferece evidências importantes, mas não é necessariamente uma teoria completa do significado. Abordagens contemporâneas procuram combiná-la com informação visual, conhecimento estruturado, interação e contexto pragmático.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Linguística computacional ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo contribuiu direta e indiretamente para a linguística computacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Zellig Harris participou de pesquisas que relacionavam estrutura linguística, matemática e processamento de informação. Sua análise de sublinguagens influenciou métodos para extrair relações de textos científicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes forneceu uma base para representações sintáticas computacionais. Gramáticas livres de contexto, analisadores sintáticos e árvores de constituintes formalizaram aspectos que haviam sido identificados pela linguística estrutural, embora tenham sido desenvolvidos em quadros matemáticos e gerativos diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tarefas contemporâneas como etiquetagem morfossintática, indução de classes, reconhecimento de entidades, análise sintática e vetorização lexical utilizam regularidades distribucionais. Algoritmos podem inferir que uma forma tem comportamento nominal, verbal ou adjetival a partir dos contextos em que aparece.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Distribuição e aquisição da linguagem ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O papel das regularidades distribucionais na aquisição voltou a receber atenção em pesquisas psicolinguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Crianças podem utilizar a frequência e a posição dos sons para identificar limites de palavras, distinguir padrões fonotáticos e formar categorias preliminares. A ocorrência de palavras depois de determinantes ou antes de certos sufixos pode fornecer pistas para classes gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses resultados não demonstram que toda a linguagem seja aprendida exclusivamente por distribuição. A aquisição envolve interação social, percepção, significado, cognição, intenção comunicativa e possíveis predisposições específicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pesquisa contemporânea investiga como diferentes fontes de informação são combinadas. Nesse contexto, o legado distribucionalista aparece menos como teoria total da aquisição e mais como reconhecimento de que os padrões de ocorrência fornecem evidências estruturadas ao aprendiz.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Distribucionalismo, empirismo e racionalismo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A oposição entre distribucionalismo e gerativismo costuma ser apresentada como conflito entre empirismo e racionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os distribucionalistas enfatizavam dados observáveis, trabalho de campo e generalizações construídas a partir de corpora. Os gerativistas enfatizaram a estrutura interna da competência e as limitações da experiência disponível à criança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A oposição é útil, mas não absoluta. Bloomfield reconhecia que a ciência constrói conceitos abstratos; Harris empregava formalização matemática; Chomsky utilizava dados empíricos e julgamentos de falantes; e a gramática gerativa também desenvolveu métodos rigorosos de descrição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O contraste principal está nos objetivos explicativos e no estatuto atribuído às representações mentais. Para o distribucionalismo clássico, uma descrição estrutural podia ser válida sem constituir modelo psicológico. Para o gerativismo, a teoria gramatical deveria caracterizar um componente do conhecimento humano.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições permanentes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar das críticas, o distribucionalismo produziu contribuições duradouras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Explicitação dos critérios ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os distribucionalistas procuraram tornar explícitas as razões pelas quais uma unidade era reconhecida ou classificada. Essa preocupação contribuiu para afastar a linguística de definições vagas e puramente nocionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Descrição de línguas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os métodos de transcrição, segmentação e classificação permitiram descrever grande número de línguas. Muitos registros continuam sendo fontes indispensáveis para comunidades, pesquisadores e projetos de revitalização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre fonema e alofone, a distribuição complementar, a análise de contrastes e o estudo dos padrões fonotáticos permaneceram centrais, ainda que reinterpretados por teorias posteriores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de morfemas, alomorfes e alternâncias contribuiu para estabelecer a morfologia como área autônoma e metodologicamente rigorosa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura hierárquica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise de constituintes mostrou que as frases possuem organização hierárquica. As árvores sintáticas contemporâneas derivam de desenvolvimentos posteriores, mas preservam essa descoberta fundamental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formalização ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O interesse por procedimentos explícitos preparou o terreno para a formalização gramatical e para a linguística computacional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Distribuição como evidência ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo teorias que rejeitam o distribucionalismo como explicação completa utilizam dados distribucionais. A ocorrência, a substituição, a frequência e a combinação continuam sendo evidências essenciais para a análise.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fortuna crítica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Predomínio institucional ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre as décadas de 1930 e 1950, a linguística bloomfieldiana tornou-se a orientação predominante em muitos departamentos e publicações dos Estados Unidos. Sua ascensão relacionou-se ao prestígio de &#039;&#039;Language&#039;&#039;, à formação de pesquisadores, à Linguistic Society of America e às demandas por descrição e ensino de línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O programa era visto como exemplo de ciência empírica rigorosa. A linguística poderia afirmar sua autonomia em relação à filologia, à psicologia especulativa e à gramática normativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A imagem do “estruturalismo taxonômico” ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A gramática gerativa difundiu a expressão &#039;&#039;&#039;linguística taxonômica&#039;&#039;&#039; para caracterizar o estruturalismo norte-americano como atividade limitada à segmentação e classificação de dados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expressão chama atenção para limitações reais de algumas propostas, mas tende a homogeneizar trabalhos muito diferentes. Bloomfield tratou de mudança linguística, aquisição e significado; Harris desenvolveu transformações, análise do discurso e teoria da informação; Hockett discutiu gramática, comunicação e universais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia contemporânea evita definir toda a tradição apenas por aquilo que a gramática gerativa rejeitou.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A “revolução chomskiana” ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ascensão de Chomsky é frequentemente narrada como substituição rápida de um paradigma empirista inadequado por uma teoria mentalista superior. A mudança foi importante, mas ocorreu gradualmente e envolveu continuidades institucionais e conceituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sintaxe gerativa herdou problemas, técnicas e representações do estruturalismo norte-americano. A própria noção de transformação possuía antecedentes diretos em Harris, ainda que tenha recebido nova interpretação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A consolidação gerativista também dependeu de fatores institucionais, do desenvolvimento das ciências cognitivas, da lógica formal e da computação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Reavaliação historiográfica ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir das últimas décadas do século XX, historiadores da linguística passaram a reexaminar fontes primárias, correspondências, manuais e descrições. Essa pesquisa mostrou que muitas caracterizações tradicionais eram excessivamente esquemáticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os pontos revistos encontram-se:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* Bloomfield não eliminou inteiramente o significado;&lt;br /&gt;
* os procedimentos não eram sempre apresentados como algoritmos automáticos;&lt;br /&gt;
* Harris não se limitou à taxonomia;&lt;br /&gt;
* o behaviorismo não define todo o estruturalismo norte-americano;&lt;br /&gt;
* Sapir e Bloomfield representavam tendências distintas, mas interligadas;&lt;br /&gt;
* a gramática gerativa apresentou tanto ruptura quanto continuidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Crítica pós-colonial ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A documentação de línguas indígenas foi durante muito tempo narrada principalmente como empreendimento científico. Estudos recentes examinam também a participação das comunidades, as condições de coleta, a propriedade dos registros e os efeitos das políticas coloniais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descrições produzidas por estruturalistas podem possuir grande valor para revitalização linguística, mas os materiais precisam ser reavaliados em colaboração com as comunidades a que pertencem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa perspectiva amplia a história do distribucionalismo ao incluir falantes, intérpretes e colaboradores indígenas frequentemente invisibilizados nas publicações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Retorno dos métodos baseados em uso ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A expansão da linguística de corpus, da linguística baseada no uso e da aprendizagem de máquina renovou o interesse pelas distribuições observadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse retorno não significa simples restauração do programa pós-bloomfieldiano. Os modelos contemporâneos incorporam frequência, gradação, estatística, cognição e semântica em escalas que não estavam disponíveis aos primeiros distribucionalistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A permanência do princípio distribucional demonstra, contudo, que os padrões de ocorrência contêm informações importantes sobre categorias e relações linguísticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Avaliação geral ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O distribucionalismo não deve ser avaliado apenas como teoria ultrapassada pela gramática gerativa. Ele constituiu uma resposta historicamente situada a problemas concretos: como descrever línguas desconhecidas, como justificar unidades analíticas e como estabelecer uma linguística empiricamente controlável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu projeto mais ambicioso — derivar uma descrição completa por procedimentos predominantemente formais e independentes do significado — encontrou limites. A segmentação depende de hipóteses; os corpora são incompletos; a distribuição é frequentemente gradual; e significado, contexto e conhecimento do falante não podem ser inteiramente eliminados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, muitas de suas conquistas foram incorporadas à prática linguística geral. Linguistas de diferentes orientações continuam a:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* examinar distribuições;&lt;br /&gt;
* testar substituições;&lt;br /&gt;
* identificar contrastes;&lt;br /&gt;
* segmentar formas;&lt;br /&gt;
* agrupar variantes;&lt;br /&gt;
* representar constituintes;&lt;br /&gt;
* construir corpora;&lt;br /&gt;
* formular critérios explícitos;&lt;br /&gt;
* comparar análises concorrentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história do distribucionalismo mostra que método e teoria não são separáveis. A escolha dos dados, a definição dos ambientes e a classificação das unidades pressupõem concepções sobre o que é uma língua e sobre quais propriedades uma descrição deve explicar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ver também ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* [[Análise de constituintes imediatos]]&lt;br /&gt;
* [[Behaviorismo]]&lt;br /&gt;
* [[Estruturalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Estruturalismo norte-americano]]&lt;br /&gt;
* [[Fonema]]&lt;br /&gt;
* [[Fonologia]]&lt;br /&gt;
* [[Franz Boas]]&lt;br /&gt;
* [[Gramática gerativa]]&lt;br /&gt;
* [[Leonard Bloomfield]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística antropológica]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística de corpus]]&lt;br /&gt;
* [[Morfema]]&lt;br /&gt;
* [[Semântica distribucional]]&lt;br /&gt;
* [[Zellig Harris]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;references /&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fontes primárias ===&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
* MCENERY, Tony; HARDIE, Andrew. &#039;&#039;Corpus Linguistics: Method, Theory and Practice&#039;&#039;. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DEFAULTSORT:Distribucionalismo}}&lt;br /&gt;
[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Estruturalismo]]&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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[[Categoria:História da Linguística]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Recentes]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>201.54.52.52</name></author>
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		<title>Círculo Linguístico de Praga</title>
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&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&#039;&#039;&#039;Círculo Linguístico de Praga&#039;&#039;&#039; — em tcheco, &#039;&#039;Pražský lingvistický kroužek&#039;&#039;; em francês, &#039;&#039;Cercle linguistique de Prague&#039;&#039; — foi uma associação científica fundada em Praga, em 1926, por linguistas, filólogos, críticos literários, folcloristas e teóricos da literatura de diferentes nacionalidades. O grupo desempenhou papel central na constituição do [[estruturalismo]] europeu e na formulação de uma concepção funcional da linguagem, segundo a qual as unidades linguísticas devem ser estudadas como componentes de sistemas organizados para cumprir determinadas funções comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora seja frequentemente lembrado por suas contribuições à [[fonologia]], o Círculo de Praga não se limitou ao estudo dos sons da língua. Seus pesquisadores trabalharam também com sintaxe, morfologia, formação de palavras, semântica, estilística, tipologia linguística, teoria da língua literária, política linguística, poética, folclore, estética e semiótica. Entre os conceitos associados à tradição praguense encontram-se a oposição fonológica, o traço distintivo, a marcação, a neutralização, o arquifonema, a perspectiva funcional da frase, a estrutura tema–rema, a potencialidade dos fenômenos linguísticos, a diferenciação funcional das variedades de língua, a atualização estética e a função poética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Círculo não constituiu uma escola inteiramente homogênea. Seus membros compartilhavam certos princípios gerais, mas divergiam quanto à definição das unidades linguísticas, à natureza das funções da linguagem, à relação entre sincronia e diacronia e ao grau de formalização adequado à análise. A designação &#039;&#039;&#039;Escola de Praga&#039;&#039;&#039; refere-se, por isso, tanto à associação histórica criada em 1926 quanto a uma tradição intelectual mais ampla, desenvolvida por diferentes gerações de pesquisadores na Tchecoslováquia e em outros países.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contexto histórico e intelectual ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A formação do Círculo Linguístico de Praga deve ser situada no contexto político e cultural da Europa Central após a Primeira Guerra Mundial. A Tchecoslováquia, criada em 1918 com o desmembramento do Império Austro-Húngaro, reunia uma população linguisticamente heterogênea e procurava consolidar suas instituições científicas, educacionais e culturais. Praga tornou-se um importante centro de intercâmbio entre estudiosos tchecos, russos, alemães, austríacos, franceses e outros intelectuais europeus.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade recebeu, durante a década de 1920, numerosos emigrados provenientes do antigo Império Russo. Entre eles estavam pesquisadores ligados ao [[Círculo Linguístico de Moscou]], ao formalismo russo e aos novos estudos de poética e folclore. A presença desses intelectuais favoreceu o encontro entre diferentes tradições: a linguística histórico-comparativa centro-europeia, a reflexão de [[Ferdinand de Saussure]], a psicologia e a filosofia de [[Edmund Husserl]], [[Anton Marty]] e [[Karl Bühler]], o formalismo russo, a filologia eslava e a tradição funcional representada por autores como Georg von der Gabelentz, Henry Sweet, Hermann Paul, Philipp Wegener e Otto Jespersen.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O surgimento da Escola de Praga relaciona-se também à insatisfação com alguns pressupostos dos [[neogramáticos]]. Os neogramáticos haviam promovido grande desenvolvimento da linguística histórica, especialmente por meio da formulação de leis fonéticas e da reconstrução de línguas. Para os praguenses, entretanto, a concentração exclusiva em mudanças isoladas podia produzir uma visão atomista da língua. Era necessário compreender como cada mudança afetava o conjunto do sistema e como as unidades se organizavam em função das necessidades comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A leitura do &#039;&#039;Curso de Linguística Geral&#039;&#039;, atribuído a Saussure e publicado em 1916, ofereceu instrumentos decisivos para essa mudança de perspectiva. O princípio de que a língua constitui um sistema de valores definidos por relações e oposições foi amplamente incorporado pelo Círculo. Os praguenses, contudo, não aceitaram de maneira passiva todas as dicotomias saussurianas. Procuraram aproximar sincronia e diacronia, língua e fala, sistema e uso, estrutura e função.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fundação e organização ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira reunião que deu origem ao Círculo ocorreu em 6 de outubro de 1926. Nessa ocasião, o linguista alemão Henrik Becker, que visitava Praga, apresentou uma conferência a um pequeno grupo formado por [[Vilém Mathesius]], [[Roman Jakobson]], [[Bohuslav Havránek]], [[Bohumil Trnka]] e [[Jan Rypka]]. O encontro foi organizado por iniciativa de Mathesius, que se tornaria o primeiro presidente da associação e permaneceria no cargo até sua morte, em 1945.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reunião de 1926 não representou o início absoluto das ideias posteriormente identificadas com a Escola de Praga. Mathesius já vinha desenvolvendo, desde o início do século XX, uma concepção sincrônica e funcional da língua. Em seu estudo de 1911 sobre a potencialidade dos fenômenos linguísticos, argumentara que a língua não devia ser considerada um mecanismo absolutamente uniforme: apresentava oscilações, tendências e possibilidades coexistentes. Jakobson, por sua vez, trouxera para Praga a experiência do Círculo Linguístico de Moscou e do formalismo russo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O grupo passou a promover reuniões regulares, em geral organizadas em torno de conferências seguidas de debates. O formato das sessões favorecia a discussão coletiva e a confrontação entre perspectivas. Além dos membros residentes em Praga, participavam pesquisadores de outras cidades e países, pessoalmente ou por colaboração editorial. O Círculo constituiu-se, assim, como uma rede internacional, e não apenas como uma associação local.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os pesquisadores que participaram das atividades ou mantiveram colaboração estreita com o grupo estavam Nikolai Trubetzkoy, Sergei Karcevski, Petr Bogatyrev, Jan Mukařovský, Josef Vachek, Vladimír Skalička, Pavel Trost, René Wellek, Dmitri Tchijevsky, Jiří Veltruský, František Trávníček, Jan Kořínek, André Martinet, Lucien Tesnière e Aleksandr Isačenko. Também houve intercâmbio com representantes da Escola de Genebra, como Charles Bally e Albert Sechehaye, e com linguistas como Louis Hjelmslev, Jerzy Kuryłowicz e Alf Sommerfelt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A língua de circulação internacional mais utilizada nas primeiras publicações foi o francês. A adoção do francês permitia que trabalhos produzidos em Praga alcançassem pesquisadores de diferentes países. Textos também eram publicados em tcheco, alemão, russo e outras línguas, característica que expressava a composição multinacional do Círculo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As &#039;&#039;Teses de 1929&#039;&#039; ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro documento programático de grande alcance do Círculo foi apresentado ao Primeiro Congresso Internacional de Filólogos Eslavos, realizado em Praga em 1929. Conhecido como &#039;&#039;&#039;Teses do Círculo Linguístico de Praga&#039;&#039;&#039; ou simplesmente &#039;&#039;&#039;Teses de 1929&#039;&#039;&#039;, o texto foi publicado em francês no primeiro volume dos &#039;&#039;Travaux du Cercle Linguistique de Prague&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;Teses&#039;&#039; constituem uma obra coletiva. Não devem ser lidas como exposição integral do pensamento de um único autor, mas como formulação de um programa de pesquisa comum. O documento tratava da natureza e do método da linguística, das tarefas do estudo dos sistemas eslavos, da língua literária, da poética e de problemas de descrição fonológica e gramatical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira tese define a língua como um sistema funcional. A atividade linguística aparece como orientada para uma finalidade: os falantes empregam meios linguísticos para produzir compreensão, expressão, interação e outros efeitos. A análise deve, portanto, relacionar os meios disponíveis no sistema às funções que desempenham.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa concepção não implica que toda forma linguística tenha sido conscientemente criada para uma finalidade precisa. O funcionalismo praguense é predominantemente metodológico: ao investigar uma unidade, o linguista pergunta que papel ela exerce na organização do sistema e na comunicação. Uma distinção fonológica, uma construção sintática ou uma escolha lexical são examinadas segundo sua capacidade de diferenciar significados, organizar informações, caracterizar estilos ou atender a determinadas situações comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;Teses&#039;&#039; também rejeitam a separação absoluta entre sincronia e diacronia. O estado de uma língua é resultado de processos históricos, mas a mudança não pode ser entendida como simples sucessão de fatos isolados. Uma alteração adquire importância linguística quando modifica relações no interior do sistema. Ao mesmo tempo, um sistema sincrônico contém elementos de diferentes idades, tendências emergentes, resíduos de fases anteriores e possibilidades de transformação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro princípio importante é a comparação estrutural. Em vez de comparar apenas formas historicamente cognatas, a linguística poderia confrontar sistemas para identificar semelhanças e diferenças em sua organização. Essa orientação contribuiu para o desenvolvimento da tipologia linguística e da caracterologia das línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As seções dedicadas à língua literária afirmavam que a variedade padrão devia ser estudada segundo as funções sociais e culturais que desempenhava. A estabilidade era necessária para assegurar continuidade e inteligibilidade, mas a língua literária também precisava de flexibilidade para responder a novas exigências científicas, administrativas, artísticas e cotidianas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na parte referente à linguagem poética, as &#039;&#039;Teses&#039;&#039; defendiam que os procedimentos literários não fossem tratados como simples ornamentação acrescentada a um conteúdo previamente constituído. Na poesia, os elementos linguísticos — sons, ritmos, paralelismos, construções sintáticas e relações semânticas — adquirem organização particular e tornam-se perceptíveis como componentes da própria mensagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Princípios teóricos gerais ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Língua como sistema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para os praguenses, uma língua não é um inventário de elementos independentes, mas um conjunto organizado de relações. Uma unidade só pode ser descrita adequadamente quando se determina sua posição no sistema. Um som, por exemplo, não funciona como fonema em razão de suas propriedades físicas isoladas, mas por se opor a outros sons e participar da distinção entre unidades significativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa concepção é estrutural porque atribui primazia às relações. É funcional porque relaciona essas estruturas às tarefas cumpridas pela linguagem. O estruturalismo e o funcionalismo não constituem, na Escola de Praga, orientações incompatíveis: a estrutura é considerada uma organização de meios funcionalmente diferenciados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sistema linguístico não é concebido como inteiramente fechado ou estático. Mathesius falava em potencialidade; Jakobson e Trubetzkoy investigavam a reorganização dos sistemas fonológicos; Havránek analisava a diferenciação das variedades segundo suas funções; membros posteriores da tradição praguense desenvolveram noções de centro e periferia. Em todos esses casos, o sistema aparece como relativamente estável, mas internamente heterogêneo e historicamente transformável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Estrutura e função ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção de função assume sentidos diferentes nos trabalhos praguenses. Pode designar a finalidade geral da linguagem na comunicação; a contribuição de uma unidade para a distinção de significados; o papel desempenhado por um elemento em uma estrutura maior; ou ainda uma modalidade específica de uso, como a função estética, científica, prática ou expressiva.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na fonologia, um traço é funcional quando participa de uma oposição capaz de distinguir unidades. Na sintaxe, a ordem dos constituintes pode exercer a função de distribuir informação conhecida e nova. Na teoria da língua literária, diferentes recursos respondem às exigências de diferentes esferas sociais. Na poética, certos procedimentos concentram a atenção na organização material e formal da mensagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A diversidade desses empregos explica por que não existe uma única definição de funcionalismo válida para todos os membros do Círculo. O que os aproxima é a recusa de descrever formas sem considerar sua inserção em totalidades organizadas e em práticas comunicativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sincronia e diacronia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Saussure distinguira a análise sincrônica, voltada a um estado de língua, da análise diacrônica, dedicada às mudanças. Os praguenses aceitaram a utilidade metodológica da distinção, mas criticaram sua transformação em separação absoluta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jakobson sustentou que as mudanças fonológicas precisam ser compreendidas estruturalmente. Quando um fonema desaparece, se divide ou modifica seu campo de realização, as consequências atingem as oposições que constituem o sistema. A história de uma língua é, desse ponto de vista, uma sucessão de reorganizações estruturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A análise sincrônica também deve reconhecer a presença de variação e de tendências. Formas antigas e recentes podem coexistir; uma oposição pode ter rendimento diferente em setores do vocabulário; uma construção pode estar em expansão ou retração. Sincronia não equivale, portanto, a imobilidade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Oposição e valor ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conceito de oposição é central na tradição praguense. Uma unidade linguística possui valor porque se distingue de outras unidades. Em fonologia, uma oposição pode contrastar segmentos sonoros; em morfologia, categorias como singular e plural, presente e passado ou nominativo e acusativo; no léxico, termos relacionados por contraste; na poética, séries paralelas de elementos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As oposições não são necessariamente simétricas. Uma forma pode apresentar uma propriedade que outra não apresenta. Esse tipo de relação tornou-se especialmente importante na teoria da marcação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Marcação ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria da marcação foi elaborada principalmente nos trabalhos de Trubetzkoy e Jakobson. Em uma oposição privativa, um dos termos apresenta determinada propriedade, enquanto o outro não a apresenta. O primeiro é denominado &#039;&#039;&#039;marcado&#039;&#039;&#039;; o segundo, &#039;&#039;&#039;não marcado&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na fonologia, uma consoante sonora pode ser marcada pela presença de sonoridade em oposição a uma consoante não sonora. A aplicação da marcação, porém, não se limitou aos sons. Jakobson estendeu o princípio a categorias gramaticais e semânticas. Em certos contextos, o termo não marcado pode possuir distribuição mais ampla e ser empregado sem que a propriedade contrastiva esteja explicitamente em questão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção tornou-se influente em diferentes correntes linguísticas, mas também recebeu interpretações variadas. Marcação formal, frequência, complexidade, neutralidade semântica e ordem de aquisição nem sempre coincidem. A literatura posterior mostrou que é necessário distinguir esses critérios, em vez de supor que todo termo não marcado seja simultaneamente mais simples, mais frequente e adquirido mais cedo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Centro e periferia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre centro e periferia foi desenvolvida de maneira mais sistemática por gerações posteriores da Escola de Praga. O sistema linguístico não apresenta o mesmo grau de regularidade em todas as suas áreas. Algumas unidades integram o núcleo produtivo e estável da língua; outras ocupam posições marginais, apresentam distribuição restrita ou combinam propriedades de categorias diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A periferia não constitui um depósito de exceções sem relevância teórica. Pode revelar zonas de transição, mudanças em curso, contatos entre subsistemas e limites das classificações. A perspectiva centro–periferia permite substituir modelos rigidamente binários por descrições graduais sem abandonar a ideia de estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Principais integrantes ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Vilém Mathesius ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Vilém Mathesius]] (1882–1945) foi o principal articulador da fundação do Círculo e seu primeiro presidente. Professor de língua e literatura inglesas na Universidade Carolina, desenvolveu uma concepção funcional da linguagem antes mesmo da formação da associação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu estudo sobre a potencialidade dos fenômenos linguísticos, publicado em 1911, contestava a ideia de que a língua de uma comunidade fosse completamente uniforme. Mathesius observava oscilações na fala de indivíduos e grupos e defendia que essas variações integravam a própria realidade linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mathesius trabalhou com análise contrastiva, caracterologia linguística, sintaxe e organização informacional da frase. Distinguiu a divisão formal da oração, baseada em categorias gramaticais, de sua divisão atual ou comunicativa. Nesta última, a frase organiza-se segundo aquilo de que se fala e aquilo que se afirma a respeito. Essa proposta tornou-se uma das bases da perspectiva funcional da frase.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Roman Jakobson ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Roman Jakobson]] (1896–1982) foi um dos principais responsáveis pela articulação entre o formalismo russo, o Círculo de Moscou e a Escola de Praga. Sua produção abrangeu fonologia, morfologia, aquisição da linguagem, afasia, poética, folclore, comunicação e semiótica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No período praguense, Jakobson investigou a estrutura dos sistemas fonológicos, as mudanças sonoras, as correlações de traços distintivos e a aplicação da marcação a categorias linguísticas. Em colaboração com Trubetzkoy, ajudou a consolidar a fonologia como disciplina voltada à função distintiva dos sons.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após deixar a Tchecoslováquia em consequência da ocupação nazista, Jakobson passou pela Escandinávia e, posteriormente, estabeleceu-se nos Estados Unidos. Ali colaborou com pesquisadores como Morris Halle e Claude Lévi-Strauss e contribuiu para a difusão internacional de princípios praguenses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu modelo das funções da linguagem, formulado de maneira madura no período norte-americano, distingue funções referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e poética. Embora essa formulação seja posterior ao período clássico do Círculo, prolonga a concepção funcional desenvolvida em Praga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Nikolai Trubetzkoy ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Nikolai Trubetzkoy]] (1890–1938), linguista russo radicado em Viena, manteve colaboração intensa com o Círculo, embora não residisse permanentemente em Praga. Sua obra mais conhecida, &#039;&#039;Grundzüge der Phonologie&#039;&#039;, publicada postumamente em 1939, sistematizou princípios fundamentais da fonologia estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trubetzkoy distinguiu fonética e fonologia, formulou procedimentos para identificação de fonemas, classificou tipos de oposição e desenvolveu os conceitos de neutralização e arquifonema. Também trabalhou com morfonologia, entendida como estudo das relações entre estrutura fonológica e estrutura morfológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A correspondência entre Trubetzkoy e Jakobson documenta tanto a cooperação quanto as divergências entre ambos. A fonologia praguense não deve, por isso, ser apresentada como construção individual ou como doutrina plenamente consensual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sergei Karcevski ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Sergei Karcevski]] (1884–1955) participou da circulação das ideias saussurianas entre Genebra, Moscou e Praga. Seu trabalho sobre a natureza assimétrica do signo linguístico teve importância para a compreensão da relação entre forma e significado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo Karcevski, o signo precisa apresentar relativa estabilidade para funcionar socialmente, mas também flexibilidade suficiente para ser aplicado a novas situações. A forma pode adquirir novos sentidos, e um mesmo conteúdo pode ser expresso por diferentes formas. Essa assimetria impede que o sistema linguístico seja reduzido a correspondências fixas e biunívocas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bohuslav Havránek ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Bohuslav Havránek]] (1893–1978) contribuiu para a dialetologia, a linguística eslava, a teoria da língua literária e a política linguística. Foi um dos principais responsáveis pela aplicação do funcionalismo ao estudo da variedade padrão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Havránek distinguiu diferentes formas de uso da língua conforme suas funções sociais. A língua literária não seria uma variedade naturalmente superior, mas um sistema historicamente elaborado para responder a necessidades culturais complexas. Sua relativa estabilidade, sua codificação e sua diferenciação estilística relacionam-se às funções que desempenha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No estudo da linguagem literária, Havránek diferenciou &#039;&#039;&#039;automatização&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;atualização&#039;&#039;&#039;. A automatização ocorre quando os recursos linguísticos são empregados de modo habitual e pouco perceptível. A atualização torna uma expressão especialmente saliente, rompendo expectativas e chamando atenção para sua forma. Essa distinção foi importante para a teoria praguense da linguagem poética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jan Mukařovský ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Jan Mukařovský]] (1891–1975) foi uma das figuras centrais do estruturalismo estético e da semiótica de Praga. Aplicou princípios relacionais ao estudo da literatura e das artes, analisando a obra como signo e como estrutura inserida em normas e valores sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Mukařovský, a função estética não se restringe a objetos convencionalmente classificados como arte. Ela pode aparecer em diferentes práticas, embora adquira predominância particular na obra artística. O valor estético não é propriedade imutável do objeto, pois depende de normas coletivas historicamente variáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua teoria da atualização descreve a linguagem poética como reorganização dos recursos linguísticos. Na comunicação prática, as formas tendem a tornar-se transparentes em relação ao referente; na poesia, os signos e suas relações tornam-se perceptíveis. Isso não significa que a poesia seja desprovida de referência, mas que a organização da mensagem adquire peso especial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Bohumil Trnka ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Bohumil Trnka]] (1895–1984), anglicista e linguista, participou da reunião inaugural do Círculo. Trabalhou com fonologia, morfologia, sintaxe, estatística linguística e história da língua inglesa. Seus estudos contribuíram para a caracterologia das línguas e para a análise quantitativa de estruturas fonológicas e lexicais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trnka teve também papel importante na continuidade da tradição praguense durante os períodos em que a associação não pôde funcionar regularmente. Em torno dele e de Josef Vachek manteve-se um núcleo dedicado à linguística funcional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Josef Vachek ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Josef Vachek]] (1909–1996) integrou a geração mais jovem do período clássico e tornou-se um dos principais historiadores e divulgadores da Escola de Praga. Trabalhou especialmente com fonologia, língua escrita, grafemática e contraste entre sistemas linguísticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vachek criticou a ideia de que a escrita fosse apenas transcrição secundária da fala. Para ele, língua falada e língua escrita constituem normas funcionalmente diferenciadas, dotadas de recursos próprios. A escrita pode explorar segmentação gráfica, pontuação, disposição espacial e convenções que não possuem correspondência direta com elementos da fala.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas antologias, dicionários terminológicos e estudos históricos foram decisivos para a preservação e a difusão internacional da produção do Círculo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Vladimír Skalička ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Vladimír Skalička]] (1909–1991) destacou-se no campo da tipologia linguística. Em vez de classificar as línguas em tipos rígidos e mutuamente exclusivos, propôs tipos ideais definidos por conjuntos de propriedades correlacionadas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma língua concreta pode combinar características de diferentes tipos. Os tipos aglutinante, flexional, isolante, polissintético e introflexivo funcionam, assim, como construções analíticas. A proposta tornou possível descrever tendências estruturais sem reduzir a diversidade das línguas a categorias estanques.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Petr Bogatyrev ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Petr Bogatyrev]] (1893–1971) trabalhou com folclore, teatro popular, etnografia e semiótica. Sua colaboração com Jakobson contribuiu para tratar os fatos folclóricos como fenômenos coletivos regulados por convenções, e não como simples criações individuais transmitidas passivamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bogatyrev analisou roupas, rituais, teatro e costumes como sistemas de signos. Seus trabalhos ajudaram a ampliar o método estrutural-funcional para além da linguagem verbal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== René Wellek ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[René Wellek]] (1903–1995), crítico e historiador da literatura, participou das atividades do Círculo antes de desenvolver sua carreira nos Estados Unidos. Manteve diálogo com a fenomenologia, o formalismo e o estruturalismo de Praga.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wellek tornou-se conhecido internacionalmente por trabalhos de teoria literária e literatura comparada. Sua trajetória ilustra a difusão das ideias centro-europeias em instituições acadêmicas anglófonas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Lucien Tesnière ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Lucien Tesnière]] (1893–1954), linguista francês que lecionou em Liubliana e Estrasburgo, manteve vínculos com o Círculo. Sua sintaxe estrutural, embora possua desenvolvimento próprio, compartilhava com os praguenses a tentativa de construir para a sintaxe uma análise relacional comparável àquela realizada pela fonologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Tesnière descreveu a frase como estrutura de dependências organizada em torno do verbo. Sua teoria da valência examina o número e o tipo de participantes requeridos por um predicado. A obra &#039;&#039;Éléments de syntaxe structurale&#039;&#039;, publicada postumamente em 1959, tornou-se referência para as gramáticas de dependência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fonética e fonologia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A distinção entre fonética e fonologia é uma das contribuições mais conhecidas da Escola de Praga. A fonética estuda os sons em suas propriedades articulatórias, acústicas e perceptivas. A fonologia investiga como diferenças sonoras são utilizadas no sistema de uma língua para distinguir unidades significativas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa separação não implica ausência de relação entre as disciplinas. A fonologia depende de dados fonéticos, mas seleciona apenas as propriedades relevantes para a organização linguística. Duas realizações acusticamente diferentes podem funcionar como variantes de um mesmo fonema; diferenças relativamente pequenas podem, em outra língua, sustentar uma oposição funcional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fonema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O fonema é definido por sua posição em um sistema de oposições. Não corresponde simplesmente a um som material nem a uma imagem psicológica isolada. Constitui uma unidade abstrata cuja função principal é diferenciar significados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A identificação de fonemas envolve a investigação das possibilidades de contraste. Quando a substituição de um segmento por outro produz diferença entre palavras ou formas gramaticais, há indício de oposição fonológica. A análise também precisa considerar distribuição, variação contextual e neutralização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Oposições fonológicas ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trubetzkoy propôs diferentes classificações das oposições. Quanto à relação entre seus membros, distinguiu oposições:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;privativas&#039;&#039;&#039;, em que um membro possui determinada propriedade e o outro não;&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;graduais&#039;&#039;&#039;, em que os membros apresentam diferentes graus de uma propriedade;&lt;br /&gt;
* &#039;&#039;&#039;equipolentes&#039;&#039;&#039;, em que cada membro possui características positivas próprias, sem que a relação possa ser reduzida à presença ou ausência de um único traço.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As oposições também podem ser classificadas conforme sua relação com o sistema total e conforme sua estabilidade em diferentes contextos. Essas classificações procuravam descrever não apenas os segmentos, mas a arquitetura dos inventários fonológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Neutralização e arquifonema ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma oposição existente em determinados contextos pode deixar de funcionar em outros. Esse fenômeno é denominado &#039;&#039;&#039;neutralização&#039;&#039;&#039;. Em posição de neutralização, a diferença entre dois fonemas não é utilizada para distinguir significados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trubetzkoy chamou de &#039;&#039;&#039;arquifonema&#039;&#039;&#039; o conjunto de propriedades comuns aos membros de uma oposição neutralizada. O conceito permitia representar a suspensão contextual de um contraste sem identificar automaticamente o resultado com um dos fonemas envolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria do arquifonema foi posteriormente discutida e reformulada por diferentes correntes. Mesmo onde a terminologia não foi preservada, a análise da neutralização permaneceu central para a fonologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Traços distintivos ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jakobson desenvolveu progressivamente a concepção de que os fonemas podem ser decompostos em propriedades contrastivas. Em trabalhos posteriores, realizados com Gunnar Fant e Morris Halle, os traços distintivos foram apresentados como componentes binários e relacionados a propriedades acústicas e articulatórias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria dos traços teve grande impacto sobre a fonologia estrutural e a fonologia gerativa. As listas e definições de traços foram modificadas ao longo do tempo, mas permaneceu o princípio de que os segmentos não são unidades indivisíveis: organizam-se por combinações de propriedades que participam de oposições.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Morfonologia ===&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A morfonologia estuda a interação entre estrutura fonológica e estrutura morfológica, especialmente as alternâncias que ocorrem em paradigmas e processos de formação de palavras. Trubetzkoy empregou o termo para designar um campo que examinaria a composição fonológica dos morfemas, suas combinações e as alternâncias com função morfológica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O desenvolvimento posterior da morfofonêmica e de teorias fonológicas não lineares retomou muitos desses problemas, embora com instrumentos diferentes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Morfologia, léxico e formação de palavras ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A produção praguense em morfologia é menos conhecida internacionalmente que sua fonologia, mas constitui parte importante da tradição. A análise morfológica aplicou os conceitos de oposição, marcação e função às categorias gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jakobson examinou os casos gramaticais das línguas eslavas como sistemas estruturados. Em vez de atribuir a cada caso uma lista de usos independentes, procurou formular significados gerais capazes de explicar suas diferentes ocorrências. Essa busca por invariantes semânticas influenciou estudos posteriores de categorias gramaticais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria da formação de palavras foi desenvolvida especialmente por Miloš Dokulil. Sua abordagem onomasiológica partia das categorias conceituais e das necessidades de nomeação para investigar os processos derivacionais disponíveis em uma língua. A formação lexical era analisada como interação entre estrutura semântica, forma morfológica e função denominativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Josef Filipec e outros pesquisadores desenvolveram estudos de lexicologia e lexicografia segundo princípios estruturais e funcionais. O léxico era compreendido como sistema complexo, marcado por relações de sinonímia, antonímia, hiperonímia, polissemia e diferenciação estilística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Perspectiva funcional da frase ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;perspectiva funcional da frase&#039;&#039;&#039; é uma das principais contribuições praguenses para a sintaxe e para o estudo da organização informacional. Sua origem encontra-se na distinção proposta por Mathesius entre a estrutura gramatical da frase e sua divisão comunicativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma frase pode ser analisada segundo sujeito, predicado, objetos e complementos, mas também segundo a maneira como apresenta informação em um contexto. Mathesius distinguiu o &#039;&#039;&#039;ponto de partida&#039;&#039;&#039; do enunciado daquilo que se afirma sobre ele. A tradição posterior empregou frequentemente os termos &#039;&#039;&#039;tema&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;rema&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O tema costuma relacionar-se ao elemento contextualizado ou tomado como base da comunicação. O rema apresenta a contribuição informativa principal do enunciado. Tema não equivale necessariamente a sujeito gramatical, nem rema a predicado. A correspondência depende da ordem das palavras, da entoação, da construção sintática e do contexto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
František Daneš desenvolveu o estudo da progressão temática, isto é, das maneiras pelas quais os temas e remas se encadeiam em sequências textuais. Um rema pode tornar-se tema do enunciado seguinte; diferentes frases podem compartilhar um tema constante; temas particulares podem derivar de um hipertema mais geral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jan Firbas introduziu o conceito de &#039;&#039;&#039;dinamismo comunicativo&#039;&#039;&#039;. Os elementos de uma frase apresentam diferentes graus de contribuição para o avanço da comunicação. O dinamismo resulta da interação entre contexto, semântica, estrutura linear e, na fala, entoação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A perspectiva funcional da frase antecipou problemas posteriormente estudados pela linguística textual, pela pragmática e pelas teorias da estrutura informacional. Sua terminologia varia entre autores, e as correspondências com conceitos como tópico, foco, dado e novo não são exatas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua padrão, cultura linguística e diferenciação funcional ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os membros do Círculo participaram ativamente de debates sobre a língua tcheca padrão. A criação da Tchecoslováquia aumentara a necessidade de empregar o tcheco em administração, ciência, ensino, imprensa e vida pública. Surgiram controvérsias entre orientações puristas, que procuravam eliminar formas consideradas inadequadas ou estrangeiras, e propostas favoráveis a uma avaliação funcional do uso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Havránek, Mathesius e outros praguenses argumentaram que a correção não deveria ser definida apenas pela antiguidade de uma forma ou por sua origem. Era necessário observar a norma efetivamente estabilizada, a inteligibilidade, a produtividade e a adequação às funções da língua padrão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;norma&#039;&#039;&#039; corresponde ao conjunto de regularidades aceitas por uma comunidade, enquanto a &#039;&#039;&#039;codificação&#039;&#039;&#039; consiste na descrição e sistematização dessas regularidades em gramáticas, dicionários e manuais. A codificação pode influenciar a norma, mas não deve ser confundida com ela nem tratada como fonte autônoma de todos os usos legítimos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A língua padrão caracteriza-se por relativa estabilidade, mas também por diferenciação. Uma comunidade moderna necessita de recursos para comunicação cotidiana, produção científica, administração, jornalismo, literatura e outras esferas. Cada domínio favorece determinadas escolhas lexicais, sintáticas e textuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conceito de &#039;&#039;&#039;cultura linguística&#039;&#039;&#039; designa a reflexão sobre o desenvolvimento e o uso eficiente da língua. Em sua formulação praguense, não se tratava apenas de conservar formas tradicionais, mas de promover recursos adequados às necessidades sociais. Essa orientação exerceu influência sobre políticas linguísticas e processos de padronização em diferentes países.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A abordagem recebeu também críticas. A intervenção institucional sobre a língua pode transformar-se em prescrição excessiva, e a identificação entre língua padrão e necessidades coletivas pode ocultar conflitos sociais. Estudos sociolinguísticos posteriores chamaram atenção para relações de poder, desigualdade e estigmatização que não ocupavam o centro de muitas formulações clássicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Linguagem poética e função estética ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria literária praguense desenvolveu-se em diálogo com o formalismo russo, mas ampliou sua atenção para a dimensão social, histórica e semiótica da obra. A literatura passou a ser tratada como sistema de normas e procedimentos em transformação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na linguagem prática, os signos tendem a atuar como meios relativamente transparentes de referência. Na linguagem poética, a organização do próprio signo torna-se mais perceptível. Sons, repetições, paralelismos, ritmos, figuras e desvios de expectativa adquirem função estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção de &#039;&#039;&#039;atualização&#039;&#039;&#039; aproxima-se do conceito formalista de estranhamento, mas não é idêntica a ele. Um recurso atualizado destaca-se em relação a uma norma de fundo. Como as normas mudam, um procedimento inicialmente inovador pode automatizar-se, enquanto formas antes comuns podem adquirir novo valor estético.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mukařovský definiu a obra de arte como signo autônomo, sem com isso negar sua relação com a realidade social. A autonomia refere-se ao modo particular de organização e significação da obra, não ao isolamento absoluto em relação à história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A função estética pode entrar em relação com funções práticas, religiosas, políticas ou informativas. Em uma obra artística, ela tende a ocupar posição dominante, reorganizando as demais. O conceito de dominância, associado também a Jakobson, descreve o componente que governa e transforma a hierarquia interna de uma estrutura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O modelo funcional da comunicação ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O conhecido modelo de comunicação de Jakobson foi apresentado em sua forma mais difundida em 1960, depois do período clássico do Círculo, mas sistematiza preocupações presentes na tradição praguense.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jakobson relacionou seis fatores da comunicação a seis funções predominantes:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* ao &#039;&#039;&#039;contexto&#039;&#039;&#039;, a função referencial;&lt;br /&gt;
* ao &#039;&#039;&#039;remetente&#039;&#039;&#039;, a função emotiva;&lt;br /&gt;
* ao &#039;&#039;&#039;destinatário&#039;&#039;&#039;, a função conativa;&lt;br /&gt;
* ao &#039;&#039;&#039;contato&#039;&#039;&#039;, a função fática;&lt;br /&gt;
* ao &#039;&#039;&#039;código&#039;&#039;&#039;, a função metalinguística;&lt;br /&gt;
* à &#039;&#039;&#039;mensagem&#039;&#039;&#039;, a função poética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um enunciado raramente realiza apenas uma função. O que varia é a hierarquia entre elas. Uma ordem pode apresentar predominância conativa; uma definição, predominância metalinguística; uma saudação, predominância fática; um poema, predominância poética.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação. Isso significa que semelhanças, contrastes, paralelismos e recorrências entre unidades escolhidas passam a organizar a sequência. A fórmula não reduz a poesia à repetição sonora, pois pode envolver estruturas gramaticais, semânticas e rítmicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O modelo tornou-se amplamente utilizado no ensino, mas sofreu simplificações. As funções não devem ser entendidas como tipos mutuamente exclusivos de texto, nem como etiquetas determinadas apenas pela intenção psicológica do falante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Tipologia e caracterologia linguística ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Escola de Praga contribuiu para a renovação da tipologia. A comparação entre línguas não se limitava à genealogia, mas examinava soluções estruturais oferecidas para problemas semelhantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mathesius empregou a expressão &#039;&#039;&#039;caracterologia linguística&#039;&#039;&#039; para designar a descrição dos traços estruturais característicos de uma língua. Essa abordagem teve importância para a comparação entre tcheco, inglês, alemão e outras línguas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Skalička elaborou uma tipologia baseada em tipos ideais. Cada tipo reúne propriedades que tendem a ocorrer conjuntamente. O tipo aglutinante, por exemplo, associa-se a determinadas relações entre morfema, palavra, paradigma e sintaxe. Nenhuma língua precisa realizar integralmente um tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A tipologia praguense rejeita a hierarquização evolucionista das línguas. Tipos diferentes representam formas distintas de organização, não estágios obrigatórios de uma evolução que conduziria a uma estrutura superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Língua falada e língua escrita ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Josef Vachek desenvolveu uma teoria funcional da língua escrita. A tradição linguística frequentemente tratara a escrita como representação imperfeita da fala. Vachek reconhecia a prioridade histórica e biológica da linguagem oral, mas defendia que, em comunidades letradas, fala e escrita constituíam sistemas normativos diferenciados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A norma falada utiliza entoação, ritmo, pausas, intensidade, gestos e interação imediata. A norma escrita explora segmentação gráfica, ortografia, pontuação, disposição espacial e possibilidade de revisão. As duas modalidades podem expressar conteúdos semelhantes, mas não são funcionalmente idênticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa concepção antecipou estudos contemporâneos sobre oralidade e letramento. Também permite analisar a ortografia não apenas como reprodução de sons, mas como sistema que pode representar relações morfológicas, diferenças lexicais e convenções históricas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Interdisciplinaridade ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma característica essencial do Círculo foi a circulação de conceitos entre linguística, literatura, folclore, teatro e estética. O método estrutural-funcional não era considerado exclusivo do sistema fonológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Bogatyrev estudou trajes e manifestações folclóricas como sistemas de signos. Mukařovský analisou pintura, arquitetura, cinema e teatro. Veltruský investigou o signo teatral e a função dos objetos em cena. Jakobson examinou poesia, comunicação, afasia e aquisição da linguagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A interdisciplinaridade praguense contribuiu para o desenvolvimento da semiótica. Um fenômeno cultural podia ser analisado como estrutura composta por elementos cujos valores dependiam de relações internas e de funções sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Publicações ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o Círculo iniciou a série &#039;&#039;Travaux du Cercle Linguistique de Prague&#039;&#039;. Os volumes reuniram trabalhos de membros e colaboradores internacionais e tiveram grande circulação na linguística europeia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro volume continha as &#039;&#039;Teses de 1929&#039;&#039;. Volumes posteriores publicaram estudos de fonologia, morfologia, línguas eslavas, poética e teoria literária. Os &#039;&#039;Travaux&#039;&#039; ajudaram a consolidar uma terminologia internacional e a apresentar o programa do grupo em congressos científicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1935, foi criada a revista tcheca &#039;&#039;Slovo a slovesnost&#039;&#039; — aproximadamente, “Palavra e arte verbal” —, dedicada à teoria linguística, à língua literária e aos estudos de literatura. A revista tornou-se um dos principais veículos da tradição praguense e continuou a ser publicada sob diferentes condições políticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A série &#039;&#039;Travaux linguistiques de Prague&#039;&#039;, iniciada na década de 1960, procurou retomar o projeto internacional dos antigos &#039;&#039;Travaux&#039;&#039;. Novas séries e publicações foram criadas após a reorganização do Círculo no fim do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Guerra, dispersão e interrupção das atividades ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ocupação alemã da Tchecoslováquia, iniciada em 1939, atingiu profundamente a vida acadêmica. As universidades tchecas foram fechadas pelos nazistas em novembro daquele ano, e a cooperação científica internacional tornou-se extremamente difícil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Trubetzkoy morrera em 1938. Jakobson deixou Praga e passou pela Dinamarca, Noruega e Suécia antes de emigrar para os Estados Unidos. Mathesius morreu em 1945. Outros membros enfrentaram perseguição, deslocamento, censura ou restrições institucionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Círculo retomou parte de suas atividades após a Segunda Guerra Mundial, mas a reorganização política da Tchecoslováquia depois de 1948 alterou o ambiente científico. A imposição de orientações ideológicas inspiradas no stalinismo e a reestruturação das instituições acadêmicas limitaram a continuidade da associação. O Círculo deixou de funcionar como organização autônoma no início da década de 1950.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A interrupção institucional não significou desaparecimento da tradição. Pesquisadores como Bohumil Trnka, Josef Vachek, Miloš Dokulil, František Daneš, Jan Firbas, Karel Hausenblas, Miroslav Komárek e outros continuaram a desenvolver abordagens funcionais e estruturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Desenvolvimentos posteriores ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A chamada segunda geração da Escola de Praga ampliou a investigação para morfologia, formação de palavras, sintaxe, semântica, estilística e linguística textual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Daneš desenvolveu a teoria da progressão temática e trabalhou com sintaxe, semântica, texto e cultura linguística. Firbas aprofundou a perspectiva funcional da frase por meio do conceito de dinamismo comunicativo. Dokulil formulou uma teoria onomasiológica da formação de palavras. Hausenblas contribuiu para a estilística funcional e a teoria do texto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Petr Sgall e colaboradores desenvolveram a &#039;&#039;&#039;descrição funcional gerativa&#039;&#039;&#039;, modelo formal de gramática que combinou elementos da tradição praguense com problemas levantados pela linguística gerativa. O modelo distinguiu diferentes níveis de representação e dedicou atenção à estrutura tópico–foco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a década de 1960, houve maior abertura para a recuperação do legado clássico. A invasão da Tchecoslováquia pelas forças do Pacto de Varsóvia, em 1968, e o período posterior de “normalização” novamente restringiram atividades científicas e contatos internacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Círculo Linguístico de Praga foi formalmente reativado em 1990, após a queda do regime comunista. Josef Vachek tornou-se presidente honorário, e Miloš Dokulil assumiu a presidência da associação reorganizada. Desde então, o Círculo retomou conferências, publicações e intercâmbios internacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Difusão internacional ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência da Escola de Praga espalhou-se por diferentes vias. André Martinet desenvolveu uma linguística funcional própria, marcada pelo conceito de dupla articulação, pela economia das mudanças e pelo estudo das pressões que atuam sobre os sistemas. Embora não possa ser reduzida à doutrina do Círculo, sua obra manteve diálogo estreito com a fonologia praguense.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Jakobson levou conceitos praguenses aos Estados Unidos. Sua colaboração com Morris Halle influenciou a fonologia gerativa, especialmente por meio da teoria dos traços distintivos. Seu contato com Claude Lévi-Strauss contribuiu para a expansão do estruturalismo na antropologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria da marcação foi incorporada, reformulada e criticada na gramática gerativa, na tipologia, na aquisição da linguagem e na semiótica. A perspectiva funcional da frase influenciou estudos de estrutura informacional, análise do discurso e linguística textual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dell Hymes recorreu explicitamente ao funcionalismo praguense na formulação da etnografia da comunicação. Michael Halliday e outros funcionalistas desenvolveram modelos próprios, mas compartilharam com Praga o interesse pelas relações entre sistema linguístico, função e contexto social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os trabalhos de Mukařovský, Bogatyrev e Jakobson exerceram influência sobre a teoria literária, a semiótica, a narratologia e os estudos do teatro. A recepção ocorreu de maneira desigual, frequentemente mediada por traduções e antologias publicadas décadas depois dos textos originais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Fortuna crítica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A avaliação histórica da Escola de Praga passou por diferentes fases. Durante as décadas de 1930 e 1940, a fonologia foi a área de maior reconhecimento internacional. A distinção entre fonética e fonologia e a análise das oposições transformaram a investigação dos sistemas sonoros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No ambiente norte-americano do pós-guerra, “estruturalismo” tornou-se frequentemente associado ao distribucionalismo de Leonard Bloomfield e de seus seguidores. Essa identificação obscureceu diferenças importantes. Ao contrário de parte do descritivismo norte-americano, os praguenses não excluíam sistematicamente a semântica e atribuíam papel central à função comunicativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A ascensão da gramática gerativa, a partir do fim da década de 1950, produziu avaliação ambivalente. A fonologia gerativa incorporou traços distintivos, mas rejeitou ou reformulou vários aspectos da análise fonêmica estrutural. Em sintaxe, a repercussão da Escola de Praga foi inicialmente menor no mundo anglófono, em parte porque muitos estudos permaneciam pouco acessíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir das décadas de 1960 e 1970, traduções organizadas por Josef Vachek, Paul Garvin, Ladislav Matejka e outros pesquisadores ampliaram o conhecimento da produção praguense. O crescimento da semiótica, da linguística funcional, da análise do discurso e da linguística textual favoreceu nova apreciação de seus trabalhos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A historiografia posterior questionou a imagem de uma escola perfeitamente unificada. Estudos de correspondência, arquivos e contextos intelectuais mostraram divergências entre Jakobson, Trubetzkoy, Mathesius, Mukařovský e outros membros. A força do Círculo teria residido menos em uma doutrina fechada do que na criação de um espaço de debate e na combinação de tradições distintas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Também se revisou a narrativa segundo a qual a Escola de Praga seria apenas aplicação direta de Saussure. Além do saussurianismo, sua formação envolveu a linguística eslava, o formalismo russo, a fenomenologia, a psicologia funcional, a filosofia da linguagem centro-europeia e debates sobre identidade nacional e padronização linguística.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns críticos apontam tendências teleológicas em determinadas formulações. A afirmação de que uma mudança ocorre para atender às necessidades do sistema pode sugerir que a língua possua intenções próprias. Leituras contemporâneas tendem a interpretar a orientação para fins como princípio explicativo relacionado às pressões comunicativas, evitando atribuir consciência ao sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A noção de função também foi criticada por sua polissemia. Função distintiva, função comunicativa, função social e função estética não são conceitos idênticos. A tradição praguense nem sempre estabeleceu fronteiras terminológicas rígidas entre esses usos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na teoria da língua padrão, a ênfase na estabilidade e na cultura linguística foi considerada inovadora por combater o purismo histórico. Entretanto, abordagens sociolinguísticas posteriores observaram que a seleção de uma norma envolve instituições, ideologias e relações de poder. Uma análise funcional precisa, portanto, ser complementada pelo estudo das condições sociais de legitimação das variedades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A teoria da marcação permanece influente, mas sua aplicação generalizada encontrou dificuldades. Critérios fonológicos, morfológicos, semânticos, estatísticos e cognitivos podem produzir classificações diferentes. A pesquisa atual costuma tratar marcação como conjunto de fenômenos relacionados, e não como princípio único aplicável de maneira automática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na teoria literária, a atualização e a função estética foram fundamentais para superar explicações puramente biográficas ou impressionistas. Críticos posteriores, contudo, advertiram que a atenção à estrutura interna não deve reduzir a obra a mecanismo autônomo nem ignorar conflitos históricos, sociais e políticos. O próprio Mukařovský, especialmente em sua produção madura, reconheceu a historicidade das normas e dos valores estéticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar dessas críticas, muitos problemas formulados pelo Círculo permanecem ativos: a relação entre forma e função, a interação entre estabilidade e variação, a organização informacional, a estrutura interna das categorias, a heterogeneidade dos sistemas e a relação entre linguagem e outras formas de significação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Importância histórica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A importância do Círculo Linguístico de Praga não se reduz à criação de técnicas fonológicas. O grupo estabeleceu um programa que articulava estrutura, função, uso e história.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua contribuição pode ser observada:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* na consolidação da fonologia como disciplina;&lt;br /&gt;
* na teoria das oposições e dos traços distintivos;&lt;br /&gt;
* na formulação da marcação e da neutralização;&lt;br /&gt;
* na análise funcional da ordem das palavras e da estrutura informacional;&lt;br /&gt;
* na tipologia estrutural;&lt;br /&gt;
* no estudo funcional da língua padrão;&lt;br /&gt;
* na distinção entre norma e codificação;&lt;br /&gt;
* na análise da língua escrita;&lt;br /&gt;
* na teoria da linguagem poética;&lt;br /&gt;
* na estética estrutural e na semiótica;&lt;br /&gt;
* na aproximação entre sincronia e diacronia;&lt;br /&gt;
* na concepção do sistema linguístico como estrutura dinâmica e heterogênea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado praguense encontra-se hoje distribuído por diferentes áreas e tradições. Alguns conceitos foram preservados com os nomes originais; outros foram reformulados em novos modelos. Sua permanência reside sobretudo na ideia de que os fenômenos linguísticos devem ser compreendidos pelas relações que mantêm no sistema, pelas funções que desempenham e pelas condições históricas e comunicativas em que são utilizados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Ver também ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* [[Estruturalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Funcionalismo]]&lt;br /&gt;
* [[Fonologia]]&lt;br /&gt;
* [[Formalismo russo]]&lt;br /&gt;
* [[Funções da linguagem]]&lt;br /&gt;
* [[Linguística funcional]]&lt;br /&gt;
* [[Marcação]]&lt;br /&gt;
* [[Perspectiva funcional da frase]]&lt;br /&gt;
* [[Poética]]&lt;br /&gt;
* [[Roman Jakobson]]&lt;br /&gt;
* [[Nikolai Trubetzkoy]]&lt;br /&gt;
* [[Vilém Mathesius]]&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&amp;lt;references /&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Bibliografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
{{DEFAULTSORT:Circulo Linguistico de Praga}}&lt;br /&gt;
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